sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A crónica como palimpsesto

Conforme é de uso, o cronista pode, querendo, debruçar-se sobre umas telúricas ocorrências do seu próprio umbigo, ou, mergulhando na cachoeira dos episódios do quotidiano, escrever sobre o escândalo do dia ou peripécias várias. Ora, se o próprio umbigo deste vosso cronista é lavado no banho diário e, por manifesto pudor, logo fica tapado pela camisa, e se também quer fugir o mais possível dos chinfrins da rua, sobre o que vai ele escrever? Vai, suponho, tentar a captação de sinais mensageiros que perceba no ambiente.
Apoiado nas informações de que disponha, tentará reflectir uma pessoal prospectiva do que pode esperar a colectividade no próximo futuro. Quer dizer (assumindo um pouco do estilo dos velhos almanaques), o cronista tenderá a elaborar uma espécie de “juízo” do seu e nosso tempo.
Por este caminho vem há seis anos, desde que criou este blogue em Janeiro de 2008. O propósito inicial teve que acompanhar os acontecimentos que então se precipitavam em espantosa cadeia. Eram inacreditáveis, calamitosos, desvairados, de estarrecer.
Bancos e sociedades financeiras de relevo mundial declaravam falência e grandes empresas internacionais deslocalizavam-se para explorar mão-de obra quase escrava no estrangeiro e usavam paraísos fiscais para esconder os lucros e fugir aos impostos devidos. E foi então que vimos os governos a intervir com montes de dinheiro recebido dos contribuintes, esmagados por impostos acrescidos, pela austeridade e o desemprego, na salvação de empresas privadas, e a demonstrar com máxima clareza que governavam não em prol do povo eleitor mas sim em apoio das oligarquias financeiras, empresariais ou militares. Os sistemas político, financeiro e bancário, tal como funcionavam, acabaram igualmente por atrair as atenções e este blogue para o cronista, que seguia tais acontecimentos, transformou-se no seu palimpsesto.
Foi preciso, realmente, acordar na aflição de uma ordem nova a reinar em meio mundo e com ímpeto tão avassalador que parecia já envolver todo o planeta. Os sinais traziam mensagens claras e abundantes, continuam a povoar a atmosfera em que vivemos, cada vez mais claros e inequívocos, mas, para além de uns segmentos cultos, os sinais têm-se diluído nas distracções populares proporcionadas pelos espectáculos diários servidos pelos canais dos media. A realidade desta crise política, uma crise especialmente avassaladora porque é estrutural (marca a transição de um tempo “velho” para um outro ainda enigmático, ameaçador), é sonho mau que as massas esconjuram supondo que só existe de facto o que querem ver. [Imagem: cartoon de Poleur.]

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A destruição dos Estados

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, assim começa um dos mais lembrados sonetos de Camões. Mas o tempo é imutável, corre sempre num fluir insensível e completamente alheio às volições humanas. As vontades, sim, mudam momento a momento nas fogueiras dos nervos e das paixões.
O que o verso camoniano enuncia poeticamente é, pois, um tempo mudado pelas vontades colectivas. Logo, os tempos mudam por mudança das vontades humanas, sendo estas que atribuem a “cor” (quente ou fria, belicosa ou quieta) à situação de uma paisagem social. Compreende-se, portanto, que esta nova época histórica emerge em resultado de mudanças tão vastas e profundas a ocorrer no interior da sociedade que marcam este tempo como um “tempo novo”.
Na verdade, um novo período histórico até pode trazer e restaurar um tempo antigo, por exemplo, com algo de escravatura ou de feudalismo. Isto, evidentemente, não de forma plena assumida, antes em restauros parciais do que no essencial interesse à oligarquia dominante. O tempo presente demonstra-o com dramática clareza.
O povo, cada povo, parece esquecido de que, em última análise, corporiza “o Estado” com a sua história, língua e cultura, no território de que detém efectiva soberania. Assiste, desde há anos, em completa passividade, a uma destruição audaciosa programada. O Estado, que é o próprio povo, vai desaparecendo, derrubado pouco a pouco, bocado após bocado.
As funções normais do Estado, que garantem a soberania nacional e a segurança geral da população, além de outras funções, entram em grave crise. A maioria da população sofre com a degradação das suas condições de vida enquanto uma minoria prospera e enriquece, extremando a desigualdade social. Desemprego elevado, empregos precários e salários reduzidos abrem o caminho para a oligarquia no poder do Estado avançar.
Outorga privilégios e mais privilégios às grandes empresas privadas, bancos incluídos, nacionais e internacionais, protegendo-as de reveses e prejuízos. As grandes empresas agem, com os seus trabalhadores e os seus clientes, como estados dentro do Estado. E generaliza-se a corrupção nas instituições e nas entidades.
Por este nefasto caminho de mudanças, o Estado, acompanhado pelas empresas (com gestores formados nas escolas do neoliberalismo retinto), e auto-aniquilado, estabelece sobre o povo domesticado um novo tipo de relação. Vigiando-o por todos os lados e controlando-o pela cobardia do medo, não o pretende mais, nem na aparência, como conjunto cidadão sujeito às regras “democráticas”, apenas como contribuinte, produtor e consumidor. Mas atinge algo mais fundo: instaura o feudalismo e alguma escravidão, com insofrível aviltamento da condição humana.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Entramos em nova época


O mundo que nós e os nossos filhos conhecemos nos anos de ’60 e ’70 do século passado entrou em processo de rápida mudança. No início do século XXI acelerou a fundo numa deriva gigantesca que já nada parece conseguir travar. Estamos envolvidos numa transformação demolidora que nos empurra para dentro de um período histórico radicalmente diverso.
Os povos estão domesticados e a deixar-se cozer como as rãs na panela da conhecida fábula de Olivier Clerc, escritor suíço de expressão francesa. Se, incomodados, quiserem saltar fora para não sucumbir, já não têm forças. Despertam de uma situação aparentemente benigna ou mesmo agradável, nadando em círculo no seu ilusório conforto, para encarar uma sorte verdadeiramente terrível.
O despertar, porém, só é possível para minorias cultas e atentas mas sem peso eleitoral e portanto sem condições (objectivas, normais) de alterar as regras do jogo das forças políticas estabelecidas. Os sistemas - legislativo, eleitoral, económico-financeiro e outros - estão convenientemente blindados contra qualquer possível brecha. Jeff Sparrow, autor do livro Communism: A Love Story, australiano, adverte: “Tudo o que temíamos acerca do comunismo – que perderíamos as nossas casas e as nossas poupanças e nos obrigariam a trabalhar eternamente por escassos salários e sem ter voz no sistema – converteu-se em realidade com o capitalismo.”
Resta, portanto, focalizar a questão essencial e perceber as “fraudes legais, a oligarquia legal e o primado da lei” - escreve o jornalista José Vítor Malheiros (“Público”, 12-11-2014). “As leis tornaram-se demasiado complexas, a sua produção quase secreta e a sua alteração quase impossível”, destaca. Verifica-se, em suma, uma autêntica subversão do sistema supostamente democrático.
Uma apresentação, ou powerpoint, que circulou há dias na Net estabelecia um contraste chocante. Mostrava simplesmente uma porção de fotos que evocavam os costumes e ambientes daqueles anos ’60-’70 no Afeganistão. O contraste tornava-se fortemente dramático por contrapor à paz, tolerância e cultura (europeizada) de então o inferno sangrento da violência, do sectarismo fundamentalista e do atraso geral, impressionante retrocesso, que atinge agora a população mais pobre e desgraçada do mundo.
O caso afegão demonstra um facto de inesperada actualidade. Demonstra que é possível liquidar as conquistas da civilização alcançadas por todo um povo, afundando-o em guerras sectárias, ódios fanáticos, fundamentalismos irracionais. O que nos obriga a pensar num sério aviso: que aos povos domesticados resta uma saída – para a barbárie. [Na foto: cume da cordilheira dos Andes no Peru: montanha Ausangate.]

domingo, 9 de novembro de 2014

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Uma ignorância (in)feliz

Agora que o aquecimento global já acumula consequências ecológicas irreversíveis e os críticos do facto científico abandonam o combate tendo cumprido o seu papel ao distrair o mais que puderam as atenções, está o planeta a ser invadido por um arrefecimento não menos catastrófico. É um arrefecimento que podemos representar em cor azul, caso vejamos o aquecimento em cor vermelha. Mas esta outra mudança de temperatura não é de ordem da física; é mental, cultural, ideológica, política.
Todavia, é tão vasta, arrasadora e tremenda que está a alterar dramaticamente a existência quotidiana de povos de nações e continentes inteiros, a atentar contra as regras de coexistência entre as nações e a colocar sob ameaça crescente a paz e a segurança do mundo. Só uma mudança planetária tão radical poderia espalhar um esfriamento das mentalidades assim tão violento que impõe à História a transição para uma “outra” época. Os portugueses que iam nos vinte anos no 25 de Abril (1974) e sentem na pele os sacrifícios impostos pela “crise” percebem a mudança: o povo antes participativo e reivindicativo, alegre e solidário, de esquerda democrática, agora anda frouxo, ensimesmado, individualista, apolítico, interessado sobretudo em futebol, telenovelas e fados.
O tecido das relações humanas gerais deixa à vista a dimensão das transformações havidas em quarenta anos. O panorama social que este rectângulo ibérico então ofereceu passou de vermelho para azul - esfriou. E, no continente europeu, ou à volta, mais longe, onde aparece hoje um governo com políticas que não sejam de direita?
A indiferença pelo exercício dos direitos e deveres da cidadania estabeleceu-se como regra comum; o bem colectivo tornou-se abstracto; os governantes aproveitam-se e, em vez de cuidarem dos interesses legítimos de quantos os elegem, apoiam as grandes empresas privadas, bancos incluídos, agravando a pobreza e as desigualdades. Assuntos correntes da maior relevância ou significado, como a “censura” (ilegal) aplicada pela direcção do ISCTE ao último nº da revista “Análise Social” e ao seu director por causa de um artigo de teor político “abusador”, ou como a discussão, no Conselho Europeu, do TTIP, que propõe um acordo comercial entre a EU e os EUA e que vai anular completamente a soberania nacional a favor das empresas exportadoras, quase nem despertam atenções.
Um sinal de toda esta transformação, soprada de algures sobre os povos em transe, esteve diante de mim: uma linda rapariga com 23 anos e casamento à vista, licenciada a trabalhar a recibos verdes, conversou comigo. Quis convencer-me da sua ideia: que o “não saber é o seu caminho para ser feliz”. E não a convenci, ninguém a convence, de que, por tal caminho ela se condena a ser uma (in)feliz ignorante. [Foto do certame Amdan, 2014; autor não indicado.]