quinta-feira, 9 de outubro de 2014

De quadro em quadro...

Estas pinturas são sinceras num sentido específico. Tentam, quadro a quadro, plasmar vivências autênticas sentidas no plano existencial da artista fazendo-o com a violência do grito que no peito amarrado permanecia. Cada tela surge-nos como um registo de emoções fortes ou de estados de alma que se organizam plasticamente em torno da interrogação a que a pintura final responde.

Daí advém a “marca de água” notada nestas pinturas, caracterizadas por um intimismo quase lírico, que se traduz afinal numa poética muito personalizada. Notou-o bem o crítico Fernando Pernes nas breves palavras que escreveu, já doente, em catálogo (Árvore, 2007), ao perceber que esta pintura anuncia sem dizer. Temo-las, porém, tangíveis pelo olhar. E eis porque estas obras convidam a uma contemplação silenciosa, propiciadora de idêntico intimismo aberto realmente para uma comunicação poética.

Significativamente, a pintora prefere telas de medianas ou mais avantajadas dimensões, muitas vezes de formato quadrado ou quase quadrangular e telas outras tantas vezes justapostas (dípticos, trípticos…), de modo a poder expandir o impulso vital irreprimível. São pinturas de formas elementares - isto é, essenciais -, depuradas de todo o elemento acessório. De facto, a artista cultiva uma pintura despojada de toda a encenação, no rigor que recusa qualquer cedência ao efeito fácil, apostando sempre numa autenticidade que chega a sugerir alguma aproximação tendencial ao minimalismo. Pintura, portanto, que joga com elementos mínimos: linhas, manchas texturadas, símbolos (círculos, anéis duplos, espiral), e raras figuras humanas, distantes, a vir ou a ir.
Pode certamente dizer-se que esta pintura se envolve de mistério tentando narrar estórias do real vivido. Mas o que exprime, quadro após quadro, para além de qualquer dramatismo, é uma procura de equilíbrio tranquilizador, um anseio fundo de harmonia. A procura tem acentos ora melancólicos ora irónicos, e, todavia, o efeito é sempre o de uma serenidade atingida, realçada inclusive pelo formato e o tamanho das telas.

A pintora diz, querendo explicar-se, que na composição destas telas procura uma lógica tranquilizadora que se inspira talvez no conhecimento científico, o da própria pintora. Sente-se aqui a predominância da mentalidade tecnocrática, o distanciamento da pintura do que acontece na rua e é social. Todavia, a pintora quer conseguir exprimir-se de uma vez por todas, completamente. Mas assim se obriga a prosseguir, como quem resvala, de quadro em quadro... [Cópia parcial de escrito em catálogo de exposição.]

domingo, 5 de outubro de 2014

«Saltando do molde do conformismo» (Break Through your Mold, título original), conjunto escultórico de Zenos Frudakis, Filadélfia, Pensilvânia, E.U.A.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Bizarria: ser poeta e escritor

A bizarria está no primeiro termo aposto ao segundo. Então um poeta não será também, para todos os efeitos, escritor? Por quê a redundância?
Um poeta escreve compondo poemas, o escritor escreve compondo prosas. Ambos utilizam a língua para trabalhar na literatura sendo igualmente escritores e, nesta qualidade, igualmente poetas. De facto, ainda que as áreas da poesia e da prosa sejam diversas e, até certo ponto, caracterizadas, no limite acabam por se confundir.
A criação literária, para o ser, tem de se imbuir de um halo poético envolvente. De contrário, como se compreenderia a inclinação de tantos novos autores que começam as suas pessoais trajectórias literárias com poemas? Muitos deles, porém, não demoram a desistir dos poemas e a concentrar-se nos enleios da prosa, percebendo que a poesia estreme é realmente o quid mais difícil da arte literária.
É a poesia, em suma, a essência desta arte (e talvez mesmo de todas as artes). Cada página que um escritor considera terminada contém esse quid esquivo que transfigura as linhas do texto num passe de mágica beleza. Sem transfiguração poética, as palavras do poema ou da prosa permanecem adormecidas ou mortas.
Evidentemente, o leitor que o escritor é e continua a ser, incluso do que vai escrevendo, julgará cada página de sua autoria com a maior benevolência ou o maior rigor, de acordo com o seu pessoal sentido crítico. É neste ponto preciso que se define a qualidade e o mérito do que escreveu ou possa escrever. Revela aí a formação do seu gosto literário como leitor e logo, também, em simbiose, como autor.
Dir-se-ia que o número de novos autores se vai multiplicando devido às pressas. Pressa de ler qualquer coisa sem grande escolha, de sentir o gosto formado e de “estar maduro” para escrever e publicar. Talvez sejam as pressas todas do nosso tempo que banalizam a figura do Escritor.
Mas tantas pressas beneficiam a Literatura? Redondamente, não. A arte literária pede concentração e repouso em dádiva tão plena que é a página composta com todo o tempo do mundo e o esmero sofrido do artesão que fica a brilhar (evocando peripécias como a noite de vigília de certo escritor hesitante numa simples vírgula).
A situação actual parece tornar-se asfixiante. Muitos dos novos autores, que querem ser escritores, dispensam os tormentos e demoras da arte literária. Podem folgar, pois fica longe a nevada montanha, perto de Delfos, que, segundo a mitologia, era a eminente morada de Apolo e das Musas, montanha tão venerada que os gregos arrojavam os sacrílegos dos Rochedos de Fedríades (comentário: não apeteceria hoje livrar as artes literárias de tantos maus cultores de um modo menos brutal mas igualmente eficaz?)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Menos editoras, livrarias, livros

Em oito anos, de 2004 a 2012, o país perdeu 132 livrarias. Não faltaram, é certo, as feiras de livros e as promoções de saldos, mas, apesar disso, o sinal continua a valer quanto vale. Aliás, mais expressivo se torna ainda porquanto o número das editoras também diminuiu, dado que foi maior o número das que desapareceram do que as que foram criadas.
É o que se conclui de um relatório realizado a pedido da APEL, Associação de Editores e Livreiros, pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE coordenado por José Soares da Costa e citado pelo jornal “Público” (16-09-14, p. 30). O estudo, “Comércio livreiro em Portugal”, indica que as 694 livrarias existentes em 2004 venderam 140,1 milhões e que, em 2012, as 562 restantes venderam 126,2 milhões – menos 14 milhões. Porém, o ano de 2008 assinalou um pico de vendas excepcional de 404 milhões, após o que entrou em declínio.
Realmente, 2008 permanece como um marco incontornável. O mundo (somente o Ocidental?) virou-se como simples guarda-chuva batido pela tempestade: bancos principais faliram, os governos acudiram-lhes, os Estados endividaram-se, os défices orçamentais exigiram brutais agravamentos dos impostos… e declarou-se a crise geral que estamos a viver. Isto é, a viver sob o famigerado paradigma do neoliberalismo, que promove o empobrecimento dos povos em nome da austeridade e a maior desigualdade social.
O desemprego cresceu, os salários baixaram, o consumo retraiu-se. O Estado social (e, se não for “social”, o que poderá ser o Estado?) encolheu até expor vastos segmentos da classe média arruinada aos mínimos da pobreza real. A fome, alastrando no terreno, pôs bancos alimentares e cantinas escolares em actividade máxima, e, enquanto se expandia uma linguagem desbragada, a dependência do álcool e das drogas, o número de suicídios, o bullying nas escolas e a violência doméstica, irrompia a nova geração (amiga de lobbyis, ansiosa do primeiro milhão conforme o “sonho americano” agora a realizar em Portugal) com direito a tudo sem ter feito nada e já declara os idosos descartáveis…
Naturalmente, nesta calamitosa situação, não surpreende uma diminuição da venda de livros pelas livrarias. Surpreendente será, sem dúvida, o caso dos concertos musicais de vedetas em voga, a bom preço, que se enchem ou os programas turísticos de férias no estrangeiro que se esgotam num ápice. E consta que quatro ou cinco milhões de portugueses já possuem smarphones!
O estudo põe em relevo a “crise aguda gravíssima que afectou o tecido cultural português”. De facto, esta crise entrecruza diversos factores de risco, que envolvem a circulação do livro e toda a sua vivência cultural nomeadamente com índices de segurança, bem-estar, civismo e saúde pública (incluída a mental). É uma crise feita de múltiplas crises.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Abre hoje na sede da ONU, em Nova Iorque, a reunião de 120 líderes mundiais (Barack Obama e outros;  sem Angela Merkel e Xi Jinping) para debater o grave problema planetário das alterações climáticas. Objectivo: reforçar as bases possíveis para a assinatura do protocolo internacional a assinar em Paris no fim de 2015 sobre as emissões de carbono para a atmosfera.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Cultura “pop” é popular?!


Estão sem defesa os leitores, consumidores de literatura, entregues como ficaram às lógicas lucrativistas do mercado. Todavia, isso deixa-nos em condições de avaliar o nefasto efeito das mudanças recentes por que passou o panorama da edição literária em Portugal. Tamanha e tão rápida foi a alteração que quase se poderia falar de um “antes” a contrastar com o “depois”.
Recordarei aqui apenas os acontecimentos vividos para deles extrair a devida conclusão. O ponto de viragem pode ser colocado na ofensiva do grande capital que se apoderou de quantidade substancial das editoras de livros, quando a propriedade dos jornais principais já havia caído também em poucas mãos. Mas o ponto é convencional, pois a viragem se iniciara antes, no tempo, hoje incrível, em que os jornais portugueses, matutinos e vespertinos, tinham muitos mais leitores e publicavam suplementos literários semanais com artigos, críticas, entrevistas, notícias – lembram-se?
Então, o livro, que vemos convertido agora em vulgar objecto de comércio, mantinha toda a sua dignidade cultural e nas livrarias havia espaço para mostrar as “novidades”, tão raras (e boas) que causavam prolongada sensação. Os autores amadureciam o que escreviam, os críticos apreciavam-nas orientando os leitores para as obras, que eram discutidas e exerciam realmente uma influência que hoje – tempo de banalização e banalidades – se nos afigura quase mítica. É certo, então os leitores eram poucos, mas, pelo menos, eram melhores.
Desapareceram os suplementos e as páginas literárias, os críticos eclipsaram-se, os jornais (sem censura prévia) baixaram tanto as vendas que correram a refugiar-se nos braços da publicidade a rodos e, deixando-se de idealismo, ficaram vassalos fiéis da verdade única oficial. O mercado do livro foi invadido (colonizado?) por traduções de obras dos autores de best-sellers em voga e obras de autores de best-sellers nacionais também eram traduzidos “lá fora”, de modo que, no panorama da edição literária do país em vertiginoso crescimento, se estratificou uma cultura de massas pretensamente popular.
A literatura de consumo engoliu a autêntica literatura, que cultiva a arte literária, perante os leitores indefesos, por outro lado sujeitos à pressão do conjunto dos media. A degradação do gosto dos leitores e da imagem pública do Escritor passou a reflectir-se na tipologia das obras que aparecem nos circuitos da leitura e na facilidade impressionante com que qualquer bicho-careta se decide, numa loja de print on demand, a publicar, isto é, a obrar, e a considerar-se “escritor”. Consumou-se uma brutal subversão e há por aí quem diz, apontando as consequências, que não foi nada inocente: serviu interesses não só mercantis... [Foto de Laurent Schwebel]

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Quem quer publicar livro?

O meu círculo de conhecimentos directos quase me deixa sem dúvidas. A vontade de ser “escritor” a qualquer custo expande-se com a violência de uma virose pandémica. Multiplicam-se os novos autores que por aqui aparecem de livrinho publicado com impressão por encomenda paga do seu bolso.
Portanto, vai florescente o negócio das lojas gráficas que praticam o print on demand pois não esmorece o entusiasmo indómito de quantos sonham pertencer de algum modo, seja pobre ou paupérrimo, à confraria das letras. Sem diminuição vai também a estatística anual (e o espanto) dos livros em edições novas saídos em Portugal no auge deste período de grave crise. Porém, o mercado dos livros-mercadoria, isto é, a venda, ao que consta, não anda a prosperar…
Quer dizer, a edição de livros digitais entre nós é novidade ainda em expansão… com recurso “normal” à edição física, a impressão em papel. Logo, a solução tecnológica nova, electrónica, continua a servir a velha, gutenberguiana. Será porque os espaços domésticos ainda gostam de ostentar filas de volumes, fartas lombadas, leituras feitas ou por fazer, emblemas de status cultural?
Porém, a freima que põe tanta gente a escrever e a publicar-se não terá que se responsabilizar pela carência de leitores de que se queixam os escritores mediáticos das grandes tiragens? A circunstância convida a especular pressupondo que há quantidades de leitores em deslocação por se decidirem agora a escrever os seus próprios livros. Decerto consideram isso preferível a continuarem a comprá-los.
A despesa será maior mas justifica-se como investimento de cada novo autor na sua ilustre pessoa e uma aquisição de especial relevo social – torna-se “figura pública”. Organiza sessões de apresentação da obrinha, concede autógrafos aos seus compradores e fica de ego cheio quando o jornal da paróquia o apresenta como “escritor da terra”. Vê-se perto da (ou já investido) na figura de escritor de nome feito e abençoado pelo mercado.
Certamente, o novo “escritor” leu à pressa uns quantos autores de best-sellers em voga e com eles julga ter aprendido qualquer coisa. Desconhece o que seja a Literatura e, portanto, não reconhece o que seja a mediocridade. Escreve como se habituou a ler, isto é, à pressa, e tudo nele o deixa pronto para acreditar que o sucesso se atinge pela propaganda posta ao serviço do autor, não da sua arte literária.
O observador dos factos socioculturais notará nestas evoluções reflexos de uma banalização da figura do Escritor (outrora prestigiosa como, por exemplo, a do Professor). Serão reflexos de uma banalização mais vasta. Abrange os sistemas escolares, o abaixamento geral dos níveis culturais e o entorpecimento das energias criadoras das novas gerações perante a perda dos valores de referência.