sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Acordo Ortográfico: stop?

Amontoou adversários acérrimos, provocou polémicas e ateou discussões entre as facções rivais desde que foi assinado em Lisboa em 1990. Mas quando o Acordo Ortográfico entrou oficialmente em vigor em Portugal, e o Brasil e Angola adiaram semelhante decisão, as posições estremaram-se. Agora, em Lisboa, levanta-se a questão: que fazer?
Realmente, a situação em que Portugal se vê é um tanto desconfortável. Esperar passivamente pela decisão a tomar pelos maiores países integrantes da comunidade lusófona talvez até 2015? Mas quando irão aplicar os sete países subscritores a reforma acordada?
Enfim, dois deputados decidiram levantar a questão na Assembleia da República. Na presente situação, justifica-se bem a iniciativa seja qual for o resultado que venha a obter. O Acordo Ortográfico parece ferido de morte e, se acaso pode salvar-se, mande notícias.
Vejamos, eu nunca me pronunciei contra a reforma. Ao invés, apoiei-a desde o princípio percebendo o valor da unidade linguística a preservar no espaço da lusofonia. Quando entrou em vigor, legalmente, passei a escrever, respeitando-a, no blogue e nos meus livros. Recentemente, em face da triste situação colocada aos portugueses, distanciei-me do Acordo, fiz corpo com os opositores e retornei à antiga ortografia (ver aqui, em Etiquetas: “Ortografia”).
Estou portanto à vontade para apoiar uma iniciativa que se dispõe a abordar a questão. Acho mesmo que era tempo de reagir. A situação precisa de ser analisada, discutida e convenientemente decidida.
Deve salientar-se que a ortografia oficial portuguesa acata uma reforma admitida por autêntica concessão negocial. Não era a nossa ortografia, certamente não era também a de nenhum outro país lusófono, mas foi a solução consensual encontrada pelos negociadores. Seria bonito que os acordos internacionais fossem honrados.
Finalmente, irá declarar-se que espécie de futuro espera a Comunidade de Países de Língua Portuguesa. A CPLP tem sido considerada, desde que nasceu, organização com mais sonhos do que músculo para os realizar. Se vier a desaparecer, será lamentável.
Lamentável continua a ser, de facto, para nós, que o único Museu da Língua existente no quadro lusófono tenha sido criado no Brasil e, note-se, que consiga receber milhões de visitantes (entre os quais, naturalmente, poucos portugueses se contarão).

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Um lobo das estepes

Era já idoso quando nos conhecemos e, há semanas, sumiu-se deixando o mundo mais baço e perdido nas suas trágicas cegueiras. Tinha publicado um extenso conjunto de obras e era autor menos lido do que respeitado e ainda menos estudado. Estava pois a morar, como ele dizia, na penumbra dos escritores supranumerários.
Não parecia ralar-se com isso. Só raramente notava a pouca leitura que tantos dos seus livros conseguiam mas fazia-o sem rebuço, como uma consequência natural de menor importância. Promovia-os (promovendo-se) tão pouco que muitas das pessoas das suas relações pessoais directas até ignoravam as suas publicações, a sua projecção na escrita, vislumbrando dele, no melhor dos casos, algum artigo solto em jornal ou revista.
Contudo, no ambiente literário, o seu caso não era o dos escritores que produzem obra de vulto e depois, esmorecendo durante longos anos, caem no “esquecimento em vida”. Ele continuava a escrever e a publicar, mas, como figura pública, era ínfimo o alarde que fazia dentro da ruidosa praça literária. Na esfera restrita da sua existência (onde sobressaíam notabilidades porque eram realmente “amigos”, não por serem notáveis), consideravam-no homem de carácter, convivente e solidário, incansável militante das causas nobres aliás agora tristemente impopulares.
Mas aquele homem vivia em óbvia solidão, não estabelecia relações com figuras “interessantes” e, apegado à sua independência, recusava pertença a grupos, clubes, lobbies. Neste ponto, citou um dia lorde Byron: “A consequência de não pertencer a nenhum partido será a de que os incomodarei a todos.” Sorriu num trejeito muito seu e acrescentou: “pelo que a todos dou o direito de me incomodarem a mim”…
Tivemos conversas surpreendentes. Idoso, ainda lhe sobrava energia moral para defender a sua extrema solidão contra a ordem burguesa que afinal era a sua e a nossa. De repente fez-me lembrar “O Lobo das Estepes”.
Este romance de Hermann Hesse, publicado na Alemanha em 1927, marcou especialmente a obra do Autor, prémio Nobel em 1946. O movimento juvenil dos anos ’60 colocou-o como seu próprio expoente de radicalidade. A figura-símbolo central, Harry Haller, o “lobo” solitário e desirmanado, também exprimia em época de trágica crise – semelhante à que afunda em desgraçada decadência a Europa na actualidade - uma rejeição total da cultura, da política, da comunicação social existentes, então como hoje.
Quis reler o livro. Não o encontrei em casa, pedi-o na biblioteca pública. Nele topei um conceito que acabara de ouvir na conversa com o escritor meu contemporâneo: “O verdadeiro sofrimento, o autêntico inferno, esse só advém na vida humana onde e quando duas épocas, duas culturas e duas religiões se intersectam.”
Mais adiante detive-me para reler e tornar a reler: “O burguês é por isso mesmo, pela sua própria natureza, uma criatura de fraca vitalidade, medrosa, receosa de todo e qualquer abandono da sua pessoa, facilmente governável. Por isso colocou, no lugar do poder, a maioria; no lugar da força, a lei; no lugar da responsabilidade, o exercício do voto.” “A grande maioria dos intelectuais, a maior parte dos homens artistas, pertence a esse tipo.” [Imagem: escultura de Bruno Torfs, Austrália.]

sábado, 14 de dezembro de 2013

O que é ”Kitsch”?

O termo veio do alemão e tem utilização crescente. Um vulgar dicionário regista o que significa: “produto artístico, literário, de utilidade doméstica, etc., de qualidade inferior, mas com cunho sensacionalista, que pretende ir ao encontro do gosto popular.” Assunto esclarecido e encerrado?
Não, está em esclarecimento e continua aberto. Assunto agora reavivado pelo contributo de João Medina (“O Kitsch português, reflexões sobre o inautêntico na história cultural lusa”) publicado há dias num blogue (http://malomil.blogspot.pt/2013/11/o-kitsch-portugues.html). Agradeço ao prezado amigo que mo trouxe ao conhecimento.
O termo, na origem alemã, deriva de “atamancar” (obra mal feita) ou impingir como boa coisa de qualidade inferior. Mas, em Portugal, em alguns círculos sociais, o kitsch até tem categoria próxima do belo ainda que, agrega o dicionário, seja “manifestação cultural ou artística que explora estereótipos sentimentalistas, melodramáticos ou sensacionalistas”. Porém, o sentido real do termo é obviamente pejorativo: é tendência, expressão ou conjunto de objectos considerados de mau gosto ou de má qualidade por terem características associadas ao gosto popular.
O trabalho do Prof. João Medina – um ensaio muito ilustrado – desfaz quaisquer confusões assentando desde logo no conceito do que deve entender-se correctamente por kitsch. Abre com epígrafe do ensaísta Abraham A. Moles, autor de basilar livro sobre o tema: “O mundo dos valores estéticos deixou de ser dicotomizado entre o Belo e o Feio; entre a arte e o conformismo estende-se a vasta praia do Kitsch.”
Para Moles, a civilização do consumo produz a cultura de massas, identificável como kitsch. Surge a indagação: poderá a produção industrial ser arte?
Vem a seguir uma outra epígrafe, do espanhol Antonio Muñoz Molina (“«Kitsch» nacional”, Babelia, 21-IX-2013), e é extensa: “…o kitsch é o império dos espaventos descontrolados da emoção e a sensibilidade, da desproporção entre a substância e o invólucro (…). O kitsch define-se por comparação porque a sua natureza é derivada e parasitária. O kitsch está para a arte como a margarina para a manteiga, o Arcopal para a louça, o romance histórico para a História, a Isabel Allende para o melhor Garcia Marquez, (…). O que os anúncios turísticos da Junta da Andaluzia para a realidade da Andaluzia (…). O kitsch é inseparável da efusão nacional porque esta consiste na translação para o público daquilo que em rigor pertence ao âmbito das emoções privadas. (…).”
Estabelecida a abordagem correcta e precisa da questão em foco, João Medina passa a aplicar o conceito exposto ao “kitschismo” acéfalo que invade a realidade portuguesa sem esquecer ideologias e doutrinas conservadoras. À literatura (os best-sellers José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto, ou Dan Brown, Leon Uris, etc.) e à arte (Joana de Vasconcelos, José de Guimarães, o Malhoa de “O fado”, etc.) segue-se o teatro, o cinema, a arquitectura, a música… Acende-se, inevitável, a polémica e aí vem a discordância caceteira pedir desforra das “ofensas”. Enfim, o que é kitsch? [Imagem: cartaz-réplica do conhecido quadro "O Fado", de José Malhoa; autoria omissa.]

sábado, 7 de dezembro de 2013

O sonho da eternidade

É inesgotável a necessidade humana de sonhar. Os teístas crêem na vida eterna, os artistas, escritores incluídos, crêem na perenidade das suas obras. Cada existência individual, condenada à sua efémera duração, suspende-se por vezes para questionar se a vida é ou poderá ser só “isto” sem mais transcendência, apenas o breve rasto num caminho que depressa o vento dilui.
Sonhar com a eternidade resgata a condição humana à sua contingência ao projectá-la na tela do infinito. Assim elabora a arte, toda a arte que podemos admirar enquanto afirmação estética da plena dignidade do homem. E neste sentido aparece o novo livro do poeta Izacyl Guimarães Ferreira.
Izacyl, na sua longa carreira (nasceu em 1930, Rio de Janeiro), já publicou mais de vinte livros, um dos quais, Discurso Urbano, mereceu o prémio de Poesia da Academia Brasileira de Letras em 2008. Desde então acrescentou à sua obra mais três títulos e uma antologia. Reaparece agora com Altamira e Alexandria (ed. Scortecci, São Paulo, 2013, 66 pp), onde os seus poemas tomam as pinturas rupestres da caverna de Espanha e a antiga biblioteca do Egipto como símbolos expressivos de uma humana “ânsia de eternidade”.
O tema essencial deste livro, envolvendo a questão (agónica) do que é nascer para morrer, isto é, a atitude ou as ideias que o Autor pode ter perante a vida no seu ocaso, assenta num pano de fundo que implica a questão do crepúsculo em que parece afundar-se tanta civilização e cultura no Ocidente, senão no mundo inteiro. A voz do poeta, octogenário (nasceu no “meu ano”), sintoniza ou coincide com as sombras do nosso tempo nos quarenta poemas que compõem este ciclo.
Yracyl evoca pirâmides e mausoléus, pedras lavradas e páginas escritas, casas e mobílias domésticas, álbuns e retratos contra o mortal esquecimento, pois “a grã ceifadora não perdôa / se o coração do homem já não sôa”… “porque é preciso não morrer de todo”.
Num breve antelóquio, Antonio Carlos Secchin considera esta poesia uma “ode ao humano”. Tem razão. Com estilo conciso, exacto e seguro, percorrido por um fio de lirismo, oxalá Izacyl Guimarães Ferreira atinja Portugal e encontre apreciadores. Veja-se:
“O sonho é prosseguir, continuar, / como o prazer do amor e toda a caça / a eternizar o instante e expondo a raça, / é não perder-se no pó que se espalha / ou na limalha a dispersar-se à toa, / é perpetuar-se em pedra, ser pessoa.”

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Formiga navegante em fuga de inundação sai por portaló e alcança terra firme [foto: autor desconhecido]

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Português sem mestre

O crónico praticante da escrita acaba por se enredar nas palavras que usa. Com elas se veste para sair à rua e a elas se prende ao enamorar-se, senão de todas, pelo menos de algumas escolhidas. Então, como fugir ao golpe que sente ao ver atropeladas algumas delas por descuido ou ignorância?
O respeito pela língua materna confundiu-se outrora com o respeito pela pátria e o patriotismo. As regras da educação impunham o máximo primor da linguagem no contacto directo, oral ou por escrito, das relações sociais. Mas os costumes mudaram, esfumou-se a civilidade e deliquesceu a educação tanto quanto a consideração pelo “outro”.
A desvalorização sistemática do próximo acompanhou a desvalorização do respeito pela língua materna como se uma insubordinação civil pudesse tornar mais tolerável uma subordinação larvar imposta pelo sistema dominante em crise (e por aí se avançou até à degradação dos princípios e dos valores). Os atropelos às regras do bem falar e bem escrever vulgarizaram-se ao ponto de se instalar a confusão actual e se banalizarem liberdades e libertinagens. O léxico vulgar e a semântica abriram-se a inovações sem critério alargando-se tanto quanto, por outro lado, se empobreceram.
Exemplos? Vejamos o caso das palavras formadas por iniciais (Pide, laser, sida): têm crescente uso pois simplificam a elocução tornando-a mais eficaz. São, realmente, acrónimos, mas a designação correcta vê-se substituída por esta outra, sigla, termo com significado diverso que os dicionários registam.
Cresce também a utilização de estantes que apoiam microfones e textos dos oradores em variadas sessões. Chamam-lhes pulpitre (ou mesmo púlpito) quando julgam atinar na designação correcta, mas o termo vem do espanhol significando “carteira escolar”. Ora o objecto, conhecido desde há séculos, tem nome bem português: é atril, “estante em forma de plano inclinado, para se pôr aberto o livro, ou o papel, a fim de se poder ler comodamente”.
O anglicismo ranking popularizou-se nas esferas desportivas, escolares e outras. Dispensa vocábulos como categoria, classificação, posição, tal como tranche, galicismo igualmente escusado porque ignora expressões portuguesas aplicáveis como prestação, fatia, parte. Parece que é chique usar estrangeirismos na elocução, comportamento que revela o abandono a que os portugueses votam a sua língua materna, isto é, a sua literatura, a sua cultura, a sua identidade. Mas continuo (e na melhor companhia!) a ver esta língua como a maior criação do génio deste povo… vendo-a, lamentavelmente, a corromper-se no interior da sua própria matriz.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Autores no olho do tufão

Tudo muda com rapidez crescente. A vertigem das mudanças percorre o mundo como brutal tufão e nós, apanhados, mal conseguimos adaptações às novidades em sôfregas corridas de última hora e nem chegamos a perceber o sentido de quanto mudou. Os meios da edição literária e dos circuitos da leitura passam também por dramáticas alterações mas, para camadas de autores e grande número de leitores, aparentemente, pouco ou nada está a acontecer.
Num piscar de olhos, meia dúzia de anos, a edição de livros concentrou-se em Portugal em três ou quatro grandes empresas e o mercado do livro (não apenas o sector da edição, conforme estava previsto e anunciado), alterou-se radicalmente. Os autores, nacionais e estrangeiros, com obras de grande sucesso, veloz e renovável, predominam no mercado ao ponto de o tornarem quase exclusivo. Mas as suas obras, produzidas para os gostos predominantes, de ficção ou de tema sensacional, levantam cada vez mais objecções por parte de conhecedores especializados.
Os próprios autores dessas obras de grande consumo caem já em algum descrédito pois tendem a repetir-se nas suas estratégias de sucesso. Nos circuitos da leitura massificada surgem também sinais claros de saturação e cansaço (que só por distracção poderão interpretar-se como efeitos da crise). E é suposto que os “outros” autores que se vêem arredados do mercado não terão opinião pessoal abonatória sobre o que mais se vende.
Esses “outros”, assaz numerosos, amontoam-se nas editoras de segunda linha, nas baixas tiragens, nas vendas directas pela multiplicação de sessões de autógrafos. Mas, embora arrebatados pelo tufão, não desistem de imprimir os seus livros, de gastar papel. Sentindo, entretanto, uma clivagem a acentuar-se: entre a literatura de consumo rápido e a própria Literatura, ou seja, o mercado e a autêntica criação literária.
Uma cultura realmente viva entrou assim em contradição com uma cultura popular asfixiante. A resposta está, julgo eu, na saída das edições impressas (caras, com distribuição e venda difícil) em direcção aos ebooks. São publicações muito menos onerosas e a sua distribuição pode atingir uma escala global com vendas online, por moeda à escolha, a preços deveras reduzidos… serão, afinal, a ponte levadiça que resta aos “outros” autores para a conquista do seu “castelo das nuvens”.

Escrevo estas linhas equacionando os dados da situação presente sem pretender motivar alguém (sublinhando, todavia, o meu caso pessoal: a experiência em curso atrai-me porque, além do mais, me proporciona a oportunidade de publicar cada livro sem os atropelos que por vezes atingiram as respectivas edições impressas). Que cada autor faça as suas opções! Realmente, na situação actual, torna-se apetecível a exploração das várias plataformas de publicação de livros em formato digital existentes, os já vulgares ebooks – a ponte do castelo!

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Pintura é “coisa mental”?

Uma frase de Leonardo, o da Vinci, andou-me no juízo às voltas tempos infindos. Dizia simplesmente: “A pintura é coisa mental”. O que pretenderia expressar o génio da Renascença? 
Coisa mental, isto é, criação da inteligência, a pintura, obviamente, é. Então, como admitir que Leonardo ia registar algo tão óbvio (ele que, ó espanto, até caligrafava as frases escrevendo-as pelo inverso de maneira que eram legíveis para um leigo apenas quando “recompostas” num espelho)? 
Quem gosta da arte e aprecia o convívio com pintores, frequentando-lhes os ateliês, habitua-se a descobrir a figura que surge no limiar da imagem. A imagem forma-se naturalmente, quase irresistivelmente, estimulada por algumas sugestões visuais. Logo, é “coisa mental”… 
Toda a pintura? Sim, evidentemente, na medida em que a imagem visual se forma no cérebro que a recebe. Seria este o pensamento, então inovador, de Leonardo? 
Perceber isto, porém, para mim não foi fácil. Mas calhou-me ler um texto admirável de autor creio que japonês sobre o poder da linha, a linha do desenho traçada pela mão do artista, e a sua tremenda expressividade. O nome do autor sumiu-se, ficou apenas a revelação.
Basta a linha, o minimal risco preto-no-branco que descreve no papel um contorno para que o objecto, a coisa nascente adquira forma, volume, relevo – vida! Será esta a ideia contida na frase de Leonardo? Enfim, nesta presunção fiquei até esbarrar, recentemente, num vocábulo velho cuja semântica se alarga, ao que suponho, com um significado novo. 
Os dicionários registam-no assim: “escotoma s. m. (med.) mancha negra ou brilhante que, na doença da retina, se forma diante dos olhos; do gr. skótoma, «vertigem», pelo lat. trad. Scotoma, «id.»”. Outras fontes agregam as derivações “escotoma psíquico” e “escotomização” (“supressão de uma parte do campo visual” e “mecanismo psíquico inconsciente”), sempre em ligação com a oftalmologia, e também “escotópico”, relacionado com a visão em que só são impressionados os bastonetes da retina. Mas aparece agora o neologismo que usa escotoma para significar o fenómeno visual que dá vida à linha e atrai o olhar para a mancha no limiar da imagem (no sentido em que os olhos vêem o que o cérebro quer ver).
Ninguém se atreve a garantir a interpretação correcta da frase mas a ideia de Leonardo parece intuir ali um segredo conhecido e estudado muito mais tarde. Nada surpreendente, afinal, no caso renascentista repleto de prodígios. Pois não continuamos parados diante de milhentas mona lisas no museu imaginário a inquirir se foi pintada por Leonardo e quem retrata, se é homem ou mulher, se sorri ou se…?!

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O futuro da lusofonia


Há poucos dias, uma conferência que reuniu em Lisboa um naipe de linguistas, debruçou-se sobre o futuro da comunidade lusófona. Considerou então que a nossa língua materna, hoje vista num sexto lugar entre as principais do mundo, iria atingir nos próximos trinta ou quarenta anos um ainda mais radioso futuro. Atingiria o terceiro lugar, a seguir ao Mandarim e ao Hindi!
O sentimento patriótico deve ter pulado nos peitos lusitanos com uma alegria de taça conquistada no campeonato e erguida, de braço no ar, em triunfo. Em tão pouco tempo, o nosso Português até iria suplantar o Inglês, língua franca da globalização! A comunidade lusófona seria, finalmente, a suprema coroa de glória do agora tão deprimido povo português…
No entanto, com tamanho optimismo, varria-se para debaixo do tapete um facto tão irrecusável quão comezinho. Não pode ser omitido que... os portugueses não são donos da sua língua! O Português pertence a cada falante e cada escrevente que, algures, resolva utilizá-lo conforme saiba ou entenda porque estará a exercer um incontestável direito!
Somar mecanicamente as populações de cada membro da comunidade e projectar no porvir as taxas dos seus crescimentos demográficos, para inserir os dados num quadro estático, é exercício vão. Vejamos: quantos indivíduos dessas populações dominam actualmente a nossa língua? Quantas, e como, aderem ou vão aderir ao Português?
Perfilhada na comunidade como língua oficial justifica, ao que parece, tiradas grandiloquentes e triunfalismos indómitos dentro do pátrio rectângulo, mas o que vale isso? Quem vai ao Brasil (o Brasil!) é questionado por bastantes dos seus naturais que lhe perguntam “que língua falam os portugueses”? Tente utilizá-la, para glorificar Camões, quem viaje pelo vasto interior de Angola… e talvez nem precise de ir mais longe.
Cada uma das oito nações da comunidade lusófona (repito: excluindo, lamentavelmente, a Galiza) segue as coordenadas de desenvolvimento da sua própria conjuntura. Todavia, são ainda raras as tentativas para apreender cada uma dessas situações particulares e as integrar numa visão complexa do conjunto em perspectiva (foi o que eu fiz em Inclinações Pontuais, Porto: Campo das Letras, 2000, pp 127-173; e, antes, na rev. “Nós”, Braga-Pontevedra, 1986-1988). Bem mais fácil – e confortável - é colocar simplesmente o conjunto lusófono no mapa das derivações românicas…
Afinal, o Português está a herdar os resultados históricos de uma prolongada falta de investimento que tem mantido a “política da língua” em banho-maria. Nem sequer teve a sorte do Inglês ou do Francês, por exemplo, nos decénios posteriores à descolonização portuguesa (até os nossos emigrantes se queixam de perder apoios escolares). Em suma, o futuro da nossa língua materna, no pátrio território, apenas provoca apreensão (conforme digo em
O futuro do Português) e o futuro da lusofonia vai também por esse caminho.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Convido os leitores

Esta coluna tem amigos e seguidores regulares. Há mais de cinco anos que nos reunimos por aqui e acabámos por formar a nossa pequena comunidade. Uma comunidade de leitores do bloguista que vai lançando aqui os seus escritos em ritmo semanal.
Mas chega agora a altura de virar ao contrário a regra, de o escriba ler o que os leitores quiserem escrever. Isto é, o bloguista apresenta hoje um convite que é também um desafio. Quem se dispõe a substituir o escriba no seu lugar?
Temas à discrição! Será bem-vinda a abordagem de qualquer assunto da actualidade social ou política, tal como uma reflexão ou uma evocação pessoal partilhável. A abordagem pode também apreciar uma qualquer situação cultural, uma obra literária (e se for de minha autoria, viva!)…
Seria óptimo para mim que os leitores aproveitassem o ensejo para, digamos, comentar a publicação dos
meus livros com formato digital (ebooks). Que vos parece a iniciativa? Sabem acaso que as edições da Amazon-Kindle têm preços muito baixos, por vezes verdadeiramente simbólicos ou mesmo grátis, e que podem ser lidos em qualquer computador pessoal?
Na verdade, tenho imenso gosto de avançar com este convite. Quero que esta coluna deixe de ser “do fala-só” e passe a ser bidirecional. Que os leitores tomem a palavra!
Se, conforme desejo, tal acontecer (enviando os textos, trinta linhas normais no máximo, para mota.arsenio@gmail.com), o convite manter-se-á. Com regularidade, se possível uma vez por mês, os leitores serão bloguistas. E assim a nossa pequena comunidade se tornará mais efectiva!

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Escrita criativa: exemplo


Trago hoje na mão um exercício de “escrita criativa”, género em voga. Tem fiéis apreciadores, que dispensa de leituras trabalhosas e de grandes investimentos intelectuais, e agrada aos “criadores” com um naco de imaginação e habilidade para extrair a história do buraco de uma agulha com a ponta da mesma agulha. Acontece também que tenho aqui ao lado um Fulano a incomodar-me porque, imaginem, não desiste de se contemplar de olhos fechados!
Quer que o ajude a realizar a proeza, embora eu o avise de que, tanto quanto sei, jamais alguém terá conseguido ver-se de pálpebras cerradas. Mas o F. vai teimando, arrebatado pela sua obsessão, e não desiste. Quer conhecer a cara com que ficará e irá aparecer aos pósteros depois de morto.
A obsessão agravou-se quando ele, colado ao chão diante do espelho, treinava a rapidez das pálpebras desejando chegar ao ponto de as encontrar fechadas estando ainda abertas. Pois não chegara aquele famoso cowboy do far west a ser mais rápido do que a sua sombra? Fulano não queria ficar-lhe atrás!
Mas ficou. Afligiu-se e, revoltado, não aceitou a derrota. Virou-se para a fotografia, recurso formidável.
Era estática. O instantâneo captava a imagem no centésimo de segundo em que a cena exterior se gravava no interior da câmara. E ali aparecia ele, finalmente, de pálpebras descidas, a fingir-se de morto.
Não era, certamente, a mesma coisa. Respirava, tinha as faces mornas, os beiços com alguma cor. Ora F. queria mesmo observar o aspecto final da sua fisionomia cadavérica, entendendo que, de corpo enfiado nas roupas, era a cabeça, senão apenas a cara, a derradeira lembrança que dele restaria.
Acrescia um pormenor. Ele estava prevenido contra os perigos da fotografia, os ludíbrios da iluminação sobre o objecto. A imagem estática introduzia uma realidade “outra”, não a realidade que procurava.
Ontem à tarde, diante do televisor, notou algo que via há anos no aparelho: a demora, de um segundo ou dois, que a tv repetia quando estabelecia ligação com repórter no estrangeiro. Fulano teima agora em arranjar alguém que o filme com câmara vídeo e, do outro lado do mundo, com ele online na Internet, lhe envie de volta as imagens em fluxo para o seu computador… que ele receberá com o bendito atraso!
E assim o leitor percorre o texto, chega ao fim e o que recolhe? Um pouco de nada. Nada exemplar.
[Imagem: de Lorenzo Muttotti, Brescia, 1954.]

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O futuro do Português

As previsões são sempre falíveis. Assumidamente, obrigatoriamente. Mas, avaliando as linhas de força da presente situação, façamos um pouco de prospectiva para indagar: que futuro pode ter a nossa língua materna?
Vou resumir algumas ideias que venho elaborando e sustentando, incluso neste blogue, sobretudo desde que a organização lusófona existe para servir uma qualquer finalidade (não me perguntem qual). A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (oito países: Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor e Portugal, com omissão da Galiza onde não falta quem reivindique a pertença!), parece  sujeita a dinâmicas internas próprias de cada um que pouco deixam à conta de “comunidade”. Num breve relance não é possível ir além de uma avaliação global da situação “comunitária”, bastando lembrar a sorte que está a ter o novo Acordo Ortográfico para a deixar demonstrada.
Portugal ficou praticamente sozinho, com o Acordo pendurado na mão, e os maiores países lusófonos reticentes, sem pressa notória quanto à adopção oficial da nova ortografia acordada em 1990. As instâncias oficiais aplicam-na junto com alguma imprensa, mas amplos sectores nacionais, relutantes, mantêm-se firmes na recusa. O resultado, obviamente, é a barafunda ortográfica que entre nós reina.
Na confusão instalada, o escrevente às tantas nem atina na grafia correcta de um vocábulo ou de um verbo. A eliminação das consoantes mudas agravou as deficiências da escolarização existentes e não serviu ainda para garantir uma unificação ortográfica mínima. Mas as deficiências do sistema escolar, acumuladas ao longo dos anos em obediência a interesses políticos obscuros, implicaram-se também na falta lamentável de uma verdadeira “política da língua” com visão e verdadeiro rasgo.
Assim desembocámos na presente situação de autêntico descalabro. Sem excessivo exagero, pode dizer-se que os Portugueses estimam e conhecem a sua língua materna como se estrangeiros fossem. O falar e o escrever correctamente são já raridades preciosas que restam apesar das deficiências do sistema escolar e dos atropelos da comunicação social no quadro da geral decadência do país.
O Português vai sendo invadido por barbarismos, sobretudo ingleses, e a realização fonética vulgar, fugindo da gramática, atenua ou apaga mesmo a sonoridade das vogais, tornando a língua, antes vocálica, mais e mais consonântica. E pior: só uma pequena parte do nosso vocabulário será talvez ainda conhecida e um tanto utilizável pela população letrada. A parte restante jaz morta e arrefece na vala comum dos dicionários depois de ter brilhado com os esplendores de uma língua de cultura.
Com tudo isto, não estaremos a condenar à ilegibilidade as obras fundamentais da literatura portuguesa? E, rapidamente, a caminhar também para implantarmos no canteiro ibérico uma língua “nossa” e só “nossa”? As próximas duas ou três gerações, herdeiras das anteriores, decidirão se os nossos livros clássicos estarão ou não redigidos numa “língua morta”.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

É escritor porfissional?


Nunca me apeteceu ser ou vir a ser escritor profissional. É, pois, com alguma estranheza que me deparo com praticantes da escrita que afirmam, e logo nos seus começos, que querem ser “profissionais”. Por outras palavras, querem viver exclusiva ou principalmente do que as letras lhes rendam.
Aspiração legítima. O trabalho da criação literária, sendo diferente e deveras exigente, é trabalho a remunerar como qualquer um outro. Mas poderá ser mesmo “profissão” regular?
Tenho dúvidas. Sempre tive. Não consigo conceber a criação literária como ocupação diária com horário marcado, fins de semana, período de férias…
Concebo tão só o aparecimento de um autor subjugado por uma força que o amarra a um esforço maior do que a sua vontade e que ele realiza, sem ter outra saída, envolvendo a sua totalidade humana como quem se liberta da febre de uma pulsão imperiosa. Assim, mais ou menos, costuma sair a Obra com marcas de génio. Agora o contraste: um autor “profissional”, cultor de oficina, hábil em recursos de “escrita criativa”, que trabalha para lançar no mercado a cada ano obra(s) com quatrocentas ou quinhentas páginas…
Lembro muitas vezes, em conversas pessoais, que fui para o jornalismo porque não via outra profissão mais aceitável. No jornal praticaria também a escrita e eu já andava “naquele tempo”,
desde que publicara os livros iniciais, há bons anos, a colaborar na imprensa então enriquecida com suplementos literários. A literatura nem com cantos de sereia me daria para viver.
Era então capaz de gostar da literatura ao ponto de a amar. Amar deveras, sinceramente. E continuo sem mudança.
Creio mesmo que é preciso começar cedo, como leitor, a gostar fortemente de literatura. A distinguir e a saborear a expressão literária em prosas e poemas onde a arte da escrita fulgure com belos esplendores. Não é verdade que o autor, como escritor, será o que foi (e será sempre) enquanto leitor? [Imagem: pintura de porta em rua do Funchal, Madeira.]