terça-feira, 23 de setembro de 2014
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
Cultura “pop” é popular?!
Estão sem defesa os leitores, consumidores de literatura, entregues como ficaram às lógicas lucrativistas do mercado. Todavia, isso deixa-nos em condições de avaliar o nefasto efeito das mudanças recentes por que passou o panorama da edição literária em Portugal. Tamanha e tão rápida foi a alteração que quase se poderia falar de um “antes” a contrastar com o “depois”.
Recordarei aqui apenas os acontecimentos vividos para deles extrair a devida conclusão. O ponto de viragem pode ser colocado na ofensiva do grande capital que se apoderou de quantidade substancial das editoras de livros, quando a propriedade dos jornais principais já havia caído também em poucas mãos. Mas o ponto é convencional, pois a viragem se iniciara antes, no tempo, hoje incrível, em que os jornais portugueses, matutinos e vespertinos, tinham muitos mais leitores e publicavam suplementos literários semanais com artigos, críticas, entrevistas, notícias – lembram-se?
Então, o livro, que vemos convertido agora em vulgar objecto de comércio, mantinha toda a sua dignidade cultural e nas livrarias havia espaço para mostrar as “novidades”, tão raras (e boas) que causavam prolongada sensação. Os autores amadureciam o que escreviam, os críticos apreciavam-nas orientando os leitores para as obras, que eram discutidas e exerciam realmente uma influência que hoje – tempo de banalização e banalidades – se nos afigura quase mítica. É certo, então os leitores eram poucos, mas, pelo menos, eram melhores.
Desapareceram os suplementos e as páginas literárias, os críticos eclipsaram-se, os jornais (sem censura prévia) baixaram tanto as vendas que correram a refugiar-se nos braços da publicidade a rodos e, deixando-se de idealismo, ficaram vassalos fiéis da verdade única oficial. O mercado do livro foi invadido (colonizado?) por traduções de obras dos autores de best-sellers em voga e obras de autores de best-sellers nacionais também eram traduzidos “lá fora”, de modo que, no panorama da edição literária do país em vertiginoso crescimento, se estratificou uma cultura de massas pretensamente popular.
A literatura de consumo engoliu a autêntica literatura, que cultiva a arte literária, perante os leitores indefesos, por outro lado sujeitos à pressão do conjunto dos media. A degradação do gosto dos leitores e da imagem pública do Escritor passou a reflectir-se na tipologia das obras que aparecem nos circuitos da leitura e na facilidade impressionante com que qualquer bicho-careta se decide, numa loja de print on demand, a publicar, isto é, a obrar, e a considerar-se “escritor”. Consumou-se uma brutal subversão e há por aí quem diz, apontando as consequências, que não foi nada inocente: serviu interesses não só mercantis... [Foto de Laurent Schwebel]
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Quem quer publicar livro?
O meu círculo de conhecimentos directos quase me deixa sem dúvidas. A vontade de ser “escritor” a qualquer custo expande-se com a violência de uma virose pandémica. Multiplicam-se os novos autores que por aqui aparecem de livrinho publicado com impressão por encomenda paga do seu bolso.
Portanto, vai florescente o negócio das lojas gráficas que praticam o print on demand pois não esmorece o entusiasmo indómito de quantos sonham pertencer de algum modo, seja pobre ou paupérrimo, à confraria das letras. Sem diminuição vai também a estatística anual (e o espanto) dos livros em edições novas saídos em Portugal no auge deste período de grave crise. Porém, o mercado dos livros-mercadoria, isto é, a venda, ao que consta, não anda a prosperar…
Portanto, vai florescente o negócio das lojas gráficas que praticam o print on demand pois não esmorece o entusiasmo indómito de quantos sonham pertencer de algum modo, seja pobre ou paupérrimo, à confraria das letras. Sem diminuição vai também a estatística anual (e o espanto) dos livros em edições novas saídos em Portugal no auge deste período de grave crise. Porém, o mercado dos livros-mercadoria, isto é, a venda, ao que consta, não anda a prosperar…
Quer dizer, a edição de livros digitais entre nós é novidade ainda em expansão… com recurso “normal” à edição física, a impressão em papel. Logo, a solução tecnológica nova, electrónica, continua a servir a velha, gutenberguiana. Será porque os espaços domésticos ainda gostam de ostentar filas de volumes, fartas lombadas, leituras feitas ou por fazer, emblemas de status cultural?
Porém, a freima que põe tanta gente a escrever e a publicar-se não terá que se responsabilizar pela carência de leitores de que se queixam os escritores mediáticos das grandes tiragens? A circunstância convida a especular pressupondo que há quantidades de leitores em deslocação por se decidirem agora a escrever os seus próprios livros. Decerto consideram isso preferível a continuarem a comprá-los.
A despesa será maior mas justifica-se como investimento de cada novo autor na sua ilustre pessoa e uma aquisição de especial relevo social – torna-se “figura pública”. Organiza sessões de apresentação da obrinha, concede autógrafos aos seus compradores e fica de ego cheio quando o jornal da paróquia o apresenta como “escritor da terra”. Vê-se perto da (ou já investido) na figura de escritor de nome feito e abençoado pelo mercado.
Certamente, o novo “escritor” leu à pressa uns quantos autores de best-sellers em voga e com eles julga ter aprendido qualquer coisa. Desconhece o que seja a Literatura e, portanto, não reconhece o que seja a mediocridade. Escreve como se habituou a ler, isto é, à pressa, e tudo nele o deixa pronto para acreditar que o sucesso se atinge pela propaganda posta ao serviço do autor, não da sua arte literária.
O observador dos factos socioculturais notará nestas evoluções reflexos de uma banalização da figura do Escritor (outrora prestigiosa como, por exemplo, a do Professor). Serão reflexos de uma banalização mais vasta. Abrange os sistemas escolares, o abaixamento geral dos níveis culturais e o entorpecimento das energias criadoras das novas gerações perante a perda dos valores de referência.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Perante um quadro exposto
A obra de arte nasce partindo naturalmente do rumor do mundo, mas, quando nos aparece, convida ao silêncio. É isto, pelo menos, o que amiúde se repete de um modo bastante consensual, ao ponto de quase nos distrair do outro lado da questão: convidando embora ao silêncio, a obra de arte aspira ao verbo. No recolhimento de que por dentro se envolve mesmo quando por fora grita, pulsa na obra o desejo latente de se esventrar em palavras. As formas e as cores realizam-se mais plenamente através do discurso.
Assim se articulam as relações da pintura com a literatura, dos pintores com os escritores. Não falo de críticos ou de historiadores da arte enquanto tais; falo, sim, da sucessão de homens de letras que ao longo dos anos escreveram sobre a obra dos artistas, seja porque com eles conviveram, quantas vezes na intimidade dos espaços domésticos ou dos próprios ateliers, seja por qualquer outra situação. De resto, alguns pintores largam mesmo os pincéis para usarem da palavra, convencidos por momentos de que esta é a sua expressão mais eloquente e satisfatória.
O signo pictórico e a palavra literária acompanham-se e complementam-se reciprocamente de tal maneira que já ninguém perde tempo a indagar o motivo por que no fundo os poetas e os ficcionistas, por exemplo, parecem estar tão próximos dos artistas e em tão boas condições de lhes entenderem as obras; o motivo, em suma, por que os textos dos catálogos de exposição e livros tendem na actualidade a constituir-se mais como comentários decorrentes de leituras feitas na matriz de cada gosto do que como abordagens críticas, isto é, valorativas, das obras em foco. Em resultado, estas tornam-se cada vez menos frequentes. A questão toda é: serão as abordagens críticas dispensáveis?
Os artistas quase nada as dispensam, pintem ou não quadros naturalistas, neo-figurativos ou os ditos abstractos. Sabemo-lo bem: desde a revolução de Marcel Duchamp, a arte do nosso tempo é uma arte intervalar, suspensa de uma espera. Exprime-se hic et nunc sem augurar um amanhã, algures. Vimos acabar as escolas, as correntes, os epigonismos, as revoluções estéticas, como se já tivesse sido descoberto tudo o que havia a descobrir; restam agora os artistas individualizados, com a multiplicidade das suas linguagens e das suas expressões pessoais. Nunca se pintou tão intensamente, tão variadamente a angústia do impasse que é a marca distintiva deste tempo.
A crise não atinge só a pintura; percorre transversalmente os sistemas da economia, da política, da ética e da estética, tocando inclusive na literatura. Os velhos cânones estão velhos em demasia, os novos ainda não advieram. [Cópia, parcial, de escrito em catálogo de exposição.]
Assim se articulam as relações da pintura com a literatura, dos pintores com os escritores. Não falo de críticos ou de historiadores da arte enquanto tais; falo, sim, da sucessão de homens de letras que ao longo dos anos escreveram sobre a obra dos artistas, seja porque com eles conviveram, quantas vezes na intimidade dos espaços domésticos ou dos próprios ateliers, seja por qualquer outra situação. De resto, alguns pintores largam mesmo os pincéis para usarem da palavra, convencidos por momentos de que esta é a sua expressão mais eloquente e satisfatória.
O signo pictórico e a palavra literária acompanham-se e complementam-se reciprocamente de tal maneira que já ninguém perde tempo a indagar o motivo por que no fundo os poetas e os ficcionistas, por exemplo, parecem estar tão próximos dos artistas e em tão boas condições de lhes entenderem as obras; o motivo, em suma, por que os textos dos catálogos de exposição e livros tendem na actualidade a constituir-se mais como comentários decorrentes de leituras feitas na matriz de cada gosto do que como abordagens críticas, isto é, valorativas, das obras em foco. Em resultado, estas tornam-se cada vez menos frequentes. A questão toda é: serão as abordagens críticas dispensáveis?
Os artistas quase nada as dispensam, pintem ou não quadros naturalistas, neo-figurativos ou os ditos abstractos. Sabemo-lo bem: desde a revolução de Marcel Duchamp, a arte do nosso tempo é uma arte intervalar, suspensa de uma espera. Exprime-se hic et nunc sem augurar um amanhã, algures. Vimos acabar as escolas, as correntes, os epigonismos, as revoluções estéticas, como se já tivesse sido descoberto tudo o que havia a descobrir; restam agora os artistas individualizados, com a multiplicidade das suas linguagens e das suas expressões pessoais. Nunca se pintou tão intensamente, tão variadamente a angústia do impasse que é a marca distintiva deste tempo.
A crise não atinge só a pintura; percorre transversalmente os sistemas da economia, da política, da ética e da estética, tocando inclusive na literatura. Os velhos cânones estão velhos em demasia, os novos ainda não advieram. [Cópia, parcial, de escrito em catálogo de exposição.]
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Agosto, mês de ripanço
terça-feira, 22 de julho de 2014
O velho e o cão
Um velho caminha lentamente pela rua. Alto e magro, apoia a mão direita na bengala, atento aos desníveis do passeio tortuoso, e coxeia um pouco. Aparecem covas, buracos, declives, pedaços de cimento roto, pedras de lancil gastas, e o homem avança, cauteloso, tentando evitar quedas.
Adiante uns metros, um cão fraldiqueiro, pequenito, sentado mas erguido nas patas dianteiras, espera enquanto a dona, trela na mão, conversa com pessoa assomada à porta. De repente, o cão fica atento ao avanço do velho. No seu olhar, além de atenção, há também uma carinhosa simpatia.
Vê o homem aproximar-se passo a passo, pois carrega idade muita e fôlego pouco para governar as pernas bambas sobre as quais, mal seguro, dança. O cão parado, de olhos fitos, parece esperar a chegada da pessoa conhecida e amiga. Mas o velho, já próximo, não o nota, cuidando apenas de seguir rente aos prédios para evitar choques com transeuntes apressados ou distraídos, em grupo imóvel, de cigarros nos dedos a fumegar, e ele se desequilibrar, cair.
Quando a perna esquerda do velho chega ao alcance do nariz do animal, ele está pronto. No instante em que a perna se imobiliza para logo seguir em alternância, cola o nariz à calça e aspira com força (será beijo canino?). Depois volta a cabeça, de olhar já entristecido, e vê o velho afastar-se.
Talvez um dia o homem lhe tenha oferecido algum bocado de comida, uma carícia, mas esqueceu o gesto. O cão, porém, não o esqueceria. Ou terá pressentido no velho a tristeza de uma solidão maior que a sua, que tem a sorte de ser fraldiqueiro embora ature a dona que pára aqui e ali a conversar em vez de continuar o passeio.
Faz supor que o cão pressente no homem tamanha tristeza, tanto desgarramento que gostaria de o beneficiar com amizade. Duas solidões compartilhadas teriam menos solidão. Mas o cão não sabe que o velho se desprendeu de tudo, até de uma amizade canina, e que o cantinho onde vive está repleto de ausências, saudades, lutos, memórias, sofrimentos e sem espaço para nada mais.
Diferente é a sorte do sem-abrigo ancorado em frente do mercado municipal. Consegue viver bem com seis ou mais cães que o rodeiam habitualmente, todos em família sobre uns farrapos. Recebe a comida que as senhoras piedosas lhe dão para os animais e com eles come.
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