sábado, 31 de dezembro de 2011

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O que é a política, hoje

Poucos eleitores das maiorias que confiam a governação nacional aos partidos que se revezam no poder têm uma compreensão suficiente do processo político. Menos ainda serão os que possuem uma consciência mínima da importância de questões como o debate e aprovação de um orçamento nacional para o futuro imediato do país. A percepção da coisa política, como causa de máxima relevância pública, anda, por este caminho, a empanar-se e a embrulhar-se perante as massas eleitorais.
Em suma, a governação nacional e toda a ação política tem vindo a revestir-se de complexidades insuperáveis para o nível cultural da inteligência comum. Os profissionais da política estabelecem áreas temáticas «protegidas» ou mesmo sonegadas e dispensam-se de prestar esclarecimentos para além da defesa constante dos seus interesses estratégicos. A informação posta a circular através dos media tende assim a ampliar mais e mais um alheamento generalizado da participação cidadã que se traduz em passividade e conformismo.
Nestas circunstâncias, a aquisição de um modesto conhecimento da coisa política (nacional e, naturalmente, também internacional) fica a dever-se ao empenho de cada indivíduo concreto, que vai longe beber em fontes diversas em busca de iluminação. De facto, é de longe que vêm elaboradas as principais políticas que os governos, levados pela onda mais alta que lhes apareça a jeito, se limitam a aplicar. A governação, realmente, faz como vê fazer «lá fora», justificando-se «cá dentro», no papel de relações públicas, com argumentos escassamente originais.
O governo da própria economia, alicerce do desenvolvimento nacional, segue na esteira de outros governos também pressurosos na adopção da última reforma. Os economistas do sistema abrem alas e entoam hinos: é o avanço da globalização, viva o neoliberalismo! A complexidade do ditar a política não está, pois, na governação - que segue comportamentos correntes bastante estereotipados,  e por isso governação tecnocrática, tratando mais de negócios barrigudos que de causas sociais.
Essa complexidade, bem real, esconde-se algures, em clubes de senhores poderosos e sem rosto, que ninguém elegeu mas que ditam os comportamentos da dita globalização. Terão sido tais senhores quem decidiu que os banqueiros saberiam governar melhor o sistema financeiro do que os governos? Terão sugerido, sorrindo à socapa, a criação do euro na União Europeia que desgraça agora tantos povos? [Imagem: autor, Pawel Kuczynski (n. 1976, Polónia.]

domingo, 18 de dezembro de 2011

Uma esquiva partícula

Uma notícia salta e é verdadeiramente emocionante. Eu, pelo menos, emocionei-me ao ouvir que uns cientistas estavam a obter grandes progressos nas suas investigações. Trabalham no CERN (Suíça), equipamento dedicado ao estudos de física subatómica e aparecem agora prontos para caçar o bosão de Higgs, aquela esquiva partícula do átomo.
É esquiva porque os investigadores, que explicam o caso, percebem que está escondida dentro do átomo e não conseguem apanhá-la. Mas avançam nos progressos e deles nos falaram com regozijo e esperança de vitória. Acho que ninguém pode desejar outra coisa!
Realmente, conseguir analisar a estrutura complexa do átomo é a façanha científica que nos falta para melhorarmos a nossa geral compreensão do Universo. Tem a magna importância dos factos determinantes a todos os níveis do conhecimento humano nem que seja em mero nível da (minha) cultura geral. Se, apesar de tudo, existem milhões de pessoas no mundo que vivem indiferentes, isto é, que não estremecem quando olham para o céu estrelado, isso apenas indica que andam de olhos  fechados para o que, além de surpreendente e maravilhoso, é óbvio.
Penetrar nos derradeiros segredos do átomo habilita-nos a conhecer a matéria (que é espaço-tempo), nas suas diversas organizações. Tarefa ingente, infindável, que já permitiu perceber a presença de algo como uma «antimatéria», decerto muito mais abundante, os falados «neutrinos». Precisamos de conhecer do que somos feitos, assim escancarados para o cosmos e com interrogações maiores que nós, contemplando de longe fenómenos como os «buracos negros» - pelos quais tudo se esvai, galáxias inteiras, inclusive a luz... e nós sem podermos espreitar do outro lado.

domingo, 11 de dezembro de 2011

O sistema do dinheiro

Enquanto a Europa, no período da «guerra fria», se manteve entre dois blocos, o soviético e o americano, viveu posta em sossego beneficiando das políticas que definiram o Estado social. O colapso soviético, desde há vinte anos, deixou o poderio americano a reinar sozinho. Em pleno unilateralismo, a Europa entregou-se então nos braços do poder imperial.
Agora a crise financeira abate-se sobre a União Europeia e a sua moeda única, com ondas de austeridade e recessão, e acumula consequências sociais catastróficas. É uma crise global (euro e dólar), gerada por défices e montanhas de dívidas contraídas por Estados, entidades bancárias e outras, conforme bem se sabe. Declara-se uma questão incrível: as dívidas  aparecem à vista por todos os lados e são gigantescas sem que, aparentemente, haja dinheiro que as pague.
Economistas, comentadores, analistas políticos e etc., articulam dia a dia abordagens as mais diversas sem que o problema realmente se esclareça nas suas bases motivacionais, bases que urge compreender para construirmos uma saída viável. Isso requer, sem dúvida, uma compreensão clara, ainda que sumária, de como funciona o atual sistema do dinheiro. Isto é, porque se afirma que «dinheiro é dívida»; porque precisam os bancos de crescentes massas monetárias; porque nos faz a inflação trabalhar cada vez mais e mais empobrecer...
Os governos, eleitos pelo povo, entregaram a emissão do dinheiro a bancos privados. Alegavam estes que só os banqueiros saberiam manter em ordem a gestão monetária, mas as fraudes e toda a desregulação do setor financeiro em breve demonstraram o contrário. A criação da moeda única europeia (condenada ao fracasso desde sempre!) no seio de uma União desigual e pouco ou nada democrática, depressa mostrou para o que servia.
A criação do euro entendeu-se bem com o FMI, instituição que à evidência sabe vergar um país e afogá-lo em dívidas - agências de rating e especulações da alta finança dão-se as mãos - para o tomar sob tutela e lhe impor austeridade até à entrega total. E acontece a surpresa: a zona euro anuncia um empréstimo de 200 mil milhões ao Fundo Monetário Internacional para que o FMI tenha fundos para emprestar aos países da zona euro em dificuldades... porque o Banco Central Europeu (que rejeita a emissão de dinheiro nem empresta a Estados da zona euro) não pode! Ver «MEE, ditador europeu», video com janela aqui à esquerda, pode valer a pena agora que o Mecanismo Europeu de Estabilidade avança e o novo tratado vem aí.
O caminho de salvação parece óbvio: sacudir o jugo do FMI, eleger governantes capazes de outras políticas, sair da moeda única, restaurar a moeda própria e o sistema produtivo nacional. Lembrando constantemente Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos, numa citação de 1802 que, em aviso, sem cessar percorre o mundo: «Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que o levantamento dos exércitos. Se o povo americano alguma vez permitir que os bancos privados controlem a emissão da sua moeda, primeiro pela inflação e depois pela deflação, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os nossos filhos acordarem sem abrigo no continente que os seus pais conquistaram.»

domingo, 4 de dezembro de 2011

Um político exemplar

Faltam ideais e mestres com fibra para erguerem esses ideais como bandeiras de luz nestes nossos negregados tempos de crise - e de crise decerto porque nem mestres nem ideais têm agora multidões que os sigam. Abunda, ao invés, quem transforma a política em negócio, o interesse pessoal em filosofia de vida, o individualismo egoísta em princípio ético. Afastemo-nos então do ambiente apodrecido e procuremos ares de renovação.
Manuel de Arriaga (1840-1917) pode ser considerado um mestre pela coerência exemplar com que pautou a sua vida e obra. Um pequeno esquisso poderá evocar-lhe o perfil. Foi o primeiro presidente da República (24-08-1911/29-05-1915), eleito quando já ia nos 71 anos de idade, pois nasceu em 08-07-1840 na Horta, Faial, Açores; continuou porém a morar na sua casa e ia de elétrico para o palácio.
Um dos traços salientes do seu carácter é o da sua extrema modéstia. Até pelo nome abreviado por que se deu a conhecer isso se revela. Completo, seria Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelonguem, com o inconveniente de recordar o pai, rico comerciante e grande proprietário do Faial, alegado descendente de flamengo, um dos primeiros povoadores da ilha.
Manuel de Arriaga licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra, onde sobressaiu como aluno brilhante, defensor da República (nos anos '60 do século XIX!). Seu pai, monárquico ferrenho, expulsou-o de casa e quis deserdá-lo, o que o obrigou a trabalhar para si e seu irmão, que apoiou sempre nos estudos e logo seria escritor. Ensinou inglês, língua que aprendera na Horta e que continuou a ensinar quase toda a vida.
Destacou-se como notável orador e obreiro do Partido Republicano Português desde 1865, quando, já licenciado, exerceu a advocacia em Lisboa. Em 1871 subscreveu o programa das conferências democráticas do Casino Lisbonense; casou em Valença e participou na comissão para a Reforma da Instrução Secundária. Em 1881 o pai faleceu e ele herdou no Faial e no Pico.
No entanto, na vida de Manuel de Arriaga não houve falta de reveses e agruras. Quando, finalmente, foi deputado, defendeu ardorosamente a soberania popular com amplas liberdades cívicas e demonstrou o seu elevado rigor ético renunciando, em 1883, ao vencimento como professor liceal. Em fevereiro de 1890, porque manifestou repúdio ao ultimato inglês, foi preso.
Foi eleito para outros dois mandatos parlamentares mas, nos derradeiros anos do século, Manuel de Arriaga esfriou o interesse pelo Parlamento e mesmo a ação política. Dedicou-se à literatura, elaborando, entre 1899 e 1907, dois livros de poesia e um de prosa. Em 1910 foi ainda reitor da Universidade de Coimbra, então tumultuosa, e procurador-geral da República.
A grande instabilidade política do país e do próprio PRP levaram-no, em 1915, após a formação da junta militar, a tomar posições que mais tarde foram duramente contestadas até pelos seus correlegionários. Tentou justificar as suas opções políticas em livro saído em 1916 parece que sem resultado. Ficou condenado a um limbo algo degradante de que só saiu em anos recentes - corrido quase um século! - graças a iniciativas meritórias que o redimiam. [Imagem: retrato (reduzido) de Manuel de Arriaga por Rafael Bordalo Pinheiro.]

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Ser «escritor», hoje

Considerei um dia que a qualificação de «escritor» era devidamente atribuída ao autor literário pelos seus leitores em resultado da quantidade e da qualidade dos aplausos que a sua obra merecia. Aplausos dos seus leitores, naturalmente, com a ponderação e o mérito, em quantidade e qualidade, de quem aplaudia. Tentava contribuir assim para moderar a pressa de um qualquer neófito se pretender reconhecido como «escritor» logo ao estrear-se nas letras.
A situação é agora um tanto diferente (e não falo dos «escritores de canções», que escrevem umas escassas letras e compõem as notas musicais no pentagrama), pelo que retomo o assunto. A cambalhota foi repentina como um passe de mágica - as editoras principais, mudando de mão, ficaram na posse de uns poucos mas grandes grupos financeiros - e o golpe deixou tudo, mais do que mudado, virado do avesso. «Escritor» é hoje, sem margem para dúvidas, o autor com bastante presença mediática.
Tem nome badalado, publica livros com estratégica regularidade, percorre o país de norte a sul apresentando as suas novidades literárias a um público sedento de autógrafos. E tem suficiente «força» no mercado, pelo que pode trabalhar com a editora convencionada, provavelmente em concorrência com outras. É, em suma, um escritor profissional e leva a sua profissão muito a sério (não o pensamento atribuído a Lao-Tsé: «O sábio é notado sem se exibir; renuncia a si mesmo e jamais será esquecido»).
Este o perfil assumido do autor que está no mercado para vender e que nessa medida agrada à sua editora porque a põe a render. Ambas as partes se entendem entendendo o livro (banalizado)  como objeto de comércio e consumo intensivo, que invade estações de correio, supermercados, livrarias, feiras de saldos, tabacarias, depois de, feito estojo, servir para guardar os autógrafos.
Conforme venho apontando desde 1994 (vd. meus livros Inclinações Pontuais, 2000, e Letras Sob Protesto, 2004) e também aqui (consultar«etiquetas»), esta situação gera variados efeitos perversos. Concentra a maioria do público e as principais editoras em torno dos fazedores de best-sellers, incentiva a progressiva redução do seu número e variedade real e, para cúmulo, reduz a liberdade de escolha dos leitores. Acresce a isto a consequência mais gravosa e daninha: uma quantidade substancial de cultores da Literatura, dos artistas da palavra estética, fica condenada a uma total inexistência, uma espécie de (mortal?) invisibilidade.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

domingo, 20 de novembro de 2011

A Europa a saque


Alguém que sabia muito, ou muito pouco e por isso inventava, sugeriu um dia que as espertezas da especulação financeira haviam começado, não na América onde cresciam os ecos das fraudes bancárias e dos produtos tóxicos, mas sim na Europa da União e da moeda comum. Deu-se-lhe nenhum crédito e a voz agourenta sumiu-se. Hoje, porém, num cenário europeu diverso, faz-se lembrar.
A Europa aparece declarada em irremediável e mesmo vertiginosa decadência. Os 17 aderentes do euro, com a Alemanha e a França na frente e a Grécia na cauda, parecem apostados numa navegação em oceanos de dívidas de Estados, bancos, empresas e famílias sem terra firme à vista. Soluções propostas para a crise estrutural arriscam-se a ser meros paliativos que apenas servirão para prolongar a agonia tornando-a mais funda e penosa.
As economias nacionais em geral perdem o vigor e afundam-se em austeridade e paralisante depressão. Já não são apenas os cinco PIIGS - Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha - ou a união monetária europeia que vacilam e ameaçam ruir. Os Estados da eurolândia aparecem à vista encostados uns aos outros como peças de dominó que um a um vão caindo nas garras da ganância internacional e  arrastando consigo os seus mais próximos. Nos Estados mais pobres, esvaídos e arruinados por débitos colossais, as classes médias esbracejam e caem na base da pirâmide social sem ter com que pagar os «buracos» postos a descoberto (isto é, perdendo empregos, habitações, direitos sociais, liberdades) e sem descobrir responsáveis responsabilizáveis.
À vista aparece também a relação íntima estabelecida pelos dirigentes da eurolândia, desde a criação do euro, com os pilares da alta finança internacional sediada em Wall Street: o FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio. Nessa relação se encontra a chave-mestra para um correto entendimento da «crise»  gerada pelas políticas neoliberais, paradigma este concebido pelo imperialismo de novo formato que avança pelo mundo com apoio de governos e bancos, submetendo povos e países à especulação financeira selvagem.
As manifestações de «indignados» e «ocupas» apontam na direção certa, contra a entrega dos governos a tecnocratas não eleitos (formados na Metrópole-modelo e vindos para nos incivilizar),  a subversão das regras democráticas e o próprio fim da democracia, o espezinhar impune de direitos populares consagrados, a propaganda do medo e do «terrorismo»,  a (des)informação geral. De facto, o mercado, supra-sumo do «velho» capitalismo, foi substituído pelo poder dos «mercados» financeiros, onde atua o cavalo de tróia da oligarquia dominante que põe e dispõe de Estados e governos. A Europa, americanizando-se crescentemente (até nas mentalidades), está a perder de todo a matriz humanista que recebeu com a sua egrégia herança greco-latina e a submeter-se a um saque prodigioso que deixará no terreno um estendal de pobreza e miséria, terreno empapado de sangue, suor e lágrimas mas já sem memória e outra vez aberto para nova guerra sem dúvida entre todas a mais terrível.

domingo, 13 de novembro de 2011

A erosão da costa

Uma agência da ONU virada para a conservação da natureza anunciou há dias que, a não serem tomadas medidas convenientes dentro de cinco anos, irão concretizar-se danos irreversíveis. O anúncio, sem estranheza, passou e de imediato ficou esquecido. Mas tem um alcance verdadeiramente dramático e estou a relembrá-lo por uma obrigação imposta pelas imagens divulgadas também naqueles mesmos dias pela nossa comunicação social.
As imagens e as notícias daqueles dias expunham mais uma vez o problema da erosão que atingia largos tractos da nossa costa marítima. Escrevi atingia, colocando o verbo no passado, sabendo porém que o problema se repete e se agrava desde há muitos anos. A costa portuguesa, em quase toda a sua extensão, sofre ataques das marés vivas em certos períodos do ano nos seus pontos mais baixos e indefesos.
Soam então os alarmes, avaliam-se os prejuízos e tornam os lamentos, em seguida cuida-se de amontoar aqui e ali, nos pontos críticos, mais umas pedras (se já ninguém reclama mais um quebra-mar!) e tudo fica de novo posto em sossego até às próximas investidas do oceano. Todavia, estão bem assinalados os pontos críticos: vão (ver mapa) desde a zona de Esposende até à zona do Oeste. Mas, evidentemente, há outros pontos expostos às investidas da força maior.
As alterações climáticas em curso, com a previsível subida de nível do Atlântico, juntam-se a uma certa acumulação de comportamentos de risco que, embora sonegados, são, segundo opinião credível, bem reais. Os rios selvagens portugueses estão «domesticados» com barragens, o que impede a natural reposição das areias no litoral marítimo, ali onde o mar nos parece teimoso a «comer» os areais das zonas balneares. A conjugação dos fatores em presença abre a costa, aqui e ali, aos avanços das ondas salgadas, de modo que o presidente da Administração Regional Hidrográfica do Norte (Lusa/«Público», 12-11-11) aconselha já um recuo das povoações em risco para o interior.
O presidente, António Guerreiro, falou em Castelo de Neiva, Viana do Castelo, oxalá seja ouvido em todo o país.

Avaliando o próximo desenvolvimento da atual situação, é de recear que o mar venha a ocupar em breve grandes porções de território, especialmente na zona abrangida pelos pontos críticos assinalados. O retângulo continental perderá bastante do seu tamanho, o que irá concentrar a população numa ainda mais estreita faixa pois o interior do país terá um maior ermamento. E a minha Bairrada natal - planície baixa situada entre Aveiro e Coimbra, Águeda e Cantanhede - desaparecerá, junto com a nossa Ria, sob a cobertura das águas, para emergir somente em algumas colinas dispersas acessíveis a embarcações (nessas colinas se radicaram outrora os primitivos habitantes), de modo que o mar vizinho retomará o lugar que há séculos foi seu e o assoreamento lhe secou...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A mim, Liberdade!

Repousamos em cama de ideias feitas. São, ou parecem ser, consensuais tanto como esta: vivemos em democracia. Ora comecemos a pensar: a democracia é o regime da Liberdade consagrada nas liberdades cívicas, sabem bem disso quantos já experimentaram a ditadura.
As liberdades cívicas são inerentes à democracia, evidenciam mesmo o fôlego democrático, mais ou menos intenso, que o regime pode ter em cada momento. Sendo termos com distinta sinonímia, Liberdade e democracia unem-se na realidade em perfeita simbiose. Uma requer a existência da outra para que ambas reinem em afirmada plenitude.
Os cidadãos são livres para votar conforme entendam mas têm de ater-se à lista eleitoral em presença ou optar por votar em branco. Votam em programas políticos, designando para o efeito representantes, mas depois nada podem fazer se os seus representantes traírem o programa. O sistema representativo, tão querido pelos ideólogos da democracia formal, distancia de facto os eleitores dos eleitos após o sufrágio.
A questão, neste ponto, amplia-se. Já não bastam as liberdades cívicas e a democracia, é preciso mais, que reine a igualdade. Isto é, que o cidadão com capacidade eleitoral continue cidadão após o sufrágio, conservando intacta a sua liberdade em paridade com o seu representante.
A Liberdade, expressão rutilante da democracia, é atropelada quando um patrão alega que não obriga ninguém a ganhar seiscentos euros mensais. Ele sabe que o trabalhador aceita porque não encontra quem mais lhe pague, pensando  embora que o patrão se aproveita sabendo que outros patrões recusam pagar-lhe melhor. Não há ali igualdade entre um e o outro, nenhuma liberdade ou réstia de democracia.
Idem quando o cidadão liga o televisor ou lê a imprensa. Cada vez mais «temáticos»,  os canais assemelham-se uns aos outros ao ponto de os telejornais de canais diversos cobrirem as mesmas notícias quase em perfeita sincronia. Nos jornais do dia o cidadão encontra as narrativas noticiosas modeladas pelas imposições da Verdade Única que o privam de informação mais aberta e pluralista.
Até no supermercado, quando o comprador de uma embalagem de quilo de arroz  pretenda só meio quilo, ou dois ovos em vez de seis, se sente privado de liberdade. A normalização impõe-lhe aquela quantidade com tanta desenvoltura como a farmácia que lhe vende uma caixa de comprimidos quando pretendia apenas um. A Liberdade e a democracia florescem na terra cultivada, por isso generosa e fecunda, dos canteiros da igualdade (igualdade que é regra suprema de harmonia e portanto de justiça).

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A ordem é empobrecer!

O povo da Grécia vive uma tragédia a que devem dar atenção os outros povos do Ocidente e em especial os restantes da União Europeia. A tragédia dura há anos, de certo modo desde a Segunda Grande Guerra, prolongando-se agora numa agonia implacável e tanto mais implacável quanto mais dura. Nessa duração, porém, poderão os outros povos aprender, se quiserem, a evitar tal sorte.
Na verdade, a Grécia vai à frente do «pelotão» de países em crise como candeia que alumia o caminho traçado pela avidez gananciosa do sistema financeiro internacional. Os Portugueses, sobretudo, irão ver-se no lugar dos Gregos se não arrepiarem caminho e, em clamorosa maioria, travarem a ruinosa política pretendida pelas troikas externa e interna. A dívida pública (ou soberana, do Estado) e a crise financeira internacional servem de álibi para, em nome da «crise», extinguir as conquistas sociais obtidas com a democratização do 25 de Abril e condenar Portugal, outra vez salazarento, ao «terceiro mundo».
A indignação pública é importante indicador da reação popular, mas verdadeiramente decisiva será uma compreensão, mínima que seja, de como entramos na espiral das dívidas e no garrote que subjuga as nações para as saquear. Um governo excede o seu orçamento gastando em obras de fachada e origina um défice, vende ao desbarato património público apetitoso para compor as contas, o défice agrava-se (com a destruição de setores produtivos, austeridade e recessão), pede empréstimos e mais empréstimos à banca, as obras de fachada prosseguem e as dívidas crescem, os juros trepam, e surgem as dificuldades de «financiamento da economia nacional». O governo isenta-se de culpas e de responsabilidades, alega que o povo viveu acima das suas possibilidades e convida-o a aguentar sacrifícios mais e mais pesados... A ordem é clara: o geral empobrecimento.
Neste ponto faz-se lembrar quem há uns anos, agourento, fazia uma previsão incrível: a alta finança ensaiava na União Europeia, com a introdução do euro, uma estratégia que iria afundar as nações do sul em proveito das do norte. Hoje já se vê que a moeda única não poderá de facto ter futuro numa união de 17 membros com ritmos de desenvolvimento desiguais, assim como uma composição ferroviária com 17 carruagens em rodas de tamanho e feitio diferentes.
Então é indispensável que a população em geral perceba até que ponto o governo serviu a estratégia da alta finança especulativa em óbvio prejuízo do povo que o elegeu. Perceba até que ponto perdeu pelo caminho a democracia e a liberdade. Até que ponto as dívidas acumuladas pelo Estado transformam os cidadãos em modernos escravos que terão de lutar pela libertação.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Classe média e democracia

Nas páginas da história aprendemos que a burguesia surgiu como classe social nova quando o clero e a nobreza tinham nas mãos o poder.  Burgueses eram então os habitantes dos burgos, pequenas cidades fortificadas, que se foram dedicando a comerciar com os camponeses da região e desenvolvendo. Enriquecidos e já bastante poderosos, os burgueses ergueram-se por fim para disputar o poder aos seus detentores exclusivos.
Foi o período revolucionário da burguesia. Agindo em nome do povo, a nova classe introduziu o sistema sociopolítico que se consagrou e que reconhecemos como Democracia - o poder do povo, pelo povo e para o povo. Porém, nos últimos tempos, aparece transformada: da «burguesia» sociológica restam por aí uns grandes capitalistas e uns extratos sociais populares com designação diversa, de classe média.
A concentração da riqueza operou no terreno uma distinção nítida ao ponto de já se tornar equívoco falar, como outrora, de pequena ou média burguesia enquanto subclasses.  De facto, desvaneceram-se. No terreno expande-se agora a classe média (ainda prefiro o plural: classes médias), nivelada por baixo à força de políticas agressivas de despedimentos em massa, salários e pensões de pobreza.
Não foi isto resultante de realização democrática, resultou antes da negação da democracia (cujas leis, será bom lembrá-lo, assumiam a defesa do pequeno contra o grande ou do fraco contra o forte porque o pequeno ou o fraco eram a maioria). Deste modo chega ao fim a democracia na medida em que assistimos à expansão das classes médias, ou seja, das camadas populares massificadas. Governadas agora não apenas por clero e nobreza, também pela única burguesia que se eleva aos céus carregada de ouro.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Indignação ateada

Grande parte do mundo desperta sob a violência do capitalismo selvagem. A população de mil cidades em mais de oitenta países (oito em Portugal) proclamaram 15 de outubro o dia da indignação. O povo saiu à rua e promete continuar para exigir democracia direta e o fim de uma distribuição injustíssima de riqueza que engorda 1% espremendo 99%.
É a indignação global, espontânea como  lenha seca posta na fogueira ateada no seio das classes médias. Reagem à agressão sem qualquer orientação apontada para um centro (a alta finança não tem fisionomia individualizável e estende-se por todo o lado, rápida como mortal pandemia), salvo a ocupação de Wall Street, simbólico emblema da concentração financeira. Ainda assim, o que lhe falta em orientação definida sobra-lhe na mais abrangente e pura afirmação cívica.
A indignação popular justifica-se amplamente. Governos, políticos e partidos que há trinta anos se revezam no poder perderam imensa credibilidade perante quem os elegeu e sofre com programas de austeridade, desemprego e extinção do Estado social. Da democracia resta um rótulo sem conteúdo, os programas da governança dão o máximo aos bancos sacando das classes médias (e agora ameaçando mesmo com um MEE, «o novo ditador europeu» para  eficaz rapina).
Está na hora de mudar resolutamente de atitudes, de romper com o passado e de rasgar caminhos novos. A situação reclama radicais mudanças: sistemas democrático, económico e financeiro, mentalidades, modos de consumo, civilização, ecologia. Mudanças estruturais que uma rede  espessa de interesses nefastos impede (com a informação manipulada da comunicação social à frente), rede apostada, sempre, em que a indignação pública, podendo ligar com revolta, jamais chegue a revolução.
Um trecho acabado de ler algures sintetiza: o poder hegemónico da alta finança, puramente especulativa, está desligado da economia real - mas parasita-a. Transforma tudo em capital para alimentar o capital e transformar o capital. O capitalismo atual já não pode coexistir com a vida humana.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A comida e a cultura

Têm abundância de motivo os adeptos dos prazeres da boa mesa que se justificam repetindo a frase em voga: comer é um ato de cultura. Pois é, mas ocorre a pergunta: quem mastiga comida lenta alcança até que ponto a verdade factual do dito? O sentido da frase é amplo e é rico, vale a pena sondá-lo nem que seja num breve bosquejo.
Teremos, mais uma vez, de pegar em palavras para as abrirmos e vermos os vestígios que nelas se contém, pois em questões idosas como as da comida teremos que nos limitar a uma abordagem filológica. Realmente, relacionadas com o alimento, aparecem palavras cujas raízes etimológicas ainda podem surpreender os leigos. O saber parece ter começado pela capacidade de distinguir o sabor...
O sapore latino (sabor, gosto, odor, perfume, ação de provar) confunde-se com o sapere (saber, ter gosto, exalar cheiro ou odor) e a sapientia (sabedoria). Gustare (gostar, provar, comparar), assim como degustar (provar, apreciar, saborear), remete igualmente para a capacidade humana do paladar enquanto órgão de distinção inteligente. Nesta base, nem admira já que o symposium (banquete, festim) tenha expandido o seu campo semântico até abranger a designação do nutrido volume que víamos nos consultórios médicos.
Os requintes da boca estimularam sempre os requintes da faculdade pensante, eis o que pode concluir-se. Todavia, mesmo com as meninges bem acordadas por ricos manjares, talvez só uns poucos dos comensais sentados à mesa serão capazes de consciencializar que é pela alimentação que todos se integram no sistema da natureza em que vivemos e nos faz viver. O «ato de cultura» ficaria completo.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ler textos digitais

Lembram-se? Apareceu na última Feira do Livro um stand dedicado exclusivamente a ebooks. Foi a primeira vez, de modo que a novidade ficou assinalada aqui.
Não era para menos. Demonstrava, com a eloquência dos factos, que a edição digital de obras literárias já atingia tamanho que merecia «casa» própria para aparecer no certame dos editores. Cá dentro, tal como além fronteiras, a novidade expandia-se rapidamente enquanto os leitores ainda atulhavam as estantes domésticas de papel impresso e tão rapidamente que nem tempo conseguiam já para o cheirar.
A resistência ao texto virtual está assim a mostrar-se em dissipação. De facto, habituamo-nos cada vez mais a ler nos ecrãs dos nossos computadores e telemóveis. Mudar dos ecrãs para os designados (à inglesa) ereaders  acaba por ser mudança bem mais pequena e fácil do que parecia.
Realmente, as coisas aceleram-se e evoluem bastante mais depressa do que poderíamos supor. A leitura de textos digitais progride no terreno, silenciosa e veloz como jacintos de água na pateira de Fermentelos. Acredita-se que não vai desbancar a circulação do livro impresso mas com certeza irá impor-se, não tarda, de forma concorrencial.
Vantagens óbvias: a edição embaratece a leitura e facilita a circulação dos textos; para os leitores, acresce a dispensa de espaço domésticos (estantes) e uma ágil arrumação. Podem não ser numerosas as obras literárias que se encontram de momento em oferta com formato digital no conjunto global dos textos digitalizados em Português (jornais e revistas, textos diversos). Esse número, porém, irá crescer, acompanhando de algum modo o que se passa na área do Inglês.
Eis porque é de saudar a formação, pela Fundação Gulbenkian, de um grupo que vai estudar durante dois anos o processo da leitura em suporte digital. O sociólogo Gustavo Cardoso, do ISCTE, coordena o grupo constituído por um naipe de entendidos. Pretendem investigar como é que as pessoas lêem e o que muda, para essas pessoas, com a nova tecnologia.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Arte não tem idade

No período terminal da sua vida, Vergílio Ferreira (1916-1996) continuou a escrever afanosamente. Dizia que precisava dessa atividade para seguir vivendo. Os seus leitores, porém, sentiam nas páginas que então escrevia uma perda do fulgor que notabilizara Aparição ou Estrela Polar e alguns críticos até sugeriam que o romancista retomava, repetindo, os seus temas essenciais como que em busca da obra definitiva, perfeita.
Ocorreu algo parecido também com Eugénio de Andrade (1923-2005), quando o poeta, já debilitado pela doença e a idade, se esforçava em publicar para atender às necessidades da fundação de que era patrono. Houve quem notasse o esforço, notando ao mesmo tempo alguma cedência do rigor do poeta à necessidade de gerar direitos de autor. Não são casos únicos os casos de Vergílio Ferreira e Eugénio, pois muitos outros se encontram na extensão do universo literário.
Esta questão ressurgiu no correr de uma conversa e ficou à tona, a pedir desenvolvimento, provando que não há questões velhas e arrumadas, pois todas precisam de a elas regressarmos de vez em quando para as debatermos como se novas fossem. A ideia central consiste em perceber se com efeito a arte não tem idade. Parece óbvio que não tem, rodeados como nos vemos por tantas expressões de arte «sem idade» porque se tornaram «clássicas», digamos, de sempre.
Todavia, isso não impede que a obra de arte surja com marcas do seu tempo, pois será a síntese desse mesmo tempo nela cristalizado que amiúde a tornam memorável. A arte, realmente, não tem idade, mas o seu criador, o artista, esse tem-na. E deve saber, em proveito próprio, quando parar.
Se, como ao ginasta habituado a exercitar músculos e articulações, não lhe convier a imobilização no interesse da própria saúde, pratique em casa, fora das atenções do mundo.

domingo, 25 de setembro de 2011

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Vou com as andorinhas

Desapareceram dos meus lugares as andorinhas. Vejo pardais, melros, arvéloas e mesmo gaivotas, umas detestáveis gaivotas que saem em bandos das areias marítimas e povoam as ruas urbanas para disputarem com as mansas pombas, à bicada omnívora, os alimentos. Faltam-me, portanto, andorinhas nos olhos.
Estou com saudades das suas asas negras em revoluteios aéreos ou rasando as estradas adormecidas da minha infância aldeã. Os animais de trabalho de então foram substituídos pelos motores que afugentam o mosquedo: não o acolhem e alimentam para depois, voando, o mosquedo alimentar as andorinhas. Mas com estas evocações tomo consciência de muito mais que me desapareceu da vista e agora me falta.
Faltam-me os ninhos construídos nos beirais dos prédios, ninhos que as andorinhas utilizavam um ano e outro. Ninhos em forma de bolsa com entrada redonda, feitos voo a voo com bicadas sucessivas de lama barrenta trazida,  húmida, de algures e que, depois de seca, era almofadada por dentro com palhinhas. Chegou a ser proibida aos donos dos prédios, queixosos porque lhes estragavam as frontarias, a destruição desses ninhos, de modo que as andorinhas fugiram para as árvores, para os campos do últimos rebanhos e manadas e, por fim, para parte incerta.
Por isso, façam o favor, tragam-me andorinhas para os olhos. Está no fim o verão (que este ano passou e pouco se sentiu) e entramos num outono antecipado. As folhas das árvores, caindo em revoadas amarelas, crepitam sob os nossos passos anunciando a partida iminente das andorinhas para parte incerta e eu estou decidido, vou partir com elas. [Imagem, autor: Pawel Kuczynski, n. 1976, Polónia.]

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A crónica perplexa

Quem escreve a crónica, em primeiro lugar escreve para si. Põe no papel ou no ecrã a expressão que melhor o define. Mas, inevitavelmente, a expressão escrita destina-se a ser lida e, portanto, o escrevente em breve deixa de escrever apenas para si.
Idealizando destinatários, talvez até deseje anular-se por detrás do que escreve para enfatizar ao máximo a expressão que o seu escrito pode ter para quem o leia. Quer justificar o interesse que atribui ao seu texto e que ele próprio quer interessante de tal modo que, ao terminá-lo, sinta que com ele, em primeiro lugar, a si próprio se beneficiou. Mas o escrevente anda agora a sumir-se em perplexidades.
Escrever o quê, para quem? Os seus leitores mostram-se fartos de notícias cada vez mais apavorantes. Preferível é fechar os ouvidos a conversas próximas e não ligar a televisores, rádios e jornais que dia a dia põem a jorrar anúncios de estarrecer em progressão assustadora.
Ninguém gosta de mensageiros de novas desgraças, dá ganas de os pendurar como cartas de prego para abrirmos nas datas aprazadas, quando já for tarde e as ameaças todas que hoje vemos e as do próximo futuro se tiverem consumado como verdadeira tragédia grega por nós revivida. Então, sendo assim, sobre o que vai escrever a crónica? Onde topar asas protetoras que nos abriguem das fúrias da tempestade?
O mundo está em brutal convulsão e Portugal está no mundo. Não sobra lugar para temas sérios mas velhos como a Palestina ocupada e colonizada, o bloqueio ianque a Cuba, a violência desatada no Congo, ou as misérias do povo haitiano após o terramoto, a falência da ONU, as guerras no Iraque e Afeganistão, as calamidades que varrem o Corno de África... O mundo está feio e mau, invadido por angústias, indiferenças ou anestesias, e a crónica, hoje, não pode falar do mundo sem ficar também, para os leitores, um pouco assim.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Armanda Passos vai expor a sua coleção de «Reservas» na Casa Andresen, no Jardim Botânico, de 23 próximo até 6 de novembro. A exposição integra-se no programa do centenário da Universidade do Porto.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Medíocres contra criativos

O observador atento passa em revista os quatro cantos do mundo conhecido, vai para cima, volta para baixo, e  o que vê deixa-o confrangido e mesmo arrepiado. Para onde quer que se vire encontra mediocridade a reinar. Mediocridade estabelecida como modelo consagrado, normalizado, canónico.
Não é apenas a falta de um Mestre, com autêntico prestígio e autoridade moral, que sobressaia da vulgaridade o que marca em desgraça este tempo. O nivelamento cultural violentíssimo imposto pelas forças dominantes ao longo da segunda metade do século XX avançou pelo terreno esmagando mais e mais os brotos da diferenciação. Assim fomos levados na onda massificadora que tudo nivelou por baixo: formação escolar, participação cidadã, mentalidades, gostos predominantes, comportamentos políticos.
Nesta situação, considero muito estimulante o livro intitulado O Elemento (Porto Editora, 2010). O autor, Ken Robinson, aponta uma série de casos de sucesso conhecidos para destacar a criatividade revelada pelas respetivas personalidades. A mensagem tem a força da evidência: se essas pessoas não tivessem tido a coragem de ser «diferentes», ter-se-ia perdido o seu potencial inovador.
É absolutamente essencial para o desenvolvimento das sociedades que os dons (as vocações, as «paixões» cf. Ken Robinson) naturais de cada indivíduo se afirmem com a maior espontaneidade. Não basta declarar que a empresa, a escola, o governo ou centro de investigação querem descobrir novos talentos se não houver aí lugar para a inovação. Porque, se este lugar não estiver aberto, a inovação será travada.
Facilitadas estão somente as «mudanças na continuidade», que têm acolhimento garantido na mediocridade reinante pois parecem ser «de continuidade». Todavia, nos grupos sociais, pequenos ou grandes, uma inovação desafia a coesão do rebanho acomodado em conformismo. De facto, a dinâmica de grupo tende então a salvaguardar a mediocridade reinante contra o elemento inovador.
A expansão de tal clivagem gera e reforça as cumplicidades no interior do grupo em cada setor de atividade. Promove o mesmo-diferente, não o inovador, e assim se reproduz, passo a passo, nas hierarquias empresariais, institucionais, partidárias ou governamentais a ascensão de camadas de medíocres. Estes, habituados à hipocrisia e à lisonja, detestam os «outros» - rivais diferentes, inovadores, criativos num qualquer sentido - porque, concordando com Ken Robinson, dão vida  própria ao seu Elemento.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Como acontece «isto»

Parece que não mas «isto» tem algo que se lhe diga. Querem ver? O tema é para mim tão interessante quanto vivido e decerto também para os apreciadores de crónicas que vão passando por aqui.
Anda uma pessoa de cabeça no ar, cabeça-celeiro de umas tantas ideias postas a amadurecer, até que uma delas ganha corpo e energia. Fenómeno esquisito, este, de uma ideia avultar entre as outras e tão esquisito é que desafia qualquer hipótese de explicação. Será capricho das meninges inquietas a namorar com as sinapses, só isso, ou haverá por ali alguma misteriosa alquimia?
Então, no começo, «isto» não passa de um embrião, uma hipótese informe, algo como um girino que fica a boiar na viscosidade matricial. Mas em seguida qualquer coisa acontece. «Isto» estremece, agita-se dentro do seu alvéolo e cresce por incorporação espontânea de segmentos complementares que andavam soltos.
Agora com cabeça, «isto» principia a ser projeto que já deseja ter vida própria. E deseja crescer, ganhar tronco e membros, botar figura. Está tudo, miniatural, contido dentro daquela cabecinha incorpórea, apenas será preciso executar agora o projeto, concretizando-o.
Tarefa complicada. Vem à rede tanto material corporizável, é tanta a abundância em acumulação que ameaça entupir o projeto porque nele, agora se vê, cabe uma apreciável fatia de mundo. No entanto, «isto» tem que desistir de tentar ser o que não pode ser - um longo discurso sobre apreciável fatia de mundo. Rejeita, portanto, todos os materiais que sobram do projeto inicial e que, à medida que vai germinando, se define.
Mas custa, chega a doer a escolha forçosa do que pode ou não pode entrar «n'isto», afinal tão poucochinho, sacrificando a abundância do que fica de fora. «Isto» faz-se presente, enfim, está aqui de corpo inteiro tal como nasceu, acabou! No entanto (pois «isto» só existe no tamanho da crónica), quanto material interessante ficou omisso desta vez e talvez para sempre... [Escultura de Gustav Vigeland: Oslo, Noruega.]

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A comunicação social devia colaborar na defesa dos Direitos das Crianças... que apenas «brincam» às guerras.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

De regresso

A experiência direta comprova o dito: a pessoa que vai de férias não é a mesma que regressa, e logo decorrido um mês, ao seu lugar. Um mês é muito tempo, acumulam-se dia a dia as ocorrências mais variadas por dentro e por fora da pessoa, nas cercanias e nas lonjuras. As transformações, mínimas ou subtis que sejam, acabam por ser inevitáveis.
Também o escriba chega aqui um pouco mudado, não de pele crestada pelo sol ou empalidecida pela sombra, sim com disposição íntima de mudar qualquer coisa na orientação deste blogue. Há motivos que tornam desejável a mudança. Importa reconhecê-los com realismo.
Entramos, portanto, numa nova fase. Primeira novidade: os textos  passarão a ter tamanhos diversos e, de preferência, a ser mais curtos. Outras pequenas alterações irão surgir, sem desvio ou distorção do espírito que desde o início norteia este blogue.
O post anterior anunciava já a preparação do volume com uma seleção de crónicas editadas nos últimos dois anos. Como se poderá compreender, a iniciativa deve-se à conveniência de «arrumar» a fase que termina. O volume colige 73 crónicas, metade das quais, focam a deriva que precipita tantos países na atual crise económico-financeira e na armadilha das dívidas soberanas.
Será o segundo volume de E Foi Assim... e ficará como fecho de um ciclo. O primeiro volume tem estado disponível para leitura em formato digital (ebook) e muito em breve este outro aparecerá também (ali na coluna à esquerda). Em seguida, atenção, haverá mais. A propósito, registo que  dois ebooks - Estórias Populares e Divertículos - já tiveram para cima de dois mil leitores, estando os outros cinco títulos daquela prateleira prestes a chegar ao total de dois mil. [Foto de Laurent Laveder, série Moon Games.]

sábado, 30 de julho de 2011

Em férias


Os visitantes regulares deste sítio, nesta altura do ano, já esperam o anúncio. E, creio, não acham demais. É da praxe: o escriba de serviço vai de férias.
Sai daqui para fora cá dentro. Durante agosto, certo e sabido, contem com ele ocupado a guardar-se das chapadas do sol e, metido nas sombras, a fechar-se em copas. Mas não quedará inativo.
Além de respirar, esforço que o comum das gentes faz sem sentir o que faz, o escriba tenciona dedicar-se a dois projetos. Gostaria de organizar em volume uma seleção das crónicas editadas neste blogue desde setembro de 2009. Será o segundo volume desta série e em breve ficará acessível online tal como o primeiro.
O outro projeto terá um cunho mais literário, logo, mais particular. Uma pequena coletânea de ficções espera sem mais paciência. Enfim, como se vê, o escriba fica entregue...
- nós tornaremos a encontrar-nos aqui no princípio de setembro.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O caminho da subversão

Movemo-nos, já ensurdecidos, entre discursatas sem fim que se cruzam no ar com opiniões sobre a «crise» apreciada por todos os ângulos imagináveis. É o problema das dívidas soberanas, das agências de rating e dos «mercados» ou da inépcia franco-alemã. Porém, sendo diferentes, as opiniões são concordes num ponto: não dão nome claro ao monstro.
Ora é preciso nomeá-lo para olharmos de frente a monstruosidade. Não é fácil descer ao fundo da questão largando os toques pela rama, mas estamos dentro do labirinto e sem podermos fugir ao minotauro. Esforcemo-nos, pois, com a máxima aplicação, para chegarmos a compreender bem como funciona hoje  e nos avassala o sistema financeiro internacional, isto é, como avançamos sem tino pelo caminho de uma global subversão.
Vemos as classes médias a desaparecer e a pobreza, o desamparo, a miséria a aumentar... e o que nos impede de crer na luta de classes? Dizem-nos que entre 2000 e 2009 uns 150 mil milhões de rendimentos saíram do país e agora temo-lo afundado num mar de dívidas, sob um regime de austeridade imposto pela troika externa (que o Governo recém-eleito agrava achando-o escasso), em resultado das políticas de direita praticadas nos últimos trinta anos... e os eleitores deram 78% dos votos aos três partidos que puseram o país nesta situação? Que explicação haverá melhor do que esta, que a riqueza (mal) distribuída de 99% da população está a ir para as mãos de 1%?
O fim da regulação do sistema financeiro pelos poderes estatais abriu as portas à instalação do capitalismo selvagem. A estratégia especulativa da alta finança, depois de atrelar os governos aos seus interesses gananciosos e de criar o seu «mercado», aposta na exploração das riquezas de cada Estado mais a jeito (de estrutura económica mais frágil) através dos bancos nacionais. Assim, cada um destes Estados dilui pouco a pouco o seu papel histórico - garantia aos cidadãos os seus direitos constitucionais, no mínimo os direitos humanos - e, pela imposição de cargas tributárias crescentes, vai-se transformando em agente da acumulação capitalista na mais aguda fase imperialista.
Nesta viragem, os Estados tomam o papel de inimigo das classes médias ao tornar-se em funcionais órgãos da ganância da especulação financeira do grande capital. Começam por induzir as classes médias a consumir e a endividar-se (dinheiro fácil volve-se dívida generalizada) e quando a bolha criada rebenta, chegam os programas de austeridade e mais e mais recessão. Declara-se então a ditadura da debitocracia - o poder maior das dívidas acumuladas sobre os povos que têm de as pagar.
É uma síntese sem dúvida esquemática e abreviada mas clara quanto basta para alertar os distraídos de uma viragem fundamental. Os Estados mudaram. Existem para apoiar, em primeiro lugar, as políticas convenientes delineadas por quem manda no FMI, no Banco Mundial, nas agências de rating, ou em Wall Street.
Não se prevê que algum luminar da proclamada Ciência Económica venha esclarecer o ponto, ocupados como andam com as suas aulas ou a discursar por conta de governos, bancos, sociedades financeiras. Tão pouco se espera que um governante, chefe de partido do arco do poder ou comentador mediático solte o trava-línguas. O caminho da subversão parece irreversível, fique este alerta metido em garrafa caída no deserto sob a violência brutal do sol donde, numa explosão, o gigante da fábula saírá novamente em liberdade para cumprir três desejos. [Imagem: pintura de Julian Beevar em chão de rua.]

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Por exemplo: Murdoch

O escândalo das escutas ilegais que provocou de súbito a liquidação do jornal inglês News of the World e forçou o seu dono a desistir da compra do canal de tv por satélite, negócio apetitoso de uns dez mil milhões de euros, trouxe para a ribalta a figura de Rupert Murdoch. O magnata dos media (Austrália, Estados Unidos, Reino Unido e, enfim, em quatro continentes) ilustra exemplarmente as misérias em que chafurda a imprensa tablóide, do sensacionalismo barato custe o que custar. E agora - a lembrar Orson Welles no clássico filme «O mundo a seus pés» - parece que chegou ao momento de o céu lhe cair em cima da cabeça.
Em Londres, Nova Iorque, Sidney e outras cidades estão sob suspeita e investigação os critérios editoriais praticados pelos órgãos de comunicação social pertencentes à poderosa News Corp de Murdoch. Com a cumplicidade de políticos e de estadistas, este «cidadão Kane» concentrou um império mediático tão vasto e corruptor que lhe permitiu criar ou destruir governos, influenciar disputas eleitorais e políticas governativas.  É o que se diz agora, abertamente, quando o medo se dissipa e o magnata parece ter caído em desgraça.
O poderio de Murdoch provém da quantidade incrível de órgãos mediáticos que conseguiu concentrar na sua mão em diversos países. Se não fosse agora travado pelo escândalo das escutas (que envolve em suspeitas também os tablóides  do grupo «Sun» e o «Sunday Times», ficaria de posse de mais de metade dos media comerciais britânicos. O homem, com seu filho, é tido como um problema tão global quanto a corporação que criou.
Acusam-no de ditar orientações ideológicas aos seus órgãos, de corromper e controlar democracias, forçando políticos a seguir as suas próprias ideias extremistas quanto a guerra, tortura e outros problemas mundiais, ou destruindo carreiras de políticos  que lhe resistam com campanhas de difamação. É apontado por ter ajudado, nos Estados Unidos, a eleger George W. Bush e de ter às ordens a maioria dos presidenciáveis republicanos. A rede Fox News, do império Murdoch nos Estados Unidos, espalhou notícias para promover a guerra no Iraque, estimulou o ressentimento contra muçulmanos e imigrantes e lançou um movimento populista de direita.
Isto basta como exemplo da valia real de uma (des)informação sem escrúpulos, orientada apenas para a corrupção e o negócio lucrativo (ilustrando o quadro da decadência geral dos jornais, incluídos os gratuitos). Agrada às massas populares servindo-as de papel sujo dos seus jornais, manipula as opiniões sem respeitar os factos e, com as tiragens e audiências que atinge, atrai os anunciantes para a publicidade encarecida. Salienta também os sérios perigos, para os regimes democráticos, que acompanham a concentração de órgãos de comunicação social de cada país em poucas mãos escolhidas e amigas.
Em Portugal, onde temos na memória fresca o caso «Face oculta», essa concentração é já elevada apesar das disposições em contrário. Um grande número de órgãos privados mais influentes já está às ordens de um pequeno grupo de pessoas. Acrescente-se que, conforme se anuncia, um canal da televisão pública será em breve privatizado...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Cânone literário vem aí

Ao que parece, vai finalmente avançar e concretizar-se a elaboração do  «cânone literário português». O projeto tem o apoio declarado de meios universitários ligados à docência do Português, ou seja, à formação dos professores do ensino secundário e básico daquela área. Objetivo: definir uma lista das obras referenciais de autores portugueses e estrangeiros para crianças e obras também para jovens e adultos, por escolha o mais possível consensual de  especialistas e círculos cultos.
O «cânone» será, pois, uma espécie de «antologia geral» e desde logo não atida apenas aos autores nacionais, entendendo que o nosso país não é estanque pois a cultura portuguesa é, tal como qualquer outra, alfobre fertilizado por trocas com outras variadas culturas. Destina-se a estabelecer um conjunto de textos literários para responder a necessidades do ensino de todos os níveis, do básico ao superior, e ficará sobretudo a valer como espelho da nossa cultura. Poderá resolver muita confusão e polémica, além de objetivar as obras identificadas com mérito reconhecido para, em tradução, merecerem divulgação além-fronteiras.
Na área da literatura para crianças, a elaboração do «cânone literário português» evoca de certo modo, enquanto mero embrião, o lugar do PNL (Plano Nacional de Leitura). Trata-se de listar as obras que um grupo de apreciadores propõe para animar a campanha oficial da promoção da literacia sob a divisa Ler+. Caso o primeiro projeto, do «cânone», se concretize, o PNL poderá perder o seu lugar.
Encaro com expectativa esta evolução. É preciso proceder à recuperação de autores e obras  portuguesas ou em português que os frenesins de uma indústria cultural e uma política educativa  cegueta, em conjunção, condenam ao limbo. Apareça, pois, e implante-se no país um elemento de clivagem formado por  valores marcantes e por noções firmes do que é arte literária para que esta se demarque do que não passe de medíocre comércio literário.
A Literatura é, consabidamente, uma arte exigente e difícil. Quem com ela vive em prática longa e amorosa só pode desconfiar ou maravilhar-se com as mil e tal novas edições de livros  que em avalancha mensal se repetem neste pequeno rectângulo em crise. Irrompem batalhões de novos autores, multiplicam-se as editoras, reduzem-se drasticamente as tiragens, circulam edições pagas pelos autores (mas exibindo chancela tapa-olhos) e o delírio vai em frente.
Montes de livros espalham-se por supermercados, estações de correios, barracas de saldos, feiras em tropel. Rimas de romances envelhecem num instante, edições para leitores infantis ou juvenis enchem catálogos e armazéns de tantíssimas editoras que não querem perder o mercado... E quem lembra agora que a literatura para crianças é sem dúvida, porque tem de ser, a mais espinhosa e difícil?
Mas agora me lembro de um editor que há dez anos repetia: «quem vende os livros são os autores». Tinha razão: os autores, novos ou menos novos, palmilham o terreno metro a metro na promoção das suas obras porque não vêem outra saída. Obras essas, não por acaso, ilustradas com bonecadas giríssimas e historinhas cada vez mais alinhadas pelo levezinho-engraçadinho, isto é, concorrendo para o facilzinho que é o que mais está a dar.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Pois, sem diplomas!

Cuidar da imagem não é só ter carrinho de boa marca para que saibam quem somos ou deixar cair sobre a testa uns cabelos displicentes. É bastante mais do que isso, toda a gente que se preze o sabe falando, com língua de pau, «à política». Mas que fazer,  se há sempre alguém extraviado como se andasse neste mundo sem querer a sério fazer parte dele.
Contra mim falo assim falando. Fui capaz de publicar aqui umas linhas parece que inesperadas ou estranhas e mesmo algo escandalosas, numa crónica que escrevi à sombra no Verão do ano passado e que desde então é visitada regularmente por leitores não sei se curiosos ou incrédulos. O caso está todo na página «Sem diplomas».
Mas devo explicar que os bloguistas têm, se quiserem, informação sumária de alguns índices estatísticos deixados pelos seus visitantes. Nada de especial, é claro. Todavia, esse recurso indica-me como aquela página continua a ser frequentada.
O pormenor é-me grato e, no entanto, pergunto-me o que haverá ali de especial (inquietante?). Fui lá agora reler o escrito e... Ouvi então, sussurrada por cima do ombro, uma advertência singular: «Foste descarado, ficaste na rua sem cara».
Engoli em seco e quedei-me na dúvida. Enrodilhados como andamos nas subversões correntes (pela regra: centra a tua vida no triunfo pessoal), teremos já coragem para achar escandaloso, portanto descarado, quem afirma um simples elemento factual do seu percurso biográfico? A emoção parece vir da frase: «estar na literatura, tal como estar no jornalismo, requeriam tão só, no 'meu tempo', saber de experiência feito.»
Hoje, consabidamente, não é assim. Mas já foi conforme digo: os autores literários e os jornalistas afirmavam, praticando, as suas capacidades pessoais, pois naquele tempo não tínhamos cursos que a tal habilitassem. Fiquei, pois, sem diplomas por muitos anos, embora tenha e possa mostrar um monte de papéis luxuriosos.
Por todos os motivos, aquele tempo é inesquecível para quem o viveu. Os cursos de Letras existentes não serviam então para formar escritores, formavam professores. Os autores literários portugueses da época podiam ter cursado Letras - casos de José Régio, Vergílio Ferreira entre tantos outros - mas isso devia-se à simples coincidência de a formação profissional adquirida coincidir com a vocação.
Uma quantidade de escritores dos maiores do século XX tornaram-se admiráveis sem qualquer curso específico. Eram engenheiros, como Jorge de Sena, ou médicos, como Fernando Namora, Bernardo Santareno ou Miguel Torga, ou, noutros casos, não tinham sequer chegado à Universidade. A preparação atinente à sua vocação obtinham-na por via autodidática, isto é, lendo e escrevendo, logo, mostrando o que valiam e fazendo-se estimar por isso.
As licenciaturas (sobretudo as de feição tecnológica!) tornaram-se tão vulgares que pode resultar chocante que um autor literário travestido de jornalista veterano (ou a inversa?) se declare sem uma pelo menos, para disfarçar. Mas, cá por coisas, eu ando a preferir ler  ou reler os autores de há mais de trinta anos e a sentir quanto ganho com isso.  Convém lembrar, ninguém perguntou a José Saramago nobelizado que escolarização tinha, perguntaram-lhe, sim, como iria ele usar o dinheiro recebido do prémio...