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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Dinheiro, a pior droga

“O dinheiro é a pior droga do mundo”, disse o homem. Sentado ao balcão, na fila dos bancos altos, parecia absorto, de olhar mergulhado no copo que bebia. Murmurou apenas, como quem medita e, perante a evidência, não pode mais e desabafa, mas eu, sentado num flanco, escutei-o porque o televisor no instante se calou. 

“É pior do que a coca ou de qualquer outra, o dinheiro cria uma dependência muito maior”, considerou o homem. Observei-o de soslaio, intrigado, pois reconhecia naquelas frases uma ideia já experimentada por mim em conversas ocasionais mas nunca exposta por escrito. E via nascer ali a ideia na cabeça de um desconhecido em aturada congeminação! 
Tive que falar e conceder alguma concordância para abrir o diálogo com o homem. A aproximação, sem dúvida, interessava-me. Queria trocar umas frases, mas a sua conversa, conforme já esperava, começou por ser rara e banal para logo se tornar soturna e densa como pedra perdida no meio do trânsito em noite sem iluminação. 
Evidentemente, continuou a desabafar: atacou com ásperas censuras o valor quase supremo que hoje tem a riqueza material, ou a sua mera aparência, o triunfo fácil e rápido a obter em qualquer competição. O “sonho americano” é agora também de tantos europeus que ambicionam ganhar rapidamente o primeiro milhão para, a seguir, trepar aos saltos pela escada de outros milhões. Veja, dizia-me o homem, a quantidade obscena de novos milionários a medrar por aí, os casos de corrupção descobertos no topo das elites que mandam e que possuem. 
As novas gerações foram educadas pelo espectáculo do futebol, a grande escola que ensina que todo o jogo é para ganhar; ganhar a qualquer custo durante os noventa minutos se não puder ser disputado mais rápido. Uma veloz erosão moral varreu o idealismo dos valores éticos e deu lugar ao materialismo dos interesses concretos egoístas. Honestidade, honra, carácter, recta consciência, vergonha na cara, pudor, tudo isso, tal como boa educação, dignidade humana, princípios cívicos, o que valem hoje? 
Ora, enquanto esta crise lança no desespero tantas famílias arruinadas pela concentração da riqueza em poucas mãos e que é a outra face da austeridade que nos impõem, o que acontece? A dialéctica natural das coisas promove uma justiça invisível mas certeira que castiga multimilionários e novos milionários à pena contida na sua fortuna: “ter” tudo o que têm, isto é, imensamente mais do que precisam ou irão precisar para viver, nunca lhes chega, pede sempre mais, e obriga-os a cuidar sem descanso do que têm… Nem dormem, receando o descalabro, serem engolidos por um tubarão maior. 
Não desfeiteei o homem perguntando-lhe se estava com pena dos capitalistas, indaguei somente onde aprendia tais ideias. Disse-me: “A ler os livros do mundo”. Adivinhei logo: mas não a ler no mundo dos livros, claro!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O sagrado em reflexão

A ordem das coisas sagradas não é hoje, ou pode não ser, apenas uma questão religiosa, matéria de especulação teologal. Sagradas podem, e devem ser, vidas humanas em risco, aspirações de mais alta justiça, mais liberdade, mais paz. O sagrado dos crentes coabita no mundo com o profano dos não crentes ao ponto de se (con)fundirem nas duas faces de Janus.
Aparentemente, os progressos científico e tecnológico, que permitiram conhecer a estrutura do átomo e a vastidão do cosmos, comprimiram o lugar antigo das religiões, pouco a pouco invadido pelas mentalidades modernas e os costumes da vida laica. Basta, porém, notar, por exemplo, os temas que vão correndo em filmes e romances populares, tão alienantes, recheados de magias incríveis, crendices retrógradas ou fantasias sobrenaturais, para de relance se perceber quanto mudou na paisagem da cultura religiosa vulgar. Ainda assim, note-se, sem paradoxo, a crescente agressividade que os manifestantes cristãos e muçulmanos europeus, acusando-se mutuamente de fanatismo, actualmente revelam.
Uma dimensão sagrada, qualquer que seja, parece inerente à condição humana normal. Sem se imbuir da noção do que é sagrado, proveniente de formação religiosa ou outra, sem deus, mas cultural e humanizada, as pessoas ficam privadas do atributo que supomos estrutural. Por isso, o problema do nosso tempo reside talvez no apagamento de uma formação que, em última análise, confunda educação religiosa ou cultural, ética e humana. 
Daí a interrogação antes posta: o que resta de sagrado no mundo, hoje? É perante o que temos de sagrado que se estabelecem os interditos, as obrigações gerais da ética, os princípios humanos basilares. Ora, o apagamento do que seja sagrado (quer dizer, do “sacrário”, lugar íntimo onde guardamos os valores supremos, imateriais, sem os quais os indivíduos e a espécie ficam sem defesa) expõe os povos a incalculáveis perigos. 
Não há dúvida, a barbarização dos costumes está a progredir e a (in)civilização do século XXI a descambar, avançando cegamente, conforme algumas vozes previnem, para uma nova Idade Média e, provavelmente, uma terceira grande guerra. 
As massas habituaram-se ao seu próprio aviltamento e à violência – nos campos de futebol, nos filmes, nos televisores – e praticam-na quotidianamente, de variados modos, nos ambientes familiares e nos espaços públicos. A decadência da Europa vai além da estagnação económica e da crise geral em que se afunda. Envolve os desvios sofridos pelos sistemas escolares, a fraqueza da criação e fruição cultural autênticas, o abandono de programas de elevação colectiva das pessoas e dos povos.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Eremita em sua casa

Estou perto de um homem que vive como um eremita. Único habitante da sua ampla casa recheada de livros, é na clausura daquelas paredes que parece usufruir da liberdade de que precisa e soube conquistar. Liberdade, afinal, varrida quanto baste dos ruídos de um mundo em agónica convulsão.
O homem trabalhou longamente até ganhar, no termo da carreira, o remanso do seu recolhimento que, aliás, quer manter produtivo, criador. Para trás deixou a docência superior e universitária consagrada à formação de formadores e apostada, dir-se-ia, na melhor qualificação do sistema escolar nacional. Antecipou um pouco, vencido mas não convencido, a retirada a fim de poder continuar com esperança num afã que, apesar de tudo, pode realmente valer a pena.
É autor de uma notável lista obras publicadas mas insiste em se considerar um mero “escrivedor”. Desiludiu-se da edição literária massificada e consumista ao ponto de as suas obras desaparecerem do mercado livreiro normal. Não circulam e raras vezes aparecem nos catálogos dos alfarrabistas; logo, como autor, anda “invisível”.
Mas, na sua condição de eremita, continua a trabalhar. Agora centrado, como leitor, em clássicos dos séculos XV e XVI que lê nos originais grego ou latino, e como tradutor, vertendo-os para Português. Esses textos clássicos empolgam-no tanto quanto descura hipóteses de edição ou eventuais proventos do seu trabalho, concentrando-se apenas na dimensão do projecto pessoal que tem em andamento.
Mergulha deste modo na cultura humanística tão grotescamente ostracizada pela invasão da cultura tecnocrática a predominar desde os anos ’80 do século passado. Para trás deixa, definitivamente, a cultura superficial, cultura do efémero e de trivialidades correntes na qual o conhecido processo de Bolonha imprimiu a sua marca de água. O “escrivedor” (escreve-com-dor?) recupera assim, para sua imediata fruição, obras fundamentais da nossa civilização e cultura.
Ninguém lê hoje (e desde há muito tempo, talvez desde o século XIX) aquelas obras cimeiras da cultura humanística: incunábulos bafientos, livros amarelecidos e poeirentos retirados das prateleiras para as funduras dos arquivos. Mas o eremita não recupera somente para si mesmo as nossas matrizes identitárias que têm no mar Mediterrâneo o seu berço. Demonstra também que o passado não está liquidado, morto, antes bem vivo, como brasa ardente em monte de cinzas, e capaz de nos ajudar num dos problemas fulcrais do tempo presente.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Costumes bárbaros

Por favor, digam-me que estou a confundir os aspectos, a exagerar as proporções. Principalmente, deixem-me ao alcance dos olhos o que negue as sombras que os vai cobrindo de tristeza. Porque, para mim, não tem dúvida nenhuma, os nossos costumes entraram em decisiva barbarização.
A barbárie estendeu-se ao ponto de banir, por inúteis, dos comportamentos sociais da “cultura geral” massificada, preceitos e exigências mínimas de convivência humana. Antigas regras e maneiras preceituadas, varridas, deram lugar às errâncias de um voluntarismo desbragado que sobreveio das lacunas de formação. Vejamos: quem se lembra hoje dos guias, manuais e compêndios de civilidade, educação e boas maneiras que “toda a gente” leu até meados do século XX?
Eram leituras básicas, obrigatórias, numa época em que o sistema escolar e o ambiente familiar impunham deveres, gestos e estilos praticamente em todas as particularidades do dia-a-dia (à mesa, caminhando na rua, convivendo, escrevendo cartas) sob pena de grave sanção. Quem era ou queria ser “civilizado” seguia orientações aplicáveis a cada situação que, sem chegarem a ser “de etiqueta”, valiam como emblemas de boa educação compartilhada. Actualmente, a delicadeza demonstrada arrisca-se a valer como sinal de fraqueza, inferioridade ou subalternização perante um outro amiúde propenso a mostrar arrogância, superioridade agressiva, vontade de vencer, como avançados que, no campo de futebol ou jogando a feijões, rematam para ganhar, nunca para saírem derrotados.
Pela idade, tenho fácil memória dessas leituras comuns no meu período juvenil e, a propósito do tema, fui pela memória conduzido até um livro dos tais, O Perfeito Cavalheiro, assinado por Sevim Akmen e traduzido por M. Osswald (pseudónimos?; 317 pp., Porto, 1949). Folheei-o um pouco para sentir como se distinguem hoje, cruamente postas preto no branco, as duas épocas que levo de vida. Larguei-o, arrependido, ouvindo outros idosos em queixas porque não aturam “isto” e não têm mais mundo para onde fugir.
A competição acesa contaminou as mentalidades e os costumes. Se, caído do céu, um cavalheiro se revela aqui ou acolá, é encarado como figura saída de museu, relíquia talvez agradável mas também ridícula. O tempo já não dá para pieguices de bom-tom, o próprio índice de civismo nos espaços públicos baixou tanto quanto subiu a indisciplina nas escolas, a conflitualidade nos meios familiares, a violência nas relações laborais, o impudor nas promessas dos políticos…
Ora não é só a crise que faz reinar a competição; é o sistema socioeconómico de base (capitalista) que desumaniza as relações sociais e as próprias pessoas. Desvaloriza os indivíduos transformando-os em meros consumidores, “máquinas” produtoras-reprodutoras, simples peças descartáveis das bases de dados ou das estatísticas. Que lugar resta para a civilização em relações sociais norteadas pela regra do “cada um por si”?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Estamos no desaforo total

Observou Bertrand Russell: “A humanidade tem uma moral dupla: uma que prega mas não pratica, outra que pratica mas não prega.” O filósofo britânico (1872-1970), prémio Nobel e grande divulgador da filosofia, condena nestes termos essa duplicidade tão velha quanto o mundo. Mas o que diria nestes nossos tempos de subversão total?
O desaforo maior, mais escandaloso, não é apenas permitido e praticado. É assumido como regra normal, aceitável e justa quando “convém” aos interesses instalados, por altos governantes e outras figuras públicas de relevo principal. Assim, os pilares da sociedade desabam e, no meio dos destroços, põem a reinar a insegurança e a aflição. 
Exigências éticas e legais, consciência da justiça, respeito humano, procura da paz social – vacilam e caem na lama com restos do que foi honradez, carácter, brio pessoal. O valor que vale a sério reside agora, em primeiro lugar, no esplendor dos milhões que a ganância do lucro gordo, fácil e rápido acumula, pois o poder, a honra e a dignidade – de uma nação, uma empresa ou de um indivíduo - estão na força atribuída à riqueza material. O que importa, portanto, é acumular, seja como for, essa riqueza (que dá honra, dignidade, poder) para que o indivíduo, a empresa ou a nação cresça e se glorifique. 
Comportamentos escandalosos parecem agora toleráveis e facilmente olvidáveis na precipitação contínua de novos escândalos. Mas quem esquece os governos que usaram dinheiro público para salvar bancos privados falidos na América e na Europa? E quem lembra os depósitos avultados, de bastantes milhões, que o Iraque fizera em bancos ingleses, entre outros, antes que Saddam Hussein fosse derrubado e que foram “congelados” - dinheiro do povo iraquiano que depois caiu… em que mãos? 
Quem pode lembrar os milhões também substanciais que a Líbia depositava em bancos europeus no tempo de Khaddafi e que foram também “congelados” – para onde terá ido o que era do povo líbio? É difícil ter memória pronta quando se impõe a regra do vale tudo… A conspiração desestabilizadora ou mesmo a guerra ofensiva não declarada, com ocupação militar, de uma nação poderosa contra outra enfraquecida acontece e a ONU, e instâncias de direito internacional calam e consentem. 
Tudo isso, no entanto, não passou de um calculado avanço passo a passo da ofensiva geral da subversão em curso. Conduziu por fim à decisão da troika, com a Alemanha à frente e a Holanda atrás, de obrigar os cipriotas com depósitos nos bancos da ilha a perder sessenta por cento das suas economias para os salvar da falência – esses bancos que em data recente foram considerados por peritos europeus de stress com nota positiva! A confiança dos povos europeus ficou terrivelmente abalada. 
Sabem agora esses povos o que, um após outro, os espera. Têm diante da cara, nua e crua, a força destruidora da subversão gerada pelas políticas da estratégica neoliberal. É preciso, é urgente esmagar o monstro para restaurar os valores da civilização e do desenvolvimento social!

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Democracia ou partidocracia?

Os partidos assenhorearam-se do sistema democrático, colocando-o flagrantemente ao seu serviço. É essencial que existam para que o sistema funcione, bem o sabemos, mas na condição única de que os partidos sirvam realmente a democracia e não a inversa.
De facto, as organizações partidárias, em particular as que ocupam habitualmente as cadeiras do poder, onde se substituem numa rotina assente em função das  maiorias eleitorais, apregoam grandes exigências de “transparência democrática” estando na oposição ou governando. No entanto, essas declarações de formal conveniência não chegam para que os actos da governação ou a vida interna dos partidos alcancem o nível razoável de transparência que a democracia supõe. Temos que denunciar a torpeza da situação para fazer reinar os princípios democráticos ou, em alternativa, reconhecer a sua falência.
É o funcionamento concreto dos partidos da órbita do poder que começa e acaba por atestar e validar a saúde do sistema. Nesta base, uma questão avulta desde logo com crucial relevância. É a mesma questão que agita nestes dias a Espanha, ameaçando de demissão o governo PP de Rajoy - a do financiamento desses partidos.
Uma opacidade esconde do conhecimento geral as fontes onde os partidos obtém os proventos que lhes permitem prosseguir posto que rodeados de dispositivos de controlo faz-de-conta. O erário público subsidia-os, recebem doações e donativos ocasionais de montante com máximo estabelecido e os seus militantes pagam quotas. Mas há leis em vigor da iniciativa de partidos que os próprios são os primeiros a desrespeitar e uma delas é a que estabelece a apresentação das respectivas contas integrais para competente análise e aprovação.
Essas contas, em geral, não são tidas como claras, completas e convincentes. Documentam uma parte da actividade desenvolvida e, alegadamente, deixam na sombra receitas e despesas talvez tão elevadas que se afundam numa escuridão clandestina sem deixar rasto. Por outro lado, sofre constantes atrasos a apresentação dessas contas.
Alguém sabe, sequer pergunta, quanto vencem mensalmente os líderes dos partidos da oposição ou do governo em funções? E os restantes dirigentes desses partidos? Será isso um segredo aceitável? Ou não será uma negação viva da transparência?
Acusam Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol, no caso Bárcenas, de receber do PP um “mensalão” canalizado por empresas construtoras. Em Portugal, banqueiros e empresas multinacionais parecem também muito próximos dos partidos que se revezam no poder ao ponto de provocar graves insinuações. A corrupção pode entrar por aí, pela porta dos partidos e dos políticos que os protagonizam; existindo dentro do sistema que os permite e requer, esses partidos e políticos podem virar-se contra a democracia e chegarem a subvertê-la, deixando à vista a ilusão de uma simples aparência.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Os lobos, os peixes e os homens

Tenho por perto um companheiro e excelente amigo que desde a juventude se agarra à terra que embeleza e põe a frutificar; nas horas calmas, sentando-se, lavra cada linha da página em branco para nela depositar a sua semente. A propósito de uma conversa, trouxe-me o sermão do padre António Vieira aos peixinhos:
"A primeira coisa que me desedifica, peixes, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastava um grande para muitos pequenos, mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande."
Evidentemente, António Vieira não defende nem aconselha que o homem seja o lobo do homem. Ao invés, realça que são os mais pequenos que abundam na natureza, lembrando que os grandes se alimentam deles, pois bem sabemos que milhares de pequenos são precisos para gerar um único maior. Se fosse lícito ao homem, destituído de consciência moral, dizimar outros homens, o que ensinaria o padre, que lugar teria no mundo a religião?
Vieira (1608-1697) dirige o sermão aos peixes mas a sua fábula aponta o que seria justo: que muitos pequenos comessem um grande. Bem entendido, os homens não são peixes embora possam juntar-se em cardume e empreender acções de grupo com óptimos resultados. Têm no corpo sangue quente e pulmões em vez de guelras, além de possuírem aquela singularíssima consciência do bem e do mal que serve para tudo, inclusive para crer que existe uma «natureza humana» eterna...
Quero assegurar, com toda a clareza, que os peixes não merecem de modo nenhum que os seus comportamentos gerais sejam assimilados aos dos humanos. Sabem viver correctamente, alimentar-se e reproduzir-se segundo regras integradas que o canal National Geographic expõe à admiração do mundo. No reino animal e mesmo no vegetal, a harmonia entre as espécies decorre naturalmente, como «lei» imutável, que apenas o homem, autoproclamado dono e senhor da natureza, tem o descoco de torpedear.
As ferocidades dos humanos não tem paralelo na natureza. Pretender justificar os seus desmandos com uma suposta «lei da selva» deixa os humanos sozinhos a debater as suas culpas e desmandos. Pior ainda, mostra-os incapazes de perceber as autênticas lições de vida que se contêm na natureza, basta-nos ver ali o que é elementar.

sábado, 29 de dezembro de 2012

O direito à pensão

Tenho um amigo a ferver de indignação, pronto a explodir em revolta acesa. Tal como a tantos outros comeram-lhe, além dos subsídios, um pedaço da sua pensão. E, oh espanto em cima de espanto!, preparam-se para continuar a comer com imenso à vontade e declarada desfaçatez.
O percurso existencial e profissional daquele amigo tem alguma semelhança com o meu (jornalismo, literatura, livros), daí o confronto que ele faz dos nossos casos. Talvez procure consolação mas termina cada conversa a espirrar desespero. É mais novo, nasceu uma dezena de anos depois...
Evidentemente, toda a pessoa de boa fé reconhece sem hesitar o direito que nos assiste à indignação e mesmo à revolta. Estamos a ser espoliados - ilegalmente, imoralmente - de uma parte da pensão, palavra esta cuja semântica, neste caso, requer explicitação para lhe realçar o significado: pensão é renda vitalícia, foro, encargo, ónus, pois o vocábulo deriva de pensione = «pagamento». É, portanto, um direito essencial para o trabalhador usufruir quando as forças o abandonam e chega ao crepúsculo da vida.
Pagou esse direito mês a mês, ano a ano, sem regatear e por fim o receber tão proporcional quanto o pagou. Mas até neste ponto o meu amigo se encrespa, lembrando o período que dedicou a traduzir livros para editoras (antes do 25 de Abril) em que pagou Imposto Profissional sem usufruir da mínima contrapartida. E lembra bem: eu e outros tradutores pagámos o imposto, abrangidos por equiparação a profissão liberal.
Quer isto dizer - clama e reclama o meu amigo - que pagámos bem pagas as nossas reformas, assim negando o que afirmou o tagarela governante. O Estado não nos dá nada que não tenhamos entregado confiadamente, por imposição da lei, à sua guarda, assumindo connosco uma dívida... de honra. E o Estado é a tal «pessoa de bem», ou não é?
Parece que o governo, administrador do Estado, tem opinião diversa e avisa sem descanso que a Caixa Nacional de Pensões vai falir. Ouvindo-o, o meu amigo explode. Aos berros, aponta uma lista de factos como se para mim fossem novos, como se eu ignorasse os saques e outros desmandos que têm comido o bolo amassado com o suor dos descontos obrigatórios, isto é, como se eu não tivesse aturado a ditadura, vivido o processo da democratização e esteja só agora a aturar uns rapazinhos saídos da catequese neoliberal... 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Em nome da equidade

Basta ver o ambiente social da Índia para o sentir: a pobreza é «normal» onde a riqueza é «exceção». Portanto, são precisos muitos pobres para que haja um rico, o que não é novidade nenhuma. Muitos autores, portugueses incluídos, tem registado por escrito o facto que é realidade tão óbvia e assente que cabe na sabedoria das nações.
Todavia, no mundo de hoje, o ambiente social da Índia repete-se a esmo, por Ásia, África, América Latina... As riquezas dos povos atingem níveis de concentração tão brutais, fazendo crescer zonas de pobreza e miséria tão extensas que ameaçam a estabilidade dos continentes e mesmo do planeta. Sagaz foi quem previu, no século XX, que o imperialismo seria a fase suprema do sistema capitalista (agora em versão selvagem).
Em causa temos, assim, a equidade. A equidade que se perde e que, por isso mesmo, se impõe resgatar em nome dos valores que consideramos supremos. A equidade que é pedra de toque da justiça, da democracia, da liberdade.
De facto, como estamos a ver, uma delirante concentração da riqueza tem consequências destruidoras de tremenda violência nas sociedades. Agrava até à loucura as desigualdades (nos Estados Unidos superam hoje as de 1930, ano do crash), desigualdades que são a negação viva de tudo quanto afirma esta civilização e esta humanidade que a criou. Entrámos numa guerra implacável em que os estampidos das explosões são os programas de austeridade impostos para travar os défices dos Estados endividados.
Esta guerra ameaça varrer o mundo e fazer recuar o viver dos povos, um a um, às escuridões de outra Idade Média. Às estratégias da alta finança internacional e da ganância desmedida da sua especulação dão os governos espaços de manobra. Na União Europeia, agora com o Mecanismo Europeu de Estabilidade instalado para garantir o pleno domínio dos Estados pelas estratégias especulativas, vai o FMI continuar presente e de bandeira desfraldada.
É suposto que os recursos planetários explorados até ao limite não iriam permitir a prossecução dos modelos socioeconómicos que conhecemos e designamos como consumismo desenfreado. Um novo paradigma de vida tem que ser adoptado pelos povos. Mas não este, imposto, que quer convencer-nos a largar já aqui toda a esperança. Quem vai poder calar massas expropriadas explodindo em fúria?

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Nudez, verdade exposta

Muito diversos são os visitantes deste sítio e tanto que me deixam admirado. Uns, a maioria, vem ler aqui os novos textos ou navegando em buscas temáticas, outros chegam na pesca de imagens e com elas na linha partem satisfeitos. E todos deixam por cá vestígios da sua passagem.
O sistema regista-os automaticamente, quantificando-os (sem os identificar),  país por país, e designando o que lhes interessou. Logo, os leitores, de alguma maneira, deixam-se «conhecer» e eu de tal não costumo fazer segredo. Posso, portanto, avaliar o que, aqui posto, mais agrada à freguesia.
E vou colhendo surpresas. A crónica intitulada «A rapariga nua», editada em 23 de março passado, teve em cinco meses uma soma de visitantes das mais elevadas. Se a excitação persistir será elevada ao pódio não pelos leitores habituais deste sítio mas por incertos «outros».
Não felicitem o cronista. Compreendam, com ele, a tristura em que fica suspenso, sentindo-se como peça íntima de vestuário posta a secar em corda estendida sobre via pública. Não é agradável ver o nosso trapo a servir de chamariz do que precisamente, escrevendo, nos quisemos afastar.
De facto, o texto exprime claramente uma atitude nada condizente com a dos apreciadores de revistas com páginas repletas de raparigas despidas fotografadas em poses insinuantes. Ao invés, pretende inculcar uma visão despojada de complexos ou de malícias (afinal mórbidas) que rebaixam o corpo feminino à condição de objeto sexual. Propõe em substituição uma atitude iluminada por mentalidade que respeita na mulher o ser humano que é.
Mas o título fala de «rapariga nua». Erro fatal! Há que distinguir nudez e nudez, mas quem procura meninas nuas não está para essas distinções.
Eu teimo em acreditar que um corpo despido assume por isso mesmo muito mais respeitabilidade do que vestido. A pessoa vulgar, perante uma nudez exposta, experimenta desde logo um interdito na medida em que lhe pressinta a inocência. Parece que só reage diferentemente alguém já inclinado para comportamentos reveladores de um qualquer desvio.
Assentemos nisto: um corpo despido, porque aparece indefeso, pede a quem o vê alguma proteção e talvez a mereça. Raparigas vestidas cobrem-se com roupas que, em última análise, as envolvem em artifício. A nudez é a verdade exposta.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A crise e a moralidade

Um período de crise aguda costuma exigir, sem mais justificações, o sacrifício de liberdades e direitos sociais estabelecidos. O primeiro reflexo de tal sacrifício atinge os padrões da vivência moral que resulta do avanço da civilização em cada comunidade. Porém, as regras morais não mudam, dado que (cito): «Sem contestação, não se encontrará no mundo coisa alguma que tenha sofrido tão poucas mudanças como esses grandes dogmas que compõem o sistema moral.»
O trecho encontra-se em A Ideia de Deus, livro de um autor esquecido, Sampaio Bruno, que o publicou em 1902. Ora, na transição dos séculos XIX e XX, a crise que sobre Portugal se abatia, sendo diferente, não seria menor do que esta, atual. O pensador portuense situou a questão, escrevendo: «De facto, com o andar dos tempos e com o rodar da civilização, a moral depura-se, porque precisamente a ideia da igualdade (cada vez mais profundamente) mergulha e embebe as suas raízes. De maneira que a moral deixa de ser localista, regionalista, nacionalista, de classe, de raça, de religião - para passar a ser humana e genérica.»
A ideia da igualdade, diz Sampaio Bruno? Da igualdade como pedra de toque da Democracia? Aqui temos, então, uma porta aberta para chegarmos à contradição mais dilacerante do nosso tempo, o tempo das desigualdades em crescendo.
E todavia... «O homem, de instante para instante do seu desenvolvimento, compreende mais intimamente, de momento para momento mais se compenetra de que o carácter do acto moral consiste em /.../ não admitir retribuição alguma. O acto moral só é puro (isto é, só é verdadeiramente moral) quando nada recebe em troca.»
Sampaio Bruno, cristão que chegou ali a visionar uma sociedade sem classes, recorda, de Vitor Hugo, o célebre diálogo entre o padre Cimourdain e o general Gauvain, franceses em masmorra prontos para a guilhotina: «Gauvin redargue que, quando se haja dado a cada um aquilo que lhe pertence de direito, resta ainda dar-lhe o que não lhe pertença. Isto é, resta ainda a obrigação última: resta ainda a liquidar aquela suprema dívida dessa "imensa concessão recíproca que cada um deve a todos e todos devem a cada um".»
Sampaio Bruno cita o diálogo: «"Fora do direito estrito, não há nada. - Há tudo. - Eu não vejo senão a justiça. - Pois eu olho mais para cima. - Então o que é que há acima da justiça? - A equidade"».
«Mas só haverá Moral perfeita quando haja perfeita Igualdade.» Porquê? «Porque as verdades da Moral são uma só e única verdade.» «Aqui está a razão por que a educação moral falha em parte. É porque uns [homens] não são iguais aos outros.»

terça-feira, 10 de julho de 2012

Vamos juntos


Acontece tão pouca coisa realmente nova em certos dias que um homem tem tempo para contar os botões da camisa. Se o homem está no desemprego, sobeja-lhe o tempo para refletir. As ideias correm-lhe pela cabeça, agarram-se em cachos umas às outras e o fulano, parado e a sós consigo mesmo, imagina que «o mundo pula e avança como bola colorida nos pés de uma criança»...
Enquanto esteve empregado, viu crescer o desemprego em volta. Continuou, porém, a sentir-se confortável porque o seu lugar parecia garantido, tudo ia bem. Agora percebe a ilusão que o cegava: cada pessoa que perdia o emprego era mais uma ameaça que se acrescentava ao risco da perda do seu próprio trabalho.
Acabou também no desemprego, envolvido no rol do milhão e duzentos mil, a rilhar os dentes na falta de dinheiro para a compra do indispensável. Lançado na situação desgraçada em que antes via os outros, da qual ele imaginou poder livrar-se com esperteza, obediência  e bom serviço, humildade quanto baste. Mas de nada lhe valeram os seus talentos e sacrifícios, acreditando ingenuamente que ali era necessário, considerado, serviçal.
A sua ingenuidade, afinal, foi a de tantos outros também postos na rua logo que o patrão  isso mandou, estava agora a percebê-lo. E, como eles, sempre cego, ceguinho de todo para o grave perigo em que iam ficando eles, os empregados, que viam crescer o desemprego. Agora sim, era evidente o facto: vamos juntos no mesmo barco.
Lição custosa de engolir. Porque houve ocasião e motivo forte para os empregados  manifestarem solidariedade com os despedidos, solidariedade a sério, e houve pouca ou nenhuma solidariedade. A pensar tolamente que os problemas de uns não eram, ou iam ser, os problemas de todos, quer dizer, como se os patrões os empregassem não pelo lucro que lhes davam mas pelos seus lindos olhos. 
E por este caminho chegava a outra reflexão bem pior, mais dura de trincar. O crescimento do desemprego fez baixar mais e mais os salários. Baixou-os até aos níveis da miséria e da precariedade atual. Conclusão: todos os empregados, um a um, devem unir-se sempre na defesa e na proteção do trabalho com direitos para não caírem em desgraça.

domingo, 22 de abril de 2012

Políticos responsáveis?

Qual é a responsabilidade política de governantes internacionais, nacionais ou regionais? Nem todos são eleitos, pelo que alguns  julgarão estar isentos de qualquer responsabilização que os seus governados pretendam exigir-lhes. Já os eleitos, com os seus atos, arriscam-se simplesmente ao escrutínio da vontade eleitoral consultada quando se faz mister.
Todavia, o ordenamento jurídico contém leis que atribuem sanções judiciais concretas a certos comportamentos de governantes culposos. Mas, de facto, o que se passa? Como que ignorando normas legais vigentes, a responsabilidade dos governantes, eleitos ou não eleitos,  aparece transferida para uma difusa esfera «política» onde quaisquer culpas se desvanecem... e tanto mais facilmente quanto mais graves e clamorosas forem. Assim se percebe, portanto, a «lógica» do envergonhado silenciamento - quase completo - imposto pela comunicação social ao caso da Islândia (o pequeno país que teve a coragem de recusar a «ajuda» do FMI), onde um governante principal foi julgado (condenado e desculpado!) por administração ruinosa.
A questão que neste ponto se levanta aproxima duas singularidades contrapostas: os políticos, que elaboram as leis e as promulgam, admitem no ordenamento jurídico normas legais que podem colocá-los, pelos atos concretos que pratiquem, sob a sua mesma jurisdição; porém, os atos dos políticos são habitualmente inimputáveis porque... são «políticos» (que novidade!), de modo que tendem a passar impunes. Fenómenos de enriquecimento ilícito, corrupção ativa ou passiva, desvio de  fundos do Estado para o próprio partido, clientelismo, beneficiam de uma tolerância desculpabilizante que avulta entre  populações envolvidas em despolitização, apatia e descrença.
O povo é reconhecido como a única fonte de direito no Estado democrático e, no entanto, os seus representantes e servidores, distanciados do povo, enganam-no com promessas vãs e fáceis demagogias. Ora, seja qual for a abordagem que se realize à questão, persistirá aí um resíduo nuclear em brasa que nenhuma justificação passa-culpas irá conseguir apagar: é o da responsabilidade ética, o da responsabilidade humana, decorrente das decisões dos governantes. Não existe algures um Tribunal Europeu dos Direitos do Homem?
O condutor de automóvel que cause danos a terceiros é responsabilizado e o condutor de um país com milhões de habitantes não terá que responder pelo que faz? Os políticos que, por exemplo, rompem o precário equilíbrio de relações entre capital e trabalho para privilegiarem os detentores do capital e sobrecarregarem os trabalhadores (a maioria da população) praticam uma simples traição perdoável? Os governantes que precipitam a nação num desgraçado descalabro, atirando grande parte da população para a pobreza e a miséria, quando não a marginalidade ou a morte sumária, não praticam um crime repugnante, indelével?

domingo, 4 de dezembro de 2011

Um político exemplar

Faltam ideais e mestres com fibra para erguerem esses ideais como bandeiras de luz nestes nossos negregados tempos de crise - e de crise decerto porque nem mestres nem ideais têm agora multidões que os sigam. Abunda, ao invés, quem transforma a política em negócio, o interesse pessoal em filosofia de vida, o individualismo egoísta em princípio ético. Afastemo-nos então do ambiente apodrecido e procuremos ares de renovação.
Manuel de Arriaga (1840-1917) pode ser considerado um mestre pela coerência exemplar com que pautou a sua vida e obra. Um pequeno esquisso poderá evocar-lhe o perfil. Foi o primeiro presidente da República (24-08-1911/29-05-1915), eleito quando já ia nos 71 anos de idade, pois nasceu em 08-07-1840 na Horta, Faial, Açores; continuou porém a morar na sua casa e ia de elétrico para o palácio.
Um dos traços salientes do seu carácter é o da sua extrema modéstia. Até pelo nome abreviado por que se deu a conhecer isso se revela. Completo, seria Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelonguem, com o inconveniente de recordar o pai, rico comerciante e grande proprietário do Faial, alegado descendente de flamengo, um dos primeiros povoadores da ilha.
Manuel de Arriaga licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra, onde sobressaiu como aluno brilhante, defensor da República (nos anos '60 do século XIX!). Seu pai, monárquico ferrenho, expulsou-o de casa e quis deserdá-lo, o que o obrigou a trabalhar para si e seu irmão, que apoiou sempre nos estudos e logo seria escritor. Ensinou inglês, língua que aprendera na Horta e que continuou a ensinar quase toda a vida.
Destacou-se como notável orador e obreiro do Partido Republicano Português desde 1865, quando, já licenciado, exerceu a advocacia em Lisboa. Em 1871 subscreveu o programa das conferências democráticas do Casino Lisbonense; casou em Valença e participou na comissão para a Reforma da Instrução Secundária. Em 1881 o pai faleceu e ele herdou no Faial e no Pico.
No entanto, na vida de Manuel de Arriaga não houve falta de reveses e agruras. Quando, finalmente, foi deputado, defendeu ardorosamente a soberania popular com amplas liberdades cívicas e demonstrou o seu elevado rigor ético renunciando, em 1883, ao vencimento como professor liceal. Em fevereiro de 1890, porque manifestou repúdio ao ultimato inglês, foi preso.
Foi eleito para outros dois mandatos parlamentares mas, nos derradeiros anos do século, Manuel de Arriaga esfriou o interesse pelo Parlamento e mesmo a acção política. Dedicou-se à literatura, elaborando, entre 1899 e 1907, dois livros de poesia e um de prosa. Em 1910 foi ainda reitor da Universidade de Coimbra, então tumultuosa, e procurador-geral da República.
A grande instabilidade política do país e do próprio PRP levaram-no, em 1915, após a formação da junta militar, a tomar posições que mais tarde foram duramente contestadas até pelos seus correlegionários. Tentou justificar as suas opções políticas em livro saído em 1916 parece que sem resultado. Ficou condenado a um limbo algo degradante de que só saiu em anos recentes - corrido quase um século! - graças a iniciativas meritórias que o redimiam. [Imagem: retrato (reduzido) de Manuel de Arriaga por Rafael Bordalo Pinheiro.]

terça-feira, 31 de maio de 2011

Vidas públicas... privadas?

Prometo, não vai ser mais um dos milhentos comentários ao caso de D. S. K., vitimado no seu luxuoso hotel nova-iorquino pelo reafirmado gosto de caçar carninha nova. Os amigos deste blogue sabem da pouca saída que nesta coluna têm os faits divers que fazem manchetes e emocionam os comentadores. Mas a desgraça do então ainda presidente do FMI abalou Paris e, aparentemente, a França inteira, a Europa e a América, pelo que tomo o caso apenas para avaliar até que ponto pode ser privada uma vida pública.
Trata-se de uma discussão centrada nos profissionais da informação que trabalham lidando com governantes, políticos, banqueiros, gente mediática ou mediatizada. Cedo os jornalistas se habituam a enfrentar a questão e a responder-lhe na prática, acatando assim ou negligenciando assado os preceitos do código deontológico aplicáveis a cada caso. E ninguém consegue evitar que esta nova questão, a do dito sr., se enrede e se torne polémica, cruzada por opiniões tão contraditórias quão os interesses em presença.
É preciso varrer a confusão e afirmar doutrina tão justa e exemplar que por si mesma se imponha.  Dispensam-se arrazoados, basta aplicar o simples, o comezinho senso comum. Rareia hoje tanto que surpreende como flor de cacto a colorir o deserto.
A forma como o sistema judicial tratou o sr. D. S. K. suscitou desde logo comparações com o similar de tipo europeu. Este ficou a perder. A justiça norte-americana mostrou ser menos morosa, primando mesmo pela rapidez. Sublinhou, especialmente, que todos os cidadãos são iguais perante a lei e, portanto, tratados igualmente.
Mas foi isso, precisamente, o que mais parece ter empolgado as opiniões europeias (e daí os álibis: armadilha, conjura política). Abstraindo-se do próprio caso, escandalizaram-se com as imagens do indivíduo levado a juízo, algemado, ele, habituado ao maior luxo, um dos mais poderosos do mundo, ali feito um farrapo, abatido poucos dias depois de ter estado em Lisboa a dar ordens aos governantes e políticos desta pequena República ibérica. Então... e o respeitinho?!
Neste sentido, houve muita opinião europeia que lamentou que o sr. D. S. K. não tivesse tido o caso por cá, pois seria bastante mais bem tratado - oh, sim, bastante mais! A empregada do hotel seria detida e castigada por difamar o preponderante personagem, tão amável que até olhara para ela. E o grande homem partiria com desculpas e vénias de toda a gente.
Aqui atingimos o cerne da questão. As figuras públicas, ou mediáticas em geral, incluindo as mais poderosas, terão legítimo direito a estar acima da lei ou, no mínimo, a manterem sob reserva uma fatia qualquer da sua vida privada? Até que ponto uma figura pública conserva ou perde, pelo facto de ser «pública» e na medida em que o seja, o poder para fechar a porta à curiosidade pública e mesmo à coscuvilhice?
Na verdade, as figuras mediáticas aparecem numa contradição viva e encarnam um paradoxo: pretendem ter vidas algo privadas sendo públicas. Porém, para todos os efeitos - os fastos e os nefastos - quanto maior for a dimensão pública que uma pessoa alcance, mais pequena será a liberdade real que lhe resta. Pretender fugir aos efeitos nefastos é ilusório: quanto mais a pessoa tem nome e rosto na praça, mais poder confere aos outros sobre si mesmo.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Quanto vale a educação

Temos um ministério dito da educação mas é a educação que mais falta no país. Porque um fulano pode atravessar os níveis todos do ensino e sair continuando a ser um pequeno javardo. A educação, da pessoa ou da comunidade, é outra coisa, sabem muito bem disso os idosos que conheceram, de outro tempo, as regras da civilidade.
Foram de leitura quase obrigatória uns manuais de bom comportamento com regras preceituadas que era preciso acatar na rua e em qualquer situação relacional quotidiana. Ia  ao ponto de se confundir com a etiqueta mas não chegava a sê-lo. As regras faziam reinar a disciplina e o respeito pelo próximo... e vou abrir-me de orelha a orelha num sorriso se me alegam que isso se devia ao ambiente repressivo da ditadura, ao atraso social português, à nossa baixa escolaridade.
Hoje tiro o chapéu às pessoas bem educadas. São gente bonita, que rareia aflitivamente. Abunda a grosseria, a falta de tato, a estouvadice, a indisciplina bisonha, o desbragamento da linguagem, a prosápia arrogante, a inveja tacanha, tudo à mistura e quase ao ponto de se impor como comportamento social «normal».
Em tal ambiente, a pessoa educada é recebida primeiro com estranheza e logo tomada por um ser débil, um lunático preso a convencionais rodriguinhos ou serôdios maneirismos do tempo da maria cachucha. Ignorando a qualidade e a força do mérito, aprestam-se para abusar do alienígena como se fosse ovelha tresmalhada de um outro rebanho. E vendo-se repelidos e postos no seu lugar, ficam na surpresa de terem que respeitar quem se dá ao respeito.
A pessoa educada não pretende receber em troca do seu interlocutor mais do que está a dar-lhe. Aspira a uma relação em perfeita igualdade, harmoniosa e de bom nível, sobretudo perante as molestas javardices. Não pode ser outra a atitude de quem efetivamente habita na Ci[vi]dade e põe a brilhar a Civilização.
Pessoa educada é, além de cultivada, pessoa humanizada. Ainda que, digamos, sem formação escolar, provindo do lugar mais campestre, a pessoa entendeu, nem que seja por simples intuição, o lugar efetivo que tem no mundo. Bastou-lhe decerto a observação do comportamento dos humildes bichos da natureza para entender como funciona e deve funcionar o princípio do relacionamento humano.
De facto, a pessoa educada de raiz possui um sedimento matricial capaz de apresentar alguma afinidade com uma «religião», a religião da humanidade. Conceito este porventura nebuloso, que porém se esclarece por uma aproximação à conceptualização de David Hume (1711-1776). O filósofo britânico, desejando que os homens pudessem e soubessem por fim viver em sociedade com tanta harmonia como os humildes seres da natureza, concebeu a «religião natural», não teísta, para realizar uma efetiva re-ligação do homem individual ao todo da humanidade no seio da natureza.
Aludi ao tema há quase três anos (ver aqui). Persuadido do valor da educação devidamente colocada num primeiríssimo lugar das prioridades em resposta a dar à crise. Demonstrando agora como quem pergunta: se uma pessoa perde toda a educação, o que dela ficará ainda a valer?!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Esta informação do poder...

O jornalismo de investigação, praticado como serviço informativo de interesse público isento e livre, em defesa da democracia e da liberdade, foi sempre o brasão máximo da profissão jornalística. Mas, simplesmente, acabou. O que disso resta serão incursões avulsas mescladas de algum oportunismo ao situarem-se no terreno pantanoso de meras propagandas visando desgastes eleitorais da «esquerda» orgânica integrada.
Degradou-se o poder da informação, transformada na informação do poder, não por qualquer capitulação dos jornalistas em bloco mas, simplesmente, porque a frágil flor da independência dos seus órgãos de informação caiu em mãos de quem renegava essa independência. Dispondo da propriedade dos órgãos de referência, foi fácil aos senhores do grande capital financeiro orientar e dominar a informação «conveniente». E, neste pé, será preciso repetir que os jornalistas são assalariados?
Interrogação pertinente: causou bastante estranheza a frase há tempos aqui escrita que atribuía a qualidade de jornalistas em Portugal não o Sindicato dos Jornalistas, sim a administração do órgão empregador. Mas é a realidade. Quem emprega é que inicia o caso: propõe o candidato à profissão ao Sindicato, que lhe confere ou não a carteira profissional.
Logo, uma primeira escolha é feita pelo patronato. Depois, ao exercer a profissão, cada jornalista estará integrado num setor com poucos órgãos de referência, onde abunda o trabalho precário e sem direitos e é fácil ficar com o nome «queimado». Além de que trabalha sob a alçada da lei aplicável, a começar pela Lei de Imprensa.
Maior estranheza causará decerto o facto de que a Lei de Imprensa atualmente em vigor, alterada em data memorável, obriga os jornalistas a revelar em tribunal as fontes em que beberam a informação. Ora ter a obrigação de, em juízo, proceder a tal identificação (ou ficar preso) decapitou cerce, pela última raiz, a liberdade de informação restaurada em Abril. Até alguma liberdade de expressão, assim de golpe, levou sumiço.
Admira, então, que o jornalismo presente esteja a morrer, amortalhado em tristonho demissionismo, e que os jornais percam leitores?Admira, num contexto mais lato, o escândalo contido na «Face oculta»? Quantos portugueses estarão preparados para enfrentar o perigo de uma total «italianização» da vida nacional?
As manipulações da informação até já ousam atingir esferas do poder judicial. Um escândalo recente  demonstra às claras o avanço (corruptor) da ofensiva: a grosseira deturpação do relatório da Comissão Europeia para a Eficácia da Justiça relativo a este ano. Segundo informação da agência nacional de notícias, alegadamente baseada no relatório, haveria em Portugal juízes à farta, a trabalhar pouco e a ganhar em barda.
Um comunicado da ASJP repôs logo os factos, mas a comunicação social ignorou-a quase por completo e a falsidade espalhou-se. Era a «verdade» conveniente num quadro em que as condições materiais do exercício profissional dos juízes não passam de pretexto. O que está em causa, embora omisso, é o alarme que causa entre os juízes  de carreira uns «outros»  juízes que provêm de nomeação política, deixando os primeiros a sentir cada vez mais assediada a independência do poder judicial.
O conflito vai em crescendo e não é nenhum torneio floral. Basta notar que o presidente do sindicato do Ministério Público defende, na sua interpretação da lei, a responsabilização penal dos políticos. Só quem viva nas nuvens não percebe o vento que por aqui sopra - uma nortada que parece querer envolver tudo.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Outra reflexão sobre a crise

Que dúvida pode haver? Um governo democrático é eleito para governar. Não de qualquer forma, não para desgovernar a nação, e sim de acordo com as promessas contidas no seu programa político. Se pretende governar bem, governará a favor da maioria eleitoral que lhe confiou o poder, não a favor da proteção dos interesses de uma qualquer minoria.
Se utiliza o poder que o povo lhe atribuiu para reforçar o poder de uma oligarquia, por muito poderosa que ela seja social e financeiramente, esse governo trai o mandato popular recebido. Comete uma infração gravíssima aos olhos abertos de quantos cidadãos lhe deram o voto e dá-lhes direito ao protesto e mesmo à revolta. Se as leis nacionais não punem essa infração com eficaz severidade, será porque os cidadãos desmazelaram antes os deveres da cidadania vigilante e os políticos oportunistas se aproveitaram.
Uma tal infração deve ser punível como o crime que realmente é. Dentro de um sistema autenticamente democrático, as leis e os costumes nacionais em vigência devem sancionar talhantemente esses desvios, chamando ao pelourinho da justiça os prevaricadores (assim como no caso da Islândia, que julgará em tribunal o responsável pela bancarrota).
Sem discussão, um governo que desgoverna a nação de modo desastroso comete um duplo crime: ludibria a confiança que mereceu da maioria democrática e defrauda o sistema político vigente em benefício particular de uma qualquer elite privilegiada. Utiliza o formalismo eleitoral democrático para, em última análise, agindo dentro da democracia, atentar contra a democracia, destruindo-a. Ora este é o regime que, claramente, por essencial definição, serve para proteger o pobre da violência do rico, a fraco da força do forte, aspirando a uma igualdade legal.
Eis porque nenhum sistema democrático pode considerar-se acabado, definitivo, perfeito. Ao invés, precisa de constantes aperfeiçoamentos, como pintura inacabada a caminho da perfeição final. Todavia, é neste ponto que emerge a questão: nenhuma democracia mostra hoje interesse convincente no aperfeiçoamento do sistema, tomando-o já como feito e perfeito.
A crise do nosso tempo avassala o mundo devido a diversos fatores e conjunturas, não há dúvida, mas parece óbvio que os problemas se criaram e amontoaram no seio de cada povo depois de os governantes rodearem de secretismo os negócios do Estado, afastando dos debates políticos nacionais camadas sucessivas da população. A ação governativa (para iniciados, por escassez de diálogo) foi-se limitando à esfera do poder enquanto a política se tornava espetáculo, o sistema escolar entrava na «pedagogia» do facilitismo e os media distraíam os cidadãos, retirando-os da participação política que embaraçaria os governantes... cujo ardor democrático, por sinal, se afirmaria pela inversa.  Falta agora desejar que a governação não seja mais confiada a profissionais da política nem a pessoas muito endinheiradas, ainda que tenham dinheiro para gastar pelos seus (interesses pouco) ideais. Merecem a eleição para servir o povo, sem sofisma, pessoas capazes de chamar (e não de arredar) os eleitores ao diálogo democrático permanente. [Imagem: pormenor central da pintura «A Liberdade guiando o povo», por Delacroix.]

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Reflexão em tempo de crise

É voz corrente entre os portugueses que o seu país sempre foi mal governado. Não é, certamente, a opinião da maioria mas talvez hoje seja a opinião predominante. O país debate-se com uma crise que nos últimos tempos não cessa de se aprofundar como se todos os sacrifícios já feitos, que façam ou que ainda possam fazer obriguem a novos sacrifícios.
Pensa que o país anda mal governado há muito tempo quem conhece o suficiente da sua evolução histórica e, além disso, possui opinião, isto é, alguma formação política e se pretende cidadão informado. Pertence a um estrato da população que parece não se confundir deveras com a grande maioria. Essa maioria, no comportamento eleitoral, elege os três partidos que há uns trinta anos se revesam no Governo. Em termos de definição política séria, posto que sumária, correspondem às três abordagens possíveis da mentalidade e tendência ideológica das classes médias nacionais num leque que vai da direita tradicionalista, despolitizada e conservadora ao extremo oposto, ligando com uma certa esquerda furta-cores ou, se reina o bom tempo, cor-de-rosa.
Pode então dizer-se que a presente crise (dita orçamental, mas também económica e financeira) foi provocada pelos governos que há uns trinta anos se sucedem no poder com apoio legitimário da maioria eleitoral do país. Mas neste quadro se evidenciam, à luz meridiana dos factos, as coordenadas do percurso e as contradições do caminho percorrido. Em três décadas, a governação (neoliberal) do país foi sendo entregue a políticos de carreira emanados dos três partidos com cada vez menor perfil de estadistas, compensando qualquer escassez de ideais com doses de pessoal ambição.
As transformações foram rápidas, intensas e extensas: acumularam-se no país num movimento que acompanhou de perto as transformações por que também iam passando, mais ou menos, outros países europeus e da América. As oligarquias financeiras concentravam a propriedade dos órgãos de comunicação social mais influentes e pressionavam os governantes para as pouparem a impostos, com o que subiam os défices. As classes médias foram chamadas a suportar novos impostos para compor a situação... que se agravou e jamais se compôs. Surgia, com a cumplicidade dos governos, a ditadura do capital financeiro sobre os governos.
Em traços muito grossos, foi este o processo pelo qual as classes médias, adormecidas no consumismo fácil e anestesiadas pelos media, foram sendo conduzidas para a crise. Acordaram quando o desemprego se implantou, o trabalho mal pago e sem direitos se tornou regra, o nível geral de vida desceu, os deveres do Estado social minguaram, os impostos  de quantos ganhavam menos cresceram até à exorbitância... e os bancos e toda a atividade financeira obtinham gordos lucros pagando sempre uns simbólicos impostos. Acordaram, enfim, para julgar os políticos, todos uns malandros e corruptos, que apenas querem enriquecer...
As «bolhas» a rebentar depois de incharem loucamente, a invenção dos paraísos fiscais, as fraudes e os bancos em falência vulgarizaram-se tanto como ter dívidas. Os bancos estavam atolados até ao pescoço tal como as empresas, os municípios, os clubes de futebol, as famílias - o dinheiro antes existente sumira-se vampirizado pela ganância e os governos, de cofres também vazios, apelavam para que toneladas de notas novas (dinheiro-dívida) entrassem de emergência em circulação. O rombo global foi avassalador: segundo Bruxelas, 13% do PIB dos países europeus foi absorvido em 2009 para «salvar os bancos», o que indica o tamanho monstruoso da «expropriação» operada pelos acumuladores da riqueza.
Arderam as classes médias e salvou-se o quê? Portugal está a pedir empréstimos de milhares de milhões pagando juros de cinco, seis ou mais por cento aos bancos, porque não pode - imagine-se porquê! - pedi-los ao Banco Central Europeu... que os concede a um por cento, assim proporcionando à banca intermediária gloriosos lucros. Pense cada cabeça o que quiser, mas algum motivo haverá para sustentar a ideia de que os políticos são, em cada período histórico, o espelho fiel da mentalidade e da ideologia do povo que os elege sem memória ou discernimento. [Clicar na imagem para a ampliar.]

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Um pouco de história da economia

Está na ordem do dia, vamos falar economês. A crise manda! E assim, com tantos entendidos a botar figuras de estilo no barquinho a naufragar, talvez haja cabide onde pendurar umas ideias porventura instrutivas tiradas da arca para as arejar ao vento que passa.
A proclamada ciência económica neoliberal entrou em descrédito enquanto ciência na medida em que o mercado demonstrou não ser capaz de se autorregular. É um monstro à solta, os seus teólogos não podem mais rezar em adoração sem cair em cega idolatria. E, muito menos, considerar a existência do mercado como condição básica de uma autêntica democracia.
Nunca o mercado foi requisito ou sequer expressão da democracia. Resultou da expansão e desenvolvimento do capitalismo, matéria estudada a fundo por um senhor barbado que publicou um manifesto em meados do século XIX ainda hoje causador de insónias a uns quantos patrões que dormem sob dossel de oiro. Matéria essa depois continuada, no século XX, por um outro senhor que, em jeito de previsão, anunciou que a fase suprema do capitalismo seria o imperialismo.
Terá acertado plenamente na mosca, é o que iremos ver no desfecho desta crise. Para já, sem dúvida, estamos no tempo dos cruciais dilemas. Profundas e dramáticas mudanças se acumulam no bojo violento da tempestade que ameaça varrer esta desgraçada (des)ordem do mundo e está a explodir.
Em crise, principalmente, está a teoria neoliberal que colocou o mundo nesta situação de ruptura. Subverteu conceitos essenciais da economia real, escondendo sob aluviões de propaganda asfixiante o que contrariasse a teoria. Atrelou-se ao deus-mercado e passou a explicá-lo como doutrina religiosa servida por catequistas.
Precisamos agora de recordar um pouco de história da economia. A noção atual de «mercado» é relativamente recente. Remonta a A Riqueza das Nações (1776), de Adam Smith, obra que por sinal provocou a «resposta» de Leo Huberman, com A Riqueza do Homem - para repor o Homem por cima do das Nações - e, entre muitos outros, de Gunnar Myrdal, economista sueco, Nobel em 1974, autor de O Estado do Futuro.
Uns conceitos de teoria económica reelaborados nos anos '30 por John M. Kaynes foram banidos pelo neoliberalismo, mas aqui e agora importa sobretudo lembrar que, até Adam Smith, a economia foi tema de abordagem ética. Rendas e juros eram condenados como indignidades ofensivas do comportamento honroso, algo como exploração excessiva, imoral e desumana. Receber rendimento das suas terras ou juro do seu dinheiro emprestado era vileza de quem por egoísmo assim se colocava à margem da ordem social.
Importa-nos hoje apreciar a evolução geral das mentalidades que desde a eclosão do mercado se verificou, ou seja, a adaptação da ética (e mesmo da religião: lembre-se o «pai nosso» emendado) a um padrão absolutamente diverso, porque aí se manifesta e evidencia o facto clamoroso: a expansão e crescimento do capitalismo implantou no mundo a desumanizar-se a regra da força maior campeando sem lei e a violência da barbárie. A fase imperialista ampliou o fenómeno até à desmesura imposta e convicta.
Ora a economia tem de reassumir capazmente a ética para se legitimar. Mas não só a economia, também a política e as atividades sociais em geral precisam da ética para negar a ganância que carateriza o neoliberalismo de modo a restaurar o valor do humano contra a violência e a barbárie à solta. Não há outro caminho. [Ilustração: de autoria desconhecida.]