quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Tudo posto a render

Custa a acreditar no que se nos oferece à vista. O frenesim das compras natalícias tornou a electrizar o ambiente, atafulhou de trânsito em corropio as ruas e as estradas. Esvaziaram-se, nas lojas, as prateleiras das prendinhas; esgotaram-se, dizem, os programas de mini-férias… Onde se terá, então, escondido a crise?!
Já não temos salários baixos, vencimentos em atraso, pensões de miséria?! Ou será isto magia suprema da quadra festiva? Prodígio de galas e luzes multicores em exibição pública entre cânticos e epifanias de cassete?!
Os portugueses, tolhidos por dívidas acumuladas que «um dia» irão ser pagas, desistem pouco dos bons costumes. Tiram os anéis dos dedos, pagam as compras no supermercado com cartão de crédito e acodem ao penhorista, porque a tradição manda e festa é festa. Renegoceiam as dívidas, tantas contas complicadas, ainda bem que há quem ajude, assim lhes livrando a cacholinha daqueles cuidados, podem continuar a consumir, «um dia» alguém terá que pagar…
Afirma quem tem voz que a comunidade nacional vive acima das suas possibilidades, significando que gasta mais do que tem para gastar. Porém, há anos e anos que na comunidade se repete a afirmação e (graças à chico-espertice?) não se vê acontecer nenhum desastre.
Entre os portugueses e o país existe um notável paralelismo, assim como entre a careta e a letra. Pois não se anuncia que os edifícios públicos do património histórico-cultural português vão ser vendidos ou, à falta de melhor, arrendados a privados? Logo, também Portugal tira os anéis dos dedos e acode ao «invejoso» em maré de aperto.
Temos a crise financeira, empresas a fechar, a estagnação económica, o desemprego, tudo a crescer. Tantas contas complicadas para as cacholinhas administrativas, ainda bem que temos cá dentro quem ajude quando lá fora as coisas estão pretas. Manda a tradição, festa é festa!
Os milhares de milhões que a crise financeira custa ao Estado servem, evidentemente, para recompor o poder da alta finança, livrando-a da banca-rota. Mas esses milhares de milhões alguém os terá que pagar – e aposto, não serão os políticos milionários e muito menos os senhores da alta finança. Será o povo chico-esperto.
Sobre os ombros de milhões de portugueses vão recair em breve aqueles milhares de milhões na forma de migalhas (de todo o tamanho) a pagar em impostos novos ou agravados. Os proprietários de imóveis e os consumidores em geral pagarão, com toda a sua chico-espertice, os luxos do TGV e do novo aeroporto, as portagens nas vias sem custos e etc. E se a Autoeuropa desertar e as exportações caírem a pique?
Festa é festa… até quando? Pessoas, empresas e entidades diversas endividaram-se seriamente, em paralelismo com o Estado, que dá o exemplo indo à frente. Quem, na confusão contabilística reinante, sabe realmente das contas da administração nacional? Quem atenta nas variações do nosso PIB e indaga pelo PNB (produto nacional bruto)? País e povo estranho este, perpetuamente adiado! Inviável?!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Restaure-se o social da economia!

A conclusão a extrair do post anterior é a de que o sistema económico em que estamos a viver contém o sistema moral nele implícito. Não é certo, pois, que toda a economia seja amoral, conforme José Castro Caldas bem demonstra no seu artigo. Logo, não é possível tratar as toxicidades do mundo actual sem tratar do sistema global que as gera, isto é, conseguir limpar as feridas e curar a doença sem eliminar a origem da pandemia.
A conclusão desemboca numa consequência de múltiplos alcances. Este sistema económico é profundamente marcado pela especulação financeira, actividade «económica» privada que gera lucros sem produzir bens socialmente úteis e que gosta tanto de paraísos fiscais ao ponto de os multiplicar onde lhe fazem jeito. Porém, foi por aí que entraram as desregulações todas que desencadearam esta crise – uma crise tão séria e grave que, segundo algumas predições, o capitalismo terá de sofrer grandes reformas ou vai explodir um dia na cama da sua própria insensatez.
Mas seja como for, a globalização financeira, as arremetidas das deslocalizações, a titularização de dívidas, as privatizações de serviços públicos, as portas francas das ofshores, as quebras dos PIB nas economias americana e europeias (de produtores-vendedores de bens de consumo, transformaram-se demasiado em importadoras-compradoras), e etc., derivam das estratégias seguidas pela especulação financeira. Pretende lucros rápidos e gordos, cada empresa e respectiva administração valem na medida em que podem atender ao objectivo.
Assim avançou uma mercantilização geral das relações sociais, o desemprego, o retrocesso do poder real de compra das populações, os endividamentos familiares e o afundamento das classes médias, as falências, as fraudes, a instabilidade. Deste modo, se alguém me diz que a especulação financeira vai continuar por este caminho (como o meu velho amigo A. V. G. fez, a puxar-me pela língua), eu entendo que alguém está a defender, nesta ordem de ideias, a continuação do que antecede, e também um tanto o consumismo e as agressões ao ambiente, a violência doméstica, a prostituição, a emigração forçada ou ilegal, em suma, a defender o rico e forte senhor minoritário contra os fracos - a maioria… democrática.
Na verdade, julgo que não será possível isentar a economia de uma clara dimensão social. Evidentemente, esta dimensão pode ser escamoteada ou obliterada, mas isso resultará numa perversão do sistema conducente a um universo de relações desumanizadas. Será este o sistema caracterizador da fase imperialista do capitalismo (mais acelerada concentração da riqueza, depauperação de populações, risco de uma guerra em larga escala)?
Um sistema económico, qualquer que seja, estabelece no terreno os valores da sua própria moralidade. Portanto, será imoral se o sistema se quiser imoral. Mas que valor tem afinal a sentença aqui ditada? Por outras palavras: poderá um jornalista veterano, arrimado apenas à sua cultura geral, pronunciar-se sobre economia? Talvez sim. O estado da decadência das instituições em crise pede aos cidadãos pronunciamentos corajosos e desassombrados.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

«Economês» confunde economia

Ressoou pelos quatro cantos a frase famosa: «É a economia, estúpido!» Martelada que foi, entrou nos ouvidos e ficou nas memórias a significar que a coisa mencionada seria tão óbvia e tão indiscutível quanto o pôr-do-sol ou a marcha imparável do tempo. Assim se impôs uma economia a valer por si mesma qual soma aritmética, ou seja, sem outra relação lógica que não fosse consigo mesma.
Mas não será isto «economês» balofo e corriqueiro? Será possível, na verdade, que esta economia nada tenha a ver com as consequências que provoca nos planos social e moral? Pode a economia, colocada no próprio lugar do seu funcionamento, ser amoral… ou imoral?
Um artigo de José Castro Caldas, intitulado «A impossibilidade de uma economia amoral» («Le Monde Diplomatique», edição portuguesa, Dez. 2008, p. 2), lança a questão numa surpreendente abordagem que as mentes adormecidas deveriam ler para espevitar. Com efeito, aquele investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra demonstra algo que está à vista e, todavia, continua invisível.
Cito dois trechos: «a crise do capitalismo que estamos a viver é uma crise moral. A crise de uma economia que se pensou a si mesma como nem moral nem imoral, mas antes amoral e que foi sendo politicamente construída à luz desse pressuposto.» «Esta sociedade, ou melhor, este projecto de sociedade, é o que se encontra em crise. Essa crise é, antes de tudo o mais, moral: principia no não-reconhecimento das obrigações e da gratidão mútua.»
José Castro Caldas lembra duas obras de Adam Smith, a Riqueza das Nações, clássica, e a muito menos lida Teoria dos Sentimentos Morais, para as comentar no ponto em foco, uma sociedade de mercadores «que empolgou muitos dos que agora clamam pela ‘moralidade’ e pelo ‘castigo dos culpados’.» Sublinha: «Os contratos são o cimento da sociedade puramente mercantil» para considerar: «Não fosse o sentido de obrigação mútua (de natureza moral) que apesar de tudo existe, os contratos nem sequer seriam concebíveis.»
Chegou-se por aí ao enfraquecimento das obrigações e gratidões mútuas, isto é, a uma sociedade de risco. «O mundo dos negócios é o domínio onde a aversão aos compromissos, ou se preferirmos a preferência pela liquidez, se manifesta de forma mais pura.» O autor liga a J. M. Keynes esta preferência pela liquidez, o designado «dinheiro vivo», que se exprime nos mercados das acções, em instabilidade sistémica e agora descamba na crise financeira e em crise de confiança. O artigo conclui: «A sociedade e a economia caracterizadas pela liquidez estão tolhidas na sua capacidade de realizar projectos em conjunto, de enfrentar colectivamente problemas. Estão bloqueadas, presas numa armadilha. Em crise… moral.»
Devo pedir desculpa a José Castro Caldas pelo temerário arrojo de tentar resumir o seu texto numas poucas linhas, mas pretendi trazê-lo aos outros vossos olhares e penso que me irão agradecer. Derrama uma luz nova, reveladora de quanta manipulação afecta as inteligências, condicionando-as.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Mosaico inacabado

Contei-as agora. Somei cento e trinta as crónicas editadas neste blogue iniciado em Janeiro. É altura de balanço no mês terminal do ano.
Naturalmente, cada uma das crónicas é um texto que o leitor recebe como peça autónoma, assim como um «todo». O cronista escreveu-as ao longo do ano, página a página, ora evocando as suas memórias pessoais, ora recordando peripécias e figuras com que lidou. Mas também comentou acontecimentos da actualidade e reflectiu, debateu ideias ou questionou mentalidades.
Com efeito, no meu percurso existencial, assisti ao deflagrar da Segunda Grande Guerra e ao advento da penicilina, dos motores a jacto, dos plásticos, da televisão. Acompanhei a propagação da rádio, do cinema, dos automóveis, o avanço da físico-química, da astronomia, e aguentei sob o regime de Salazar. Os anos já longos que levo de vida, todavia, não me poupam ao que sinto quando vejo recordado como História factos que para mim são «do meu tempo».
Apesar de todas as suas maravilhas, não se me afiguram ditosos os meus anos de vida. Por isso exarei a exclamação «Que tempo!» à entrada do blogue, no Limiar. Sempre trabalhei e estudei conforme pude e soube, mas isso atendeu a uma função tão vital e primária como a de respirar. As maravilhas do «meu tempo» histórico perdem-se, a meus olhos, em sombras e negrumes que certos discursos apontam como a falência geral do progresso moral perante o progresso técnico.
Esta perda, pela obnubilação, tem vindo a aumentar dramaticamente. Sinto com pungente nitidez que não estava preparado para viver num ambiente social deste género. Por supor que mereceria melhor sorte na fase última da existência? Ignoro.
Eis o que tenho vindo a querer exprimir no conjunto destas crónicas. Gostaria que, depois de terem sido lidas uma a uma, possam agora, a outro nível, serem percebidas como uma espécie de mosaico. É mosaico mental composto pela agregação das peças com formas e tonalidades diversas, mas de tamanho quase regular como numa calçada à portuguesa. Que a visão lúcida do leitor ilumine o conjunto!
Eu julgo que em cada pessoa pode conter-se um universo e que cada pessoa, ao exprimir-se, poderá exprimi-lo o mais possível, trazendo-o para a luz. O «meu tempo», vivido no meu lugar, tem sido marcado por vivências talvez sem adequado registo. Ora o cronista tem por função o papel de testemunha e de espectactor. Aqui deixa o juízo do seu tempo no tempo do juízo, narrando: E foi assim…

domingo, 7 de dezembro de 2008

Monstruosidades vulgares

As monstruosidades impressionam, causam horror e pânico. Mas existem monstruosidades de vário tipo. Se forem de tipo vulgar, isto é, se se repetem, tornam-se um tanto habituais: como que perdem a malignidade e transformam-se em meros aleijões familiares.
Assim aconteceu outrora com a escravatura, a segregação racial, a pirataria, o canibalismo, a tirania do forte sobre o mais fraco, os atentados contra a criança e a mulher, a desumanidade em todas as suas formas. Entramos neste esplendoroso século XXI cheio de civilização, riquezas e tecnologias, a proclamar orgulhosos «direitos humanos», e que acontece? Somos informados que há gente a trabalhar escravizada, a segregação étnica continua, há piratas a assaltar navios e a fazer reféns, canibais matam e comem em orgias de superstição, crianças e mulheres são caça apetecida inclusive para exploração sexual, a força maior ainda aplica as mais brutais formas de exploração do homem lobo do homem!
Somos informados e no entanto quantos de nós sabem ou querem saber? Quem advertiu, por exemplo, a emenda das frases que no «Pai nosso» cristão aludiam a dívidas e devedores, motivo antigo de escravização? As monstruosidades estendem-se pelo mundo nas agonias do nosso tempo, banalizam-se pela multiplicação, mas nunca deixam de ser monstruosas, de causar pânico e horror.
A crise mais dramática no nosso tempo concentra-se precisamente no ponto em que verdadeiras monstruosidades se tornam vulgares, não por serem leves ou pequenas, mas porque são apenas… vulgares («normais», frequentes). Parece que as multidões se vergam a tolerar o intolerável, resignando-se a uma qualquer fatalidade imaginária que inalam, como um veneno, neste ambiente. É, porém, à relação do homem com os outros homens que devemos regressar para reencontrarmos o diapasão, a pedra de toque de tudo o que é determinante no tecido limpo das relações sociais.
A atitude como cada pessoa encara e trata uma outra e toda a gente reflecte o estofo da sua própria humanidade e, por aí, a sua ideologia, o pulsar da sua opção cívica e política. Não é possível estar de barriga cheia e contente ao lado de quem, perto ou longe, sucumbe de fome. Ninguém pode, sem grave contradição, ser de esquerda e apoiar hoje uma (des)governação de direita que dizima as classes médias.
Monstruosidades vulgares giram hoje no carrossel que põe a desfilar os basbaques de gesso defensores da democracia política, esquecendo, porém, que tal democracia, esvaída dos seus conteúdos económico e cultural socialmente humanizados, vale pouco menos que nada assim reduzida a figura de retórica. Um problema, no entanto, subsiste: alguém poderá viver bem e sentir-se em segurança neste mundo escalavrado que acumula tensões e contradições explosivas? Ainda que se distancie das multidões, metido dentro de espessas muralhas?
Um bom e velho amigo em visita, há poucos dias, deixou-me envolvido nestas reflexões. Alinha na «esquerda», aplaude a terceira via, mas declarou-me «de esquerda» aos seus acompanhantes. Nenhum de nós, porém, vai rodear-se de muralhas…

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O mundo sob terror

É facto indesmentível, percorre o mundo um vento soprado pela boca da insânia. Os atentados ocorridos há dias na cidade indiana de Bombaim parece que levaram até mais longe as previsões do pior que está por vir no processo desta desregulação global permanente. A violência assume sem vacilar as formas da brutalidade de uns quantos que entram em desespero no estertor de qualquer esperança.
A brutalidade daqueles ataques foi pasto de televisões, jornais e rádios durante dias. Encheram-se de ecos os continentes com cenas da destruição, contagens de mortos e de feridos. Duas palavras foram marteladas no ar: muçulmanos, terroristas.
Mas outra palavra, a terceira, sobressaiu inevitavelmente: aquela violência atingiu inocentes. E poderiam acaso não ser inocentes os atingidos, fossem turistas ou indianos? E, todavia, quem leu Jean-Paul Sartre do tempo da guerra na Argélia, colónia francesa em luta pela independência, pôde compreender que ninguém, e não apenas em França, era «inocente».
Os Franceses beneficiavam da exploração da colónia, bebiam do seu vinho e etc., teriam dificuldade em provar que o nível de rendimento nacional não lhe devia nada. Logo, como poderiam sentir-se «inocentes»? Alguém, ontem ou hoje, num mundo assim, terá a ilusão de estar verdadeiramente «de fora»?
O meu computador tem componentes feitos na Ásia e no Extremo Oriente, ao almoço comi laranjas do Chile e nas lojas vejo sapatos, vestuários, etc. vindos das cinco partidas, entro em casas com soalho de madeira africana… E o ouro negro, o petróleo da energia que povos ricos extraem com tanta violência, vem de onde? Eu, como toda a gente, sou culpado e tenho consciência disso.
Culpado serei, porém, bem menos do que a equipa governante, com George W. Bush à frente, que ordenou a invasão de um país indefeso, o Iraque, onde talvez um milhão de pessoas já tenham sido mortas, entre crianças, mulheres e velhos, e vários milhões de habitantes enxotados para o exílio. Um crime de guerra a somar a outros, praticados na Palestina invadida e ocupada à força de armas e sangue, no Afeganistão, no Kosovo, no Darfur, no Zaire (Congo)… Crimes colossais sem responsáveis, sem julgamentos, para esquecer.
Nos ecrãs das televisões do mundo dito «civilizado» e nos nossos olhos ficam apenas as imagens da violência exercida por muçulmanos de esperança completamente perdida, os designados «terroristas». Armaram-se e lutaram às cegas com o sacrifício supremo da própria vida e ficam como bárbaros fanáticos para quantos, amolecidos de carácter, seriam incapazes de bem menor sacrifício. E quem lembra onde estão a morar os piores terroristas, as maiores ameaças da paz e da segurança?
A cobertura mediática de tais acontecimentos limpa cuidadosamente as nossas consciências. Tenta abafar-nos e mesmo anestesiar-nos os cérebros sob a torrente diária do que devemos conhecer e como devemos entender. Quer atordoar-nos com discursos de direitos humanos, liberdade e democracia, para deixar a rir de todos os direitos universais e à solta quem não sabe o que isso é. Até quando?!

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A ética da desregulação

Perde vigor a ética nos negócios, aumenta a desconfiança e mesmo o descalabro nas relações sociais. É uma triste verdade, o ambiente de crise desenvolve-se na cama nefasta destas circunstâncias. Importa, porém, notar a particular influência que exercem no descalabro geral as acções e declarações de políticos - os tais que declaram o preto branco e o quadrado redondo conforme lhes convém.
Diversas empresas transformam-se aqui e ali em armas apontadas ao peito dos que com elas lidam, trabalhadores e fornecedores. Os donos e uns quantos administrativos fiéis tornaram-se nómadas predadores, saltam e armam a tenda onde há colheita a fazer, atrás deixando terra queimada, salários em atraso, impostos por pagar, créditos bancários malparados. Acudiram antes a diversos subsídios e apoios públicos, digeriram-nos à pressa enquanto reproduziam a cassete contra o Estado previdência (pois o querem em exclusivo), e abalam em triunfo.
Confiar, hoje, é arriscado e problemático. A palavra honrada, a seriedade das intenções, a rectidão do carácter tornaram-se não a regra, mas a excepção. E foi assim que se implantou o paradigma de uma desregulação no interior das famílias e das sociedades, à semelhança da desregulação global que alterou as relações internacionais.
A metáfora que melhor exprime o descalabro ético do nosso tempo estará talvez no automóveis que vemos parados em fila dupla, com os quatro piscas ligados, a estrangular o trânsito. Quem os conduz age como se os piscas os habilitem a largar o carro onde calha. Colocam-se desse modo na vanguarda marcante, não na exemplar.
Ainda assim, surgem comportamentos tão abusivos e descarados, ou tão impudicos e desonestos, que aos visados, sejam meros clientes, apanhados de surpresa, só resta estarrecer. Comportamentos não de indivíduos, sim de empresas poderosas que têm no topo figuras milionárias. Empresas que andam apontadas por atafulharem os tribunais com processos de cobrança coerciva por dívidas no sector das telecomunicações.
Cito dois casos. O primeiro remonta à data em que cancelei o serviço telefónico da rede fixa. A derradeira factura da PT registou um saldo a meu favor de uns milhares de escudos, levei o documento a uma loja da empresa para o reembolso e foi-me dito que não havia quem me pagasse (as máquinas são mais correctas nas contas do que as pessoas)!
Todavia, a PT reivindicou um pagamento por uma alegada «portabilidade» do meu número de telefone – que afinal não era meu! Esperava-me pior. Aderi à Home da Optimus, o aparelho ou a rede tinha graves deficiências e, sem assistência pós venda, após meses a aturar os chicos espertos da loja Home e de contactos com a sede da empresa, desisti formalmente com saldo a meu favor: uns 48 euros. Três anos depois recebo carta de advogado com ameaça de tribunal - o meu saldo transformara-se em dívida! Fui lá provar os factos, ouvi boas promessas e desculpas, tornei a receber carta para reembolso do IVA pela empresa e… mais nada. Mas a empresa obrigou-me a pagar segunda «portabilidade»! Poderei dizer agora que o número é meu?!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Junto sinais e leio...

Pertenço ao tempo em que uma empresa, onde surgia, era tida em geral consideração. Produzia, gerava riqueza, expandia os empregos. Digo que pertenço a tal tempo mas deveria dizer também que nessa pertença me honro.
Declaro-me fora do tempo presente, pois «no meu tempo» um empresário dava a cara à empresa de maneira que reciprocamente se prestigiavam. Foi o tempo do «progresso»! Hoje as empresas acima dos tamanhos pequeno ou médio não têm a cara dos donos à vista e, quanto à dimensão social que realmente a empresa assume ao surgir, estamos conversados. E dado que bastante produção industrial deixou de verter ganhos rápidos e chorudos, os antigos patrões (termo este derivado de «padrão», exemplo) agruparam-se, enriquecidos, em sociedades financeiras de investimentos e especializaram-se, já não em produzir, mas em especular.
A especulação pode não produzir nada de concreto e, todavia, gerar lucros vultosos que, com um pouco de habilidade, até ficam – louvado seja deus! - isentos de impostos. Isto é sabido, estamos a rever a matéria. Mas percorreu-me a espinha um calafrio ao ler no papel, uma e outra vez, o trecho: «Verifica-se, com matéria de facto, que o sistema bancário privado é estruturalmente predador e desonesto – não serve aos interesses das sociedades em que estão implantados, serve-se delas.»
Quem conheceu o «outro» tempo, em que os banqueiros até resistiam a pôr anúncios nos jornais, vê publicidade enganosa, espanta-se e não acredita. Um depositante, tratado naquele tempo como um esmoler pelo mendigo, lê hoje que o que os bancos querem é apanhar-lhe o dinheiro, espanta-se e não acredita. Paga os cheques, o cartão e as comissões, receia o custo das idas ao MB, ouve anunciar que os pensionistas mais pobres têm de pagar «manutenção de conta», espanta-se e não acredita.
O sistema financeiro de vanguarda desertou do terreno da economia real, que é por definição o da empresa clássica, para se concentrar no investimento puramente especulativo. Produzir bens reais úteis interessa cada vez menos, jogar na bolsa ou investir especulativamente (comprando algures empresas em risco, mandando administrá-las a chicote e depois abandonando-as exauridas) interessa cada vez mais. A dita «economia de casino» habita em offshores e vai estendendo os tentáculos.
Apontar, tão ao gosto de certos patrões, os níveis baixos da produtividade nacional (que aparece num quarto lugar, entre os piores), não ilude o facto de que os trabalhadores fazem o que lhes mandam. Sublinha, portanto, a escassa competência com que as empresas são administradas e não outra coisa. Mas se é verdade o que consta por aí, que já temos em Portugal uns quinze mil milionários, juntemos e interpretemos os sinais da realidade…
Talvez isso tenha a ver, por algum lado, com os níveis da desigualdade de rendimentos em Portugal, quase a rivalizar com os americanos. Pensemos então no que regista o «Finantial Times» (19-05-2008), citando um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento publicado em 2005: cinquenta das maiores fortunas do mundo ganhavam mais do que os 416 milhões de pessoas mais pobres.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Faltam termos de comparação

Mulheres, sobretudo jovens, multiplicam-se nos empregos. A percentagem das portuguesas empregadas é por isso das mais altas no quadro europeu. Conhecemos o facto há longos anos e pouco ou nada parece notar-se. Todavia, traduzindo embora uma evolução positiva (liberta as mulheres da sujeição económica a pais ou maridos), o facto introduziu graves consequências e logo esta: contribuiu também, como efeito perverso, para forçar no país um abaixamento geral dos salários.
Ocorre-me de novo esta ideia em contacto com a directora de uma instituição privada de solidariedade social para idosos. É jovem, licenciada em Serviço Social, em início de carreira. Terá entre 25-30 anos e, muito provavelmente, ainda espera companheiro.
A licenciatura, como qualquer curso tecnocrático, serviu-lhe para iniciar a vida activa. Repete quatro ou cinco vezes a mesma frase, convicta e firme no seu posto como se já tivesse atravessado todas as dúvidas e atingido conclusões definitivas. A formação em Serviço Social, e porventura em geriatria, embrulha em nicles uma obra fundamental de Michel Foucault como «Vigiar e Punir», que lhe cito, e põe-me em dúvidas: estará ela habilitada a compreender um idoso?
Realmente, a menina teima comigo. Pensa que um idoso perde a razão apenas porque, atenção, acumulou anos vividos - fica imputável e sem ter consciência disso! Não um ou outro idoso atingido qualquer degenerescência, sim em regra!
A circunstância impediu a controvérsia que se requeria, mas custou-me. Gostaria que a menina me dissesse em que idade certa, na sua opinião, um idoso perde a lucidez das suas faculdades mentais. E neste caso, se um idoso não é capaz de sentir essa perda quando nele se inicia, como poderia ela garantir a si própria, apesar de jovem, que não tem agora a mente perturbada?!
Eis como a menina avaliava o idoso que tinha pela frente - menina directora de uma IPSS privada. E eis como progride no terreno a mentalidade tecnocrática, isto é, desumanizada, que manda para a reforma pessoas com cinquenta anos de idade e pede que trabalhem até aos setenta as que estão no activo…
Passou o tempo em que os velhos foram ouvidos e respeitados. A supremacia do «novo», do «jovem», decalca o modelo económico do consumismo que é o non plus ultra da mentalidade tecnocrática que tudo mercantiliza. Um hóspede idoso de IPSS transforma-se à entrada em «cliente», conforme esta menina directora insiste em o designar, ignorando decerto que a semântica do termo alude a freguês e a lucro, quando uma IPSS não pode ter finalidade lucrativa legítima.
Saio da reunião entristecido. Aquela menina tão firme porque atingiu conclusões definitivas, que decerto não leu Foucault e vai lançada na carreira, está privada dos termos de comparação que eu, por via da idade, tenho e utilizo. Cresceu neste ambiente modelado pelo capitalismo selvagem, vulgo neoliberalismo, que tudo coisifica e, ingenuamente, supõe que o mundo foi sempre assim inóspito, onde uma pessoa nasce para consumir e dar lucro a quem manda.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O cronista cede o lugar

Nas circulações do correio electrónico cruzam-se mensagens reencaminhadas com anexos os mais diversos. Chegou-me agora um, apenas com texto, que me surpreendeu. Decidi inactivar as mãos. Hoje o cronista cede o lugar a quem, no anonimato, escreve assim. Omito apenas trechos iniciais do texto intitulado País:

«Um jovem de 18 anos recebe 200 euros do Estado para não trabalhar; um idoso recebe de reforma 236 depois de toda uma vida do trabalho.
O mesmo fisco que penhora indevidamente o salário de um trabalhador demora três anos a corrigir o erro.
Um professor é sovado por um aluno e o Governo diz que a culpa é das causas sociais.
O café da esquina fechou porque não tinha wc para homens, mulheres e empregados. No Fórum Montijo a wc da Pizza Hut fica a 100 mts e não tem lava-mãos.
O Governo incentiva as pessoas a procurarem energias alternativas e depois multa quem coloca óleo vegetal nos carros porque não paga imposto sobre produtos petrolíferos.
Nas prisões distribuem gratuitamente seringas por causa do HIV, mas é proibido consumir droga nas prisões!
Um jovem de 14 anos que mata um adulto não tem idade para ir a tribunal. Um jovem de 15 leva um chapada do pai por ter roubado dinheiro para droga e é violência doméstica!
Uma família a quem a casa ruiu e sem dinheiro para comprar outra, o Estado não tem dinheiro para fazer uma nova, vai viver conforme pode. Seis presos que mataram e violaram idosos vivem numa cela de quatro sem wc privado, não estão a viver condignamente e a associação de Direitos Humanos faz queixa ao Tribunal Europeu.
Militares que combateram em África a mando do Governo da época na defesa de território nacional não têm reconhecida nenhuma causa ou direito de guerra, mas o primeiro-ministro elogia as tropas que estão em defesa da pátria no Kosovo, Afeganistão e Iraque.
Começas a descontar em Janeiro o IRS e só vais receber o excesso em Agosto do ano que vem; não pagas às Finanças a tempo e passado um dia já estás a pagar juros.
Fechas a janela da tua varanda e estás a fazer uma obra ilegal; constrói-se um bairro de lata e ninguém vê.
Se o teu filho não tem cabeça para a escola e com 14 anos o pões a trabalhar contigo num oficio respeitável, é exploração do trabalho infantil; se és artista e o teu filho com sete anos participa em gravações de telenovelas 8 horas por dia ou mais, a criança tem muito talento, sai ao pai ou à mãe!
Numa farmácia pagas 0.50€ por uma seringa que se usa para dar um medicamento a uma criança. Se fosse drogada, não pagava nada!
E agora?! Sim, eu sei, vais voltar a olhar para o teu umbigo e dizer que tudo está bem; se disseres que está mal, que pensas fazer?! Deixar que os outros resolvam por ti?! Então mereces tudo isto em dobro.
Mexe-te, grita, mostra a tua indignação e luta. Ou em breve poderás estar tu e os teus dentro destas estatísticas e o teu vizinho fará como tu: olhará para o lado.»

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Não há mais Histórias da Literatura

Viver com os livros, não apenas tê-los em casa ou abri-los por desfastio. Amar a Literatura - feita de estreme poesia - por nela sentir o latejar da vida toda. Há gente assim, aberta para o mundo das Letras como para um outro céu azul recamado de estrelas fulgentes.
Essa gente habituou-se às Histórias da Literatura. Cada país, mais do que cada língua, não as dispensou no curso do tempo. Periodicamente, um autor habilitado empreendia a tarefa. Em Portugal, os últimos foram, que me lembre, Albino Forjaz de Sampaio, Fidelino de Figueiredo, António José Saraiva e Oscar Lopes.
As suas «Histórias» evocam o dealbar da nossa Literatura, as correntes e os movimentos estéticos-literários que se seguiram, os autores em evidência em cada período, as singularidades e os valores intrínsecos assumidos por cada mutação sociocultural. De certo modo, ao arrumarem por categorias os grupos literários e as individualidades, os historiadores como que deixavam desenhado no terreno os caminhos seguidos pela criação literária. Ao distinguir ou a separar, uniam e tornavam coerente o quadro da evolução nacional.
Recuados para além da linha da recepção (que se pronuncia sobre os livros recém-publicados), os historiadores podiam estabelecer com maior segurança as suas perspectivas críticas. O mérito dessas obras contribuía para alicerçar autênticos prestígios e elevar em glória uma obra e um nome. O público leitor era informado.
Mas há quantos anos não se vê aparecer uma nova História da Literatura Portuguesa? Conclusão: a maré não vai boa para este género historiográfico. Alíás, ter-se-á extinguido mesmo o lugar de onde surgia. Apenas parece restar espaço para uma sociologia dos consumos.
De facto, terminaram as escolas, os movimentos de vanguarda, as correntes regidas por uma determinada consigna. Deixou, portanto, de existir na realidade aquela substância que servia ao historiógrafo para distinguir um de outro período. Desde há uns trinta anos, aproximadamente, há, sim, apenas uma literatura de autores individuais não assimiláveis entre si.
Viável, nesta situação, é a elaboração de dicionários de autores, obras estas que têm vindo a sair com alguma frequência. A obra de Oscar Lopes e António José Saraiva apenas a vejo em reedição, por sinal cada vez mais rara. O público leitor arreda-se de especificações críticas que foram apaixonantes: o neo-realismo, o presencismo psicologista, o visualismo do novo romance, o realismo naturalista, o parnasianismo…
Ocorreu realmente uma mudança decisiva. Os livros banalizaram-se, transformados que foram em objectos de comércio. Publicam-se agora num mês tantos títulos como antes na roda de um ano. E já quase ninguém faz crítica regular nos jornais. Mas é possível agora ganhar bom dinheiro com a literatura na condição de se ganhar o mercado e, para isso, basta ter o rosto nos ecrãs e nas páginas da imprensa. Proliferam, portanto, os autores que escrevem para vender, de mão guiada pelo manual da «escrita criativa», e que os leitores consomem como se não houvesse mais nada!

domingo, 9 de novembro de 2008

Um soco no estômago

E foi assim: inesperado e violento. Veio o golpe de um congresso de panificadores hoje reunido, onde se anunciou o encerramento de duas mil padarias e o despedimento de uns dez mil empregados. Escasseia, no país, o pão!
O pãozinho, alimento elementar e por isso também simbólico! O pãozinho, que é a última coisa a faltar à mesa dos mais pobres! A refeição completa dos desgraçados sem conduto, adquirido com o dinheiro último que reste no bolso!
Ontem, na minha terra natal (algo suburbana mas ainda aldeã), já me deixara estarrecido a senhora do atendimento. Queixou-se de que vendia menos pão. A viatura da distribuição saía menos e ao balcão acudiam poucos fregueses a comprar menos, quando antes deitavam ao lixo pão de sobra. E a senhora contou: vendo o gesto, ia tirar o pão velho dos contentores e dava-o às suas galinhas, mas agora não há mais sobras…
Pois sim, o pão ficou mais caro recentemente e a carestia tornou-se geral no meio da crise declarada. Mas o pão, senhores?! O pãozinho que só as bocas famélicas sabem de sabor tão doce e aromático?!
É preciso ânimo para reconhecer: onde escasseia o pão, há fome.
Fome!
Os panificadores em congresso, querendo salvar o negócio, pediram medidas de apoio ao Governo. Têm voz. Mas estão a fechar as padarias, a multiplicar-se os desempregados, e aí temos em crescendo os sem-abrigo, a multidão a engrossar às portas humanitárias das sopas quentes. E estes muitos não têm voz, o Governo sabe-o: ocupados como andam a procurar nos restos a sobrevivência, nem ouvem já quem fala no alto.
Todavia, é neste ponto que se ilumina e decide a relação que cada governante e cada cidadão concreto estabelece de facto com cada outro ser humano. Como se, por exemplo, uma pessoa é ou não capaz de mastigar a sua comida com indiferença vendo ao lado alguém a rilhar fome. Acresce que a pessoa abastecida com comida até pode sentir-se em grande unção religiosa.
Na verdade, há quem, rodeado por muralhas de egoísmo, não se importe com o Outro. E pode erguer as mãos, bater no peito e dar esmola se possível para obras pias. Mas, e os governantes, senhores?! Os governantes têm por obrigação funcional prover de segurança a comunidade constituída por todos.
Ora, nesta comunidade, estão a alastrar à vista negras manchas de fome. A segurança alimentar antecipa todas as outras: da saúde, da habitação, etc. Que resposta dão os governantes à fome que se expande?
Para quem queira ver, a resposta é clara. As desigualdades são cada vez mais gritantes e mesmo terríveis. Os problemas sociais agravam-se dramaticamente. Uma parte da sociedade parece em condições de vir a perecer, condenada do alto.
Civilização, isto? Coesão nacional, isto? A pessoa com fibra humana, o simples cidadão, destaca-se nesta situação do conjunto de quantos vão na onda amontoando riqueza ou consumindo freneticamente sem olhar para o lado.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Estudar economia?

A crise financeira desatou no mundo uma convulsão cataclísmica. Se estamos atentos, bastam-nos as luzes permitidas por uma simples cultura geral para sentirmos no escuro a desabar a hecatombe. E também para percebermos como governantes e outros profissionais da política preferem desfocar as evidências a elaborar as devidas respostas.
Fica demonstrada, de uma vez por todas, a irracionalidade do sistema capitalista. O sistema não pode autocontrolar-se, simplesmente porque não é capaz, pelo que precisa indispensavelmente de intervenções reguladoras dos Estados numa vigilância aturada e constante. De facto, o sistema detesta a regulação estatal, fazendo sua a reivindicação de «menos Estado», quando, afinal, é bem preciso o contrário, «mais (e forte) Estado».
Demonstrada fica, igualmente, a evolução recente que trouxe o sistema até à actualidade. A crise financeira deixa à vista não apenas os jogos especulativos do capitalismo global, ávido predador à solta; deixa ver também a rapidez com que os diversos governos injectam milhares de milhões para salvar da falência bancos, sociedades de investimentos, seguradoras. Esses governos garantem desse modo que as mesmas oligarquias predadoras continuarão de saúde (assim revigorada) e com forças para mais.
Proteger e premiar criminosos será chocante? Sim, será chocante para os povos que combatem e morrem nas guerras que alguns outros desencadeiam, povos habituados a sofrer as penúrias da vida, sobrevivendo à desvalorização dos salários, à subida geral dos preços, à penúria, ao desemprego… Mas, veja-se: quem viaja com os governos em visitas oficiais não são os pequenos e médios empresários, não é o povo miúdo (a lembrar a frase célebre: o que interessa à General Motors interessa aos Estados Unidos).
Na verdade, colossais recursos financeiros têm sido desviados para a especulação, actividade realmente nada produtiva. Pode gerar lucros substanciais em proveito de privados e nada, ou quase nada, de valor económico socialmente útil. Foi por este processo, tanto quanto sei, que se ergueu a bolha imobiliária nos Estados Unidos.
Correndo para lucros fáceis, os financeiros enfraquecem as economias nacionais, quando antes investiam nas empresas de produção real. Por este caminho, as empresas não atendem ao papel social que lhes cumpre. Tem havido casos de extrema voracidade em que empresas recém-adquiridas se viraram contra os seus trabalhadores.
Esta transformação do capitalismo de vanguarda, aliada um tanto às off-shores e às deslocalizações, parece ter dado ao sistema uma nova fisionomia. Ainda é cedo para tal avaliação, que provirá naturalmente dos especialistas. Mas até um leigo atento, com a sua cultura geral, pode sentir quanta confiança merece hoje a apregoada «ciência» económico-financeira. Todavia, a irracionalidade do capitalismo existe tanto para especialistas como para leigos. Talvez isto mesmo tenha levado José Silva Lopes, ao sair do Montepio, a anunciar com fino humor que ia finalmente «estudar economia»… depois de presidir ao Banco de Portugal, etc., e atingir os 75…

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A conexão dos aspectos

Na minha cidade vejo multiplicarem-se pelas ruas os prédios com cartazes que anunciam: vende-se, trespassa-se, aluga-se, vende-se ou aluga-se. Passa o tempo, a luz solar esmaece a cor das letras, as chuvas enrugam e escondem algarismos dos números de telefone… Por vezes, a idade já é muita e os prédios substituem portas e janelas apodrecidas por tijolos que emparedam toda a esperança.
Cada uma destas propriedades em venda, trespasse ou aluguer teve dono abonado com o respectivo rendimento. Hoje, os valores venais dessas propriedades estão a faltar aos seus donos, aflitos porque precisam desses valores para equilibrar a vida e não há quem compre, alugue ou negoceie um trespasse. Quem percorre as ruas e calcula por alto, somará sem dúvida muitas centenas de milhões só na minha cidade… e esses muitos milhões, agora em falta angustiosa, desapareceram queimados numa fogueira invisível.
Vale a pena ver as coisas de olhos abertos. Assim se chega à fábula de Pedro Cem que já teve e agora não tem. De facto, os proprietários sem candidatos a negócio mostram nos cartazes expostos o que possuíam e deixaram de poder possuir (por dívidas contraídas, reveses familiares).
As propriedades continuam a existir, é certo. Se o mercado «esfriou», nem por isso deixaram de ter valor. Mas agora fazem-se poucas transacções de imobiliário, pois se os vendedores estão de recursos financeiros exaustos, também os eventuais compradores não têm melhor sorte.
A maravilha é que estas propriedades com cartazes à vista vão sempre arranjar algures um dono, seja ele quem for. Como o dinheiro em circulação, os bens imóveis concentram-se mudando de mãos. Estão esses outros donos a tardar e a tornar o mercado «frio» porque isto se passa no interior das classes médias (tão descapitalizadas quanto se sabe), enquanto, ao lado, nos estratos médio-alto da população, se negoceiam como pão quente casas novas de luxo e alto preço.
A paisagem da crise vai-se tornando mais triste e deprimente. Multiplicam-se os automóveis com letreiros de «Facilita-se» [o pagamento] apelando à venda. Fecham lojas, restaurantes, cafés: escasseia-lhes a clientela. Vou contando as desistências pelas minhas ruas (lembram-me, não sei como, dentes caídos em boca repentinamente envelhecida).
Há semanas correu os taipais uma loja de artigos usados. Fechou à míngua derradeira. Não apareciam mais clientes para compra-venda depois do espaço dos armazéns se reduzir a metade e parar o negócio dos ouros velhos e pratas após um assalto que levou tudo. Fechou mesmo o quiosque dos jornais meu vizinho, o dono já não tinha receita para cobrir as despesas.
Quem ergue o olhar do seu canto para o país, ouve notícias não menos deprimentes: só uns 60% dos desempregados recebem subsídio; os novos pobres (necessitados de assistência) são gente com emprego; há pessoas, homens e mulheres, que trabalham, não têm abrigo… Alegre-se, porém, o pagode: já andam a decorar as ruas com galas de Natal!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Em torno do populismo

Os políticos e os seus comentadores de serviço usam frequentemente um termo que lhes serve para adjectivarem outros políticos e políticas. Falam de populistas e de populismos. Quem os ouve fica em dúvidas sobre o que as expressões querem dizer e, no fim de contas, que valor têm as duas categorias estabelecidas entre os que são e não são… populistas.
Dúvidas perfeitamente aceitáveis. Trata-se de um vocábulo que circula e se implanta, codificado com um pretenso alcance condenatório. Quer valer como uma mácula óbvia, que no entanto nos deixa sem saber onde essa mácula se esconde…
Rotular, por exemplo, Hugo Chávez de populista, o que significará ao certo no plano político? Será o líder bolivariano mais populista do que, ainda por exemplo, Luís Lula da Silva ou Sarkosy, Bush ou José Sócrates? O que confere a um político tal qualidade?
Vejamos: é qualidade malsã, detestada e detestável, abusiva e quase criminosa? Será por eles falarem abundantemente na televisão com recursos eventuais de exímios comunicadores? O discurso em voga vai ao ponto de sugerir que um lider populista tem estofo ditatorial e que políticas populistas são expressão de regime opressivo execrável!
Mas uma pessoa, tomada pelas dúvidas, vai ao dicionário para confirmar o que se deve entender por populismo, populista e popular. Folheia o tira-teimas mais usual e, sucessivamente, lê: simpatia pelo povo; pessoa que é amiga do povo; respeitante ou pertencente ao povo; democrático; promovido pelo povo…
Estranheza! Então um político eleito democraticamente pode ser declarado populista? Está dentro do regime democrático republicano, que é o regime do povo, pelo povo e para o povo, e esse regime cobre-se de populismo? Não terá o regime republicano democrático de trabalhar e de servir naturalmente para isso?!
Quando Sócrates anuncia ao país, por exemplo, a construção de aviões em Beja, de fábrica de automóveis eléctricos ou de computadores portáteis para as escolas portuguesas, o que faz? E quando descreve com ridente optimismo cada situação nacional preocupante ou problemática? Bem sabemos que Sócrates está longe de ser populista, seguir políticas populistas…
Um político, se for caso disso, será antes demagógico, show man, manipulador ou mesmo propagandista de feira. Em todo o caso, tem por obrigação primeira agir em concordância com o preceito republicano: ser amigo do povo, demonstrar (com actos de bom governo) simpatia pelo povo, respeitar a massa popular. Como democrata autêntico e consequente, aspirará a receber, com satisfação e orgulho, o rótulo de «populista» que os deformadores da opinião andam a distorcer.
O esplendor de todo o político honesto está na capacidade «populista» de que queira e possa dar provas! Quem anda por aí a denegrir o significado do vocábulo demonstra quanto se afasta de reivindicar um governo honestamente ao serviço do povo, isto é, da esmagadora maioria da população nacional.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

No barco das mulheres

Haverá sempre numa mulher algo de irredutivelmente misterioso. Para um homem atento, é claro. Isso tem a ver com o sexo, pois é o sexo que lhe outorga a condição feminina.
O amigo que me falava nestes termos é homem atento. E comentador de voo largo. Estivemos uns anos sem nos vermos e ali estava ele comigo, por cima de outro divórcio, a palrar no café a meio da tarde quente. O meu trejeito de dúvida fê-lo prosseguir:
Talvez o mistério da mulher resulte ou se engendre nela, desde cedo, em torno do sexo. Tem-no no corpo, que a mulher vai desejando belo, atraente, sedutor ao máximo. Todavia, à medida que a sexualidade lhe amadurece o corpo, a mulher vai deslocando, digamos escondendo na fundura dos seus instintos, ou afundando no seu ser, a vibração carnal. Transfere a sexualidade nomeadamente para roupas e arranjos de cosmética. Repara: a mulher pode ter na vagina o seu ponto G mas isso não a impede de ter outros imensos pontos eróticos a explorar no corpo, enquanto o homem se concentra no pénis e pouco mais.
Calando, mas ouvindo-o atentamente para lhe registar o curioso essencial das ideias, eu olhava para o meu amigo de sorriso suspenso. Ficou picado:
Por aqui começam a ganhar forma as nossas diferenças. É esse o “segredo” que a mulher tem de nascença e que transporta consigo e que, por exemplo, a torna tão cativa ou mesmo dependente de galanteios, luxos, exibições mundanas ou brilhos sociais. Totta mulier in utero!
Ena, tanta teoria já puxa latinório?! – gracejei. Mas ele ia lançado:
Até certo ponto, é por aí que se trava a guerra dos sexos. A pior ofensa que um homem pode fazer a uma mulher será talvez querê-la “apenas” pelo sexo, meramente na percepção dela. Isso resulta de a mulher se pretender na realidade atraente pelo sexo mas como que diluindo-o pelo corpo, o corpo que é “Ela”, ser único entre todas as outras mulheres. Quer dizer, a mulher sabe que vale pelo corpo que tem mas não tolera que a tomem apenas pelo corpo. Quer valer mais: ser tomada pela Mulher que julga ser. Porque uma mulher se julga… única. Eis porque a traição suprema que uma pode fazer a outra é desviar-lhe o seu homem para a própria cama dela. Outra experiência: pergunte o homem a cada mulher de um grupo de amigas que defeitos tem cada uma delas e ficará bem informado. Não há melhores críticos das mulheres do que as próprias mulheres. Se pudessem, eliminavam a concorrência e ficava a última a reinar sozinha!
Metes as mulheres todas nesse teu barco? Generalizas demais!
Queres passar-me a rasteira? Não, isto não se aplica a “todas” as mulheres por igual. Digo que se aplica mais ou menos a cada mulher segundo teores tão variáveis quão a variedade humana. Lembra-te, o ouro também existe em imensos terrenos mas só em alguns sítios se encontra concentrado em filão.
Enfim, meu caro – rematei –, tantas ideias sobre as mulheres e não tens agora mulher nenhuma! Esgotaste o repertório? Falemos então de cerveja e tremoços…

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O incêndio da memória

Não apaguem a memória!, gritam umas quantas pessoas em clamores por vezes indignados. São pessoas que têm um passado de cidadania e que desejam preservá-lo, porque nesse passado ficou vida sofrida e bom ensinamento. Querem evitar erros de outrora no presente e no futuro, mas os seus gritos soam pouco por entre os decibéis que poluem o ambiente.
Na verdade, o tempo não corre de feição para a conservação das memórias colectivas. A massificação (corporização de uma tirania a exercer-se) parece gerar indivíduos unidimensionais com um lastro mínimo de recordações para além das marcas dos produtos que devem consumir. Escândalos da política ou compromissos eleitorais recentes, por exemplo, ficam substituídos com rapidez por novos compromissos ou escândalos e caem depressa no esquecimento.
Admira pouco, assim, a irrelevância que o passado assume a favor de um presente a borbulhar à superfície dos dias e cada vez mais alienado e esquizofrénico. Dançam as multidões a tarantela e não sabem de onde lhes vem a música. Arredam-se da história, que é o repositório típico do passado, lá onde o nosso presente ganha alguma perspectiva, claridade e sentido.
A memória, individual ou colectiva, é guarida da história. Quem grita para que não a apaguem enfrenta o incêndio que a devora. O conhecimento da história, e mesmo do passado recente, hoje, satisfaz-se com as ficções dos romancistas.
As instituições de formação cultural não parecem contrariar a mentalidade dita pós-moderna, tecnocrática e neo-liberal que deita foguetes à globalização: da alta finança e da economia. Isso abre o terreno ao avanço de uma desumanização que desvaloriza as pessoas e as deixa perto da categoria de objectos substituíveis. O economicismo das políticas em voga materializa as relações sociais e a condição humana degrada-se como migalha resídual que fica porque… não houve alternativa!
Estamos no tempo em que diminuem as subvenções do Estado à Escola e nesse sector se projectam mais privatizações. Deseja-se uma Universidade «empresarial» e lança-se uma comercialização do ensino superior. Os cursos são já designados «produtos» e os estudantes, «clientes»…
As Letras – linguística, filosofia, psicologia, história, etc. – definham no seu lugar clássico. As consequências desastrosas que daí advém costumam ser descritas neste ponto como um atraso da cultura perante os progressos técnicos e tecnológicos. Mas chegaremos ao busílis notando a aversão que continua a banir quase sistematicamente as humanidades das formações culturais.
Todavia, as humanidades continuam a valer sem dúvida mais do que o estudo do latim e do grego e das respectivas literaturas. Recordam o humanismo que irradiou da Itália para a Europa nos séculos XIV-XVI. Recordam mais: que o homem é o valor supremo e que «através das letras se torna o homem mais humano». Disto estamos todos a carecer até à aflição e ao desespero.

sábado, 11 de outubro de 2008

Como falar?

Enche-se a linguagem corrente de eufemismos. Parece que as pessoas já têm receio de abrir a boca para dar o justo nome às coisas, chamando ao pão, pão e ao queijo, queijo. Anda no ar uma espécie de fuligem maligna que retém debaixo da língua o que devia saltar cá para fora.
Naturalmente, o fenómeno resulta do ambiente social alagado por uma cascata de provações e severos constrangimentos. A população anda deprimida, amedrontada, inquieta, infeliz. É o desemprego, a vigilância e a repressão nos locais de trabalho, a insegurança das pessoas, vidas e bens, o amanhã sem futuro que apeteça.
Assim encolhidas e esmagadas, as pessoas guardam-se de si próprias e dos outros. Os eufemismos são modos de falar à socapa, tal como o falar por subentendidos. Ou por abreviatura corriqueira: «Está tudo?» (bem contigo/vocês?), perguntam por cortesia e nem ouvem a resposta.
Os vendedores informam-nos que deixaram de ter o artigo que pretendemos, foi «descontinuado», não que a fábrica deixou de o produzir. Outra empresa foi «deslocalizada», não que se mudou para país com mão-de-obra mais incondicional e baratinha. Um cego não gosta de ser cego, sequer invisual, gostará de ser «amblíope», tal como um negro, ou preto, prefere ser considerado «de cor», e a tarefeira doméstica passou a ser «empregada».
As palavras ficaram com gumes tão sensíveis que, em qualquer situação de emergência e descalabro, o termo consensual que a descreve fica posto em cifra na frase: «É complicado!» Tanta vezes esta frase se repete que serve para dizer tudo sem mais adiantar.
E já podem desejar-nos um generoso fim-de-semana à quarta-feira, ou atenderem-nos ao balcão com um amável «Posso ajudar?», quando sabemos que quem atende o que quer é vender, não ajudar.
As expressões ficam veladas e os gumes do discurso são contidos como outrora, no tempo da Censura, quando escrevíamos, ou falávamos olhando atentamente em torno, a rastrear pides. Fala-se querendo manifestar o que afinal se esconde. O stress está aí para rotular comodamente todos os casos de perturbação da saúde mental ou de esgotamento.
Mas tanto eufemismo aparece compensado pelo seu contrário. A linguagem corrente torna-se aqui e ali paroxística ou hiperbólica, a denunciar o mesmo fenómeno de raiz. A senhora fala da sua «empresa» e, vai-se a ver, é uma simples loja de arranjos de costura; o auto-apresentado «industrial» é dono de uma pequena oficina de reparação auto; o alegado «empresário hoteleiro» tem um café onde só cabem seis mesas, anunciado cá fora como pastelaria e salão de chá… E quem se dispõe, uma vez na vida, a ir à enciclopédia para copiar uma informação, é capaz de reclamar que fez, não uma vulgar consulta, mas uma bela «investigação»…
Nos modelos da linguagem corrente pode, assim, ver-se uma imagem gráfica do tecido de perturbações que envolvem a população e a mergulham na infelicidade.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Língua: de mal a pior

Se a língua, esta nossa língua materna, tem um tronco como os pinheiros, então esse tronco, formado pelo seu léxico e a sua norma, anda a ser atacado por uma praga de nemátodos. Ameaça corroer-lhe o tronco e abatê-la mas, ao que se vê, isso que importa? Uns caturrões típicos são os únicos que parecem ralar-se, vendo na língua em decadência a marca maior que resta do génio português.
Eu sou um deles, aqui o confesso à puridade. Não me conformo com as tropelias que oiço na comunicação social: a invasão dos anglicismos depois da gíria bebida das telenovelas brasileiras, os pontapés na gramática. Assim, a língua vai de mal a pior... em Portugal. Anda na boca do povo que, desde Quinhentos soube transformá-la, pela mão de Camões e logo por uma plêiade de escritores, numa verdadeira língua de cultura. Mas não é só o povo que agride a norma (e tem desculpa, pode não saber mais), também os intelectuais.
Recentemente, um artigo de opinião inserido no «Diário Económico» (30 de Setº, pág. 53), de autoria de Manuel Gonçalves da Silva, professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNL, chamou à liça o tema «Linguagem e rigor científico». Sublinhando que «palavras e gramática são essenciais à concepção e à transmissão do pensamento», observou: «A escrita atabalhoada, sem respeitar o significado das palavras, impede o desenvolvimento e a divulgação de conhecimentos científicos. (…) As Universidades recrutam docentes sem provas pedagógicas e as togas deixam nua muita ignorância que degrada a Língua e impõe um medíocre ensino às ciências e engenharia.»
Gonçalves da Silva designou quem «escreve teses em inglês para júris, escolas e alunos» caindo em deslizes anedóticos. Consta, por sinal, que há por aí mestre ou doutorado em Letras capaz de errar, não na língua inglesa, sim na sua própria língua materna. De licenciados nem se fala porque, se tal é coisa verídica, é obra!
Nesta moldura, avultou o que o ministro da Cultura, Pinto Ribeiro, anunciou em Paris, nos Estados Gerais do Multilinguísmo: que ia «refundar» o Instituto Camões e reformular o ensino da língua portuguesa no estrangeiro, pois, afirmou o ministro, muitos alunos «não querem o Português literário». Foi claro: «Está previsto que se refunde o Instituto Camões. O que significa prestar uma especial atenção a todos estes curriculos do ensino do Português, que vão ter que ter em consideração que há muita gente que não quer Português literário.» (Ver aqui)
Contra este empobrecimento da nossa língua literária se ergueu Osvaldo Manuel Silvestre, professor da Faculdade de Letras coimbrã. Comentou: «como entender, se não sob suspeita, uma afirmação como a de que ‘há muita gente que não quer Português literário’? Fez o ministro sondagens e inquéritos para o saber de ciência tão certa? Sabe, em função deles, que as pessoas preferem o ‘português mediático’ ou o ‘português futebolístico’ ou o ‘português de Margarida Rebelo Pinto’ ao ‘português literário’? Ou será que se refere à sociologia selvagem produzida por coisas como ‘Morangos com Açúcar’?» (Aqui)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Eis o mundo perigoso

A crise financeira que se declarou com epicentro na Wall Street e ondas globais em crescendo expansivo na Europa, revela indesmentivelmente duas verdades clamorosas. A primeira, a democracia em sistema capitalista é dominada pela oligarquia financeira em seu exclusivo proveito. A segunda, o sistema capitalista do modelo que conhecemos entrou em total descrédito, não podendo mais tornar a merecer confiança.
Compreende-se portanto que nem a democracia, sistema político, nem o sistema económico, possam sair deste transe como se nada tivesse sucedido. Encadearam-se uns nos outros escândalos gigantescos da máxima gravidade e os cidadãos, incluídos os que não possuem habilitação económico-financeira, vêem-se chamados a pronunciar-se. Confirmada ficou, entretanto, a fase imperialista do capitalismo actual e a sua tendência suicida para a desregulação e a desordem. Alguém, há uns anos, previu que seria esta a sua fase derradeira. Será? As fachadas institucionais pedem agora correcções cosméticas urgentes, mas… o essencial das estruturas internas irá poder mudar em prejuízo da oligarquia?
Demonstrada fica, desde já, a apropriação do Estado democrático por uma oligarquia voraz que proclama a economia de mercado como matriz da democracia enquanto lhe convém. Mas basta que bancos, companhias de seguros e sociedades de investimento entrem em colapso para que o Estado lhes acuda, livrando-os da insolvência. À vista fica porém a corrupção que invadiu o sistema financeiro graças àquelas tão providenciais off-shores.
À vista ficam também algumas outras verdades clamorosas. O Estado, que andou anos a repetir que não possuía recursos para melhorar a segurança social, a saúde, o ensino público, etc., de repente, porque se trata de salvar uma parte podre do país do seu naufrágio, arranja milhares de milhões e lança-os como bóia salva-vidas. A contradição parece insanável.
Mais grave é que, assim tratados, os especuladores financeiros atiçados pela ganância – já designados banksters (banqueiros+gangsters) – e os seus acólitos da supervisão oficial, vão querer certamente continuar a especular sem leis ou criminologias. E quem puxou os governos para estes caminhos de especulação financeira pura e dura como se isso fosse a economia pós-moderna e não a pilhagem de recursos mais descarada?
É preciso travar essas altas cavalarias do cifrão em nome de uma economia realmente produtiva e socialmente útil. O poder da oligarquia financeira, que continua a ser imenso, não pode dominar o sistema democrático. O mercado não pode permanecer entregue aos seus «donos», precisa da regulação constante do Estado.
As classes médias norte-americana e europeias terão agora, mais uma vez, oxalá que em níveis diferentes, de suportar os custos desta crise. Os Estados irão buscar os recursos aos bolsos de quem possui algo, não aos prevaricadores fugidos de bolsos cheios. Cabe aos povos reclamar aos seus Estados uma distribuição mais equitativa dos rendimentos conjugada com a conservação da qualidade de vida e um apelo vibrante à paz cada vez mais em perigo neste Mundo perigoso

sábado, 27 de setembro de 2008

Tanta ausência, amiga!

Porque gosto de vir a este café e escolho sempre este lugar? E porque teimo em manter os olhos fitos na entrada?! Em outras ocasiões esperava-te sem dúvidas, ias surgir num instante para o encontro combinado, mas hoje, eu sei, não irás aparecer e, no entanto, continuo atento à porta - tanta é a minha saudade, amiga!
Lembro-te sentada na cadeira do outro lado desta mesinha tão pequena que nos permitia a proximidade de mãos nas mãos, o olhar mergulhado até ao fundo no outro olhar, a intimidade da conversa sussurrada, cúmplice. Por vezes uma expansão de alma, uma recordação dolorida, uma lembrança a sangrar em carne viva soprava nuvens, a chuva batia e punha a pingar as tuas lindas janelas antes luminosas. E quantas vezes me emocionei também eu, contigo, sentindo-te mulher inteira e de verdade?!
Mas eram nuvens passageiras aquelas no céu que nos cobria. Em breve sorrias, de rosto erguido para mim, envolvida pelo beijo especial desta amizade que nos comove. Sei, sabemos, que em volta nos verão certamente como dois amantes apanhados num encontro furtivo, pois é atraente a tua figura de mulher madura, só não vêem que tenho anos que chegariam para ser teu pai…
…E nunca provei dos teus lábios, sabendo todavia que neles poderia colher o mel dos pólens das mais bonitas flores do mundo. Respeito, amiga, a tua condição de mulher cônjuge, o teu pudor de mãe. E rimo-nos de todas as suspeições, de todas as torpezas, hipocrisias e fealdades do decoro corrente, meras fachadas, que miram de soslaio uma amizade como a nossa e se põem a imaginar.
Ainda reina o preconceito: será digna a casada que tem um amigo e com ele se encontra e conversa? Serão realmente limpas as intenções de um tal homem? Enfim, poderá existir uma amizade pura entre homem e mulher e, para mais, casada?!
Ai, amiga, se esta gente soubesse que a nossa amizade é ternura estreme, amizade e ternura que vêm da sinceridade dos corações! A comunhão é, entre nós, plena e sem disfarces. Damo-nos um ao outro em entrega imaterial, felizes por existirmos sendo como somos e nos encontrarmos em perfeita sintonia.
Talvez esta nossa amizade seja amor, uma qualquer forma de amor, porque eu continuo atento à entrada e, momento a momento, vejo a tua cadeira vazia. A divagar, pergunto-me: alguém poderá sentir-se preenchido por uma mesma pessoa durante todo o tempo? Lembro, de Florbela Espanca, dois versos: «Quem disser que se pode amar alguém / durante a vida inteira é porque mente!» Porque a pessoa amada e a pessoa amante se transformam, deixam de ser as mesmas.
Querida amiga, confirmas-me neste ponto preciso: é normalmente nova, isto é, diferente, cada experiência de amor ou de amizade que cada pessoa empreenda, pois que a pessoa envolvida em cada caso é diferente. O que trocamos, amiga, não foi expropriado a ninguém. Avalia nesta base a falta que me fazes, aqui, para, como disseste, beber um café, nos ouvirmos ou abraçarmos, nos olharmos em silêncio, a sonhar com viagens ou a filosofar futilmente, soltando as imaginações no ar livre!
[Ilustração: escultura de Benson Park, Loveland, Colorado, jardim desde 1985 com mais de cem obras.]

domingo, 21 de setembro de 2008

A cócega do humor

Os portugueses vivem num ambiente pesado, andam cabisbaixos, deprimidos, infelizes. O ambiente invade as ruas. Nem as alegrias do futebol já tonificam a alma colectiva quanto baste! A tristeza descamba aqui e ali em situações de naufrágio e desespero. O desemprego, a inflação, o abaixamento drástico do nível de vida, a criminalidade em ascenso, tudo contribui para ensombrar as fisionomias.
Diagnosticar a origem do negrume (os efeitos da recessão, a crise) é pouco. Mas como demora a cura a anunciar-se, e ainda mais a chegar, aí temos a panaceia de recurso: programas de humor diários em opípara abundância. É recurso barato e universal, sem contra-indicações nem efeitos secundários afirmados.
Temos humor na rádio, humor na televisão, humor nos jornais, humor nas caixas de correio electrónico, humor no telefone… humor a correr por todo o lado. Temos produtores de anedotas a trabalhar de mangas arregaçadas. Quem sabe cuidar das necessidades do povo derrama estas brisas frescas no país murcho e entorpecido.
Mas o humor é coisa séria, voadora e bonita como a borboleta bela-dama. Aparece e acontece de asas abertas ao ar livre quando muito bem entende e o sol brilha, não em locais fechados de produção diária, em série, onde os martelos dos profissionais da anedota nacional, batendo nas suas bigornas, arrancam mais barulho do que humor. Espalha-se então a gracinha sem piada nenhuma.
Circulam pelo país as piadas fáceis, as anedotas descoloridas e sem jeito – orientadas para um nível cultural primário ou de viela - que deixam as bocas inertes, incapazes de se descerrarem num sorriso, numa completa indiferença. Talvez seja caso para supor que tanto esforço humorístico cansa, tanta cócega pré-fabricada já irrita. Sabe-se, aliás, que barrigas pouco cheias dificilmente sentem a cócega e que só com prodígios de arte consegue encher-se uma barriga de riso.
Irá isso demonstrar uma ingratidão? O povo tem falta de empregos estáveis e devidamente remunerados, falta de melhor qualidade de vida, de segurança. Aspira a melhores sistemas de saúde, de justiça, de ensino, etc., etc. Está aí a estagnação, a crise? Tenham paciência e esperem um pouco, está bem?! Entretanto, tomem lá este brinde, façam o favor de se distrair!

A indústria do humor serve ao povo o que o racionamento comeu.
Todavia, a experiência empírica parece anunciar que os períodos de quebra económica não são amigos do humor, antes, na inversa, os de alguma prosperidade. De barriga satisfeita e em paz, a piada graciosa tem graça e solta o riso prazenteiro. A cócega ajuda à digestão. Tanto humor, hoje, no país deprimido, talvez sirva apenas para demonstrar o que diz certo autor: que subjaz um fundo pessimista em cada humorista. O autor descreve-os como pessoas notavelmente desiludidas com o mundo e consigo próprias, que produzem anedotas porque na realidade se queixam de tudo.
Assim, os humoristas seriam uma espécie de palhaços que choram quando querem fazer rir. E temos a imagem clássica: junto da boca aberta em teatral gargalhada vemos a máscara da dor.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Olhar sem ver?

Somando impressões e sinais, convenço-me de que olhamos muito e vemos pouco. Por isso temos como certo que o melhor modo de esconder o objecto que desejamos guardar é deixá-lo bem à vista. Digamos então um exemplo: entramos num café, numa cervejaria ou num restaurante e, observando de relance o ambiente criado pelas respectivas decorações, poderemos sentir a «cultura» que ali se respira avaliando a concepção e o gosto que o decorador e o patrão do negócio exibem, detectando mesmo alguma da ideologia que os impregna.
De facto, habituei-me a pensar que é preciosa a quantidade de sinais, logo de informação, que podemos recolher da realidade objectiva. Falei disso há anos num trecho de certa narrativa. Mas hoje pergunto: quem concorda comigo se disser que outro tanto poderemos obter, por exemplo, da imagem com que se apresenta um autor literário numa sessão com os seus leitores?
O tema foi-me sugerido há dias por um estimado amigo que me questionou querendo apurar do que me servia para «ler», de certo autor, os seus (e outros) livros quase sem os abrir. Pois basta ter olhos e, além disso, ver…
Veremos o conteúdo determinar o estilo da mensagem. Entrevistado ou a palestrar, um autor mostra como e para quem escreve. Se tem livros no supermercado ou ambiciona vir a ter, o autor apresenta a imagem própria envernizada ao gosto de quem pretende vendê-los no supermercado. Note-se o que diz e como o diz. O seu nome aspira a ser popular, com valor de «marca». Propõe à admiração geral os seus livros, referidos entre apreciações encomiásticas de outros nomes sonantes. Representa-se a si próprio. Interessa-lhe seduzir para vender.
Esse autor aparece em público negligenciando algo de novo que poderia anunciar e considera «natural» o seu esforço de autopromoção. Quer igualar-se aos autores mediáticos, seus mestres, que lhe dão boas lições: vê-os como relações públicas ou mesmo vendedores ambulantes das suas obras. Para ele, realmente, os leitores compram um livro desde que esse livro seja badalado quanto baste. Logo, para esse autor, não se requer talento, génio, arte para vencer - apenas marketing, força de venda.
Autores literários deste tipo, assim tão esfusiantes e gárrulos, parecem ser muitos e, todavia, não são numerosos, apenas se acotovelam no proscénio. Distinguem-se da grande maioria dos «outros», que duvidam da boa qualidade que possa trazer a quantidade até porque o mercado dos best-sellers funciona para gerar lucros e não para atribuir qualificações literárias.
Estes «outros» apostam na diferença. Se aparecem em público, é para estabelecer comunicação de teor cultural com dimensão humana.
Só a um «outro» poderia acontecer esta peripécia: um dia encontrou na rua um conhecido, parou, e a seguir apareceu outro. O recém-chegado, após as apresentações, traçou um perfil do autor, enaltecendo-o generosamente, conversa que fez virar o primeiro conhecido, velho amigo, para o autor, numa reclamação algo escandalosa: «Então eras assim importante e não dizias nada?!» Há realmente quem diga pouco da sua importância. Acredita que os leitores têm deveres a cumprir para consigo mesmos…

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Ortografia em mudança

Paradoxo irremediável: questões de linguística estão entre as mais enfadonhas, boceja sobre elas a maioria das pessoas ao primeiro minuto e depois deserta. Resiste à matéria apenas algum especialista caturra ou outra raridade, com ardor bastante nos fôlegos para escabichar em questões especiosas de lana caprina. Linguística, filologia, gramática, ortografia… arreda daí, não há estômago para tal empadão.
Porém, eis o paradoxo, basta que se anuncie uma qualquer mudança, mínima que seja, proposta para o corpo da língua, e logo surgem e se multiplicam os clamores. A opinião pública incendeia-se, flamejam os discursos, alastra o direito à indignação. A maioria cerra fileiras para se opor às mudanças propostas pelos especialistas caturras – porque a língua é nossa, isto é, de toda a gente, e alguém quer expropriá-la na nossa boca!
Assim acontece desde as reformas ortográficas introduzidas no período da primeira República. Discussões e debates sem fim vem demonstrando que na verdade as questões linguísticas despertam intensas paixões, como se viu recentemente a propósito do novo acordo que pretende unificar a ortografia do Português. A polémica serenou, entrámos no «tempo de preparação», mas logo que este intervalo termine e que a lei aplique no terreno a nova ortografia, teremos de novo a lavrar, sem surpresa, as labaredas…
Cá por mim, tentarei sobreviver a mais esta reforma ortográfica. Será a terceira no decurso da minha vida (não é pouca coisa, não senhor!), pois a primeira foi a que nos emendou a mão ao escrevermos pae, mãi, êste, a pesar de, etc., e a segunda retirou os acentos aos advérbios de modo, implacàvelmente, etc. As adaptações foram então sempre fáceis, agora o avanço da idade deixa alguma dúvida.
Aliás, o novo acordo é um tanto mais extenso. Introduz mais alterações do que as reformas anteriores. Dada a dimensão global do Português - que é uma notável língua de cultura -, afirmar que altera apenas 2% pode induzir-nos em erro. Vai precisar de atenção e disciplina quem quiser escrever escorreito o novo Português… e agora com alfabeto de 26 letras.
Todavia, espero que nenhum polícia da língua me prenda por desacatar qualquer regra. Continuarei a escrever como sei, pelo menos até que as alterações se banalizem pela generalização nos espaços públicos. No entanto, terei (teremos todos) que fazer um esforçozinho.
Comecemos desde já, isto é, não deixemos o assunto esquecido para chegarmos a ele tarde demais. Uma adaptação lenta é preferível a confusões de última hora. Fixemos algumas regras: os nomes dos meses e da estações do ano vão ter iniciais minúsculas Haverá grafias duplas: aspecto coexiste com aspeto, cacto com cato, caracteres com carateres, facto com fato, corrupto com corruto; recepção com receção; peremptório coexiste com perentório, sumptuoso com suntuoso.
Portanto, desaparecem as consoantes mudas. Mas irão mesmo desaparecer?

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Jogo: vício e perdição

Peço desculpa, vou apontar para mim mas isso não serve para me inculcar como exemplo. No berço em que me formei, o trabalho honrado era o verdadeiro e único título de nobreza (de sangue vermelho) reconhecido. O respeito pela palavra dada e o cumprimento de todos os compromissos é que davam à pessoa a sua dignidade. Neste ambiente, faziam-se ouvir as vozes mais enérgicas contra todas as formas do jogo. Era a figura acabada do vício e da perdição.
A moralidade que amaldiçoou o vício do jogo ou o hábito de jogar a dinheiro retirou-se, envergonhada e vencida, para os fundos e calou-se definitivamente. Nos tempos actuais, o moralismo corrente parece aceitar bem que um fulano enriqueça muito e depressa, se possível com pouco ou nenhum trabalho. Logo, o trabalho já não dignifica, tal como o cumprimento escrupuloso da palavra dada e das obrigações pessoais.
Quem se mantenha apegado aos comportamentos da antiga cidadania (a velha escola de civilidade) reveste-se de uma pátina inconfundível. É um «fóssil» de outros tempos, uma relíquia assombrosa da idade. Restam pessoas com honra própria, sem dúvida, mas este atributo, sem reconhecimento social que baste apesar da sua rareza, anda escondido nas arcas de cada peito.
Na verdade, o jogo deixou de ter as condenações que já teve. Ao invés, tornou-se quotidiano, normal, aceitável. Não se ouve uma voz a clamar que no jogo só pode haver vício e perdição, tão-pouco se estranha a abundância dos jogos em oferta.
Temos a lotaria, o totobola, a raspadinha, o euromilhões. Temos os casinos – o mais recente nasceu em Chaves –, os casinos on line na Net, os concursos da TV com prémios… Num país pobre e pequeno como o nosso, tanta fartura é surpreendente.
Consta que são os pobres que mais jogam. Em número, quero dizer, não decerto em quantias jogadas. Porém, sendo numerosos, elevam naturalmente as somas totais envolvidas: muitas migalhinhas fazem belos montes. E nem vale a pena comentar por que queimam os pobres na jogatina algo do pouco que possuem, pois todos sabemos que apenas um prémio gordo os salva do seu destino.
Todavia, poucos saberão avaliar o volume da riqueza que é assim drenada semana a semana dos bolsos de uma vasta camada de povo para se acumular em proveito exclusivo de uns poucos. Os jogadores enriquecem alguém desconhecido, que agradece à sorte, não à multidão dos que jogaram e perderam.
A popularidade crescente dos jogos a dinheiro associa-se de algum modo à popularidade do futebol (expandida aos videojogos). Mas o futebol de competição é espectáculo ruinoso, custa mais dinheiro do que por norma consegue render. Os jogos a dinheiro, no entanto, custam só a quem joga: lucram os premiados e, sobretudo, as respectivas organizações. Estas saem sempre a ganhar - e quanto será?!
Em suma, os jogadores enriquecem os premiados e também as entidades promotoras dos jogos. Eis o que deveria merecer, em tempo de crise, a devida consideração à competência política. Numa economia de casino, o jogo legal concorre para agravar as desigualdades sociais e retira mérito ao trabalho produtivo.

domingo, 7 de setembro de 2008

A noite do fossado

Os agri(o)cultores das letras vivem de costas voltadas. Convivem pouco e reúnem-se ainda menos afora ocasiões excepcionais. Se têm alguns outros escritores na sua lista de amigos, é pelo acaso de circunstâncias felizes. Lembram um bocadinho aquelas raparigas casadoiras que se juntavam para ir ao baile imaginando-se cada uma delas a mais bonita de todas.
Parece que foi sempre assim, pelo menos por cá, não há que estranhar. Estranha foi a disposição que me levou naquela noite a ouvir o que a romancista tinha a dizer ao público. Moveu-me a curiosidade. A sala compôs-se: curiosos éramos nós todos.
A senhora publicara livros de poemas e depois romances - uma enfiada de romances a tombar logo para um pretenso cunho histórico. Li os primeiros, achei-os desinteressantes e maçadores, sem rasgos ou requintes de estilo, mas a senhora foi fazendo caminho, caminhando. Os anos correram e ali estava ela a explicar, a esclarecer, a recordar. Doutoramentos e uns quantos mestrados tinham focado os seus romances no Brasil, país que a senhora visitava e aonde os seus livros (por ofertas?) chegavam.
A sessão aqueceu ao anunciar a escritora que o seu último livro evocava uma peripécia histórica das relações Portugal-Brasil de tal maneira reveladora que certa amiga lhe telefonou do outro lado do Atlântico a chorar, emocionada. Outras revelações foram surgindo, mas uma salientou-se, pela repetição, de forma que se tornou numa espécie de esteio do discurso, um leitmotiv em evocação histórica: o fossado medieval referia-se ao costume português de abrir fossos no terreno para a defesa!
Eu julgava que o fossado (aludindo outrora também a tomadia) ficara na história como matriz arcaica do serviço militar obrigatório que imperou durante séculos até data recente do século XX. Consistiu outrora na obrigação de a população vilã ou também os peões irem em expedições de guerra ofensiva contra os sarracenos, de acordo com as condições dos seus forais ou costumes. Limpei-me de dúvidas consultando o Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão, onde o fossado remonta ao século IX, e o sempre útil Elucidário de Viterbo. Confirmei ainda em dicionários usuais. Tudo bem.
Na ocasião admiti que a autora de romances históricos fantasiava por graça. Mas não. Regressou diversas vezes à sua ideia para afirmar que os portugueses de antanho abriam fossos cada vez mais além, dentro do domínio vizinho, e assim expandiram o território nacional. Foi ao ponto de considerar isso como marca distintiva do carácter finório da nossa gente.
Ignoro onde terá ido a senhora beber tal ideia, mas eu já vacilava sem atinar se ela romanceava a nossa história, se os frutos molecos da sua imaginação. Reparei no modelo da sua explanação. A senhora aprendera bem a envernizar a imagem na esfera mediática, pela imagem pretendia vencer. Percebia-se bem o desiderato: importava pouco o que ali dizia, importante era atrair o público para os seus livros.
Ai, se ela soubesse que isso me serviu para «ler» os seus outros livros sem os abrir.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Oi, Vinicius! Saravá!

Entrei na aventura literária no início dos anos ’50, quando crescia no ambiente culto brasileiro e português um certo escândalo. Incrível: : um diplomata (e repetia-se como que sublinhando o termo, um diplomata!), actuava cantando noite adentro pelos bares cariocas. Assim nasceu o «poetinha».
Era ousadia valente, mesmo no país do samba e do carnaval, um escritor, um intelectual, aparecer em espectáculo público sem qualquer ademane protocolar. Além disso, aquela veneta de compor e cantar versos e sambas que o povo, cantando também, aplaudia!... Nos círculos cultos do Portugal de então, no seu bafio salazarento, o caso parecia espantoso, tão espantoso que chegava a ser degradante. Os jornais falavam, a notícia corria, que descrédito! Inacreditável!
Mas Vinicius de Morais, nascido em 1913, era para todos os efeitos filho de poeta e tocador de viola. Cantou no coro do colégio, onde montou pecinhas de teatro. Formou-se em ciências jurídicas e sociais em 1933, entrou na carreira diplomática em 1946, e publicou peça em 1954, quando já estava, desde meados de 1950, a participar intensamente no movimento musical brasileiro (MPB, com Carlos Lyra, Tom Jobim, Toquinho).
Assim se desenhou no tempo a figura e a presença do poeta que teve coragem para resistir, permanecendo quem era. Resultado? Foi talvez o derradeiro aedo, isto é, poeta-cantor, poeta-músico, poeta-poeta integral, se formos buscar à tradição clássica da cultura grega o respectivo precedente.
Vinicius não descurou a obra literária, aí temos as «Antologias» para no-lo lembrar e revisitar o seu inolvidável «operário em construção». Mas o seu caminho estava escolhido, era um aedo - ou, se se quiser, bardo, um pouco jogral – e o seu caminho foi feito caminhando… a cantar e a dizer-fazer poesia.
Artista de rara estirpe, o «poetinha» cantou o amor e a beleza da mulher. «As muito feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental.» Cantou a vida, que «é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida». Noctívago incorrigível («De manhã escureço / De dia tardo / De tarde anoiteço / De noite ardo»), teve fama de «vagabundo que nada fazia» fazendo tudo o que fazia: belíssimos sonetos, canções famosas, músicas para filmes. Encontrou no uísque «o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado». Detestou «tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata».
Em 1968, ano em que esteve em Lisboa com Chico Buarque e Nara Leão, foi aposentado compulsivamente da carreira diplomática após 26 anos de serviço. Corporizou-se a sentença, consumou-se a condenação. Juntava-se ao escândalo puritano o correctivo balofo. E foi assim que Jacinto do Prado Coelho, director do «Dicionário de Literatura», ed. Figueirinhas, omitiu Vinicius da obra escondendo-o todavia algures pois não consta dos índices. Quem se lembra hoje de Jacinto e da sua picardia? É poeira e mais nada.
Vinicius de Morais, falecido em 1980, saravá! Continue vivo, «poetinha», e connosco! Saúdamo-lo nesta evocação, matando saudades em (link)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ser parte da solução

Fala-se de crise, já ninguém a discute tão instalada a tem o país. Chega então a maré de lembrar que a quantidade de dinheiro em circulação não diminuiu (será até mais abundante), nenhum incêndio reduziu a cinzas as notas maiores deixando nas caixas do multibanco as de dez e vinte. As maiores desapareceram das mãos da arraia-miúda segundo uma lógica nada democrática; mas por essa lógica se avalia como sabe falar quem diz que são precisos milhares de pobres para fazerem um único rico.
Os pobres, hoje, são os que trabalham por quinhentos ou seiscentos euros mensais executando tarefas de escassas qualificação durante horários e sob exigências disciplinares de crescente severidade. Repetem-lhes que têm que produzir mais para poderem ganhar mais, como se tal fosse viável com tais patrões e directores a dar-lhes ordens. E agora, nesta crise geral (não apenas económico-financeira) que se expande, apenas falta pedir aos pobres - que já vivem com o mínimo ou ainda menos - para baixarem o nível de vida a fim de reduzir os desperdícios do consumismo…
Na verdade, é isto mesmo que anda a ser apregoado pelos media, que aconselham a poupar água, a poupar luz, a poupar dinheiro para aforro. Com o apelo a uma maior produção, temos  a consigna emblemática da Ditadura restaurada: «Produzir e poupar, é o que manda Salazar!» Estarão a coincidir meras aparências?!
Seja como for, os problemas da nossa época, além de sociais, são também ecológicos. Uma sociedade nacional reclama regulações cruzadas em diversos sentidos a fim de obviar a graves rupturas, mas a conservação da natureza, isto é, da biosfera, já surge como condição de sobrevivência planetária. Para todos os efeitos, chegámos ao momento de compreendermos que dependemos vitalmente de recursos naturais finitos, como a água ou o ar respirável.
Somos pessoas cultas e civilizadas, hoje, na medida em que alcançarmos essa compreensão. Este grupo de pessoas será por certo «parte da solução».
Sabe-se, pois o facto é incontroverso, que aumentou desmesuradamente a diferença entre o que ganham uns quantos privilegiados, a minoria, e o que ganham as classes populares. Então, vendo de relance, as classes populares serão muito menos a «parte do problema» (podem querer consumir mas faltam-lhes os meios), do que os poucos que ganham muito e consomem nessa escala. Entre as nações, os Estados Unidos são disso um exemplo eloquente. Impõe-se agora a conclusão: não basta ter dinheiro para ter direito real a consumir certos bens de qualquer maneira (lembrete: menos de 1% das coisas compradas nos Estados Unidos no dia-a-dia não estarão no lixo dentro de seis meses).
As circunstâncias obrigam-nos a questionar o nível de vida da minoria abastada e também os seus modos de vida, lazeres incluídos. Obrigam-nos a não confundir consumismo e qualidade de vida, indo ao ponto de pôr na mesa da discussão o modelo de desenvolvimento vigente. Este bendito «crescimento» tem que ser contido, apenas os incorrigíveis teimarão em supor que iria ser imparável.
Oiçam o padre Fanhais: «Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar».