quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Cristãos em guerra santa

Os foles da guerra acordaram e sopram com força nas brasas. Estão a ficar rubras, a crepitar, a incandescer. É a guerra anunciada por Samuel P. Huntington, o entendido que em 1996 prevenia do «choque de civilizações» quando a pancada já nos batia à porta.
Na Europa, na América, umas velhas diferenças religiosas existentes entre as populações do mundo servem de repente para provocar temores e terrores contagiosos como a gripe. A cristandade agita-se: a torre Eiffel, símbolo da cultura francesa-europeia, aparece em sonhos de pesadelo encimada por um quarto crescente, e o novo eleito da Casa Branca com pele não branca abisma certas imaginações em terrores e suores frios.
O perigo, agora, é o Islão, que alarma o Ocidente com uma monstruosa subversão, um apocalipse arrasador. Que fazer? Cruzam-se as mensagens nas correntes da Net, expande-se o pânico: na Europa os muçulmanos são já 50 milhões, este nosso continente será islâmico em poucas décadas e então até poderá mudar de nome e chamar-se Eurábia!
E o Islão invade a América. Veja-se o Canadá, um mero exemplo, onde em 2001 já havia 400 mil muçulmanos com 80 mesquitas. E sucedem-se as conversões, imagine-se, de cristãos virados para essa ideologia política e religiosa...
Com este discurso delirante, aplaude-se a repressão decidida por governos europeus que proibiu a construção de nova mesquita ou mesmo o uso do simples véu islâmico na rua. As vagas de imigrantes magrebinos vindas ao assalto do nível de vida europeu são encaradas como ondas de choque interessadas em consumar a subversão do Velho Continente (de população envelhecida e fraca reprodução). Alega o discurso: o islamismo é uma «falsa religião da paz», atente-se na jihade, a guerra santa pregada pelo Corão (mas, diz quem sabe, guerra não maior do que a Bíblia ou a Tora)...
A bandeira da luta contra o terrorismo, assim desfraldada ao vento, liberta um cheiro a petróleo que tresanda e não deixa ver aos bons olhos cristãos o influxo que a cultura árabe deixou na península ibérica após a queda do Império Romano, sem dúvida valioso e marcante. E faz por esquecer que os «invasores» souberam ser pacíficos coabitantes e as posteriores guerras santas lançadas para «libertar Jerusalém». Mas os factos da história e da atualidade acabam por se impor.
Foi preciso que milhões de pessoas se juntassem, derramando sangue, a exigir liberdade e democracia na Tunísia e no Egito para que os respetivos governantes ganhassem por cá o merecido rótulo de ditadores e corruptos. Barafustando corajosamente, os povos da orla mediterrânica, do Magrebe ao Médio Oriente, demonstram por fim que são governados por tiranos brutais, e não apenas na Líbia. Graças a essa luta, podemos avaliar agora quanto a Europa e a América têm dependido da exploração desses países, exploração vital para estes nossos níveis de vida sustentados por povos empobrecidos, desempregados, esfomeados e oprimidos por governantes afinal execráveis...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Judeus ricos x católicos pobres?

O apagamento da memória que a evolução da religião católica teve ao longo dos séculos tende a inculcar a ideia, errónea, de que não houve evolução nem mudança. Todavia, a matriz comum de que nasceram as três principais religiões monoteístas mais conhecidas contém aspetos, por isso mesmo, pouco evidenciados.  Um desses aspetos parece continuar omisso e é o de encontrar uma resposta para esta velha questão: porque são, para os católicos, os judeus tão hábeis em negociar, lucrar, enriquecer?
A questão é assaz interessante e, longe de manchar a boa reputação da religião da maioria dos portugueses, realça, pelo contrário, a beleza da doutrina canónica emanada da basílica de S. Pedro para o mundo. Mas contrapõe, sem mais, um tempo antigo ao nosso tempo. Ora é aquele que fica a brilhar perante este.
É triste, creio eu, ter-se assim perdido um aspeto esplendoroso, embora nada impeça os católicos de considerar quanto queiram uns usurários incorrigíveis os judeus. Mas a questão traz à baila, já veremos porquê, a alteração que o pai nosso, eminente oração do cristianismo, sofreu e que já comentámos nesta coluna. Aponta para a rasura do trecho: «perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores».
Posso testemunhar que, na minha pequena comunidade natal (situada entre Aveiro e Coimbra), pelo menos até 1945, aquela oração se manteve sem a emenda que depois sofreu. Curiosamente, ninguém deu fé da troca que então pôs «ofensas» no lugar das «dívidas». E mesmo hoje, afinal, pouca atenção merece a emenda daquele trecho da oração ditada por Deus, apesar de toda a magna relevância que assume no plano da orientação moral das relações sociais no universo católico.
Ficou a marcar uma viragem crucial na doutrina canónica vaticana. Finalmente, a Igreja passou a admitir o direito de quem concedia crédito não só de reaver o seu empréstimo como de auferir juros. Escreve Armando de Castro (artigo «juros», Dicionário de História, dir. Joel Serrão, Figueirinhas, Porto, 1981): «É bem sabido que na Idade Média, em Portugal como no resto da Europa, a Igreja combatia a cobrança de juros, justificando teologicamente a proibição com o argumento de que exigi-los seria extorquir valores ao devedor pelo uso do tempo, que era uma dádiva divina.»
De facto, «os princípios éticos e jurídicos medievais não previam sequer  uma retribuição em quaisquer empréstimos em dinheiro ou em espécie.» Escreve o mesmo autor na obra citada, artigo «usura»: «Sendo os juros proibidos pela Igreja durante a época medieval, somente quando o investimento na produção dos capitais mutuados se tornou possível e significativo é que as realidades começaram a levar de vencida as disposições proibitivas. No entanto, mesmo na Idade Média, a cobrança de juros praticou-se esporadicamente» [...], pois, é claro, sempre houve transgressões.
Essas proibições constam, por exemplo, das ordenações afonsinas e manuelinas. Evidentemente, a entrada no período do Renascimento permitiu a expansão do capitalismo, mas, ainda assim, até ao século XX os códigos civis portugueses condenaram a usura acima de um limite legal. Foi deste modo que os judeus, dispensados dos freios de tais dogmas, puderam dedicar-se à atividade financeira mais lucrativa e compensadora... e viraram-se cada vez mais para o espaço apetitoso que os católicos baniam.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Outono em Pequim

Uma vontade especial parece reger superiormente a ordem das nossas leituras. Altera-as caprichosamente: há livros que tencionamos ler borbulhando de sincero interesse, o tempo passa e... nada. Podem ser obras clássicas de bastante renome ou de outro género, temo-las por vezes espalhadas pelas estantes, sabendo já que são em demasia, à espera da nossa mão, mas algo nos desvia sempre levando-nos, à última hora, para outro lado.
Leituras assim adiadas amontoam-se no fio dos anos, de forma tão involuntária quão voluntária, criando em nós um resíduo de culpa sem desculpa. Como se ficássemos em falta perante o rol extenso de promessas íntimas ao dispersar-nos por leituras avulsas, tantas vezes despiciendas, sem verdadeiro critério seletivo. E, também, como é grande, e grata, a satisfação que nos invade ao agarrarmos finalmente o volume que, entre outros, esperou por nós!
Eis o que senti tomando da estante, passados vinte anos, O Outono em Pequim (Publ. Dom Quixote, 1989), de Boris Vian. Ia ler, finalmente, este romance do autor de Irei Cuspir nos Vossos Túmulos ou de A Espuma dos Dias para refrescar o gosto pela verve tão francesa do admirável boémio (1920-1959) falecido com 39 anos mas com tempo para ter sido engenheiro e inventor, músico e cantautor, cenarista e actor, poeta, romancista e tradutor, cronista... Consta que Boris Vian aprontou esta obra em três meses, em 1946.
Confirmou as minhas melhores previsões. As mirabolâncias de uma imaginação prodigiosa estão ali para desafiar não só a atenção do leitor, também a capacidade da sua percepção. O absurdo salta da narrativa (que nada tem de outonal ou pequinense), mas isso é apenas um recurso entre outros do humor próprio do autor: vai do simples gracejo ao sarcasmo ou à sátira risonha.
Mas nada impediu Boris Vian de estruturar a obra como um bom engenheiro. Designa com letras de A a D o «miolo» do romance e a seguir encontramos três «Andamentos» compostos por uns quantos capítulos, abrindo quase sempre com epígrafes cheias de intenção, e, no fim, uma espécie de epílogo deveras sentencioso e moral... Basta a primeira página para o leitor se convencer de que, ali, é o autor quem mais se diverte.
Iconoclasta e franco-atirador, Boris Vian dispara em variadas direções. Ridiculariza laureados académicos parisienses que hoje ninguém lembra e joga com arqueólogos, administradores de companhia, burocratas, pederastas, padre, pedófilo, etc. O registo dominante é porém o do non sense, embora o padre confirme (p 109-110) que «a espiritualidade não costuma sair em jacto contínuo, sobretudo se, entretanto, se pode esticar o pernil».
Da tradução, trabalhosa, se incumbiu Luísa Neto Jorge, que não limpou o texto de umas  poucas falhas. A mais saliente, ao que me parece, ocorre numa referência (p 147) «ao símbolo de S. Simão estilista». Erro: o «estilista» devia ser estilita, o da lendária coluna, lapso tão comum que já arrelia.
Redobra o prazer da leitura deste livro lembrar que foi escrito no ano em que se iniciou a reconstrução de França no pós-guerra. Estabelece-se com o leitor, tacitamente, um paralelo entre aquela e esta nossa atualidade, devastada por uma outra guerra sem tiros nem explosões, sim, mas com colossais estragos. Vida neste nosso mundo, só a brincar!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Assim é o povo tuga

Um povo que não se respeita não é respeitável. Nem, ai dele, respeitado. Desiludido de tudo e até de si próprio, não acredita mais em ninguém, apenas na sua capacidade para resistir à sorte que é a que quer no seu destino.
Vota ou abstem-se sem crer que vai mudar deveras alguma coisa. Votar, então, ou não votar, tanto faz. Para o povo tuga, os políticos querem é governar-se e, nada a fazer, quem se lixa é o mexilhão.
Mas os políticos, para este povo, afinal, são os políticos dos três partidos que têm governado o país. Os outros, da esquerda retinta, não entram em consideração simplesmente porque são de esquerda. Para «comunistas» e «comunismo» o povo nem olha, dá um passo à retaguarda e sente-se em perigo.
Após trinta e tantos anos a viver em sistema democrático, os tugas ainda suspeitam da esquerda, pronta a saltar do seu negro covil para lhes arrebatar mulher e filhos, casa e  propriedades. Prefere votar nos mesmos, sempre, porque são políticos familiares e lhes prometem segurança embora se inclinem para a instabilidade quando lhes dá jeito. E se os seus votos, além de entregarem o poder legitimado, servirem também, surpreendentemente, para levar a honra a vencer a infâmia, estabelecendo uma incrível vitória da verdade sobre a calúnia, este povo, habituado a manigâncias, nem resmunga.
Aflito com as dificuldades da vida a crescer, o povo vai perdendo apoios sociais, garantias de trabalho e emprego, enquanto, por outro lado, aceita pagar mais impostos ganhando menos perante a subida geral dos preços. Mas ouve dizer «é a crise» e acredita que a praga veio de fora para o afligir. Logo, assente na regra pelintra do «cada um é por si», vira as costas a sindicatos e a quaisquer apelos para fazer greve ou sair à rua em manifestação cívica de protesto e reivindicação.
Este povo é velho. Entrou em vibração nos gloriosos dias de Abril mas esses dias pertencem a um passado tão remoto como o primeiro baile em que dançou com gosto. Convenceu-se, agora é assim, o mercado manda nos empregos como nas colocações dos jogadores profissionais do futebol, o sexo ou a alta finança.
É deste povo, assim desanimado e com medo, que o governo precisa. Sai para vender mais dívida em cima de dívida a quem a compra em troca de apetitosos juros e o governo volta a cantar vitória porque, vejam bem, continua a ter quem lhe empreste para continuar a cantar vitória. E, se não vende dívida, vende património público.
Um dia nada distante o povo tuga acordará num país, que é o seu, afogado em dívidas colossais, que os governos de direita foram acumulando e ele dormindo aflito com as dificuldades da sua particular vidinha. Não estará sozinho: a seu lado, acompanhando-o no descalabro nacional, terá um outro povo, esse nada tuga, o tal dito maldito «comunista». E ambos, um arrastado pelo outro, juntos na desgraça, pagarão o que for de pagar.
As grandes corporações nacionais, de estatura fortalecida pelos seus negócios com o Estado, demonstram que o dinheiro não tem pátria nem cheiro. Investem fora de portas, onde  a ganância e  a cobiça as chama, deixando para trás, como vinha vindimada, a terra avoenga que as fez grandes. Quem ficará com a santa terrinha ao colo?