sábado, 31 de dezembro de 2011

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O que é a política, hoje

Poucos eleitores das maiorias que confiam a governação nacional aos partidos que se revezam no poder têm uma compreensão suficiente do processo político. Menos ainda serão os que possuem uma consciência mínima da importância de questões como o debate e aprovação de um orçamento nacional para o futuro imediato do país. A percepção da coisa política, como causa de máxima relevância pública, anda, por este caminho, a empanar-se e a embrulhar-se perante as massas eleitorais.
Em suma, a governação nacional e toda a ação política tem vindo a revestir-se de complexidades insuperáveis para o nível cultural da inteligência comum. Os profissionais da política estabelecem áreas temáticas «protegidas» ou mesmo sonegadas e dispensam-se de prestar esclarecimentos para além da defesa constante dos seus interesses estratégicos. A informação posta a circular através dos media tende assim a ampliar mais e mais um alheamento generalizado da participação cidadã que se traduz em passividade e conformismo.
Nestas circunstâncias, a aquisição de um modesto conhecimento da coisa política (nacional e, naturalmente, também internacional) fica a dever-se ao empenho de cada indivíduo concreto, que vai longe beber em fontes diversas em busca de iluminação. De facto, é de longe que vêm elaboradas as principais políticas que os governos, levados pela onda mais alta que lhes apareça a jeito, se limitam a aplicar. A governação, realmente, faz como vê fazer «lá fora», justificando-se «cá dentro», no papel de relações públicas, com argumentos escassamente originais.
O governo da própria economia, alicerce do desenvolvimento nacional, segue na esteira de outros governos também pressurosos na adopção da última reforma. Os economistas do sistema abrem alas e entoam hinos: é o avanço da globalização, viva o neoliberalismo! A complexidade do ditar a política não está, pois, na governação - que segue comportamentos correntes bastante estereotipados,  e por isso governação tecnocrática, tratando mais de negócios barrigudos que de causas sociais.
Essa complexidade, bem real, esconde-se algures, em clubes de senhores poderosos e sem rosto, que ninguém elegeu mas que ditam os comportamentos da dita globalização. Terão sido tais senhores quem decidiu que os banqueiros saberiam governar melhor o sistema financeiro do que os governos? Terão sugerido, sorrindo à socapa, a criação do euro na União Europeia que desgraça agora tantos povos? [Imagem: autor, Pawel Kuczynski (n. 1976, Polónia.]

domingo, 18 de dezembro de 2011

Uma esquiva partícula

Uma notícia salta e é verdadeiramente emocionante. Eu, pelo menos, emocionei-me ao ouvir que uns cientistas estavam a obter grandes progressos nas suas investigações. Trabalham no CERN (Suíça), equipamento dedicado ao estudos de física subatómica e aparecem agora prontos para caçar o bosão de Higgs, aquela esquiva partícula do átomo.
É esquiva porque os investigadores, que explicam o caso, percebem que está escondida dentro do átomo e não conseguem apanhá-la. Mas avançam nos progressos e deles nos falaram com regozijo e esperança de vitória. Acho que ninguém pode desejar outra coisa!
Realmente, conseguir analisar a estrutura complexa do átomo é a façanha científica que nos falta para melhorarmos a nossa geral compreensão do Universo. Tem a magna importância dos factos determinantes a todos os níveis do conhecimento humano nem que seja em mero nível da (minha) cultura geral. Se, apesar de tudo, existem milhões de pessoas no mundo que vivem indiferentes, isto é, que não estremecem quando olham para o céu estrelado, isso apenas indica que andam de olhos  fechados para o que, além de surpreendente e maravilhoso, é óbvio.
Penetrar nos derradeiros segredos do átomo habilita-nos a conhecer a matéria (que é espaço-tempo), nas suas diversas organizações. Tarefa ingente, infindável, que já permitiu perceber a presença de algo como uma «antimatéria», decerto muito mais abundante, os falados «neutrinos». Precisamos de conhecer do que somos feitos, assim escancarados para o cosmos e com interrogações maiores que nós, contemplando de longe fenómenos como os «buracos negros» - pelos quais tudo se esvai, galáxias inteiras, inclusive a luz... e nós sem podermos espreitar do outro lado.

domingo, 11 de dezembro de 2011

O sistema do dinheiro

Enquanto a Europa, no período da «guerra fria», se manteve entre dois blocos, o soviético e o americano, viveu posta em sossego beneficiando das políticas que definiram o Estado social. O colapso soviético, desde há vinte anos, deixou o poderio americano a reinar sozinho. Em pleno unilateralismo, a Europa entregou-se então nos braços do poder imperial.
Agora a crise financeira abate-se sobre a União Europeia e a sua moeda única, com ondas de austeridade e recessão, e acumula consequências sociais catastróficas. É uma crise global (euro e dólar), gerada por défices e montanhas de dívidas contraídas por Estados, entidades bancárias e outras, conforme bem se sabe. Declara-se uma questão incrível: as dívidas  aparecem à vista por todos os lados e são gigantescas sem que, aparentemente, haja dinheiro que as pague.
Economistas, comentadores, analistas políticos e etc., articulam dia a dia abordagens as mais diversas sem que o problema realmente se esclareça nas suas bases motivacionais, bases que urge compreender para construirmos uma saída viável. Isso requer, sem dúvida, uma compreensão clara, ainda que sumária, de como funciona o atual sistema do dinheiro. Isto é, porque se afirma que «dinheiro é dívida»; porque precisam os bancos de crescentes massas monetárias; porque nos faz a inflação trabalhar cada vez mais e mais empobrecer...
Os governos, eleitos pelo povo, entregaram a emissão do dinheiro a bancos privados. Alegavam estes que só os banqueiros saberiam manter em ordem a gestão monetária, mas as fraudes e toda a desregulação do setor financeiro em breve demonstraram o contrário. A criação da moeda única europeia (condenada ao fracasso desde sempre!) no seio de uma União desigual e pouco ou nada democrática, depressa mostrou para o que servia.
A criação do euro entendeu-se bem com o FMI, instituição que à evidência sabe vergar um país e afogá-lo em dívidas - agências de rating e especulações da alta finança dão-se as mãos - para o tomar sob tutela e lhe impor austeridade até à entrega total. E acontece a surpresa: a zona euro anuncia um empréstimo de 200 mil milhões ao Fundo Monetário Internacional para que o FMI tenha fundos para emprestar aos países da zona euro em dificuldades... porque o Banco Central Europeu (que rejeita a emissão de dinheiro nem empresta a Estados da zona euro) não pode! Ver «MEE, ditador europeu», video com janela aqui à esquerda, pode valer a pena agora que o Mecanismo Europeu de Estabilidade avança e o novo tratado vem aí.
O caminho de salvação parece óbvio: sacudir o jugo do FMI, eleger governantes capazes de outras políticas, sair da moeda única, restaurar a moeda própria e o sistema produtivo nacional. Lembrando constantemente Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos, numa citação de 1802 que, em aviso, sem cessar percorre o mundo: «Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que o levantamento dos exércitos. Se o povo americano alguma vez permitir que os bancos privados controlem a emissão da sua moeda, primeiro pela inflação e depois pela deflação, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os nossos filhos acordarem sem abrigo no continente que os seus pais conquistaram.»

domingo, 4 de dezembro de 2011

Um político exemplar

Faltam ideais e mestres com fibra para erguerem esses ideais como bandeiras de luz nestes nossos negregados tempos de crise - e de crise decerto porque nem mestres nem ideais têm agora multidões que os sigam. Abunda, ao invés, quem transforma a política em negócio, o interesse pessoal em filosofia de vida, o individualismo egoísta em princípio ético. Afastemo-nos então do ambiente apodrecido e procuremos ares de renovação.
Manuel de Arriaga (1840-1917) pode ser considerado um mestre pela coerência exemplar com que pautou a sua vida e obra. Um pequeno esquisso poderá evocar-lhe o perfil. Foi o primeiro presidente da República (24-08-1911/29-05-1915), eleito quando já ia nos 71 anos de idade, pois nasceu em 08-07-1840 na Horta, Faial, Açores; continuou porém a morar na sua casa e ia de elétrico para o palácio.
Um dos traços salientes do seu carácter é o da sua extrema modéstia. Até pelo nome abreviado por que se deu a conhecer isso se revela. Completo, seria Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelonguem, com o inconveniente de recordar o pai, rico comerciante e grande proprietário do Faial, alegado descendente de flamengo, um dos primeiros povoadores da ilha.
Manuel de Arriaga licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra, onde sobressaiu como aluno brilhante, defensor da República (nos anos '60 do século XIX!). Seu pai, monárquico ferrenho, expulsou-o de casa e quis deserdá-lo, o que o obrigou a trabalhar para si e seu irmão, que apoiou sempre nos estudos e logo seria escritor. Ensinou inglês, língua que aprendera na Horta e que continuou a ensinar quase toda a vida.
Destacou-se como notável orador e obreiro do Partido Republicano Português desde 1865, quando, já licenciado, exerceu a advocacia em Lisboa. Em 1871 subscreveu o programa das conferências democráticas do Casino Lisbonense; casou em Valença e participou na comissão para a Reforma da Instrução Secundária. Em 1881 o pai faleceu e ele herdou no Faial e no Pico.
No entanto, na vida de Manuel de Arriaga não houve falta de reveses e agruras. Quando, finalmente, foi deputado, defendeu ardorosamente a soberania popular com amplas liberdades cívicas e demonstrou o seu elevado rigor ético renunciando, em 1883, ao vencimento como professor liceal. Em fevereiro de 1890, porque manifestou repúdio ao ultimato inglês, foi preso.
Foi eleito para outros dois mandatos parlamentares mas, nos derradeiros anos do século, Manuel de Arriaga esfriou o interesse pelo Parlamento e mesmo a ação política. Dedicou-se à literatura, elaborando, entre 1899 e 1907, dois livros de poesia e um de prosa. Em 1910 foi ainda reitor da Universidade de Coimbra, então tumultuosa, e procurador-geral da República.
A grande instabilidade política do país e do próprio PRP levaram-no, em 1915, após a formação da junta militar, a tomar posições que mais tarde foram duramente contestadas até pelos seus correlegionários. Tentou justificar as suas opções políticas em livro saído em 1916 parece que sem resultado. Ficou condenado a um limbo algo degradante de que só saiu em anos recentes - corrido quase um século! - graças a iniciativas meritórias que o redimiam. [Imagem: retrato (reduzido) de Manuel de Arriaga por Rafael Bordalo Pinheiro.]