segunda-feira, 28 de março de 2016

O meu gato

gato.jpgO meu gato é selvagem. Vive na rua, é um pobre sem-abrigo, sem regaço nem almofada para ronronar numas sonecas. Conhecemo-nos há uns anos e somos amigos, ele lá fora no cantinho abrigado onde apanha sol e eu, aqui à janela, civilizado a imaginar-me também selvagem, a vê-lo.
Somos, pelos vistos, dois solitários. Assomo à janela, a meio da tarde neste limiar da Primavera, e ele ali está, a vinte metros de distância, sozinho, quase imóvel, aquecendo-se. Mas, dizendo eu que é “o meu gato”, esclareço que é assim como falo do meu amigo Alcides ou do amigo Andrade, um na margem sul do rio e o outro do lado extremo do oceano e do seu continente.

Porque, não há dúvida, este gato, malhado, quer ser mesmo um autêntico radical. Ter toda a liberdade, toda a independência. Um dia apareceu ali acompanhado por outro felídeo, seria uma gata namoradeira, tomou o seu banho de sol afastando-a meio metro, as tardes seguintes foram de feliz noivado, mas logo depois a bichana, descontente ou desiludida, desapareceu.

Este gato é dos que caem sempre de pé. Para chegar ao seu lugar ao sol tem que trepar, na rua, uma parede alta. Mas ele, no passeio, afasta-se medindo a distância, apoia-se nas patas traseiras e dispara o salto já de unhas afiadas para, como alpinista, marinhar muro acima e saltar para o interior do terreno.

Evidentemente, aquele lugar foi escolhido com a maior exigência. É um pedaço de cimento liso, na orla de um matagal bravio em terreno abandonado onde não é fácil penetrar nem foi fácil descobrir. E aquele pedaço liso, e limpo, fica no sopé de uma parede virada a sul onde o sol refulge, glorioso, toda a tarde.
Quentinho e sossegado para estar com o lado bom da vida. Não é fácil isto, não, ao que se vê por aí, tanta carne viva a arder nas chamas das fogueiras do burnout. Mas este gato sem nome sabe bem o que quer, sabendo querer pouco.
Descansa dormitando, de rabo encolhido, patinhas dobradas e a cabeça quase parada mas de atenção desperta. Uma única vez, porém, ergueu os olhos para a minha janela, olhámo-nos naquele instante e demo-nos a conhecer. Passou então a ser o meu gato.
Penso que ele consegue o milagre de saber tudo quanto precisa de saber. Não o posso garantir, mas talvez ele, ali cavilando, filosofe. Muda de sítio, deita-se agora num outro bocado de cimento batido pelo sol, talvez se inquiete com os refugiados da guerra que a Europa expulsa, com os palestinianos da pátria ocupada, com a situação no Iraque e na Líbia, com a paralisação global da economia e o poder sem freio da alta finança internacional que abraça asfixiando o mundo…

segunda-feira, 21 de março de 2016

Manuel Maria, poeta galego

As relações culturais, ou antes, dos escritores e artistas das duas margens do rio Minho têm sido irregulares, esporádicas como a vontade de abraçar e de dançar. Mas, quando tal acontece, a festa vivida deixa sempre, dos lados de cá e de lá, apetite para mais. E, no ar, também uma interrogação (saudosista) sem resposta: porque há-de a festa ser assim tão escassa?


m.maria.jpgUm bom período de aproximação cultural luso-galega foi possível nos últimos anos ’60 e início dos ’70 do século XX, coincidindo de certo modo com o final do regime Salazar-Caetano. Envolveu escritores, pintores, poetas, cantores, académicos, jornalistas e múltiplas partilhas cruzadas, até que a eclosão do 25 de Abril concentrou o país sobre si próprio. Incluiu exposições documentais, recitais, palestras, congressos e publicação de livros e revistas.
Figura eminente nesse período em Portugal foi o meu amigo poeta Manuel Maria. Visitou Portugal diversas vezes, uma das quais, muito por ele recordada, com o pintor Pousa, e aqui lhe publiquei três livros: Sonhos na Gaiola, poemas para crianças (Lisboa, 1968); 99 Poemas (Porto, 1972), e Odes num tempo de Paz e Alegria (Porto, 1972). Depois ficámos “perdidos” um do outro até que vim a saber que Manuel Maria [F. Teixeiro] falecera já em 8-09-2004, na Corunha, com 75 anos.
O poeta nasceu na sua querida Terra Chã (Outeiro de Rei, 6-10-1929) e viveu em Monforte de Lemos, onde uma estátua o recorda em público, sentado à mesa e de livro na mão, e existe uma evocativa “Casa Manuel Maria”. Filho de camponeses, estudou para bacharel e foi solicitador. Participou nos anos ’60 na organização clandestina de partidos nacionalistas. Em 1985 abandonou a política e mudou-se para a Corunha, onde, hospitalizado, acabou por falecer. Realizou uma actividade literária intensa e imensa: desde 1950, publicou mais de meia centena de obras, sobretudo de poesia, mas também de teatro e antologias das suas próprias produções.
Recordo, por exemplo, Muiñeiro de Brétemas, a sua estreia, de 1950, e a sua última obra, Os Longes do Solpor, de 1993. A Wikipedia.pt lista pelo menos 25, desde Mar Maior, 1963. Trocámos abundante correspondência durante aquela meia dúzia de anos e visitámo-nos algumas vezes. Entretanto, fico preso a uma vasta rede de outras recordações, nomeadamente de Joaquim Santos Simões, um querido amigo de Guimarães, companheiro destas e de outras lides, José Maria Álvarez Blázquez e seu irmão (Edicións Castrelos, Vigo), J. L. Fontenla, Irmandades da Fala… mas como não recordar ainda os esforços, inúteis, que fiz pela publicação, em português normal, de parte significativa da obra literária de R. Alfonso Castelao?! [Imagem: Manuel Maria em retrato (pormenor) num cartaz.]

segunda-feira, 14 de março de 2016

O (des)Acordo Ortográfico

Repego mais uma vez no assunto verificando aqui, pelas “etiquetas”, que venho a comentar a situação ortográfica em que temos o Português desde 2008. Contei dez textos, em anos sucessivos, e hoje a situação não está menos incómoda nem menos desagradável. Mas, agora que a República tem um novo Governo e um novo Presidente, são muitas as vozes audíveis que pedem um debate urgente do assunto e, enfim, a sua conveniente resolução.
Vendo bem, a questão é meramente política e apenas requer uma resolução política. Portugal é - continua a ser - o único país do Acordo Ortográfico de 1990 que o aplicou oficialmente (na comunicação administrati-va e no ensino público) quando já era notório, o projecto falhara: não unificava (miragem esta que me levou a aceitar o A.O. durante algum tempo) e deixava cada povo lusófono entregue à sua própria deriva. Assim ficou o país, desse jeito, numa atitude que tinha (e tem) tanto de esquisito como de humilhante.
Convém não perder mais tempo a retirar o país da figura em que se colocou, sem esperar que algum dos outros signatários lusófonos oficialize também a norma ortográfica que notoriamente repudiam. Na verdade, o Acordo seria imperativo somente quando todos os países aderentes o ratificassem. Esta unanimidade, ponto essencial, enredou-se com outras confusões.
A principal será decerto devida ao segundo protocolo, de 2004, que alterou bastante o acordo inicial, anulando-o de facto, e que também nunca foi ratificado. Pode afirmar-se que se trata de um novo texto e nova convenção ortográfica e, portanto, para que possa vigorar de jure, terá que ser aprovado pelas partes, ou seja, remete o processo para o início. Mas ninguém está para tal, agora que até Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências de Lisboa, junta a voz a quantos lamentam que, nos anos decorridos, “ninguém tenha feito nada para melhorar este acordo”.
Sem dúvida, a situação ortográfica nacional é particularmente danosa. Agravou o conflito entre normas e aderentes, instalando uma confusão lamentável sobre qual é a escrita correcta. Neste caso, o rendimento escolar ressente-se a todos os níveis e o competente domínio da nossa língua materna acaba negligenciado.
Para compor o ramalhete, a disciplina da Literatura Portuguesa deixou de ser obrigatória no Brasil. Acrescente-se ao raminho mais uma flor. Parece que os países lusófonos têm tempo para discutir se a Portugal cabe o direito de propor o novo secretário da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (a eleger livremente)…

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ser cidadão, hoje


A questão tem que ser enunciada nos devidos termos. Ser cidadão, hoje, é muito difícil e mais difícil ainda, decerto, será entender porquê. Votar quando há eleições, participar nos debates públicos, ter partido e opinião política é pouco, parece não chegar já para se ser cidadão.

Tudo isso pode ser positivo e mesmo desejável porque a percentagem das abstenções se torna preocupante, os filiados se arredam dos partidos (confundindo-os decerto com sindicatos) e os debates públicos, incluídos os parlamentares, pouco e mal aquecem o ambiente. Sobram os opiniosos comentadores que em aluvião enchem os espaços da comunicação social. Assim chega o momento de apurar, decantando, o velho ou envelhecido conceito de cidadão.
Cidadão não é, pela minha ideia, quem milita em partido e, subordinado às respectivas tácticas, faz da política a sua profissão; quem abre a boca e reproduz a cassete da retórica concordante com o sentido do seu voto; quem chama aos governantes gatunos, não sabe para o que serve aprovar um orçamento de Estado e nada entende de política sabendo de tudo no futebol. Passemos a nossa população adulta por este crivo: quantos cidadãos tem o país, afinal?
Terá bastante menos do que se julga. Cidadãos, quero dizer, pessoas suficientemente conhecedoras das dificuldades económico-financeiras nacionais, que reclamam uma urgente saída do sufocante garrote das dívidas soberanas; pessoas com conhecimento e coragem para perceberem que o melhor para os portugueses será a saída da moeda única e mesmo da União Europeia em falência; pessoas que sabem o que é o TTIP e que portanto se opõem ao aberrante Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento (tem “na sua base um acordo de parceria entre a União Europeia e os Estados Unidos”); pessoas, enfim, que lutam por salvar a Democracia que, de outro modo, irremediavelmente se perde.
Mas pergunte-se: acaso será necessário, para se ser cidadão, que as pessoas assumam tal perfil, isto é, uma ideologia e um pensamento de esquerda radical? Sim e não, conforme cada situação individual concreta. Todavia, no fim de contas, parece imprescindível a ocorrência de uma ruptura terminante com o caldo de cultura instalado pela informação de massas (nesse caldo, em expansão como metásteses, se apoiam as políticas de direita), trocando-o por fontes informativas alternativas independentes que cada um terá que buscar. Curiosamente, este cenário traz à memória um antigo cenário que os portugueses, hoje idosos, conheceram – e sofreram – no regime da ditadura salazarista-marcelista: então, como agora, as forças da “Situação” e as da então designada “Oposição Democrática” resumiam os dilemas. Estamos novamente em presença de dois campos, uma divisão crucial: a preto e branco.