quarta-feira, 18 de março de 2015

Guerra: monstros à solta


Impressiona o infinito sofrimento que a guerra provoca ao povo da Síria. Impressiona, choca e escandaliza também a passividade de quantos assistem de longe ao medieval cataclismo desencadeado desde o pretenso raiar da “primavera árabe”. Os monstros da morte e da destruição, da violência cega e de brutais carnificinas caíram sobre as orlas do Mediterrâneo e são insaciáveis.
Há quatro anos que a população síria conhece o horror da guerra civil, iniciada com manifes e uns tiros à socapa. Segundo os jornais informam, já provocou 220 mil mortos, dos quais 76 mil foram contados em 2014; uns quatro milhões de habitantes e centenas de milhares de palestinianos refugiados, tendo perdido tudo, tornaram a refugiar-se além-fronteiras. Outros sírios, mais de seis milhões, fugindo dos horrores da guerra deslocaram-se para outras zonas do país; e perto de três milhões de crianças ficaram sem escolas.
A crise humanitária impressiona tanto quanto a onda de violência desatada. Extravasou mesmo para os países vizinhos, onde origina situações terríveis de carência e sofrimento. E a Síria, país com um passado histórico-cultural tão rico e luminoso, aparece agora à noite, em imagens de satélite, quase às escuras.
Perante esta horrorosa hecatombe civilizacional e humanitária, os povos ocidentais que conseguem vê-la de longe aparentam um alheamento, uma indiferença quase total. Com idêntica atitude acompanharam a campanha prévia dos media que nos persuadia de que o presidente Assad, por sinal médico formado na Inglaterra, era realmente um ditador a derrubar. Afinal, o presidente tem povo em quantidade suficiente para resistir no poder há quatro anos. Mas também Hussein e Khadafi não eram ditadores?
Evidentemente, esses tiranos foram derrubados. Quer dizer, abatidos em execuções sumárias, sem julgamento. Assim como Bin Laden, acusado de esmagar aviões contra as torres gémeas.
Terá ficado a Síria, ou virá a ficar, mais livre e democrática, mais pacificada e estável? Acodem à memória os casos do Iraque e da Líbia, que continuam deveras pungentes. Fracções em armas combatem, destroem-se e flagelam-se em nome de dogmas religiosos, pondo em fuga populações espavoridas, ansiosas por saírem do inferno onde nasceu e se multiplica em metástases pela África negra um providencial Estado Islâmico.
Provado fica que é possível dirigir um drone, por controlo remoto, para um objectivo situado do outro lado do mundo, assim como agrupar uns ambiciosos onde quer que interesse pô-los a correr apoiados com propaganda e os meios logísticos necessários. Mas, na balcânica confusão instalada no Médio Oriente, quem consegue, observando com atenção, saber de que lado estão os bons e de que lado estão os maus? Serão todos, todinhos, criminosos de guerra?

quinta-feira, 12 de março de 2015

Nova Economia é “bluff”

Assim se designou a teoria económica propagada e propagandeada na pátria afirmada do capitalismo, os Estados Unidos, quando o século XX se extinguia e Portugal aderia à moeda única europeia. Era tão “nova” e tão neoliberal que, contando uma história de fadas, ousava negar noções fundamentais da ciência económica estabelecida por uma galeria de mestres clássicos, de Adam Smith a John Maynard Kaynes. Mas então, e não por acaso, 99% da riqueza mundial já estava em poder de apenas 1% da população.
Daquela “escola” saiu a bandeira da globalização, que permitia aos potentados financeiros, donos das maiores empresas produtoras de bens, deslocalizarem-se para países, asiáticos e outros, onde o trabalho fosse, de tão baratinho, quase escravo. Os norte-americanos perderam imensos empregos; os governantes, que tal consentiam, deixaram de cobrar imensos impostos e a economia federal, que antes exportava, começou a gastar dinheiro a comprar (a importar) o que antes produzia. Acresce que as deslocalizações conduziram à saída de capitais alegadamente a caminho de investimento… em paraísos fiscais.
A liberdade de comércio, outra das bandeiras de combate da Nova Economia, quis-se ainda mais livre para abraçar o planeta inteiro. As grandes corporações querem ter já o direito (a liberdade, dizem) de entrar no mercado de qualquer país sem restrições. Isto é, sem serem abrangidas pelas leis e regulamentações gerais vigentes no país, podendo, portanto, mandar ali mais do que o próprio Estado (propõem até chamá-lo a tribunal)!
Evidentemente, a catequese da nova escola foi assumida por políticos e partidos que se alternavam no governo, zelosos e pressurosos no entoar beato da litania salvífica. Mas em breve ficou à vista a marca principal que a caracterizava: a austeridade. De facto, o que a Nova Economia trazia de novo era a imposição do empobrecimento generalizado, o esmagamento das classes médias, o desemprego galopante, aumentos brutais dos impostos, a perda dos serviços sociais, a paralisia económica nacional, a recessão.
Tão desastroso paradigma entrou de imediato em descrédito total. A paralisia do crescimento económico conduzia ao endividamento perpétuo dos Estados e à subordinação implacável das soberanias. Os potentados financeiros internacionais e os seus bancos deixavam de investir na produção de bens de consumo (actividade económica normal mas de rendimento fraco e lento) para negociar com os governos contratos, de parcerias e outros, bem mais apetitosos.
A vitória do Syriza e a eleição de Tsipras no Governo grego, neste quadro, correspondem a um despertar urgente, inevitável, dos povos decerto não apenas na Europa. As instituições da União Europeia, sem mais inclusão do contestado FMI, vão ter que demonstrar, na prática, se a Europa tem União ou se esta não passa de cavalo de Tróia do capitalismo internacional especulativo e predador.
 [Imagem: relógio decorado com conchas.]

quinta-feira, 5 de março de 2015

Aureliano Lima: evocação

Evocar Aureliano, artista do ferro, da pedra e do gesso (à espera do bronze) não menos que da palavra, faz-me recuar aos meus anos ’60 portuenses. É evocação grata, justíssima, necessária. Porque Aureliano, escultor e poeta, se sumiu pelos buracos da desmemória nacional que avulta tanto quanto o país se encolhe. Mas Serafim Ferreira e eu convivemos bastante de perto com ele nas tardes sabatinas que passámos à mesa do café, onde, com outros amigos, tínhamos conversas e discussões infindáveis.

Artista inquieto, em procuras constantes, Aureliano Lima (Carregal do Sal, 1916 - Vila Nova de Gaia, 1984) saía de Gaia, onde se radicou em 1958, buscando calor humano na outra margem do rio Douro para atenuar a solidão angustiada ou a solitária angústia em que vivia e criava.
Destes contactos cordiais resultaram visitas aos seus trabalhos e uma ida, em 1983, a Santa Maria da Feira para a inauguração da sua monumental “homenagem a Fernando Pessoa”. E resultou também um texto que publiquei no suplemento Artes e Letras do “Notícias de Guimarães” em 15-01-1967. A Censura ao serviço da ditadura cortou-me nele duas partes importantes que justificavam as posições artísticas do Aureliano, e com esses cortes reapareceu transcrito no Suplemento do “Badaladas” de Torres Vedras em 29-04-1967. Repeguei agora nesses papéis (que saudades do tempo em que, havendo Censura prévia à Imprensa, havia suplementos destes nos jornais!) e consegui reconstituir o escrito original mutilado pela Censura.
Aureliano cursou o seu rio subjacente do Poema e escavou no seu poço a forma da Escultura. Tinha mãos finas, nervosas, leves como asas de pássaro. Até quando prendia nos dedos um cigarro, movia-as como se modelasse no vento um voo que rasgava de luz o espaço. É esse voo perseguido que vemos nas obras de Aureliano e que nelas ficou plasmado. Voo imponderável? Nessas formas de movimento no espaço encontramos o artista a respirar - vivo!
De facto, Aureliano manteve longos anos as duas actividades paralelas. Rio Subjacente, o seu livro de estreia (1963), conquistou, inédito, um prémio. Muitos anos depois, uma exposição de escultura na Academia Domingues Álvares, no Porto, suscitou desencontradas reacções. Em Coimbra, começara a desenhar (camponeses, composições alegóricas, etc.) e a esculpir (bustos de Antero, Camilo, Afonso Duarte, Pascoaes, Torga, Pessoa) segundo concepções naturalistas com toques algo expressionistas. Surgia então, pujante e polémico, o movimento neo-realista. Aureliano continuou a desenhar e a esculpir. Como poeta, foi atraído pela expressão simbolista, paredes-meias com o surrealismo - e a sua poesia, meia dúzia de títulos, decantou-se. Logo, esculpindo, impelido por uma força latente de síntese, de tendência geométrica, desaguou no vasto mar do abstraccionismo, onde ficou como precursor de obra em ferro.
No fim dos anos ’50, era muito vivo o debate sobre as fronteiras possíveis do realismo e do neo-realismo. Por mim, já então percebia nas obras que reflectiam as tensões e as contradições dominantes na sociedade os elementos realistas que uma análise verdadeiramente dialéctica não pode menosprezar. Mas Aureliano seguiu no seu caminho. Culto, aberto ao diálogo, participante e coerente ao menos com as suas próprias contradições, o escultor acreditou que os trabalhos que lhe saíam das mãos vibráteis falavam do (e ao) mundo da sua época. Como ele gostava de repetir, cursou o seu rio subjacente, escavou o seu poço; o que criou, em gesso, pedra ou ferro, contém reminiscências antropomórficas com halos de poesia desagregada e de raízes embebidas na esperança do futuro do homem. [Imagem: busto em bronze pelo escultor mestre Manuel Pereira da Silva.]

segunda-feira, 2 de março de 2015

Casa-piano com violino de vidro construída na cidade de Huainan, China, em 2007; tem cauda e pés; à noite, violino e cordas iluminam escadas; estudantes de música da universidade local frequentam-na. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Novos escritores têm lugar?

A minha leitura actual é um romance. Chegou-me, gentilmente oferecido pela autora. Já publicou uma nutrida fila de volumes mas só a notei ao receber, recentemente, um outro livro de autoria diferente que se debruçava em amável apreciação sobre esse conjunto literário posto em público.
E agora este romance. Comecei a lê-lo até que, umas páginas adiante, parei. Não é o próprio romance que mais me importa; é a própria obra tal como aparece editada e não o seu conteúdo que de momento me interessa avaliar.
Porque é um real caso de estudo, acho eu, sopesando na mão o volume: 220 páginas de bom papel, edição com chancela Gáudio e agradável grafismo. Não indica a tiragem feita mas terá sido reduzida e, quanto ao resto, deixa-se adivinhar: foi paga pela própria autora em loja de print on demand. Trata-se, portanto, de mais uma edição das que dificilmente aparecerão no mercado nacional normal.
O caso merece estudo porque corporiza expressivamente um facto singular que parece de explicação difícil. São cada vez mais numerosos os novos autores literários que se decidem, resignados, a publicar obra por este meio caro mas viável (de modo que se mantém surpreendentemente alta a cifra atingida pelos novos livros editados em cada ano no Portugal da austeridade). Tanta “facilidade” abriu a porta a qualquer pessoa com veleidades de  “escritor”, mas isso caracterizou o período inicial.
A situação mudou. Agora, mesmo autores qualificados optam por loja gráfica porque, aparentemente, não alcançam editora e querem as suas obras impressas em papel nem que seja com escassas tiragens e pobre distribuição. O caso será consequência da redução de autores portugueses praticada pelo conjunto das editoras do país, gulosas de best-sellers, em benefício de autores estrangeiros via traduções.
Todavia, esta situação atinge severamente a renovação da nossa literatura, que vemos “colonizada” na medida em que os novos autores verdadeiramente qualificados não alcançam a merecida visibilidade nacional, reduzidos como estão a edições e a divulgações assaz modestas, ou seja, distanciados do público leitor. O caso em foco torna-se exemplar.
A autora deste livro nasceu em Baleizão, Alentejo; licenciou-se em Filologia Românica em Lisboa, ingressou ali no ensino secundário em 1973, emigrou para Nova Iorque, mudou-se para Montréal, Canadá, onde ensinou francês, fez mestrado e doutoramento e foi docente da Universidade McGill. Em 1984 regressou a Lisboa e continuou na docência universitária ou superior. Ao seu primeiro romance, de 1998, seguiram-se mais onze obras (romances, contos, poemas), das quais uma em francês, e anuncia quatro “em curso de escrita”. Seu nome: Joseia Matos Mira. [Imagem: pintura - reprodução parcial - de Akzhana Abdalieva.]

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Em nome “da” civilização?

Um indivíduo ou um grupo, uma comunidade ou um povo, que caricaturam e troçam de valores principais ou ícones consagrados de outros povos não exercem singelamente o seu direito à liberdade de expressão. Avançam, queiram-no ou não, até mais longe. E nesse longe aparecem agora acumuladas consequências.
Naturalmente, nenhum direito é absoluto, ou seja, que pode reinar sobre qualquer outro. Pois não manda a boa lógica que as minhas liberdades pessoais cessam onde principiam as dos outros? Mas verdades destas, comezinhas andam a sumir-se por aí nos vórtices rodopiantes da confusão.
Vejamos. O gesto, repetido, de caricaturar e troçar de valores notoriamente consagrados por uma comunidade ou povo até pode demonstrar, em última análise, que a pessoa ou o colectivo do gesto não considera nada, absolutamente nada, sagrado. Eu, porém, nunca vi nem consigo imaginar alguém de consciência totalmente alheia ao que é ou pode ser sagrado (com ou sem vínculo religioso), mas, se tal aberração puder acontecer, o seu gesto desrespeitoso dará aos ofendidos o direito recíproco a reagir.
Neste ponto preciso, creio eu, temos o fulcro da questão que alvoroça e sangra o mundo. Quem troça e escarnece, com irreverente à vontade, do que outros têm como sagrado, demonstra que não respeita o sagrado alheio com alguma da facilidade com que prescinde de respeitar o seu próprio. Permite, no mesmo acto, que o vejam como vil intruso despojado de qualquer transcendência.
Todavia, a irreverência assume todo o seu impacto no gesto que pretende submeter o que é declaradamente diverso para o apagar. Provém de uma força beligerante, arrasadora e brutal, com vocação pretensamente planetária de carácter imperialista. Mas terá uma qualquer civilização, em nome “da” civilização, o direito de se considerar superior e suplantar uma outra?
Talvez esteja aqui a contradição que vai opondo, mais e mais, o ocidente cristão ao oriente islâmico (e sobretudo às comunidades jihadistas geradas em matrizes criadoras de antagonismos estratégicos), de acordo com o “choque de civilizações” prognosticado por Samuel P. Huntington, político norte-americano que viu nas diferenças culturais e religiosas dos povos o elemento detonador de conflitos, depois de Fukuyama teorizar acerca de uns eventuais “fins da história”. Passo a passo, regressou a guerra fria e, sorrateiramente, vai-se preparando o ambiente (só europeu?) para uma terceira conflagração. Acirrados uns contra os outros, os povos começam a armar-se com propagandas intoxicantes, incompreensões induzidas e aversões instaladas… antes de pegarem em armas.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Guilherme Camarinha: evocação

Foi, no seu tempo, um homem e um artista algo peculiar. Nasceu em Valadares, Vila Nova de Gaia, em 01-11-1912 (28 de Abril de 1913 no registo civil). Terminou em 1937 o curso de Pintura na ESBAP (Escola Superior de Belas-Artes do Porto), onde foi assistente entre 1962-1965, e dedicou-se ao ensino secundário em Guimarães. Destacou-se sobretudo na pintura afresco e na tapeçaria com obras de grande projecção, mas trabalhou também, de modo distinguido, o mosaico e a pintura a óleo. Em 1987 recebeu medalha de ouro da sua cidade natal e foi publicado um livro sobre a sua vida e obra.
Correspondeu amiúde a “encomendas” em tal medida que realizou poucas exposições individuais, pois se considerava “um operário no exercício da sua arte”. Só na igreja da Conceição (Porto), Camarinha pintou dez afrescos com 90 metros quadrados que levaram “um ano e meio a executar”. A sua arte em mosaico, que desenvolveu em contacto com um artista veneziano (de modo que espelha toques de expressão bizantina), enriqueceu numerosos edifícios em Portugal e no estrangeiro.
O crítico Joaquim Matos-Chaves situou Camarinha no segundo modernismo português, sublinhando nas suas obras o perfeito domínio de cada técnica, “onde um afresco é pensado como um afresco, uma tapeçaria como tapeçaria, um óleo como óleo”. Por outro lado, Amândio Silva evocou a admiração que desde cedo as suas obras causavam nos alunos de Belas-Artes do Porto pela expressão plástica pessoal, a sua modernidade. De facto, o artista gaiense integrou, no início dos anos ’30, o “Grupo Mais Além”, com Augusto Gomes e Domingos Alvarez, entre outros.
Ao longo dos muitos anos da sua vida, Camarinha executou quase duas centenas de tapeçarias para tribunais, paços do concelho, bancos e outras entidades nacionais e estrangeiras. Os cartões que concebia eram habitualmente elaborados na fábrica de Portalegre, o que contribuiu então, fortemente, para a reabilitação da respectiva técnica no espaço nacional. De alguma maneira, isso fez ecoar em Portugal um movimento que em França tinha à frente a fisionomia de Lurçat. E lembra a peculiar relação estabelecida pelo artista com a cultura francesa.
Nas suas obras abundam sinais da herança greco-latina, numa linha neofigurativa com citações frequentes de temas clássicos em que se fundem e confundem especiais efeitos de teatro e de literatura.
Conheci-o, já idoso, e conversámos umas vezes. Guilherme Camarinha, apegado a um passadismo irredutível, lamentava a Revolução Francesa (isto é, a perda do ancien regimejunto com toda a evolução posterior da história do mundo. Morreu em 1994, na sequência de um atropelamento. Ia nos 82 anos. Viveu sozinho na sua casa, em Vila Nova de Gaia, e conservou-se celibatário embora deixando descendência. [Imagem: tapeçaria do Autor alusivo a tema histórico.]