quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Como acontece «isto»

Parece que não mas «isto» tem algo que se lhe diga. Querem ver? O tema é para mim tão interessante quanto vivido e decerto também para os apreciadores de crónicas que vão passando por aqui.
Anda uma pessoa de cabeça no ar, cabeça-celeiro de umas tantas ideias postas a amadurecer, até que uma delas ganha corpo e energia. Fenómeno esquisito, este, de uma ideia avultar entre as outras e tão esquisito é que desafia qualquer hipótese de explicação. Será capricho das meninges inquietas a namorar com as sinapses, só isso, ou haverá por ali alguma misteriosa alquimia?
Então, no começo, «isto» não passa de um embrião, uma hipótese informe, algo como um girino que fica a boiar na viscosidade matricial. Mas em seguida qualquer coisa acontece. «Isto» estremece, agita-se dentro do seu alvéolo e cresce por incorporação espontânea de segmentos complementares que andavam soltos.
Agora com cabeça, «isto» principia a ser projeto que já deseja ter vida própria. E deseja crescer, ganhar tronco e membros, botar figura. Está tudo, miniatural, contido dentro daquela cabecinha incorpórea, apenas será preciso executar agora o projeto, concretizando-o.
Tarefa complicada. Vem à rede tanto material corporizável, é tanta a abundância em acumulação que ameaça entupir o projeto porque nele, agora se vê, cabe uma apreciável fatia de mundo. No entanto, «isto» tem que desistir de tentar ser o que não pode ser - um longo discurso sobre apreciável fatia de mundo. Rejeita, portanto, todos os materiais que sobram do projeto inicial e que, à medida que vai germinando, se define.
Mas custa, chega a doer a escolha forçosa do que pode ou não pode entrar «n'isto», afinal tão poucochinho, sacrificando a abundância do que fica de fora. «Isto» faz-se presente, enfim, está aqui de corpo inteiro tal como nasceu, acabou! No entanto (pois «isto» só existe no tamanho da crónica), quanto material interessante ficou omisso desta vez e talvez para sempre... [Escultura de Gustav Vigeland: Oslo, Noruega.]

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