quinta-feira, 9 de abril de 2015

Raul Brandão e “Os Pescadores”

Não confesso um interesse, confesso uma admiração, que é enorme e que sinto desde que entrei a gostar de literatura. Pus o autor de Húmus no panteão das minhas devoções particulares logo que arranjei panteão. E vou seguindo bem acompanhado, pois Raul Brandão, felizmente, jamais perdeu prestígio e visibilidade como autor incomparável.

Outras obras, não só Húmus, também permanecem nos circuitos da leitura, tais como O Pobre de Pedir, A Morte do Palhaço e outras, a exemplo dos textos de Teatro, mas eu aposto que Raul Brandão (Foz do Douro, 1867-Lisboa, 1930) é mais lembrado como autor de Os Pescadores. É a sua obra verdadeiramente emblemática. Apareceu em 1923 e, reeditada desde então, pertence ao património nacional ao lado das (açorianas) Ilhas Encantadas.
A reedição que folheio há longos anos é dos Estúdios Cor (Lisboa, s/d, anos ’60), prefaciada pelo saudoso escritor Manuel Mendes, que com ele conviveu, e lindamente ilustrada com fotos. O que me traz desta vez a Os Pescadores é um curioso livrinho intitulado História do batel ‘Vae com Deus’ e da sua companha (Matosinhos: Edium Editores, 2006). Autor, Raul Brandão.
O livrinho, afinal, documenta quanto o projecto do Autor lhe andou a balbuciar e a estrebuchar no juízo, à espera, para por fim se concretizar. Efectivamente, Raul Brandão seguiu carreira militar em Lisboa até se reformar (capitão) em 1912; casou e fez casa (que conheci) em Nespereira, Guimarães, e passava os invernos na casa de Lisboa. Foi após 1912 que, enfim, terá obtido tudo o que rogava: “Dêem-me um buraco e papéis.”
A curiosidade do livrinho está nas dez estórias que o Autor deu à estampa na revista “Portugal-Brasil”, de Lisboa, entre 1-01 a 16-07-1901, e ali recolhidas por A. Cunha e Silva com prefácio de Joaquim Pinto da Silva. Conclui-se logo: não há dúvida, os dez textos são um mero esboço, ou embrião, da Obra acabada e dada ao público em 1923. Porém, coca-bichinhos como eu, que folheámos efémeras revistas de publicação anterior a 1901, isto é, ainda do séc. XIX, ter-se-ão deparado por lá com uns “quadros marítimos”, ligeiros contarelos afins assinados pelo Autor…
Quer dizer, o tema de Os Pescadores de Raul Brandão, filho e neto de marítimos, parece ter nascido com a sua escrita e com o seu sentido trágico da existência - logo, muito cedo. A esta luz, compreende-se o apego brandoniano à imagem-arquétipo do Pobre e as expressões de assombro, espanto e remorso que nos deixou (porque “há dias em que a gente se sente responsável por todo o mal que se faz na terra”). E pobres eram igualmente lavradores, pastores, operários, gente que Brandão faria viver no grandioso projecto da história do humilde povo português que não chegou a concluir.

domingo, 5 de abril de 2015

Grutas de Ajanta, na Índia, escavadas no basalto vulcânico no vale de um rio; são 32, algumas das quais eram mosteiros onde monges viviam e outras eram templos, com grande estátua de Buda, que remontam ao séc. II a.C.; a sua arquitectura, pinturas e afrescos são admiráveis.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Exposição (bem) notada

Há tempo que andava a desejar ver as mais recentes obras do artista plástico Acácio de Carvalho. É um excelente amigo e companheiro de vária lida, merecedor da nossa melhor atenção, e, no entanto, para mim, a ocasião tardou. Mas aconteceu agora, com os seus “Traços”.
Como amigo excepcional, merece aqui nota excepcional. Acácio acabou de se formar em Belas Artes, no Porto, em 1980. Além da pintura, tem trabalhado em cenografia para teatro e cinema (mestrado em Boston, EUA), foi designer gráfico no JN, docente de Artes e Ofícios da ESE também do Porto e, enfim, averba um vasto e distinto percurso distinguido com prémios e outros galardões.
A exposição abriu há dias na galeria Porto Oriental, onde vai permanecer até início de Maio. Apresenta 17 pinturas: seis monotipias, três desenhos e oito “Traços” de grandes dimensões com datas entre 2001 e 2010. Acácio é artista sensível e versátil: usa acrílico, pastel seco, carvão ou técnica mista conforme a expressão que pretende plasmar, isto é, evidenciando um completo à vontade, e suportes como tela (cabedal ou napa), papel ou mesmo papel vegetal.
Os “Traços”, até pelo seu tamanho, mas não só, impõem-se ao olhar desde logo pela força cromática. Cada quadro é formado por peças irregulares de tela, natural ou sintética, a cores, cosidas manualmente com fios, com pontos de formas muito diversas ou unidas por ilhós. O resultado é poderoso.
Manuela Bronze, outra artista plástica, no texto inserido no desdobrável que acompanha a exposição (com epígrafe de Tápies), considera que estas obras “criam uma linguagem plástica pronta a sujeitar-se à interpretação do espectador”. Por outras palavras, interrogam-nos e, do mesmo passo, questionam os caminhos que vem seguindo a Pintura. Deixam-nos a pensar mesmo depois de sairmos da galeria (site: www.galeriaportooriental.com).
As monotipias contribuem também para reforçar este sentido ao colocar-nos, sem dúvida intencionalmente, perante manchas escuras ou cinzentas, isto é, múltiplas texturas, que, além de revelarem os processos da criação utilizando “criativamente matéria, ferramenta, gesto, memória e linguagem”, conforme assinala Manuela Bronze, trazem até nós ecos das perplexidades geradas pelo alastrar das escuridões no mundo. Quando irá soprar uma aragem nova para varrer do planeta estes tantos negrumes? [Imagem:“Traços III”, acrílico, grafite e pastel-seco s/tela, fios, cabedal, 200 x 142 cm, 2010.]

quinta-feira, 26 de março de 2015

Folhinha ao sol


Uma pequeníssima vibração. Ou mero pressentimen-to? Todavia, a ponta de uma raiz, e logo outra e outra, estremunharam. Saíram da letargia a indagar: o que acontecia em redor?
Quase nada. O terreno deixara de ser pisado havia tempo e chuvas abundantes tornaram-no frescal.
Sumidas na escuridão da terra, algumas raízes do esporo perceberam a subtil mudança e aproveitaram-na. De facto, sabiam tudo quanto deviam saber. Cresceram na direcção certa, a porta rente ao passeio da rua que abria o terreno a quem entrasse. Mas a porta, imobilizada, cobria-se de musgo porque o terreno estava ao abandono.
Pela fresta da porta suspensa na moldura entrava uma claridade apetecível e foi para ela que sem erro se orientou o esporo. Metido na terra, sentiu a força do seu chamamento fazendo surgir à superfície uma pequenina cabeça.
Gente a passar tê-la-ia esmagado se antes ousasse irromper ali, rente à porta, na terra endurecida, mas agora desenvolve-se, viceja. Já aponta para a fresta um brotinho vegetal que pouco a pouco se estende e alarga. E mostra, nascente, uma folhinha. 
Tenra folhinha sem idade, que esboça um tom verdoso ainda esbranquiçado enquanto, crescendo, se aproxima da fresta para receber a iluminação vinda do exterior. Já chega à porta, a brisa percorre-lhe suavemente o dorso arqueado que aponta para a luz e cresce mais, estende-se, atravessa a linha que separa a penumbra interior do esplendor da rua, e toca com a ponta o ambiente pleno, a liberdade. 
Atinge por fim o cálido e brilhante sol. Recebe-o na parte exposta, que se expande, transformada em colector solar à ordem das raízes, e a folhinha avança mais por cima do passeio. 
Foi essa a folhinha que um cronista viu, brotando e verdejando por baixo da porta fechada. Uma folhinha carnuda, cheia de seiva fresca, à espreita, a espirrar verdura. 
O cronista sentiu um abalo íntimo. Parou. A folhinha parecia luzir de alegria no sáfaro cimento urbano, pois era, ali, a única afirmação de vida. 
A olhar, parado, o homem emocionou-se. Percorria aquela rua nos seus trajectos habituais, a pensar na próxima página que iria escrever (porque uma crónica por semana era, para ele, preocupação diária), mas sentiu-se inundado de compaixão, uma compaixão decerto tola e piegas, pois o alvoroçou a ideia de que os passos cegos dos transeuntes iriam calcar contra a dureza do cimento aquela tenra folhinha tão atrevida que assomava ao sol. 
O homem escrevia sobre os graves problemas do mundo, o perigo de uma terceira guerra mundial e a necessidade da paz, a urgente defesa do ambiente planetário, a violência que se generaliza, a justiça que escasseia. O homem, contemplativo, avaliou de repente toda a sabedoria de um esporo. Então decidiu: recusou grandiosos temas porque… a sua última página lhe aparecia escrita numa simples folhinha.

sábado, 21 de março de 2015

A festa da Poesia

Assinalando o “Dia Mundial da Poesia”, o escritor Perfecto E. Cuadrado escreveu e a Sociedade Portuguesa de Autores divulgou a seguinte mensagem:
No fim de uma entrevista radiofónica sobre os desassossegos pessoanos, a entrevistadora - uma rapariga com o dom trinitário da curiosidade, da timidez e da ousadia - acabou por me fazer com um sorriso de beatífica desculpa a pergunta da esfinge moderna: para que serve a poesia? A pergunta levou-me a Hölderlin, a T. S. Eliot, a Sartre, ao meio que me habita e que eu habito – alunos, pais, comunicadores, professores, vizinhos, gente da rua - e lembrei que só nos tempos modernos é que o poeta tem tido de responder e responder-se a essa pergunta que, na distinção de Vergílio Ferreira, passou já para o território das interrogações fundamentais. E, na minha resposta, lembrei Lautréamont e a sua sentença: A POESIA DEVE TER POR OBJECTO A VERDADE PRÁTICA. E assim, respondi: quanto a mim, a poesia tem-me servido para ter uma cada vez melhor qualidade de vida; pensando colectivamente, acho que a poesia podia, entre outras coisas, ajudar-nos a sair da crise. Risos. E eu acrescento: já sabia que a minha amiga não ia perceber, ou não teria feito essa pergunta; mas eu tinha a obrigação moral, ética e política – e também a vontade - de lhe responder, num convite à reflexão e daí à própria poesia. Vivemos num mundo onde os valores que se nos apresentam como positivos e como caminhos certos para o triunfo social são a abjecção moral e ética, o totalitarismo ideológico e político, e a mediocridade intelectual e profissional. O resultado já se vê: a miséria e o medo. Foi em Portugal, nos tempos negros antes dos luminosos agora de novo regressando ao cinzento escuro, onde Pedro Oom se perguntava angustiado: que pode fazer um homem quando o ar é um vómito e todos nós seres abjectos? A resposta estava e está na poesia. A poesia oferece-nos a melhor via para transformar e transtornar esses valores e os seus sinistros resultados. A poesia é a palavra, sim, a palavra criadora que acaba de dar sentido e ser à realidade, é o motor da nossa imaginação que consegue fazer da realidade real uma realidade poética, mas, na palavra e desde a palavra e para além da palavra, há a poesia do olhar, do ver, do perceber, do sentir, do dizer, do viver e do conviver. Porque sabemos que há luz fora da caverna, que este nosso mundo pode e deve ser regenerado urgentemente, e para isso, ser lido com um olhar diferente e novo. Porque acreditamos nessa possibilidade, nessa necessidade e nessa urgência, concelebramos e convidamos a concelebrar a festa da poesia, filhos daqueles ‘horríveis trabalhadores’ que Rimbaud assinalava como as velhas toupeiras que haviam de continuar o trabalho de destruir os alicerces da velha cidadela, os muros e as paredes de Elsinore. Mais uma vez e aqui Lautréamont: A POESIA DEVE SER FEITA POR TODOS. Ou não será – não seremos.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Guerra: monstros à solta


Impressiona o infinito sofrimento que a guerra provoca ao povo da Síria. Impressiona, choca e escandaliza também a passividade de quantos assistem de longe ao medieval cataclismo desencadeado desde o pretenso raiar da “primavera árabe”. Os monstros da morte e da destruição, da violência cega e de brutais carnificinas caíram sobre as orlas do Mediterrâneo e são insaciáveis.
Há quatro anos que a população síria conhece o horror da guerra civil, iniciada com manifes e uns tiros à socapa. Segundo os jornais informam, já provocou 220 mil mortos, dos quais 76 mil foram contados em 2014; uns quatro milhões de habitantes e centenas de milhares de palestinianos refugiados, tendo perdido tudo, tornaram a refugiar-se além-fronteiras. Outros sírios, mais de seis milhões, fugindo dos horrores da guerra deslocaram-se para outras zonas do país; e perto de três milhões de crianças ficaram sem escolas.
A crise humanitária impressiona tanto quanto a onda de violência desatada. Extravasou mesmo para os países vizinhos, onde origina situações terríveis de carência e sofrimento. E a Síria, país com um passado histórico-cultural tão rico e luminoso, aparece agora à noite, em imagens de satélite, quase às escuras.
Perante esta horrorosa hecatombe civilizacional e humanitária, os povos ocidentais que conseguem vê-la de longe aparentam um alheamento, uma indiferença quase total. Com idêntica atitude acompanharam a campanha prévia dos media que nos persuadia de que o presidente Assad, por sinal médico formado na Inglaterra, era realmente um ditador a derrubar. Afinal, o presidente tem povo em quantidade suficiente para resistir no poder há quatro anos. Mas também Hussein e Khadafi não eram ditadores?
Evidentemente, esses tiranos foram derrubados. Quer dizer, abatidos em execuções sumárias, sem julgamento. Assim como Bin Laden, acusado de esmagar aviões contra as torres gémeas.
Terá ficado a Síria, ou virá a ficar, mais livre e democrática, mais pacificada e estável? Acodem à memória os casos do Iraque e da Líbia, que continuam deveras pungentes. Fracções em armas combatem, destroem-se e flagelam-se em nome de dogmas religiosos, pondo em fuga populações espavoridas, ansiosas por saírem do inferno onde nasceu e se multiplica em metástases pela África negra um providencial Estado Islâmico.
Provado fica que é possível dirigir um drone, por controlo remoto, para um objectivo situado do outro lado do mundo, assim como agrupar uns ambiciosos onde quer que interesse pô-los a correr apoiados com propaganda e os meios logísticos necessários. Mas, na balcânica confusão instalada no Médio Oriente, quem consegue, observando com atenção, saber de que lado estão os bons e de que lado estão os maus? Serão todos, todinhos, criminosos de guerra?

quinta-feira, 12 de março de 2015

Nova Economia é “bluff”

Assim se designou a teoria económica propagada e propagandeada na pátria afirmada do capitalismo, os Estados Unidos, quando o século XX se extinguia e Portugal aderia à moeda única europeia. Era tão “nova” e tão neoliberal que, contando uma história de fadas, ousava negar noções fundamentais da ciência económica estabelecida por uma galeria de mestres clássicos, de Adam Smith a John Maynard Kaynes. Mas então, e não por acaso, 99% da riqueza mundial já estava em poder de apenas 1% da população.
Daquela “escola” saiu a bandeira da globalização, que permitia aos potentados financeiros, donos das maiores empresas produtoras de bens, deslocalizarem-se para países, asiáticos e outros, onde o trabalho fosse, de tão baratinho, quase escravo. Os norte-americanos perderam imensos empregos; os governantes, que tal consentiam, deixaram de cobrar imensos impostos e a economia federal, que antes exportava, começou a gastar dinheiro a comprar (a importar) o que antes produzia. Acresce que as deslocalizações conduziram à saída de capitais alegadamente a caminho de investimento… em paraísos fiscais.
A liberdade de comércio, outra das bandeiras de combate da Nova Economia, quis-se ainda mais livre para abraçar o planeta inteiro. As grandes corporações querem ter já o direito (a liberdade, dizem) de entrar no mercado de qualquer país sem restrições. Isto é, sem serem abrangidas pelas leis e regulamentações gerais vigentes no país, podendo, portanto, mandar ali mais do que o próprio Estado (propõem até chamá-lo a tribunal)!
Evidentemente, a catequese da nova escola foi assumida por políticos e partidos que se alternavam no governo, zelosos e pressurosos no entoar beato da litania salvífica. Mas em breve ficou à vista a marca principal que a caracterizava: a austeridade. De facto, o que a Nova Economia trazia de novo era a imposição do empobrecimento generalizado, o esmagamento das classes médias, o desemprego galopante, aumentos brutais dos impostos, a perda dos serviços sociais, a paralisia económica nacional, a recessão.
Tão desastroso paradigma entrou de imediato em descrédito total. A paralisia do crescimento económico conduzia ao endividamento perpétuo dos Estados e à subordinação implacável das soberanias. Os potentados financeiros internacionais e os seus bancos deixavam de investir na produção de bens de consumo (actividade económica normal mas de rendimento fraco e lento) para negociar com os governos contratos, de parcerias e outros, bem mais apetitosos.
A vitória do Syriza e a eleição de Tsipras no Governo grego, neste quadro, correspondem a um despertar urgente, inevitável, dos povos decerto não apenas na Europa. As instituições da União Europeia, sem mais inclusão do contestado FMI, vão ter que demonstrar, na prática, se a Europa tem União ou se esta não passa de cavalo de Tróia do capitalismo internacional especulativo e predador.
 [Imagem: relógio decorado com conchas.]