quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Após consoar, veja a língua

A noite da consoada é costume antigo que o calendário marca uns dias depois da entrada do solstício de inverno. Mas em que medida o costume é antigo? A questão está contida na própria palavra que designa o costume e, como tantas vezes acontece em casos tais, a sua origem etimológica parece incerta e nebulosa.

Os linguístas têm-se desunhado a escabichar e apenas topam as mais recuadas referências ao substantivo em textos do século XIII. Já o verbo consoar aparece em registo do século XV e por sinal com duplo significado: partilhar a consoada; soar juntamente, rimar (do lat. cum+sonare). Em que ficamos, então, sobre o costume que o Dicionário da Porto Editora descreve como a “pequena refeição que se toma à noite, nos dias de jejum; ceia em família, na noite de Natal; presente que se dá pelo Natal”.
Certamente, a alusão a pequena refeição à noite em dias de jejum, em face da actual vertigem consumista até pode parecer uma piada. Os grandes centros comerciais e lojas pejaram-se de multidões em frenesins de compras, prendinhas e mais prendinhas para contemplar toda a família e outra gente prendada. É de crer que a totalidade de smartphones e quejandos aparelhos com ligação à Net já vendidos tenha excedido, nesta data, a cifra estatística da população portuguesa, incluída a emigrada!
Crise? Onde está a crise?, perguntam o desempregado, o pobre pensionista, o subsidiado de rendimento mínimo, o estagiário não remunerado. Talvez estejam em acreditar nos especialistas de saúde mental do país que consideram a população nacional afectada nuns 40% de casos.
Evidentemente, as intoxicantes campanhas publicitárias lançadas pelas empresas conquistam resultados. Lançam modas e seduções (“dias” dos papás e das mamãs, dos namorados, etc.) e há gente que morde o isco, a moda pega, opera-se a massificação do consumo no mercado massificado. Consumir, consumir, é ou parece ser o supremo desígnio de massa acéfala que vai em frente: avança às cegas porque sim, todos correndo uns atrás dos outros, contentes por irem no rebanho.
Todavia, se a noite de consoada junta a família à luz do novo solstício que vai alargar a duração dos nossos dias até ao pino do Verão, viva o Natal! Ora aos linguístas não passa despercebido um pormenor: o substantivo consoada é anterior ao verbo consoar uns séculos. O costume da substanciosa e fraterna ceia em família pode não ser tão antigo quanto isso, mas a acção do verbo propriamente dita (agora a deixar os lares e a preferir os hotéis) é bem mais recente…

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Quanto vale o conteúdo


Quando o Museu do Neo-Realismo abriu, há sete anos, desfraldou ao vento a sua bandeira. Estive lá, em Vila Franca de Xira, naquele dia, com um grupo de amigos, na massa que encheu completamente a entrada, patamar e imediações, interrompendo o trânsito da artéria central. Porém, só hoje me detenho a considerar o preceito máximo que a “bandeira” da instituição passou desde então a servir.
Realmente, circunstância várias adiaram o meu encontro com o livro então publicado e que marcou a abertura do Museu. O preceito maior do Museu, a sua “bandeira”, aparece desde logo enunciado no próprio título da assinalada edição - Batalha pelo Conteúdo -, grosso volume encadernado, com sobrecapa, quinhentas páginas com apurado grafismo e copiosa documentação. O subtítulo focaliza o tema: Movimento neo-realista português.
Esta magnífica edição acompanhou a exposição documental permanente desde então ali visitável mas ficou sem dúvida a valer muito para além dela. Vale como abordagem de referência incontornável: abarca as vertentes gerais do movimento com expressões que vão da literatura ao teatro, do cinema à pintura, da música à história e à filosofia. Com esta visão englobante, Batalha pelo Conteúdo procede a balanço, análise e interpretação do património, inclusive humanístico, deixado entre nós pelo neo-realismo de forma perfeitamente inovadora.
Neste sentido, avulta a parte ensaística do volume: inclui doze autores, o primeiro dos quais é António Pedro Pita, seguindo-se Vítor Viçoso, Fernando Pinto do Amaral, David Santos, Raquel Henriques da Silva, Bárbara Coutinho, Miguel Falcão, Jorge Leitão Ramos, Emília Tavares, Manuel Deniz Silva, Natália Bebiano e João Madeira. Pedro Pita, actual director científico do Museu, sumaria em 25 pp uma aturada revisão dos seus estudos anteriores sobre o neo-realismo e os outros autores abordam a ficção narrativa, a poesia, a pintura, a arquitectura, o teatro, a fotografia, a música…
Abrindo Ensaios, David Santos e António Mota Redol justificam (p. 15) “a palavra ‘Batalha’ [no título; que], apesar da sua conotação belicista, hoje quase politicamente incorrecta, evoca aqui sobretudo um sentido de resistência e solidariedade humanas que não deve cair no esquecimento, sob pena de um retrocesso de resultados sociais inimagináveis.” Esta parte da edição vai até pp. 331, ocupando portanto mais de metade da obra. A seguir vem a parte catalogal da exposição, muito ilustrada.
Este blogue, desde que nasceu há seis anos, alinha com a “bandeira” assim desfraldada por Batalha pelo Conteúdo, obra publicada em 2007. Também aqui se reivindica o compromisso da cultura e da arte com a envolvência social, por um humanismo vivo e autêntico. Contra o jornalismo manipulador e subserviente ou a alienante literatura dos fabricantes de best-sellers.
Enfim, pelo seu grande formato e espessura, a obra não nos cabe nas mãos; pesa em demasia. Mas é pena. O valor do conteúdo devia torná-la mais manuseável; tem óbvia actualidade, de modo que não pode adormecer nas estantes. [Imagem: capa da edição conjunta (em 1944?) dos três romances iniciais de Alves Redol.]

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Eremita em sua casa

Estou perto de um homem que vive como um eremita. Único habitante da sua ampla casa recheada de livros, é na clausura daquelas paredes que parece usufruir da liberdade de que precisa e soube conquistar. Liberdade, afinal, varrida quanto baste dos ruídos de um mundo em agónica convulsão.
O homem trabalhou longamente até ganhar, no termo da carreira, o remanso do seu recolhimento que, aliás, quer manter produtivo, criador. Para trás deixou a docência superior e universitária consagrada à formação de formadores e apostada, dir-se-ia, na melhor qualificação do sistema escolar nacional. Antecipou um pouco, vencido mas não convencido, a retirada a fim de poder continuar com esperança num afã que, apesar de tudo, pode realmente valer a pena.
É autor de uma notável lista obras publicadas mas insiste em se considerar um mero “escrivedor”. Desiludiu-se da edição literária massificada e consumista ao ponto de as suas obras desaparecerem do mercado livreiro normal. Não circulam e raras vezes aparecem nos catálogos dos alfarrabistas; logo, como autor, anda “invisível”.
Mas, na sua condição de eremita, continua a trabalhar. Agora centrado, como leitor, em clássicos dos séculos XV e XVI que lê nos originais grego ou latino, e como tradutor, vertendo-os para Português. Esses textos clássicos empolgam-no tanto quanto descura hipóteses de edição ou eventuais proventos do seu trabalho, concentrando-se apenas na dimensão do projecto pessoal que tem em andamento.
Mergulha deste modo na cultura humanística tão grotescamente ostracizada pela invasão da cultura tecnocrática a predominar desde os anos ’80 do século passado. Para trás deixa, definitivamente, a cultura superficial, cultura do efémero e de trivialidades correntes na qual o conhecido processo de Bolonha imprimiu a sua marca de água. O “escrivedor” (escreve-com-dor?) recupera assim, para sua imediata fruição, obras fundamentais da nossa civilização e cultura.
Ninguém lê hoje (e desde há muito tempo, talvez desde o século XIX) aquelas obras cimeiras da cultura humanística: incunábulos bafientos, livros amarelecidos e poeirentos retirados das prateleiras para as funduras dos arquivos. Mas o eremita não recupera somente para si mesmo as nossas matrizes identitárias que têm no mar Mediterrâneo o seu berço. Demonstra também que o passado não está liquidado, morto, antes bem vivo, como brasa ardente em monte de cinzas, e capaz de nos ajudar num dos problemas fulcrais do tempo presente.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Semblantes esculpidos

Agora é muito difícil descobrir por aí um rosto de pessoa idosa que me dê autêntica vontade de retratar, disse ele. Encarei-o, estranhando, porque era uma frase singular de um amigo também já idoso. Conheciamo-nos desde os tempos da nossa juventude e ele, desde então, continuava apaixonado pela fotografia.

Gostava de fotografar semblantes de mulheres e homens bem curtidos pela vida tanto como detestava fotografar bebés e crianças. Procurava-os e descobria-os em romarias, feiras e encontros ocasionais, primeiro com o seu “caixote” Kodak de película em rolo de 6 x 9 cms a preto e branco, e em seguida com outras máquinas de mais evoluída técnica. Mas eram sempre figuras populares dos campos em redor que o atraíam, nunca habitantes do ambiente urbano homogeneizado.
Acompanhei, partilhando enquanto pude as suas artes como fotógrafo amador até que me cansei da novidade. Entretanto, andei a trocar máquinas e a enviar pelo correio os rolos usados para revelar, aprendendo a corrigir os erros que notava nas imagens impressas no papel e se nos amontoavam nas gavetas. Era o tempo de medir as distâncias focais, graduar a abertura do obturador conforme a luz ambiente, a velocidade do disparo… antes de haver flash como acessório, filme em rolo de 35 mm, filtros, diapositivos, projectores, Photoshop… e muito, muito antes da actual abundância de cameras digitais com tantos automatismos incorporados que só pedem que alguém carregue no botão.
O meu amigo queria captar os traços que numa fisionomia anónima vincam as marcas da sua especial humanidade. Desprovido de tais marcas, um rosto humano era para ele uma página em branco: nada lhe dizia com notável interesse, ao modo da carinha de elegante e sedutora rapariga, bonita de ver ou mesmo desejar, e ponto final. Decerto por isso, repetia, citando Balzac, que todo o homem com mais de trinta anos é responsável pela cara que apresenta.
A frase que acabava de lhe ouvir puxou-me pela memória. Acordou-me. O meu amigo parecia lamentar a raridade, talvez a desaparição, das “suas” apreciadas fisionomias de uma gente de trabalho honrado e sofrido que tinha o olhar claro e sereno posto no futuro sabendo da vida o bastante para aceitar com estoicismo o que não tem remédio e rir-se a mangar do que afinal não tem remédio.
Compreendi o meu velho amigo. Este país deprimido cobria-se de seniores, porque os jovens saíam em massa, emigrando, e a natalidade baixava, deixando à vista o seu desgraçado e envelhecido povo. Um povo que teimava em resistir no seu pátrio chão, já sem as marcas viris de um heroísmo quotidiano sem tréguas afirmado na dignidade da sua condição modesta mas honrada.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A crónica como palimpsesto

Conforme é de uso, o cronista pode, querendo, debruçar-se sobre umas telúricas ocorrências do seu próprio umbigo, ou, mergulhando na cachoeira dos episódios do quotidiano, escrever sobre o escândalo do dia ou peripécias várias. Ora, se o próprio umbigo deste vosso cronista é lavado no banho diário e, por manifesto pudor, logo fica tapado pela camisa, e se também quer fugir o mais possível dos chinfrins da rua, sobre o que vai ele escrever? Vai, suponho, tentar a captação de sinais mensageiros que perceba no ambiente.
Apoiado nas informações de que disponha, tentará reflectir uma pessoal prospectiva do que pode esperar a colectividade no próximo futuro. Quer dizer (assumindo um pouco do estilo dos velhos almanaques), o cronista tenderá a elaborar uma espécie de “juízo” do seu e nosso tempo.
Por este caminho vem há seis anos, desde que criou este blogue em Janeiro de 2008. O propósito inicial teve que acompanhar os acontecimentos que então se precipitavam em espantosa cadeia. Eram inacreditáveis, calamitosos, desvairados, de estarrecer.
Bancos e sociedades financeiras de relevo mundial declaravam falência e grandes empresas internacionais deslocalizavam-se para explorar mão-de obra quase escrava no estrangeiro e usavam paraísos fiscais para esconder os lucros e fugir aos impostos devidos. E foi então que vimos os governos a intervir com montes de dinheiro recebido dos contribuintes, esmagados por impostos acrescidos, pela austeridade e o desemprego, na salvação de empresas privadas, e a demonstrar com máxima clareza que governavam não em prol do povo eleitor mas sim em apoio das oligarquias financeiras, empresariais ou militares. Os sistemas político, financeiro e bancário, tal como funcionavam, acabaram igualmente por atrair as atenções e este blogue para o cronista, que seguia tais acontecimentos, transformou-se no seu palimpsesto.
Foi preciso, realmente, acordar na aflição de uma ordem nova a reinar em meio mundo e com ímpeto tão avassalador que parecia já envolver todo o planeta. Os sinais traziam mensagens claras e abundantes, continuam a povoar a atmosfera em que vivemos, cada vez mais claros e inequívocos, mas, para além de uns segmentos cultos, os sinais têm-se diluído nas distracções populares proporcionadas pelos espectáculos diários servidos pelos canais dos media. A realidade desta crise política, uma crise especialmente avassaladora porque é estrutural (marca a transição de um tempo “velho” para um outro ainda enigmático, ameaçador), é sonho mau que as massas esconjuram supondo que só existe de facto o que querem ver. [Imagem: cartoon de Poleur.]

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A destruição dos Estados

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, assim começa um dos mais lembrados sonetos de Camões. Mas o tempo é imutável, corre sempre num fluir insensível e completamente alheio às volições humanas. As vontades, sim, mudam momento a momento nas fogueiras dos nervos e das paixões.
O que o verso camoniano enuncia poeticamente é, pois, um tempo mudado pelas vontades colectivas. Logo, os tempos mudam por mudança das vontades humanas, sendo estas que atribuem a “cor” (quente ou fria, belicosa ou quieta) à situação de uma paisagem social. Compreende-se, portanto, que esta nova época histórica emerge em resultado de mudanças tão vastas e profundas a ocorrer no interior da sociedade que marcam este tempo como um “tempo novo”.
Na verdade, um novo período histórico até pode trazer e restaurar um tempo antigo, por exemplo, com algo de escravatura ou de feudalismo. Isto, evidentemente, não de forma plena assumida, antes em restauros parciais do que no essencial interesse à oligarquia dominante. O tempo presente demonstra-o com dramática clareza.
O povo, cada povo, parece esquecido de que, em última análise, corporiza “o Estado” com a sua história, língua e cultura, no território de que detém efectiva soberania. Assiste, desde há anos, em completa passividade, a uma destruição audaciosa programada. O Estado, que é o próprio povo, vai desaparecendo, derrubado pouco a pouco, bocado após bocado.
As funções normais do Estado, que garantem a soberania nacional e a segurança geral da população, além de outras funções, entram em grave crise. A maioria da população sofre com a degradação das suas condições de vida enquanto uma minoria prospera e enriquece, extremando a desigualdade social. Desemprego elevado, empregos precários e salários reduzidos abrem o caminho para a oligarquia no poder do Estado avançar.
Outorga privilégios e mais privilégios às grandes empresas privadas, bancos incluídos, nacionais e internacionais, protegendo-as de reveses e prejuízos. As grandes empresas agem, com os seus trabalhadores e os seus clientes, como estados dentro do Estado. E generaliza-se a corrupção nas instituições e nas entidades.
Por este nefasto caminho de mudanças, o Estado, acompanhado pelas empresas (com gestores formados nas escolas do neoliberalismo retinto), e auto-aniquilado, estabelece sobre o povo domesticado um novo tipo de relação. Vigiando-o por todos os lados e controlando-o pela cobardia do medo, não o pretende mais, nem na aparência, como conjunto cidadão sujeito às regras “democráticas”, apenas como contribuinte, produtor e consumidor. Mas atinge algo mais fundo: instaura o feudalismo e alguma escravidão, com insofrível aviltamento da condição humana.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Entramos em nova época


O mundo que nós e os nossos filhos conhecemos nos anos de ’60 e ’70 do século passado entrou em processo de rápida mudança. No início do século XXI acelerou a fundo numa deriva gigantesca que já nada parece conseguir travar. Estamos envolvidos numa transformação demolidora que nos empurra para dentro de um período histórico radicalmente diverso.
Os povos estão domesticados e a deixar-se cozer como as rãs na panela da conhecida fábula de Olivier Clerc, escritor suíço de expressão francesa. Se, incomodados, quiserem saltar fora para não sucumbir, já não têm forças. Despertam de uma situação aparentemente benigna ou mesmo agradável, nadando em círculo no seu ilusório conforto, para encarar uma sorte verdadeiramente terrível.
O despertar, porém, só é possível para minorias cultas e atentas mas sem peso eleitoral e portanto sem condições (objectivas, normais) de alterar as regras do jogo das forças políticas estabelecidas. Os sistemas - legislativo, eleitoral, económico-financeiro e outros - estão convenientemente blindados contra qualquer possível brecha. Jeff Sparrow, autor do livro Communism: A Love Story, australiano, adverte: “Tudo o que temíamos acerca do comunismo – que perderíamos as nossas casas e as nossas poupanças e nos obrigariam a trabalhar eternamente por escassos salários e sem ter voz no sistema – converteu-se em realidade com o capitalismo.”
Resta, portanto, focalizar a questão essencial e perceber as “fraudes legais, a oligarquia legal e o primado da lei” - escreve o jornalista José Vítor Malheiros (“Público”, 12-11-2014). “As leis tornaram-se demasiado complexas, a sua produção quase secreta e a sua alteração quase impossível”, destaca. Verifica-se, em suma, uma autêntica subversão do sistema supostamente democrático.
Uma apresentação, ou powerpoint, que circulou há dias na Net estabelecia um contraste chocante. Mostrava simplesmente uma porção de fotos que evocavam os costumes e ambientes daqueles anos ’60-’70 no Afeganistão. O contraste tornava-se fortemente dramático por contrapor à paz, tolerância e cultura (europeizada) de então o inferno sangrento da violência, do sectarismo fundamentalista e do atraso geral, impressionante retrocesso, que atinge agora a população mais pobre e desgraçada do mundo.
O caso afegão demonstra um facto de inesperada actualidade. Demonstra que é possível liquidar as conquistas da civilização alcançadas por todo um povo, afundando-o em guerras sectárias, ódios fanáticos, fundamentalismos irracionais. O que nos obriga a pensar num sério aviso: que aos povos domesticados resta uma saída – para a barbárie. [Na foto: cume da cordilheira dos Andes no Peru: montanha Ausangate.]

domingo, 9 de novembro de 2014

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Uma ignorância (in)feliz

Agora que o aquecimento global já acumula consequências ecológicas irreversíveis e os críticos do facto científico abandonam o combate tendo cumprido o seu papel ao distrair o mais que puderam as atenções, está o planeta a ser invadido por um arrefecimento não menos catastrófico. É um arrefecimento que podemos representar em cor azul, caso vejamos o aquecimento em cor vermelha. Mas esta outra mudança de temperatura não é de ordem da física; é mental, cultural, ideológica, política.
Todavia, é tão vasta, arrasadora e tremenda que está a alterar dramaticamente a existência quotidiana de povos de nações e continentes inteiros, a atentar contra as regras de coexistência entre as nações e a colocar sob ameaça crescente a paz e a segurança do mundo. Só uma mudança planetária tão radical poderia espalhar um esfriamento das mentalidades assim tão violento que impõe à História a transição para uma “outra” época. Os portugueses que iam nos vinte anos no 25 de Abril (1974) e sentem na pele os sacrifícios impostos pela “crise” percebem a mudança: o povo antes participativo e reivindicativo, alegre e solidário, de esquerda democrática, agora anda frouxo, ensimesmado, individualista, apolítico, interessado sobretudo em futebol, telenovelas e fados.
O tecido das relações humanas gerais deixa à vista a dimensão das transformações havidas em quarenta anos. O panorama social que este rectângulo ibérico então ofereceu passou de vermelho para azul - esfriou. E, no continente europeu, ou à volta, mais longe, onde aparece hoje um governo com políticas que não sejam de direita?
A indiferença pelo exercício dos direitos e deveres da cidadania estabeleceu-se como regra comum; o bem colectivo tornou-se abstracto; os governantes aproveitam-se e, em vez de cuidarem dos interesses legítimos de quantos os elegem, apoiam as grandes empresas privadas, bancos incluídos, agravando a pobreza e as desigualdades. Assuntos correntes da maior relevância ou significado, como a “censura” (ilegal) aplicada pela direcção do ISCTE ao último nº da revista “Análise Social” e ao seu director por causa de um artigo de teor político “abusador”, ou como a discussão, no Conselho Europeu, do TTIP, que propõe um acordo comercial entre a EU e os EUA e que vai anular completamente a soberania nacional a favor das empresas exportadoras, quase nem despertam atenções.
Um sinal de toda esta transformação, soprada de algures sobre os povos em transe, esteve diante de mim: uma linda rapariga com 23 anos e casamento à vista, licenciada a trabalhar a recibos verdes, conversou comigo. Quis convencer-me da sua ideia: que o “não saber é o seu caminho para ser feliz”. E não a convenci, ninguém a convence, de que, por tal caminho ela se condena a ser uma (in)feliz ignorante. [Foto do certame Amdan, 2014; autor não indicado.]

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Hoje não há crónica

Sim, hoje não há crónica. A mão que escrevia pende, inútil, ao longo do corpo ou estende-se sobre a mesa e adormece. Há dias assim, vazios por tão sobrecarregados.
O dia até começava bem. O texto saía, a página compunha-se. Assim:

«O sistema democrático implantado no país há quarenta anos é hoje mero resíduo, um rótulo conveniente. No entanto, proporcionou transformações decisivas que pedem avaliação, em jeito de balanço sumário. A democratização do ensino e o aparecimento de uma cultura de massas são dois exemplos expressivos do avanço geral e logo dos recuos que o sistema permitiu com os resultados que no mesmo período se evidenciam.
Conjugados com os efeitos da concentração das empresas jornalísticas e das editoras de livros, estes dois fenómenos aparecem na base que formou, deformando-a, a realidade social portuguesa como na actualidade se nos apresenta. Massificado, o ensino afastou-se dos modelos pedagógicos de formação reconhecida, com disciplina escolar e memorização dos conhecimentos, a caminho de uma torpe facilitação; o eclipse do Grego e do Latim assinalou o completo afundamento da cultura humanística e, na onda da “americanização” da Europa, acentuou-se a viragem para um ensino tecnocrático atento às necessidades, não das pessoas, sim das grandes empresas nacionais e transnacionais. No mesmo período, a estrutura familiar tradicional foi alterada pela entrada das mulheres no mercado de trabalho (o casal teve que ir ganhar o que antes o chefe de família garantia sozinho).
A relativa ligeireza dos conteúdos escolares juntou-se à ligeireza da informação jornalística que entretanto se generalizou. Realmente, as notícias também “formam”, pois os cidadãos pedem-nas para ter opinião, e o jornalismo, vergando a cerviz, foi-se enchendo de imagens e de cores, querendo-se agradável e ligeiro, varrido de textos longos ou de interpretação “difícil”. Assentou-se na verdade única, narrativa simplificada de situações e acontecimentos cuja explicação cabal é reservada a eleitos.
O povo, maioria que elege e legitima governos e políticas, arredado cada vez mais dos assuntos que o afectam,»

Neste ponto, uma vibração íntima suspendeu o gesto escrevente. Fez o cronista pensar: quem precisava de ler isto não quer saber; quem o vai ler já o sabe. Então o homem saiu à rua e por lá se demorou vendo uns miúdos a brincar.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Direito de autor sofre

O conhecimento e o debate aberto das questões relacionadas com o direito dos autores continuam ainda a ser entre nós frouxas, incipientes. Entre nós, quero dizer, os autores literários e os nossos leitores. Nesta situação, quase me persuadi, por vezes, de que tanto para nós como para quem nos lê, as questões do copyright seguem a regra natural: são toleradas quando contemplam autores e obras afamadas e, nos casos restantes, são nulas por serem injustas e discutíveis se não as vemos cair do céu como chuvas benfazejas.
Ora eu pertenço à esmagadora maioria dos autores que não aparecem na ribalta, iluminados pelos luzimentos da fama. Mas declaro aqui o meu (des)interesse: o que sobretudo me importa desde sempre é poder escrever em liberdade e também em liberdade ser lido. Mas nem um autor nada famoso como eu, que prefere estar no seu lugar pequenino para que possa mantê-lo limpo, está com as suas obras protegidas contra abusos e atropelos.
Descobri recentemente que tinha um livro integrado na biblioteca Google! Livro, portanto, digitalizado. Com que direito e apropriação autorizada por quem (pois o autor não foi tido nem achado para nada)?
É Biografia Fantástica, caderninho 12 x 17 cm, de 53 páginas, edição do autor, impresso em 1960, em Aveiro. Foi, por sinal, a primeira obra que assinei com este meu nome. No entanto, a minha estreia é anterior, de 1955: dois cadernos de poemas publicados em Coimbra por “Arsénio de Bustos”.
Que forças misteriosas terão agido na sombra para pegarem na minha esquecidíssima estreia em prosa, da qual saíram apenas 250 exemplares? Tentei averiguar e apurei que o caderninho esteve presente na biblioteca da Universidade de Wisconsin, Estados Unidos, onde foi digitalizado. Depois aconteceu o que todos sabemos: a biblioteca mundial Google foi criada com os espólios de uma quantidade de bibliotecas, fundos editoriais e arquivos… e lá foi a “Biografia Fantástica”.
O autor declara, para todos os efeitos morais, que é inocente de todas estas tropelias embora reconheça que tudo isso é verdadeiramente fantástico. Quem disser que existem direitos dos autores reais e efectivos está longe deste mundo. Mas quem quiser poderá ir a books.google.books e conseguir ler o caderninho (para minha vergonha) cheio de falhas e descuidos de revisão, que escrevi com nervos e raiva contra a pasmaceira dos domingos ocos daquele tempo.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A leitura globalizada

Esteve aberta em Frankfurt, Alemanha, nos últimos três dias da semana passada, a Feira do Livro mais notória do mundo. Evidencia-se no plano editorial internacional por um gigantismo quase monstruoso. Concentra editores, agentes literários e autores chegados das sete partidas, que põem a trabalhar chusmas de jornalistas numa torre de babel linguística em que o Inglês predomina como língua franca.
O gigantismo do certame ressalta, até para quem o vê de longe comparando os 150 ou mesmo 200 expositores das feiras do Livro portuguesas com os 7.300 da Feira de Frankfurt provenientes de mais de cem países. Este ano, o seu programa cultural abrangia 3.400 eventos para animar oito pavilhões vastíssimos numa área onde caberiam mais de dez campos de futebol que os visitantes se derreavam de tanto palmilhar. Mas esta não é uma vulgar feira com stands, estantes e balcões a vender livros editados – ali vendem-se, principalmente, direitos de edição.
Julgo que a grande maioria dos escritores detesta a Feira de Frankfurt, não porque está a tornar-se elitista, mas por motivo idêntico ao que atrai os editores e agentes literários, junto com alguns autores desejosos de promoção internacional. Um dos escritores convidados este ano foi exactamente Paulo Coelho, considerado o autor (brasileiro) vivo mais traduzido no mundo, que tem página no FaceBook com 22 milhões de seguidores e no Twitter com nove milhões (de quem vi vários livros de autoajuda, junto a Saramago e Eça, entre a dúzia de volumes em português da biblioteca central de Vancouver, Canadá. Outros escritores, já com dezenas de traduções no seu activo, não falham Frankfurt igualmente interessados em alargar o universo dos seus leitores no estrangeiro.
Paulo Coelho, num colóquio com o director da Feira que esgotou a lotação do auditório e foi transmitida por circuito interno de televisão, manifestou uma forte adesão à edição digital dos seus livros. Aposta na conquista de mais leitores, crendo no entanto que a impressão dos livros em papel irá prosseguir. Reconhece afinal que os ebooks chegam a qualquer leitor com acesso à Internet em qualquer canto do mundo.
Tudo isto contribui para transformar o certame num centro de negócios útil, acima de tudo, para transaccionar copyrights entre editores e autores de best-sellers internacionais que acabam traduzidos. Ali se desenham e desenvolvem as estratégias “literárias” que estão a pôr meio mundo a ler cada vez menos autores de livros cada vez menos desiguais em obediência ao mercado e aos interesses da indústria. É, consumada, a massificação da leitura!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

De quadro em quadro...

Estas pinturas são sinceras num sentido específico. Tentam, quadro a quadro, plasmar vivências autênticas sentidas no plano existencial da artista fazendo-o com a violência do grito que no peito amarrado permanecia. Cada tela surge-nos como um registo de emoções fortes ou de estados de alma que se organizam plasticamente em torno da interrogação a que a pintura final responde.

Daí advém a “marca de água” notada nestas pinturas, caracterizadas por um intimismo quase lírico, que se traduz afinal numa poética muito personalizada. Notou-o bem o crítico Fernando Pernes nas breves palavras que escreveu, já doente, em catálogo (Árvore, 2007), ao perceber que esta pintura anuncia sem dizer. Temo-las, porém, tangíveis pelo olhar. E eis porque estas obras convidam a uma contemplação silenciosa, propiciadora de idêntico intimismo aberto realmente para uma comunicação poética.

Significativamente, a pintora prefere telas de medianas ou mais avantajadas dimensões, muitas vezes de formato quadrado ou quase quadrangular e telas outras tantas vezes justapostas (dípticos, trípticos…), de modo a poder expandir o impulso vital irreprimível. São pinturas de formas elementares - isto é, essenciais -, depuradas de todo o elemento acessório. De facto, a artista cultiva uma pintura despojada de toda a encenação, no rigor que recusa qualquer cedência ao efeito fácil, apostando sempre numa autenticidade que chega a sugerir alguma aproximação tendencial ao minimalismo. Pintura, portanto, que joga com elementos mínimos: linhas, manchas texturadas, símbolos (círculos, anéis duplos, espiral), e raras figuras humanas, distantes, a vir ou a ir.
Pode certamente dizer-se que esta pintura se envolve de mistério tentando narrar estórias do real vivido. Mas o que exprime, quadro após quadro, para além de qualquer dramatismo, é uma procura de equilíbrio tranquilizador, um anseio fundo de harmonia. A procura tem acentos ora melancólicos ora irónicos, e, todavia, o efeito é sempre o de uma serenidade atingida, realçada inclusive pelo formato e o tamanho das telas.

A pintora diz, querendo explicar-se, que na composição destas telas procura uma lógica tranquilizadora que se inspira talvez no conhecimento científico, o da própria pintora. Sente-se aqui a predominância da mentalidade tecnocrática, o distanciamento da pintura do que acontece na rua e é social. Todavia, a pintora quer conseguir exprimir-se de uma vez por todas, completamente. Mas assim se obriga a prosseguir, como quem resvala, de quadro em quadro... [Cópia parcial de escrito em catálogo de exposição.]

domingo, 5 de outubro de 2014

«Saltando do molde do conformismo» (Break Through your Mold, título original), conjunto escultórico de Zenos Frudakis, Filadélfia, Pensilvânia, E.U.A.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Bizarria: ser poeta e escritor

A bizarria está no primeiro termo aposto ao segundo. Então um poeta não será também, para todos os efeitos, escritor? Por quê a redundância?
Um poeta escreve compondo poemas, o escritor escreve compondo prosas. Ambos utilizam a língua para trabalhar na literatura sendo igualmente escritores e, nesta qualidade, igualmente poetas. De facto, ainda que as áreas da poesia e da prosa sejam diversas e, até certo ponto, caracterizadas, no limite acabam por se confundir.
A criação literária, para o ser, tem de se imbuir de um halo poético envolvente. De contrário, como se compreenderia a inclinação de tantos novos autores que começam as suas pessoais trajectórias literárias com poemas? Muitos deles, porém, não demoram a desistir dos poemas e a concentrar-se nos enleios da prosa, percebendo que a poesia estreme é realmente o quid mais difícil da arte literária.
É a poesia, em suma, a essência desta arte (e talvez mesmo de todas as artes). Cada página que um escritor considera terminada contém esse quid esquivo que transfigura as linhas do texto num passe de mágica beleza. Sem transfiguração poética, as palavras do poema ou da prosa permanecem adormecidas ou mortas.
Evidentemente, o leitor que o escritor é e continua a ser, incluso do que vai escrevendo, julgará cada página de sua autoria com a maior benevolência ou o maior rigor, de acordo com o seu pessoal sentido crítico. É neste ponto preciso que se define a qualidade e o mérito do que escreveu ou possa escrever. Revela aí a formação do seu gosto literário como leitor e logo, também, em simbiose, como autor.
Dir-se-ia que o número de novos autores se vai multiplicando devido às pressas. Pressa de ler qualquer coisa sem grande escolha, de sentir o gosto formado e de “estar maduro” para escrever e publicar. Talvez sejam as pressas todas do nosso tempo que banalizam a figura do Escritor.
Mas tantas pressas beneficiam a Literatura? Redondamente, não. A arte literária pede concentração e repouso em dádiva tão plena que é a página composta com todo o tempo do mundo e o esmero sofrido do artesão que fica a brilhar (evocando peripécias como a noite de vigília de certo escritor hesitante numa simples vírgula).
A situação actual parece tornar-se asfixiante. Muitos dos novos autores, que querem ser escritores, dispensam os tormentos e demoras da arte literária. Podem folgar, pois fica longe a nevada montanha, perto de Delfos, que, segundo a mitologia, era a eminente morada de Apolo e das Musas, montanha tão venerada que os gregos arrojavam os sacrílegos dos Rochedos de Fedríades (comentário: não apeteceria hoje livrar as artes literárias de tantos maus cultores de um modo menos brutal mas igualmente eficaz?)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Menos editoras, livrarias, livros

Em oito anos, de 2004 a 2012, o país perdeu 132 livrarias. Não faltaram, é certo, as feiras de livros e as promoções de saldos, mas, apesar disso, o sinal continua a valer quanto vale. Aliás, mais expressivo se torna ainda porquanto o número das editoras também diminuiu, dado que foi maior o número das que desapareceram do que as que foram criadas.
É o que se conclui de um relatório realizado a pedido da APEL, Associação de Editores e Livreiros, pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE coordenado por José Soares da Costa e citado pelo jornal “Público” (16-09-14, p. 30). O estudo, “Comércio livreiro em Portugal”, indica que as 694 livrarias existentes em 2004 venderam 140,1 milhões e que, em 2012, as 562 restantes venderam 126,2 milhões – menos 14 milhões. Porém, o ano de 2008 assinalou um pico de vendas excepcional de 404 milhões, após o que entrou em declínio.
Realmente, 2008 permanece como um marco incontornável. O mundo (somente o Ocidental?) virou-se como simples guarda-chuva batido pela tempestade: bancos principais faliram, os governos acudiram-lhes, os Estados endividaram-se, os défices orçamentais exigiram brutais agravamentos dos impostos… e declarou-se a crise geral que estamos a viver. Isto é, a viver sob o famigerado paradigma do neoliberalismo, que promove o empobrecimento dos povos em nome da austeridade e a maior desigualdade social.
O desemprego cresceu, os salários baixaram, o consumo retraiu-se. O Estado social (e, se não for “social”, o que poderá ser o Estado?) encolheu até expor vastos segmentos da classe média arruinada aos mínimos da pobreza real. A fome, alastrando no terreno, pôs bancos alimentares e cantinas escolares em actividade máxima, e, enquanto se expandia uma linguagem desbragada, a dependência do álcool e das drogas, o número de suicídios, o bullying nas escolas e a violência doméstica, irrompia a nova geração (amiga de lobbyis, ansiosa do primeiro milhão conforme o “sonho americano” agora a realizar em Portugal) com direito a tudo sem ter feito nada e já declara os idosos descartáveis…
Naturalmente, nesta calamitosa situação, não surpreende uma diminuição da venda de livros pelas livrarias. Surpreendente será, sem dúvida, o caso dos concertos musicais de vedetas em voga, a bom preço, que se enchem ou os programas turísticos de férias no estrangeiro que se esgotam num ápice. E consta que quatro ou cinco milhões de portugueses já possuem smarphones!
O estudo põe em relevo a “crise aguda gravíssima que afectou o tecido cultural português”. De facto, esta crise entrecruza diversos factores de risco, que envolvem a circulação do livro e toda a sua vivência cultural nomeadamente com índices de segurança, bem-estar, civismo e saúde pública (incluída a mental). É uma crise feita de múltiplas crises.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Abre hoje na sede da ONU, em Nova Iorque, a reunião de 120 líderes mundiais (Barack Obama e outros;  sem Angela Merkel e Xi Jinping) para debater o grave problema planetário das alterações climáticas. Objectivo: reforçar as bases possíveis para a assinatura do protocolo internacional a assinar em Paris no fim de 2015 sobre as emissões de carbono para a atmosfera.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Cultura “pop” é popular?!


Estão sem defesa os leitores, consumidores de literatura, entregues como ficaram às lógicas lucrativistas do mercado. Todavia, isso deixa-nos em condições de avaliar o nefasto efeito das mudanças recentes por que passou o panorama da edição literária em Portugal. Tamanha e tão rápida foi a alteração que quase se poderia falar de um “antes” a contrastar com o “depois”.
Recordarei aqui apenas os acontecimentos vividos para deles extrair a devida conclusão. O ponto de viragem pode ser colocado na ofensiva do grande capital que se apoderou de quantidade substancial das editoras de livros, quando a propriedade dos jornais principais já havia caído também em poucas mãos. Mas o ponto é convencional, pois a viragem se iniciara antes, no tempo, hoje incrível, em que os jornais portugueses, matutinos e vespertinos, tinham muitos mais leitores e publicavam suplementos literários semanais com artigos, críticas, entrevistas, notícias – lembram-se?
Então, o livro, que vemos convertido agora em vulgar objecto de comércio, mantinha toda a sua dignidade cultural e nas livrarias havia espaço para mostrar as “novidades”, tão raras (e boas) que causavam prolongada sensação. Os autores amadureciam o que escreviam, os críticos apreciavam-nas orientando os leitores para as obras, que eram discutidas e exerciam realmente uma influência que hoje – tempo de banalização e banalidades – se nos afigura quase mítica. É certo, então os leitores eram poucos, mas, pelo menos, eram melhores.
Desapareceram os suplementos e as páginas literárias, os críticos eclipsaram-se, os jornais (sem censura prévia) baixaram tanto as vendas que correram a refugiar-se nos braços da publicidade a rodos e, deixando-se de idealismo, ficaram vassalos fiéis da verdade única oficial. O mercado do livro foi invadido (colonizado?) por traduções de obras dos autores de best-sellers em voga e obras de autores de best-sellers nacionais também eram traduzidos “lá fora”, de modo que, no panorama da edição literária do país em vertiginoso crescimento, se estratificou uma cultura de massas pretensamente popular.
A literatura de consumo engoliu a autêntica literatura, que cultiva a arte literária, perante os leitores indefesos, por outro lado sujeitos à pressão do conjunto dos media. A degradação do gosto dos leitores e da imagem pública do Escritor passou a reflectir-se na tipologia das obras que aparecem nos circuitos da leitura e na facilidade impressionante com que qualquer bicho-careta se decide, numa loja de print on demand, a publicar, isto é, a obrar, e a considerar-se “escritor”. Consumou-se uma brutal subversão e há por aí quem diz, apontando as consequências, que não foi nada inocente: serviu interesses não só mercantis... [Foto de Laurent Schwebel]

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Quem quer publicar livro?

O meu círculo de conhecimentos directos quase me deixa sem dúvidas. A vontade de ser “escritor” a qualquer custo expande-se com a violência de uma virose pandémica. Multiplicam-se os novos autores que por aqui aparecem de livrinho publicado com impressão por encomenda paga do seu bolso.
Portanto, vai florescente o negócio das lojas gráficas que praticam o print on demand pois não esmorece o entusiasmo indómito de quantos sonham pertencer de algum modo, seja pobre ou paupérrimo, à confraria das letras. Sem diminuição vai também a estatística anual (e o espanto) dos livros em edições novas saídos em Portugal no auge deste período de grave crise. Porém, o mercado dos livros-mercadoria, isto é, a venda, ao que consta, não anda a prosperar…
Quer dizer, a edição de livros digitais entre nós é novidade ainda em expansão… com recurso “normal” à edição física, a impressão em papel. Logo, a solução tecnológica nova, electrónica, continua a servir a velha, gutenberguiana. Será porque os espaços domésticos ainda gostam de ostentar filas de volumes, fartas lombadas, leituras feitas ou por fazer, emblemas de status cultural?
Porém, a freima que põe tanta gente a escrever e a publicar-se não terá que se responsabilizar pela carência de leitores de que se queixam os escritores mediáticos das grandes tiragens? A circunstância convida a especular pressupondo que há quantidades de leitores em deslocação por se decidirem agora a escrever os seus próprios livros. Decerto consideram isso preferível a continuarem a comprá-los.
A despesa será maior mas justifica-se como investimento de cada novo autor na sua ilustre pessoa e uma aquisição de especial relevo social – torna-se “figura pública”. Organiza sessões de apresentação da obrinha, concede autógrafos aos seus compradores e fica de ego cheio quando o jornal da paróquia o apresenta como “escritor da terra”. Vê-se perto da (ou já investido) na figura de escritor de nome feito e abençoado pelo mercado.
Certamente, o novo “escritor” leu à pressa uns quantos autores de best-sellers em voga e com eles julga ter aprendido qualquer coisa. Desconhece o que seja a Literatura e, portanto, não reconhece o que seja a mediocridade. Escreve como se habituou a ler, isto é, à pressa, e tudo nele o deixa pronto para acreditar que o sucesso se atinge pela propaganda posta ao serviço do autor, não da sua arte literária.
O observador dos factos socioculturais notará nestas evoluções reflexos de uma banalização da figura do Escritor (outrora prestigiosa como, por exemplo, a do Professor). Serão reflexos de uma banalização mais vasta. Abrange os sistemas escolares, o abaixamento geral dos níveis culturais e o entorpecimento das energias criadoras das novas gerações perante a perda dos valores de referência.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Perante um quadro exposto

A obra de arte nasce partindo naturalmente do rumor do mundo, mas, quando nos aparece, convida ao silêncio. É isto, pelo menos, o que amiúde se repete de um modo bastante consensual, ao ponto de quase nos distrair do outro lado da questão: convidando embora ao silêncio, a obra de arte aspira ao verbo. No recolhimento de que por dentro se envolve mesmo quando por fora grita, pulsa na obra o desejo latente de se esventrar em palavras. As formas e as cores realizam-se mais plenamente através do discurso.
Assim se articulam as relações da pintura com a literatura, dos pintores com os escritores. Não falo de críticos ou de historiadores da arte enquanto tais; falo, sim, da sucessão de homens de letras que ao longo dos anos escreveram sobre a obra dos artistas, seja porque com eles conviveram, quantas vezes na intimidade dos espaços domésticos ou dos próprios ateliers, seja por qualquer outra situação. De resto, alguns pintores largam mesmo os pincéis para usarem da palavra, convencidos por momentos de que esta é a sua expressão mais eloquente e satisfatória.
O signo pictórico e a palavra literária acompanham-se e complementam-se reciprocamente de tal maneira que já ninguém perde tempo a indagar o motivo por que no fundo os poetas e os ficcionistas, por exemplo, parecem estar tão próximos dos artistas e em tão boas condições de lhes entenderem as obras; o motivo, em suma, por que os textos dos catálogos de exposição e livros tendem na actualidade a constituir-se mais como comentários decorrentes de leituras feitas na matriz de cada gosto do que como abordagens críticas, isto é, valorativas, das obras em foco. Em resultado, estas tornam-se cada vez menos frequentes. A questão toda é: serão as abordagens críticas dispensáveis?
Os artistas quase nada as dispensam, pintem ou não quadros naturalistas, neo-figurativos ou os ditos abstractos. Sabemo-lo bem: desde a revolução de Marcel Duchamp, a arte do nosso tempo é uma arte intervalar, suspensa de uma espera. Exprime-se hic et nunc sem augurar um amanhã, algures. Vimos acabar as escolas, as correntes, os epigonismos, as revoluções estéticas, como se já tivesse sido descoberto tudo o que havia a descobrir; restam agora os artistas individualizados, com a multiplicidade das suas linguagens e das suas expressões pessoais. Nunca se pintou tão intensamente, tão variadamente a angústia do impasse que é a marca distintiva deste tempo.
A crise não atinge só a pintura; percorre transversalmente os sistemas da economia, da política, da ética e da estética, tocando inclusive na literatura. Os velhos cânones estão velhos em demasia, os novos ainda não advieram.
 [Cópia, parcial, de escrito em catálogo de exposição.]

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Agosto, mês de ripanço

O costume tem seis anos. Em Agosto, o cronista fica deitado à sombra, braço esquerdo com a mão em concha a apoiar a nuca e a direita a acenar boas-vindas aos visitantes de perto ou de longe, aqui chegados, que se deparam com a cena: o escriba correu os taipais e pôs aqui, no exterior, o aviso: "Fechámos para férias do pessoal. Reabrimos no início de Setembro."

terça-feira, 22 de julho de 2014

O velho e o cão

Um velho caminha lentamente pela rua. Alto e magro, apoia a mão direita na bengala, atento aos desníveis do passeio tortuoso, e coxeia um pouco. Aparecem covas, buracos, declives, pedaços de cimento roto, pedras de lancil gastas, e o homem avança, cauteloso, tentando evitar quedas. 
Adiante uns metros, um cão fraldiqueiro, pequenito, sentado mas erguido nas patas dianteiras, espera enquanto a dona, trela na mão, conversa com pessoa assomada à porta. De repente, o cão fica atento ao avanço do velho. No seu olhar, além de atenção, há também uma carinhosa simpatia. 
Vê o homem aproximar-se passo a passo, pois carrega idade muita e fôlego pouco para governar as pernas bambas sobre as quais, mal seguro, dança. O cão parado, de olhos fitos, parece esperar a chegada da pessoa conhecida e amiga. Mas o velho, já próximo, não o nota, cuidando apenas de seguir rente aos prédios para evitar choques com transeuntes apressados ou distraídos, em grupo imóvel, de cigarros nos dedos a fumegar, e ele se desequilibrar, cair. 
Quando a perna esquerda do velho chega ao alcance do nariz do animal, ele está pronto. No instante em que a perna se imobiliza para logo seguir em alternância, cola o nariz à calça e aspira com força (será beijo canino?). Depois volta a cabeça, de olhar já entristecido, e vê o velho afastar-se. 
Talvez um dia o homem lhe tenha oferecido algum bocado de comida, uma carícia, mas esqueceu o gesto. O cão, porém, não o esqueceria. Ou terá pressentido no velho a tristeza de uma solidão maior que a sua, que tem a sorte de ser fraldiqueiro embora ature a dona que pára aqui e ali a conversar em vez de continuar o passeio. 
Faz supor que o cão pressente no homem tamanha tristeza, tanto desgarramento que gostaria de o beneficiar com amizade. Duas solidões compartilhadas teriam menos solidão. Mas o cão não sabe que o velho se desprendeu de tudo, até de uma amizade canina, e que o cantinho onde vive está repleto de ausências, saudades, lutos, memórias, sofrimentos e sem espaço para nada mais. 
Diferente é a sorte do sem-abrigo ancorado em frente do mercado municipal. Consegue viver bem com seis ou mais cães que o rodeiam habitualmente, todos em família sobre uns farrapos. Recebe a comida que as senhoras piedosas lhe dão para os animais e com eles come.

terça-feira, 15 de julho de 2014

O Português nasceu em 1214?

A nossa língua materna existe há oito séculos, assinalaram diversas entidades no próprio dia da efeméride. Basearam-se no testamento do rei Afonso II (1185-1223) feito no dia 27 de Junho de 1214, documento arquivado na Torre do Tombo. Trata-se, porém, de uma data simbólica, pois nenhuma língua aparece feita de um dia para o outro.
O documento foi redigido em Coimbra, pela mão de um certo escriba, seguindo a norma que viria a consagrar-se. Mas, bem entendido, uma nova língua não é elaborada por um único escriba para uso de um povo inteiro (e, então, língua também em uso na Galiza), antes resulta de uma longa sedimentação e decantação de factores diversos presentes no terreno. É obra de uma comunidade inteira, o que nos dá motivo para considerar, à evidência, a nossa língua materna como a mais genial criação dos povos galego-português.
Todavia, houve que esperar três séculos, até 1536, pela primeira gramática de Fernão de Oliveira, publicada em Lisboa, a que se seguiu a de João de Barros quatro anos depois. A língua passou a ter as suas próprias regras de forma e composição, uma morfologia disciplinar canónica. A reluzir ficaram os contributos literários de Gil Vicente (c. 1465-c. 1536), Garcia de Resende (1470-1536), Sá de Miranda (1481-1558), Bernardim Ribeiro (1482?-1552?) e outros, de modo a perceber de relance o “salto” portentoso dado pela língua na primeira metade do século XVI.
O contributo de Luís de Camões (1524-1580), outro artífice da língua, foi marcante para o progresso do Português. Mas a língua, sistema aberto sempre vivo, continuou a evoluir tanto quanto se sabe. Estendeu-se pelo mundo onde pés portugueses se demoraram fazendo nascer, após descolonização, a CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Rodearam a organização da comunidade lusófona grandes expectativas que mais óbvias têm deixado as fraquezas de uma autêntica e eficiente política da língua que Portugal adia. A CPLP parece transformar-se, ao que se diz, sobretudo em centro diplomático de negócios e o falhanço do Acordo Ortográfico de 1990, que prometia um mínimo de unificação, deixa à solta naturais derivas.
A defesa e promoção da nossa língua materna no mundo mostra-se inadequada e inconsistente, com cada um dos países integrantes a seguir ao seu próprio ritmo. Ora, em vez das vozes que entronizam o Português com frases altissonantes, bom seria intervir no espaço da lusofonia em situações como em Timor ou na Guiné-Bissau. Neste país, por exemplo, inserido em região francófona e com uns 56% de analfabetos, as diversas etnias falam algo como 32 dialectos nativos; não existe ensino da nossa língua condigno, sendo o Português falado só por brancos e alguns guineenses escolarizados e o crioulo usado em cidades e zonas do litoral… [Nota: clique na imagem para ampliar.]

terça-feira, 8 de julho de 2014

O Estado e a religião


Segundo leio, restam apenas três estados teocráticos no mundo. São o Estado do Vaticano, o Irão, país dos ayatollahs, e Israel. Mas este vai ao ponto de entronizar a religião como elemento constitutivo do próprio Estado, identificando e agregando não cidadãos enquanto tal mas crentes e praticantes da Tora.
Os outros países, sendo mais ou menos laicos, organizam o Estado de muito diversas maneiras. De facto, o desenvolvimento dos povos e as mudanças das mentalidades e dos costumes provocou a evolução geral das estratégias políticas. Os hierarcas da igreja dominante não coroaram mais os reis de antanho nem, por exemplo, os governantes impuseram mais barretes cardinalícios.
Assim, parece ter-se imposto, desde o fim do século XIX, uma tendência crescente para afastar a religião da esfera dos estados. O laicismo correspondeu a esse desígnio incluso em Portugal sem conseguir, no entanto, iludir deveras a influência da igreja dominante. A Católica mantém entre nós a primazia em muitos aspectos da vida nacional, de modo que deixa ver ainda hoje o poder estatal bastante subordinado ao poder religioso.
Em tal contexto, vem à memória um livrinho publicado em Portugal em Novembro de 1970, intitulado “Sobre a Religião”. Lembro: Marcelo Caetano era presidente do Conselho desde 27-9-1968 e o país debatia-se entre a continuidade ou a evolução com tamanha ânsia que rebentava as baias da repressão da ditadura. Ora, se o tema do livrinho era melindroso, atente-se no seu autor: V. I. Lenine.
Naquela circunstância, exagerando possivelmente, direi que a obra causou um grande impacto. Mas faço declaração de interesses: fui o tradutor e editor o livro (estreou, por sinal, as efémeras Edições Razão Actual). Singularidade: uns tantos exemplares foram apreendidos nas livrarias pela PIDE (os livreiros mandaram os autos de apreensão) mas o livro, sem reedição, acabou por não entrar na lista dos proibidos!
Traduzi o texto do espanhol, que encontrei publicado em Cuba, em volume com prólogo de Francisco. Era uma recompilação de vários artigos de Lenine (mais duas cartas dirigidas a Máximo Gorki) datados de 1905 a 1922 que expõem o seu pensamento acerca do tema religioso. Uma ideia essencial percorre a obra: “Nós exigimos que a religião seja um assunto privado relativamente ao Estado […] O Estado nada tem que fazer com a religião; as sociedades religiosas não devem estar ligadas ao poder do Estado. Qualquer pessoa deve ser completamente livre de professar a religião que lhe agrade ou não aceitar nenhuma religião, ou seja, ser ateu” (pp 33-34).
Entretanto, a ideia da separação dos dois poderes tornou-se bastante consensual, ao ponto de atravessar o espectro político-ideológico da esquerda à direita. De facto, uma eficaz e rigorosa delimitação dos poderes das duas partes transformou-se numa aspiração dos povos. Desejam o fim da intromissão da influência de uma parte sobre a outra para que saia favorecida a maior transparência do processo de tomada das decisões democráticas. [Imagem: desenho de Almada Negreiros (1893-1970)]

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Esta nossa vida “laica”

A Constituição da República não consagra expressamente que o Estado é laico. O Artigo 41, sobre “Liberdade de consciência, de religião e de culto”, deixa o assunto em indefinição de modo a servir com oportunidade quaisquer interesses. Todavia, um Estado que se pretenda moderno opta decididamente pela laicidade, declarando na sua lei fundamental que não tem religião porque nenhuma assume.
Segundo os livros, a vida laica é não religiosa; é profana, mundana, apreciadora dos prazeres sensuais. Laica também é leiga (sem pertença a ordens sacras), vida ignorante “do povo” no mundo secular contraposto a mundo espiritual. Mas o estilo da vida moderno tornou-se tão assumidamente laico que se torna cada vez mais estranho o facto de a laicidade da nossa República não aparecer consagrada na ordem constitucional vigente.
A presente situação mantém-se desde 2004, ano da nova concordata que substituiu a de 1940. Foi negociada por Portugal com o Estado do Vaticano quando Durão Barroso era primeiro-ministro. Desperdiçada ficou a oportunidade para proceder ao aggionarmento que já então se impunha, deixando a reinar a ambiguidade.
Enfim, a separação do Estado das várias igrejas não priva a Católica de uns antigos privilégios que não quer perder e que nenhuma outra alcança. Os portugueses até podem ser muito católicos mas não cumpre ao Estado sê-lo. Se for ou se é, perde a independência, torna-se confessional, um Estado teísta como os poucos que restam no mundo e que os governos ocidentais tão acirradamente condenam.
Na realidade, as coisas conjugam-se de maneira a beneficiar a Igreja Católica com importantes privilégios. O ensino católico obtém largos apoios oficiais (quando “O ensino público não será confessional”: Const., Artº 43, 3) mas vêem-se cruzes em escolas públicas, sacerdotes a abençoar novos equipamentos, presença de entidades católicas em actos oficiais, etc. Entre bastantes isenções de impostos e outras variadas regalias conservadas pela Igreja, é de notar a conservação da capelania das Forças Armadas.
Em data recente, quando o governo PSD/CDS decidiu abolir uma quantidade de feriados nacionais, causou geral surpresa e algum escândalo a simetria numérica imposta: o Estado abolia cinco feriados civis e a Igreja Católica abolia outros tantos, religiosos. Reacendeu-se mais uma vez a velha questão: o Estado tem ainda agora que continuar a prestar contas à Igreja? O que é de César não tem que ser de César? [Imagem: cerâmica de inspiração mourisca, com motivos relevados, painel de Rafael Bordalo Pinheiro.]

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A alma da paisagem

Cada sítio e, em cada sítio, cada recanto exercem por vezes uma atracção de índole algo mágica. Sente essa atracção quem, habitando, humanizou longamente o mesmo sítio ou quem ali se deteve de olhar desperto pelo deslumbramento da luz perfeita que faz renascer as coisas. Assim ficamos a amar certos sítios como se neles houvéssemos deixado uma parte inesquecível das nossas vidas e neles quiséssemos ficar a morar para sempre.

A pintura de paisagens parece responder de algum modo à sedução que cada artista sente em recônditos onde, como habitante sensível, o artista capte o espírito do lugar ainda que por ali esteja de passagem. Mas fica de coração impregnado por aquela especial atmosfera, a densidade entrevista do seu mistério.

Muitas são as cidades e povoações cujos motivos paisagísticos os pintores pintam incansavelmente. A minha cidade também os tem. Nos seus quadros, ao longo do tempo longo, os pintores repetem os motivos sempre reconhecíveis – a beira-rio, a ponte, o casario da parte velha da cidade, a zona ribeirinha que sobe pelo morro até à Sé, no topo, debruada por uma fila de laranjeiras com frutos a luzir ao sol – ao ponto de nos porem, duvidosos, a querer saber se não terão sido outros os motivos para os pintar.

Podemos ver em sucessivas exposições esses quadros assinados por variados artistas, neles percebendo as revelações que cada quadro lhes proporcionou. São paisagens em que quem as pintou se dissolveu no seu motivo para ali ficar a morar para sempre. A sugerir com máxima eloquência que se é artista na medida em que se ama cada motivo, pois cada motivo, como cada revelação, é momento único, irrepetível.

As pinturas mais admiradas fazem-nos sentir a emoção plasmada no motivo pintado entre exaltação, solidão ou alguma melancolia. Está ali também a revelar-se uma alma que teima em resistir aos desgastes do tempo. O espírito de cada lugar, agora no quadro, parece interrogar-nos tal como interrogou quem assim se deteve a pintá-lo.

Acabamos a remoer o velho tema: por que motivo há-de uma pessoa pegar nos pincéis e representar na tela imagens da realidade visual próxima que todos conhecemos? Por que motivo queremos essas paisagens familiares presentes nas nossas casas? É estranho, sem dúvida. Mas dilucidar esta questão equivaleria a explicar o inexplicável: de onde vem a arte? [Imagem: pintura, parcial, de Teixeira da Mota.]

terça-feira, 17 de junho de 2014

Editores “fazem” escritores

O campo da edição literária deu uma grande volta e continua a mexer no terreno multiplicando as consequências implicadas. Eu, como qualquer autor idoso, venho acompanhando (isto é, estranhando) as evoluções e mudanças que ocorrem na área. Ora hoje assinalo a maravilha a que chegamos: há editores que já vão ao ponto de “fazer” novos escritores!
Dantes, eram os autores de obras principais que faziam prosperar os editores, dando-lhes futuro. Todos sonhavam com eles, ambicionando ver algum dos maiores entrar-lhes pela porta. Todavia, os ditames do deus-mercado impõem agora outros mandamentos.
Vai-se tornando “normal” que um editor contacte um autor para lhe propor a aceitação de uma encomenda. Quer escrever um livro sobre um dado tema de palpitante actualidade ou sensacional escândalo, que venda muito e depressa, seja um romance, um estudo, uma entrevista? O autor (novato, naturalmente) embarca no convite que porá a soar o seu escasso nome na praça literária e ganhar, escrevendo, um bom dinheiro.
Deste modo, é o próprio mercado que, através do editor, coloca o autor a trabalhar por encomenda na directa dependência da lógica dos interesses comerciais envolvidos. O editor escolhe o “tarefeiro” e, à americana, não se limita a contratá-lo para a tarefa: fornece-lhe pistas, indicações, ajudas várias; orienta-o e por fim até poderá compor-lhe o escrito. O autor passa a escrever em absoluta dependência do mercado.
Evidentemente, vai crescendo o número de autores que almejam ser “escritores” em condições de viverem do seu trabalho de escrita. Objectivo este aceitável mas que em contrapartida os prende às flutuações do mercado, dos gostos massificados e da cultura de consumo de bens efémeros. Dilui-se por completo a independência do autor, a sua pessoal criatividade e alguma dignidade.
Outras consequências substanciais acompanham a perda da liberdade de iniciativa do autor (e uma, relevante, consiste em permitir que o editor seja um real co-autor omisso). Não escreve apenas por tarefa, escreve também por encomenda. Não elabora o livro que considera necessário, abstém-se, optando pelo sucesso fácil quase garantido.
Publicar no mercado editorial o que o mercado está pronto a absorver acaba por ser viciante. O autor, sintonizado com o marketing, seguirá inspirado pela escrita de sucesso fácil. Para ele, que quer sido lido de urgência, literatura para minorias é elitismo, inutilidade.
Lamentável é ver depois as leituras que mais circulam no mercado, produzidas pelos autores das grandes vendas. Abundam de literatura popular assumidamente descartável, simples verbos de encher. Escondem, porém, sob mantos de silêncio e de invisibilidade a literatura viva, autêntica, que nos falta.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Tanto comodismo!

Habituámo-nos, como alunos obedientes, à passividade. Premimos teclas e botões, compramos comidas confeccionadas, utilizamos máquinas que executam por nós imensas tarefas manuais, sentamo-nos em fofas almofadas para ver televisão, pegamos no carro para ir ao café próximo… Caindo na inércia, transformámos o comodismo num estilo de vida ou, pior, num traço de carácter.
É traço tão popular que o comodismo se limpou da condenação antiga - injuriado como porta aberta para qualquer vício - e até já se pretende virtude. Parece evitar canseiras, complicações aborrecidas ou mesmo maçadas e perigos pois todos vêem que “as coisas não estão fáceis”. Evita aderir ao sindicato e à greve, entrar na manif, abrir a boca para o que vai no coração e reclamar contra a austeridade, o governo e a desgraça em que o país se afunda.
Mas, associado ao comodismo, o medo infiltra-se como água mole através das porosidades e frinchas das rochas. Põe a reinar o receio de nova perda a somar ao que já se perdeu e venha complicar ainda mais a vidinha, porque, não estando fáceis, as coisas, ainda assim, vão indo. Convém não fazer ondas, agitação, esperemos um pouco, isto há-de compor-se…
O medo associa e acompanha o comodismo. Ganha força com a inércia de quem se resigna a perder comodidades supondo saciar a fera selvagem que as devora e já avança com renovado apetite para outras partes do seu bem-estar. Abre a porta do galinheiro ao lobo esfomeado que, a salivar, mente ao prometer defendê-lo.
Comodismo é o que dispensa o cidadão de votar nas eleições a pretexto de que o seu voto não vale nada. É querer viver sem “entender a política”, as decisões dos governantes, a importância da aprovação de um orçamento de Estado. É condenar os políticos e os partidos do governo por corrupção e continuar a votar neles ou, com idêntico resultado, manter-se na abstenção.
Comodismo é dispensar-se de pensar e de ter memória. É assumir opinião alheia como própria. É ser emocional e não racional.
Comodismo é aceitar a austeridade imposta pela crise financeira (a debitocracia = democracia expulsa pela dívida). É acreditar na onda da manipulação que impõe a Verdade Única, crer no crescimento contínuo da economia, na segurança geral do mundo. É aplaudir o consumismo acrítico, delirar com os gooolos do espectáculo do futebol.
Comodismo é desistência sem luta em troca de medo. Quarenta anos depois do 25 de Abril, o regime democrático não lhe diz nada. A direita, crescendo, aproveita.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Um pé de camomila


O relvado apareceu coberto de florinhas, manto de brancuras que pintalgava a verdura mais densamente na zona onde o terreno se afundava um pouco numa bacia de frescura e depois diminuía em torno até se esgotar na periferia. Era um tapete de camomilas que despontava noutros pontos do parque, adensado nos baixios onde humidade e húmus se concentram. Camomilas bravas, quero dizer.
Enfim, ervas entre outras ervas, de hastes erguidas à mesma altura, mas não só ervas, também eram flores, de corolas orientadas para o sol que as inunda e já sem o rocio matinal deixado pela noite pois a tarde em promessa se abria. Manto de florinhas humildes surgindo de repente no relvado. Surpresa de quem, esquecido da Primavera, encontra concentradas no mês de Maio as quatro estações de todo o ano.
Na orla do relvado, rente aos pés que transitam pelo estreito passadiço, ergue-se, solitária, uma camomila. Paro a vê-la, assim isolada na ilharga do manto, pertencendo ao conjunto e, ao mesmo tempo, afirmando-se numa solidão individualizada. Arrastada para a orla, a semente soube cumprir a função que lhe cabe e ali está ela florida como todas. 
Mas eis que uma criança, com pezinhos de ave a sair do ninho, corre pelo coberto verde de florinhas brancas atrás de bola colorida que rebola. Pega-lhe, erguendo-a nos braços, e sorri, feliz, para os pais como se posasse para fotografia ou quisesse oferecer-lhes uma imagem querida para guardarem. Eu torno a contemplar a camomila solitária, mas vejo ainda uma criança a caminhar, com passos inseguros, em direcção aos pais. 
Leva a bola nas mãos. A bola é o seu mundo. Redondo, completo.