quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Aqui há sete anos

Completámos anteontem sete anos, dado que esta coluna existe desde 27 de Janeiro de 2007. O aniversário passou inadvertido excepto por quem criou e mantém de pé esta coluna. Ao escriba de serviço incumbe dar conta da efeméride ao menos para avaliar a lonjura do caminho já percorrido e, no seu foro íntimo, as forças de resistência que lhe restam para prosseguir na caminhada. Prossegue realmente em boas companhias, o que, numa expedição destas, não será coisa de somenos – é viático. Aqui aportam cibernautas vindos dos quatro cantos do mundo, mais abundantes, como é lógico, de grandes e populosos países como os Estados Unidos, a China ou o Brasil, e também dos pequenos, como Portugal. Isso pode dever-se muito à difusão do ensino da língua portuguesa em diversas universidades no estrangeiro e à importância estratégica assumida pela comunidade lusófona no mundo das trocas comerciais. Enfim, façam o favor, continuem connosco no ano VIII




[Imagem: pintura de Marc Chagall.]

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O sagrado em reflexão

A ordem das coisas sagradas não é hoje, ou pode não ser, apenas uma questão religiosa, matéria de especulação teologal. Sagradas podem, e devem ser, vidas humanas em risco, aspirações de mais alta justiça, mais liberdade, mais paz. O sagrado dos crentes coabita no mundo com o profano dos não crentes ao ponto de se (con)fundirem nas duas faces de Janus.
Aparentemente, os progressos científico e tecnológico, que permitiram conhecer a estrutura do átomo e a vastidão do cosmos, comprimiram o lugar antigo das religiões, pouco a pouco invadido pelas mentalidades modernas e os costumes da vida laica. Basta, porém, notar, por exemplo, os temas que vão correndo em filmes e romances populares, tão alienantes, recheados de magias incríveis, crendices retrógradas ou fantasias sobrenaturais, para de relance se perceber quanto mudou na paisagem da cultura religiosa vulgar. Ainda assim, note-se, sem paradoxo, a crescente agressividade que os manifestantes cristãos e muçulmanos europeus, acusando-se mutuamente de fanatismo, actualmente revelam.
Uma dimensão sagrada, qualquer que seja, parece inerente à condição humana normal. Sem se imbuir da noção do que é sagrado, proveniente de formação religiosa ou outra, sem deus, mas cultural e humanizada, as pessoas ficam privadas do atributo que supomos estrutural. Por isso, o problema do nosso tempo reside talvez no apagamento de uma formação que, em última análise, confunda educação religiosa ou cultural, ética e humana. 
Daí a interrogação antes posta: o que resta de sagrado no mundo, hoje? É perante o que temos de sagrado que se estabelecem os interditos, as obrigações gerais da ética, os princípios humanos basilares. Ora, o apagamento do que seja sagrado (quer dizer, do “sacrário”, lugar íntimo onde guardamos os valores supremos, imateriais, sem os quais os indivíduos e a espécie ficam sem defesa) expõe os povos a incalculáveis perigos. 
Não há dúvida, a barbarização dos costumes está a progredir e a (in)civilização do século XXI a descambar, avançando cegamente, conforme algumas vozes previnem, para uma nova Idade Média e, provavelmente, uma terceira grande guerra. 
As massas habituaram-se ao seu próprio aviltamento e à violência – nos campos de futebol, nos filmes, nos televisores – e praticam-na quotidianamente, de variados modos, nos ambientes familiares e nos espaços públicos. A decadência da Europa vai além da estagnação económica e da crise geral em que se afunda. Envolve os desvios sofridos pelos sistemas escolares, a fraqueza da criação e fruição cultural autênticas, o abandono de programas de elevação colectiva das pessoas e dos povos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Esvai-se a dimensão do sagrado


O que resta de sagrado neste nosso mundo, hoje? A interrogação é pertinente e, de modo especial, ganha toda a oportunidade na moldura dos atentados em Paris, há uma semana. O primeiro atingiu o semanário “Charlie Hebdo”, matou oito dos seus jornalistas mais quatro pessoas e espalhou pelo espaço mediático a gloriosa bandeira do “Todos somos Charlie”, levando um nosso jornal a citar novamente Mark Twain (referido na minha última crónica) agora com um esconjuro: “Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo.”
Manifestações populares estrondosas, de bastantes milhões, com um nutrido leque de governantes de variadas nacionalidades à testa, apoiaram uma liberdade de expressão da Imprensa sem restrições, portanto com sátiras impiedosas e blasfemas. E foi bonito. Mas tamanho estrondo levantou esta velha e sempre renovada questão: a liberdade de expressão é uma entre as várias das liberdades cívicas essenciais à plena vigência da democracia, que se realiza apenas no plano de uma igualdade efectiva no mundo onde crescem as desigualdades... 
Os órgãos jornalísticos, obedientes ao pensamento único que dita a verdade única mundial, informaram sem explicar os acontecimentos, como matéria sensacional. Emocionaram e pouco mais, em vez de contextualizarem, recuando, se fosse preciso, ao início do século XX e à “economia do petróleo” ou às mudanças operadas desde então no Médio Oriente. Agravaram-se as contradições existentes no terreno, as ideias e as políticas de direita expandiram-se e deram mais força aos profetas da “islamização da Europa” que apontam para o “choque de civilizações”. 
Quer dizer, alastraram os motivos do medo e do ódio ao “outro”, da intolerância e da xenofobia, radicalizando, com recurso a propaganda manipuladora, a crescente oposição entre cristãos e muçulmanos. É esse, afinal, o caldo de cultura (caldo espesso de oposições apoiadas em crenças subjectivas, sem suporte racional nem razões concretas) em que se desenvolve a violência que pode alimentar o terrorismo no interior de populações massificadas. Ora o terrorismo convém a uns tantos (e não só de um lado), quando serve uns interesses estratégicos de quem sabe agir e continuar longe, invisível. 
A Ocidente, a questão parece estar hoje no apagamento da dimensão do que antes era sagrado. Os europeus declaram-se cristãos mas reduzem a religião, banalizada, à prática eventual de algumas tradições. Sagrado, para eles, é sem dúvida o deus-Mercado (apanágio da democracia, dizem!) e o seu direito indiscutível ao consumo massificado ainda que estejam agora sob rigoroso regime da austeridade imposto pelos governos. 
Mas vejamos. Se o sagrado se esvai (e o que seja venerável, respeitável), não deveriam brilhar com luz rutilante e vermos, onde quer que estivéssemos, os princípios humanizantes, isto é, os Direitos do Homem colocados à altura mais eminente? Não deveriam ser sagrados e consagrados, em primeiríssimo lugar, por toda a população do planeta?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O voto não é a arma do povo?

A surpresa esperava-me na última página do jornal, onde pensamentos de autores diversos aparecem citados. Parei, embasbacado, a ler: “Se votar fizesse diferença, não nos deixariam fazê-lo. Mark Twain (1835-1910)”.
Então o voto já não era mais a proclamada e tão pacífica “arma do povo”? E era um jornal dito de referência que, naquela manhã, vinha lembrar-nos o dito do grande escritor e humorista norte-americano segundo o qual as eleições não serviam para nada?! Ah, sim, pois, é claro: naquele mesmo dia os deputados gregos iam votar em Atenas a dissolução do parlamento, convocar eleições antecipadas e, talvez, por esse caminho, dar a vitória ao partido de esquerda, Syriza…
A mensagem implícita, portanto, era clara. Não vale a pena fazer eleições quando o sistema económico-político estabelecido impõe pagar as dívidas nacionais à usura financeira internacional ainda que a economia do país e o seu povo estejam de rastos. Todavia, é exactamente neste ponto que a questão se estabelece nos seus precisos termos. 
O jornal, ao enunciar o dito de Mark Twain, colou-o a uma situação que o escritor não poderia prever. Alinhou, além disso, com toda a direita política que defende os programas da austeridade justificados pelas dívidas dos Estados criadas na armadilha dos défices. Quer dizer, tomou partido, admitindo incluso um ostensivo desprezo pela vontade de uma possível maioria eleitoral manifestada democraticamente. 
É certo que o sistema democrático tem vindo a perder conteúdo até se transformar no indigno rótulo tão frequente que já parece normal. Mas o sistema, e de igual modo, o regime, são de geometria variável tão larga que se estende do socialismo retinto à corruptela designada como democracia burguesa. Todavia, são as nações com sistemas de mero rótulo democrático reduzido à simples alternância de dois partidos afins no poder que mais impõem os modelos da sua democracia ao mundo. 
Assim, os tempos não vão bons para a cultura da Democracia. O que em geral predomina é o discurso da direita política, incluso nos media, abertos à Verdade Única em circulação e reticentes no acolhimento de qualquer assomo de pluralismo. Um regime de esquerda democrática (e pode ser um governo de Syriza) torna-se hoje tanto mais suspeito e merecedor de campanha de descrédito quanto mais se mostrar de esquerda: discute as dívidas nacionais, quer um reescalonamento, relançar a economia, etc. 
De facto, a “cultura” democrática mudou de signo. Os donos disto tudo capturaram governos, políticas e meios de comunicação mundiais e querem convencer os povos a aguentar. Veremos em seguida se as massas (i. e., as classes médias) vão continuar, resignadas, a estrebuchar com a corda na garganta na forca da austeridade perpétua ou se, finalmente, acordam de vez para outra sorte.

domingo, 4 de janeiro de 2015

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

António Menano, pintor

As pinturas de António Menano parecem convidar quem as vê de olhos lavados a crer que essas pinturas são coisas simples, digamos como haikus espontâneos que saltam de uma pródiga boca falante e ficam no ar, brilhando quais pérolas naturais em suspensão. As coisas elementares parecem simples, e sê-lo-ão enquanto sobre elas a inteligência não se debruça a esmiuçar, porque então um haiku espontâneo, por exemplo, envolve-se em todo o seu poético mistério.
No fim de contas, acordaremos, como quem estremunha, que na realidade são exactamente as coisas que temos como as mais elementares as mais simples e poéticas, que se revelam no entanto as mais complicadas, isto é, mais complexas, indefiníveis, inesgotáveis. Decerto por isso mesmo, as coisas elementares são as mais resistentes à penetração indagadora. A pintura, a arte em geral, ostentam deste modo a simplicidade das coisas aparentemente complicadas e, ao mesmo tempo, a complicação das coisas aparentemente simples.
As pinturas de António Menano surgem-me também como vindas de um ponto qualquer, ambíguo e todavia conhecido e mesmo familiar, que comigo, connosco facilmente comunicam com a eficácia de um cúmplice piscar de olhos. O fenómeno deve-se sem dúvida à forma hábil como cada quadro “acontece” a este artista, que por sinal gosta de pintar ao ar livre e com luz diurna. A composição, em António Menano, podendo ser muito instintiva, é sempre certeira, sem incómodo por qualquer aproximação eventual à bad painting. As suas tintas e cores atingem as telas com o impulso interior de um espirro solto, as texturas organizam-se onde o conjunto as requer - e tudo isso com a autenticidade inconfundível dos sentimentos fortes que apelam veementemente à plena expansão. O artista, nos seus quadros, está consigo mesmo para melhor estar com o mundo.
Provavelmente, o “segredo” mais íntimo das pinturas de Menano (um amigo que acompanho desde 1963 e que tem escrito e publicado abundantes obras de poesia e ficção pondo por extenso o seu nome: António Augusto Menano) consistirá numa espécie de juízo suspenso afinal tão característico do nosso tempo. Vai sendo cada vez mais difícil lidar sem vacilação com opiniões firmes e definitivas acerca de muitas questões principais que a todos nos afligem. Ora, enquanto pinta, António Menano parece manter o juízo suspenso. Felizmente, digo eu, porque é assim, por alguma fresta da sua vontade, em jeito de quem joga, que a pintura lhe acontece.
Oxalá continue consigo e connosco! [Foto: A. A. Menano autografa Memória da Luz, antologia com inéditos, 2014; assinala os seus 50 anos de poesia.]