quarta-feira, 25 de junho de 2014

A alma da paisagem

Cada sítio e, em cada sítio, cada recanto exercem por vezes uma atracção de índole algo mágica. Sente essa atracção quem, habitando, humanizou longamente o mesmo sítio ou quem ali se deteve de olhar desperto pelo deslumbramento da luz perfeita que faz renascer as coisas. Assim ficamos a amar certos sítios como se neles houvéssemos deixado uma parte inesquecível das nossas vidas e neles quiséssemos ficar a morar para sempre.

A pintura de paisagens parece responder de algum modo à sedução que cada artista sente em recônditos onde, como habitante sensível, o artista capte o espírito do lugar ainda que por ali esteja de passagem. Mas fica de coração impregnado por aquela especial atmosfera, a densidade entrevista do seu mistério.

Muitas são as cidades e povoações cujos motivos paisagísticos os pintores pintam incansavelmente. A minha cidade também os tem. Nos seus quadros, ao longo do tempo longo, os pintores repetem os motivos sempre reconhecíveis – a beira-rio, a ponte, o casario da parte velha da cidade, a zona ribeirinha que sobe pelo morro até à Sé, no topo, debruada por uma fila de laranjeiras com frutos a luzir ao sol – ao ponto de nos porem, duvidosos, a querer saber se não terão sido outros os motivos para os pintar.

Podemos ver em sucessivas exposições esses quadros assinados por variados artistas, neles percebendo as revelações que cada quadro lhes proporcionou. São paisagens em que quem as pintou se dissolveu no seu motivo para ali ficar a morar para sempre. A sugerir com máxima eloquência que se é artista na medida em que se ama cada motivo, pois cada motivo, como cada revelação, é momento único, irrepetível.

As pinturas mais admiradas fazem-nos sentir a emoção plasmada no motivo pintado entre exaltação, solidão ou alguma melancolia. Está ali também a revelar-se uma alma que teima em resistir aos desgastes do tempo. O espírito de cada lugar, agora no quadro, parece interrogar-nos tal como interrogou quem assim se deteve a pintá-lo.

Acabamos a remoer o velho tema: por que motivo há-de uma pessoa pegar nos pincéis e representar na tela imagens da realidade visual próxima que todos conhecemos? Por que motivo queremos essas paisagens familiares presentes nas nossas casas? É estranho, sem dúvida. Mas dilucidar esta questão equivaleria a explicar o inexplicável: de onde vem a arte? [Imagem: pintura, parcial, de Teixeira da Mota.]

terça-feira, 17 de junho de 2014

Editores “fazem” escritores

O campo da edição literária deu uma grande volta e continua a mexer no terreno multiplicando as consequências implicadas. Eu, como qualquer autor idoso, venho acompanhando (isto é, estranhando) as evoluções e mudanças que ocorrem na área. Ora hoje assinalo a maravilha a que chegamos: há editores que já vão ao ponto de “fazer” novos escritores!
Dantes, eram os autores de obras principais que faziam prosperar os editores, dando-lhes futuro. Todos sonhavam com eles, ambicionando ver algum dos maiores entrar-lhes pela porta. Todavia, os ditames do deus-mercado impõem agora outros mandamentos.
Vai-se tornando “normal” que um editor contacte um autor para lhe propor a aceitação de uma encomenda. Quer escrever um livro sobre um dado tema de palpitante actualidade ou sensacional escândalo, que venda muito e depressa, seja um romance, um estudo, uma entrevista? O autor (novato, naturalmente) embarca no convite que porá a soar o seu escasso nome na praça literária e ganhar, escrevendo, um bom dinheiro.
Deste modo, é o próprio mercado que, através do editor, coloca o autor a trabalhar por encomenda na directa dependência da lógica dos interesses comerciais envolvidos. O editor escolhe o “tarefeiro” e, à americana, não se limita a contratá-lo para a tarefa: fornece-lhe pistas, indicações, ajudas várias; orienta-o e por fim até poderá compor-lhe o escrito. O autor passa a escrever em absoluta dependência do mercado.
Evidentemente, vai crescendo o número de autores que almejam ser “escritores” em condições de viverem do seu trabalho de escrita. Objectivo este aceitável mas que em contrapartida os prende às flutuações do mercado, dos gostos massificados e da cultura de consumo de bens efémeros. Dilui-se por completo a independência do autor, a sua pessoal criatividade e alguma dignidade.
Outras consequências substanciais acompanham a perda da liberdade de iniciativa do autor (e uma, relevante, consiste em permitir que o editor seja um real co-autor omisso). Não escreve apenas por tarefa, escreve também por encomenda. Não elabora o livro que considera necessário, abstém-se, optando pelo sucesso fácil quase garantido.
Publicar no mercado editorial o que o mercado está pronto a absorver acaba por ser viciante. O autor, sintonizado com o marketing, seguirá inspirado pela escrita de sucesso fácil. Para ele, que quer sido lido de urgência, literatura para minorias é elitismo, inutilidade.
Lamentável é ver depois as leituras que mais circulam no mercado, produzidas pelos autores das grandes vendas. Abundam de literatura popular assumidamente descartável, simples verbos de encher. Escondem, porém, sob mantos de silêncio e de invisibilidade a literatura viva, autêntica, que nos falta.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Tanto comodismo!

Habituámo-nos, como alunos obedientes, à passividade. Premimos teclas e botões, compramos comidas confeccionadas, utilizamos máquinas que executam por nós imensas tarefas manuais, sentamo-nos em fofas almofadas para ver televisão, pegamos no carro para ir ao café próximo… Caindo na inércia, transformámos o comodismo num estilo de vida ou, pior, num traço de carácter.
É traço tão popular que o comodismo se limpou da condenação antiga - injuriado como porta aberta para qualquer vício - e até já se pretende virtude. Parece evitar canseiras, complicações aborrecidas ou mesmo maçadas e perigos pois todos vêem que “as coisas não estão fáceis”. Evita aderir ao sindicato e à greve, entrar na manif, abrir a boca para o que vai no coração e reclamar contra a austeridade, o governo e a desgraça em que o país se afunda.
Mas, associado ao comodismo, o medo infiltra-se como água mole através das porosidades e frinchas das rochas. Põe a reinar o receio de nova perda a somar ao que já se perdeu e venha complicar ainda mais a vidinha, porque, não estando fáceis, as coisas, ainda assim, vão indo. Convém não fazer ondas, agitação, esperemos um pouco, isto há-de compor-se…
O medo associa e acompanha o comodismo. Ganha força com a inércia de quem se resigna a perder comodidades supondo saciar a fera selvagem que as devora e já avança com renovado apetite para outras partes do seu bem-estar. Abre a porta do galinheiro ao lobo esfomeado que, a salivar, mente ao prometer defendê-lo.
Comodismo é o que dispensa o cidadão de votar nas eleições a pretexto de que o seu voto não vale nada. É querer viver sem “entender a política”, as decisões dos governantes, a importância da aprovação de um orçamento de Estado. É condenar os políticos e os partidos do governo por corrupção e continuar a votar neles ou, com idêntico resultado, manter-se na abstenção.
Comodismo é dispensar-se de pensar e de ter memória. É assumir opinião alheia como própria. É ser emocional e não racional.
Comodismo é aceitar a austeridade imposta pela crise financeira (a debitocracia = democracia expulsa pela dívida). É acreditar na onda da manipulação que impõe a Verdade Única, crer no crescimento contínuo da economia, na segurança geral do mundo. É aplaudir o consumismo acrítico, delirar com os gooolos do espectáculo do futebol.
Comodismo é desistência sem luta em troca de medo. Quarenta anos depois do 25 de Abril, o regime democrático não lhe diz nada. A direita, crescendo, aproveita.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Um pé de camomila


O relvado apareceu coberto de florinhas, manto de brancuras que pintalgava a verdura mais densamente na zona onde o terreno se afundava um pouco numa bacia de frescura e depois diminuía em torno até se esgotar na periferia. Era um tapete de camomilas que despontava noutros pontos do parque, adensado nos baixios onde humidade e húmus se concentram. Camomilas bravas, quero dizer.
Enfim, ervas entre outras ervas, de hastes erguidas à mesma altura, mas não só ervas, também eram flores, de corolas orientadas para o sol que as inunda e já sem o rocio matinal deixado pela noite pois a tarde em promessa se abria. Manto de florinhas humildes surgindo de repente no relvado. Surpresa de quem, esquecido da Primavera, encontra concentradas no mês de Maio as quatro estações de todo o ano.
Na orla do relvado, rente aos pés que transitam pelo estreito passadiço, ergue-se, solitária, uma camomila. Paro a vê-la, assim isolada na ilharga do manto, pertencendo ao conjunto e, ao mesmo tempo, afirmando-se numa solidão individualizada. Arrastada para a orla, a semente soube cumprir a função que lhe cabe e ali está ela florida como todas. 
Mas eis que uma criança, com pezinhos de ave a sair do ninho, corre pelo coberto verde de florinhas brancas atrás de bola colorida que rebola. Pega-lhe, erguendo-a nos braços, e sorri, feliz, para os pais como se posasse para fotografia ou quisesse oferecer-lhes uma imagem querida para guardarem. Eu torno a contemplar a camomila solitária, mas vejo ainda uma criança a caminhar, com passos inseguros, em direcção aos pais. 
Leva a bola nas mãos. A bola é o seu mundo. Redondo, completo.