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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A cultura do decrescimento

Serge Latouche, economista e pensador francês, distinguiu-se na defesa de uma causa impopular: a cultura do decrescimento. É autor de vários livros em que justifica as suas ideias por sinal marcadas pela influência recebida de François Partant, outro economista francês. De facto, Latouche co-fundou e dirige La ligne d’horizon, plataforma dos Amigos de Partant dedicada à difusão das suas teses.
Eu apoio, desde a década de ’70 do século passado, a bandeira do decrescimento que, como todos sabemos, se mantém desde então sob rigoroso apagamento. Porém, alguns livros de Latouche foram publicados em Portugal e também no Brasil. Não há dúvida, paga-se um preço nada razoável por se ser crítico do consumismo, do crescer por crescer, porque, para este autor, o crescimento ilimitado é incompatível com um planeta limitado; logo, quem tal diz, “é louco ou é economista”.
O autor pede uma descolonização do nosso imaginário de consumidores compulsivos. Afirma que “a verdadeira riqueza consiste no pleno desenvolvimento das relações sociais de convívio num mundo são”. Ora este objectivo “pode ser alcançado com serenidade, na frugalidade, na sobriedade, até mesmo com uma certa austeridade no consumo material, ou seja, aquilo que alguns preconizaram com o slogan gandhiano ou tolstoísta da simplicidade voluntária.”
Como haveríamos de estranhar o prolongado apagamento das ideias de Serge Latouche (n. em Vennes, 12-01-1940), que o mesmo será dizer da cultura do decrescimento? Ele vai ao ponto de contrariar a ocidentalização do planeta… Em suma, puxa para um lado e o mundo vai avançando para o outro.
Registo agora um caso pessoal intrigante. A Universidade Estadual do Sudoeste Brasileiro indica o meu nome como tradutor da obra Introdução à Cultura do Decrescimento, de Latouche e que a edição se deveu, em 1973, a Publicações Europa-América. Nessa obra se terá baseado um curso de extensão transdisciplinar cujo programa a Universidade transcreve. Ora eu tenho memória (remota!) de algo semelhante; isto é, sem o poder afirmar, acho que traduzi realmente para a PEA, naqueles anos, diversas obras, uma das quais com o tema versado por Latouche, mas o catálogo geral da BN não a regista e eu não a tenho em casa. Aliás, o tema foi aqui abordado, em "Enfim, o decrescimento»", 01-03-2009.
As primeiras edições portuguesas deste autor são recentes (da Piaget e de Edições 70), portanto muito posteriores a 1973. Como explicar, esclarecer, entender isto? Poderá a ajuda de um leitor benévolo e amável esclarecer o enigma?

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O petróleo do séc. XXI


Opinião piedosa será a que pretende justificar a televisão e a imprensa ocidentais que se recusam a mostrar imagens das terríveis destruições de pessoas e bens realizadas dia a dia em variados países somente para poupar as populações às cenas de tamanhas violências, tão atrozes sofrimentos. Mas a comunicação social não abdica da sua função por piedade em intenção dos seus públicos, sim por indiferença por quem sofre. O mundo enche-se de horrores entrando na terceira guerra mundial e os públicos esperam que a valsa continue nos salões onde nada mais pode acontecer.
Entretanto, acontecem maravilhas absolutamente extraordinárias que ligeiríssimos reparos merecem. Veja-se: o petróleo, energia fóssil que continua a subordinar as economias mundiais, tem mantido o preço quase pela metade apesar de – eis a primeira maravilha - o seu custo de exploração tenha saltado para cima tanto quanto os furos extractivos caíram para a fundura. Agradados, os consumidores finais só lamentam que o preço do produto no mercado não acompanhe o seu embaratecimento.
Todavia, a exploração do petróleo prossegue em alta, indiferente tanto à quebra dos lucros quanto ao problema gerado pelos combustíveis fósseis no ambiente planetário. Estará a dar prejuízo? Uma ONG anuncia agora que o Fundo Monetário Internacional (FMI) declara que os países industrializados gastam mais em subsídios para combustíveis fósseis do que em saúde - uns dez milhões de dólares por minuto!
Com efeito, os países industrializados já acordaram em subsidiar os países mais pobres com cem mil milhões de dólares por ano, até 2020 – oceanos de dinheiro que, naturalmente, os contribuintes desses países vão pagar. Mas há cientistas que responsabilizam os combustíveis fósseis pelas catástrofes climáticas, prevenindo que estas se agravarão a partir de 2020. Nesta base, os países pobres exigem aumentos sucessivos das contribuições…
Aliás, os países pobres, exportadores de outras matérias-primas importantes que baixaram de preço no mercado internacional tal como o petróleo, ficaram com as suas economias desbaratadas. O mundo inteiro parece ter entrado numa estagnação económica expansiva e crescente, transferida por capilaridade, traduzida em desemprego, pobreza e maior desigualdade social que avassala os povos dos países emergentes e já atinge os industrializados. Venezuela, Irão, Angola e Brasil, nomeadamente, apertam o cinto que, apesar de tudo, para a Arábia Saudita, grande amiga da América, continua largo.
Suprema maravilha estará em concluir que forças poderosíssimas são capazes de assim condenarem o mundo. Não têm nome nem rosto visíveis em público. São um por cento do tal um por cento de que nos fala o Outro – conhecem?

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Fumadores: querem ajuda?


Os dados da situação são bem conhecidos. Os fumadores estão a diminuir e até arranjam coragem para repudiar a nicotina por volta dos 45 anos de idade, mas as fumadoras seguem ao contrário, crescem. De modo que em Portugal se registam 12 mil mortes por ano devido ao tabaco (cerca de 30 pessoas por dia, em média) enquanto, no mundo, segundo a OMS, sucumbem seis milhões de fumadores.
É bom que todos ajudemos os viciados a largar tão maléfica dependência por menos que eles agradeçam e é isso que o Governo, demonstrando que nem tudo quanto faz, sem excepção, é mau, aperta o laço das restrições (mínimas e tímidas). Agora dispõe-se a alargar a quantidade de espaços fechados onde não se pode fumar. E quer tornar os maços de cigarros de aspecto tão repelente que pode chegar a ser sinistro.
Sem dúvida, será mais um pequeno passo dado na direcção correcta. Os custos sociais, em doenças e dias de trabalho perdidos provocados pelo tabagismo são impressionantes, arrasadores. Mas, evidentemente, outros custos lhes são associados, em sofrimentos individuais, perdas da qualidade de vida, mortes prematuras.
Avançar com pequenos passos, neste assunto, pode parece conveniente. Mas tanta paciência, tanta tolerância dada pelos governos aos fumadores leva-me a consultar o arquivo da memória: há quantos anos anunciei que, finalmente, “a liberdade do fumador vai acabar”? Foi há trinta… ou ainda mais anos?
Portanto, os pequenos passos esticam o caminho a percorrer por inteiro. Um único país, somente, proibiu no mundo o comércio e o consumo do tabaco. Alguns outros dispõem-se a alcançar a meta dentro de uns vinte anos…
Entretanto, por aqui e por ali, vamos continuar a cruzar-nos com fumadores parados ou a andar pelas ruas e outros lugares públicos, cegos para o que não seja a satisfação egoísta do seu vício. Acaso admitem que estão a poluir o ar que os seus próximos têm que respirar? Poderão compreender que a sua liberdade pessoal, ali, termina onde começa a liberdade dos outros?
A retórica dos adeptos do tabagismo, à falta de melhor, recorre ao lugar-comum: argumenta que também a atmosfera anda saturada de poluição; logo, a esta tirada, acrescenta outra como válida desculpa! Sim, é verdade, a qualidade do ar nos centros das grandes cidades é frequentemente de muito baixa qualidade. Tal como a qualidade da água que nos servem e dos terrenos e culturas que produzem os nossos alimentos… usando por vezes, ilegalmente e em segredo, organismos geneticamente modificados.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Abre hoje na sede da ONU, em Nova Iorque, a reunião de 120 líderes mundiais (Barack Obama e outros;  sem Angela Merkel e Xi Jinping) para debater o grave problema planetário das alterações climáticas. Objectivo: reforçar as bases possíveis para a assinatura do protocolo internacional a assinar em Paris no fim de 2015 sobre as emissões de carbono para a atmosfera.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O mar bate-nos à porta

Tornados, furacões, inundações, secas, vagas de frio, ondas de calor – estes e outros fenómenos climáticos extremos repetem-se e vão sendo já habituais onde mal surgiam. O clima está a mudar, diz o povo, e o facto parece incontroverso porque é objectivo. É o aquecimento global, acusam, mas os climatologistas discutem e não se entendem.
Tão-pouco concordam com eles outros cientistas que também estudam as mudanças ambientais e até declaram desacreditada a ciência do clima. O entrechoque das opiniões alarga-se, argumentos e contra-argumentos espalham nuvens de poeira pelo ar, desorientando as populações que só percebem que realmente algo mudou e pressentem a enormidade do perigo. Entretanto, o consumo das energias fósseis já se projecta até 2030 sem diminuição de vulto porquanto a exploração dessas energias poluentes avança por cima dos recursos mundiais onde quer que estejam com apetite voraz quase feroz.
O simpósio internacional realizado recentemente em Varsóvia, Polónia, para “actualizar” o protocolo de Quioto adiou soluções e pouco mais. No entanto, o relatório de 800 cientistas de todo o mundo publicado no fim de Setembro por uma agência da ONU, que avaliou as alterações climáticas, deixou claro que os meios tecnológicos mundiais da geoengenharia (para enterrar o CO2) pouco ou nada podem dadas as suas reais limitações. O aumento previsto das temperaturas médias globais provoca alarmes dramáticos: sobem um grau, dois, três, ou quatro, até 2030, 2040, ou mesmo 2100?
Fechados no seu egoísmo, países e governos, sob pressão de poderosos interesses instalados, justificam-se uns com os outros na retórica e na rotina do deixa correr. De facto, torna-se cada vez mais claro que é todo o modelo de desenvolvimento mundial que está no centro do problema a reclamar solução urgente e capaz. Nesta base, com bom motivo se alvitra a criação de uma espécie de “Conselho de Segurança Climático” para dar força executiva à ONU.
Não é possível continuar a avançar pelo mesmo caminho, realmente cego, sem medir todos os riscos, no mínimo sem atender ao princípio da mais elementar prudência (ou a humanidade terá outro Planeta Azul à sua espera?) As mudanças climáticas vão alterando o regime das chuvas, a subida das temperaturas médias vai estender a desertificação e prejudicar as colheitas. O degelo de colossais massas de gelos polares e o aquecimento originam mudanças ainda pouco avaliadas e farão subir o nível dos oceanos (e será só 1 metro até 2100?!)…
Em Portugal, país com um litoral grandemente exposto à erosão marítima [ver em “Etiquetas”: erosão], as questões ambientais despertam sempre pouquíssima atenção. E agora, mais uma vez, ondas gigantes e marés vivas flagelam a costa neste período invernal, esburacando-a com surpreendente energia. E de novo os governantes de turno visitam os danos e prometem milhões para gastar em obras de protecção que mais e pior invernia vai destruir deixando o mar a bater-nos à porta ou já dentro das nossas casas.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Um fio de água na rua

Ando para cá e para lá, a pendular na companhia deste fio de água, pequeno regato que flui silencioso rente a meus pés. Sei que desce lá do cimo e, pela inércia do seu peso, vem ganhando força até surgir no caminho diário do meu ir e vir. É água viva, linfa vital, de céu azul espelhado em revérberos niquelados na corda do seu dorso.
Não vejo pássaros a poisar por aqui, sequer a meter um bico da corrente límpida. As pessoas que passam também vão distantes como pássaros ainda que sem asas nem voo. Ninguém parece ver o que eu vejo, este fio de água aqui tão inesperado que se torna invisível senão mesmo inacreditável.
Também inacreditável foi o ribeiro da minha meninice aldeã que mais tarde soube que fora, um século antes, rio bastante para ter ponte. Espalhei, contente, a novidade e enfrentei dúvidas, incredulidades. Documentei o que dizia, apontei o vale aberto e o assoreamento, e a aldeia continuou duvidosa ou indiferente ao assunto.
Para certa gente, não é fácil acreditar no que pode ver de olhos abertos (ainda que, de olhos fechados, acredite por vezes com toda a força!). Estou a comprová-lo de novo, aqui, na rua, vendo o fio de água, pequeno regato que acompanho passo a passo. Corre ligeirinho no minúsculo vale em suave declive aberto entre a pedra do lancil do meu passeio e o piso de asfalto abaulado, beirando os pneus dos automóveis estacionados, empoçando ou esbarrando em detritos, plásticos e papéis, e avançando até encontrar, lá adiante, uma sarjeta onde forma pequeno lago coberto por camada de poeira fuliginosa, porque acabou entupida pelo lixo, de modo que a corrente avança até à sarjeta seguinte que as próximas chuvas vão também encontrar entupida (a vassoura municipal varre, não desentope).
Corria o fio de água desde há tempo quando vi sair do prédio (antigo, geminado) um senhor, talvez vizinho, a quem pedi licença para notar o regato: saía do prédio contíguo, provinha sem dúvida do telhado. Viu-o, entendeu o que lhe dizia, mas foi-se a manquejar, apoiado na bengala da sua indiferença. Mais tarde, tive a sorte de encontrar um jovem a entrar no prédio exacto…
Repeti-lhe a explicação. Uma habitação do último andar teria tanque de água de reserva no tecto, a bóia estaria avariada, o excesso sairia para a caleira e o abastecimento tornara-se imparável assim como a factura justificada pelo contador. Ser idoso caminhante dá nisto, experiência a mais e jeito de coca-bichinhos.
Sei que este ribeiro não irá atingir o mar seguindo pelo interior das canalizações subterrâneas das águas pluviais. Mas tenho-o presente há semanas e meses a fio, como aquilo que é, um desperdício de água potável. Em breve, quando o “ouro negro”, que é o petróleo, se cansar de poluir o planeta, será este “ouro branco” tão raro e valioso que será motivo para causar guerras… e então ninguém mais o verá correr em fio, sem reparo, pela rua…
Quem perceber neste fio de água solto um reflexo do mundo perceberá igualmente quanto o mundo à solta a si mesmo se perde.

sábado, 17 de novembro de 2012

Energias fósseis vão durar?

Vozes credíveis vinham avisando: o declínio da exploração mundial do petróleo iria acentuar-se nos próximos tempos. A quebra não se deveria só ao período de recessão socioeconómico em que se afundam tantos países e sim, principalmente, às reservas naturais planetárias que estariam a esgotar-se. Mas temos agora a novidade: o futuro das energias fósseis ainda parece radioso.
As explorações correntes do crude estão de facto a estagnar e a diminuir até à exaustão final. Porém, a quebra sofrida por esse lado vai ser compensada por outro. Depois de se atreverem a explorar os próprios fundos oceânicos, descendo até profundidades consideráveis (e perigosas: os custos ambientais tem sido enormes, mas a BP paga-os baratinho, por 4,5 mil milhões) e de avançarem sobre o Alasca, os capitães da indústria descobrem petróleo e gás natural em areias betuminosas e mesmo em rochas.
Essas novas áreas de exploração tornam-se viáveis e mesmo apetitosas decerto porque a cotação do produto vai trepar pela escala acima. Mas outra novidade se anuncia: neste quadro, os Estados Unidos irão ocupar o lugar cimeiro da produção mundial das energias fósseis no decurso de uns vinte anos, dispensando então, completamente, o recurso atual à importação. Consequências?
Se tal vier a acontecer, teremos o planeta condenado por mais umas quantas décadas a queimar energias fósseis e portanto a acumular os gases causadores do conhecido «efeito de estufa». Por outras palavras: a «economia do petróleo», adaptada à situação, continuará a expandir-se. Poderá dizer-se, assim, que o século XX, conturbado como ficou por esta «economia» tão cega, agressora e poluente quanto se sabe, irá alastrar através do século XXI.
O planeta inteiro será empurrado pelo «império do petróleo» para um verdadeiro cataclismo ecológico, com mudanças dramáticas que atingirão desgraçando inevitavelmente milhões de habitantes. A própria fisionomia de muitas zonas naturais sofrerá destruições apocalípticas às mãos gananciosas dos capitães da indústria. Se o governo dos EEUU o permitir, serão eles - bichos homens, com perdão dos bichos - os únicos a rir-se, sentados na hecatombe em cima dos seus novos milhares de milhões. [Foto: mancha de petróleo no Golfo do México, EEUU, derramado por plataforma da British Petroleum.]

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Fumadores postos na rua

Bem podem os viciados do tabaco arder em fogachos de escândalo. Compram os cigarros cada vez mais caros e tem ainda que admitir nos maços o aviso de que fumar mata, obrigando-os a fazer de conta que são cegos ou analfabetos. Mas, pior que tudo, a determinação de proibir o fumo em locais públicos e certos  espaços comerciais, em vez de revolta, implantou-se no povo manso sem provocar chispa.
Habituámo-nos a vê-los, incluso em tempo de rigorosa invernia, sentados à beira de cafés e restaurantes, nas esplanadas que parece terem sido criadas para seu uso exclusivo. Livram do fumo os interiores e quem lá trabalha, junto com a clientela, agradece. Por outro lado, não os ouvimos a reclamar mais abundantes lugares onde possam atentar livremente contra a própria saúde.
Também nos acostumámos a vê-los parados nos passeios, encostados às paredes, a fumar sozinhos ou em pequenos grupos. São funcionários de escritórios e repartições contíguas, o vício expulsa-os para o exterior. Conversam, falam ao telemóvel ou aquecem a pele com um pouco de sol.
Sucedeu, portanto, o que podia esperar-se: os fumadores saíram em quantidade para as vias públicas. Quer dizer, foram postos na rua. Alguns capricham em fumar postados no umbral dos cafés e outros locais comerciais, como que a dividir salomonicamente o corpo entre o dever de largar para o exterior as baforadas e o seu direito antigo de permanecer no interior - acharão acaso que a equidade estará no meio termo, naquela meia porta?
Acontece assim que os passeios das ruas se enchem de fumadores e de fumo. Vai o cidadão abstémio caminhando e avançando através das exalações sucessivas de cigarradas que, tendo que respirar, tem que inalar. Pode mudar de passeio, mas é luxo que nem sempre o trânsito lhe permite.
Sorte idêntica cabe a quem segue um fumador solitário de cigarro nos dedos, a ir adiante com a mesma pressa e que acelera quando vai ser ultrapassado. O cheiro que o abstémio sente no ar (o nariz emenda: não é cheiro, é fedor)  provoca-lhe náuseas decerto porque foi fumador ativo e passivo. Todos já fumámos demais «fumando» de variadas maneiras e mesmo sem cigarro aceso - precisamos urgentemente de ar puro, no mínimo de mais ventilação!

domingo, 8 de julho de 2012

Imagem que pouco se vê

           Ondas salgadas lançam nos areais a poluição lançada por exploração do petróleo no mar.

domingo, 24 de junho de 2012

(In)sustentabilidade

Esperava-se um pouco mais que nada da cimeira no Rio de Janeiro que debateu a sustentabilidade. Não houve, portanto, desilusão. Fica apenas a preocupação quanto ao futuro do nosso planeta cada vez mais ameaçado por milhentas loucuras a trepar por solos, mares e ares durante mais dez anos.
A Terra, suporte vital da humanidade e mesmo habitáculo único que podemos ter no inóspito espaço celeste, acumula tantas agressões e desgastes que os sinais de alarme disparam nos mais diversos sentidos. Não é possível continuar por este caminho, é urgente pôr travões a fundo nas quatro rodas, mas os senhores do mundo, à frente de governos e das grandes corporações, limitam-se a discursar e a sorrir para as câmaras.
O planeta precisa de um governo global capaz de responder eficazmente à situação. Mas onde pode estar ele? A ONU, por infelicidade, caiu nas mãos do poder maior e não tem substituição entre quaisquer organizações internacionais existentes de âmbito regional; a NATO, aliança militar que perdura (apesar de ter desaparecido o «perigo comunista» e o Pacto de Varsóvia), agora talvez por causa da «ameaça terrorista», terá vocação para atear conflitos, não para resolver problemas da sustentabilidade planetária.
Todavia, a exploração dos recursos naturais não renováveis atingiu pontos já sem retorno. As delicadas cadeias da biodiversidade entram em ruptura, problemas endémicos como a pobreza (associando fome, miséria, doença) continuam sem paliativo e os conflitos armados  que se renovam por ali e acolá onde cheire a petróleo somam-se às destruições resultantes das catástrofes naturais. O aquecimento, tão discutido e negado por «cientistas», tem retardado o recurso às energias renováveis, mas sendo hoje ponto assente, resta aos  profissionais da opinião esperar com fé de que a Terra se regenere para lhes dar razão.
Vai sendo tarde, irremediavelmente tarde, para muita coisa decisiva. A crise socioeconómica que contagia países e continentes, impondo programas de austeridade e redução dos consumos, atenuará, nos próximos tempos, alguns dos efeitos nefastos da (in)sustentabilidade. Será porém escasso o alívio.
Demonstrada fica a loucura que coloca o planeta inteiro em poder de quem o arrasta às cegas, de orelhas moucas, para o abismo.  É preciso um governo que garanta a sustentabilidade do planeta e onde, e como encontrá-lo? Aflição!

domingo, 15 de janeiro de 2012

O poder dos fumadores

Um não dependente da necessidade de fumar dificilmente compreenderá a necessidade do fumador. Começou por ser  induzida (é necessidade imaginária ou irreal, pois, como poderiam os cigarros iniciais interessar ao corpo que  respira?) e depois instala-se. Mas um fumador também mostra quanto lhe custa admitir  nos outros a rejeição ou mesmo a repulsa do seu fumo.
O fumador, de início, nem consegue gostar do cigarro. Continua, porém, até cair, tossindo, na dependência do tabaco. A dependência, como acontece com qualquer outra droga, cresce e torna-se mais e mais exigente até que, por fim, de tanto crescer no indivíduo, se torna insuportável...
É assim que temos, entre os abstémios do tabaco e os fumadores viciados, um conflito azedo sempre em aberto. Opiniões contrapostas ressurgem agora, em altas labaredas, porque os tabagistas serão chamados a cumprir uma regulamentação nova que lhes condicionará o ato de fumar. Parece, então, que os únicos aptos a compreender ambos os lados são os antigos fumadores: têm experiência, já passaram por lá...
Anuncia-se que os fumadores terão de se afastar da entrada de restaurantes e cafés de modo a evitar a poluição dos respetivos interiores.  Terão de sair do umbral da porta e do passeio fronteiro, afastar-se um pouco por muito que lhes custe.  Apoia-se esta nova exigência num estudo recente que aponta para essa e outras mudanças restritivas das liberdades dos tabagistas portugueses.
Fundamentalismo, perseguição, execração pública, ditadura - clamam e reclamam os fumadores. Fechados no seu egoísmo, não percebem que haja alguém que não aprecie o que os deleita - viver dentro da nuvem de fumo até à intoxicação. Espanto e dúvida: como pode incomodar o nariz de uma pessoa o cigarro que levam aceso nos dedos ao caminhar na rua?!
O respirar é, para eles (por enquanto) tão fácil como o olhar: basta abrir as pálpebras ou dar aos foles. Portugal, na sua férrea opinião, não deveria seguir o exemplo da Califórnia, que a União Europeia mostra querer seguir. Mas o poder dos fumadores diminui: talvez em breve, terão que fugir dos locais públicos e procurar uns locais expressamente preparados para esse fim, «salas de chuto» cigarreiro onde serão autorizados a soltar as suas maléficas baforadas... esquecidos de que o «fumar mata»!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O petróleo envenenado

Agora que as reservas mundiais do petróleo estão prestes a esgotar-se e que as do gás natural irão ter a mesma sorte, vemos chegar as mudanças. As energias renováveis aparecem como grandes «novidades» embora sejam velhinhas de um século. Chega assim a hora de começarmos a perceber toda a destruição que o famigerado «ouro negro» deixa no planeta.
É preciso juntar o que vamos sabendo. Lembrando o acidente no golfo do México, os milhões de barris vomitados no mar, soubemos há dias pelos jornais que os pescadores que limparam o petróleo derramado pelo «Prestige» nas costas da Galiza, em 2002, apresentam alterações de ADN e, além disso, têm queixas pulmonares. Ora o desastre na Galiza, ocorrido há oito anos, adverte para o que está a acontecer desde há meses no golfo do México e zonas costeiras abrangidas.
Nestes termos, ganham consistência os estudos que anunciam efeitos absolutamente catastróficos a declarar-se na área do golfo em resultado do acidente na plataforma da BP. A poluição lançada pelo colossal derrame vai dizimar a fauna e flora marítima, envenenar o ar e as terras envolventes. Prevê-se que milhões de habitantes tenham que partir dos litorais contaminados (desertificados) e serem acolhidos como refugiados, algures.
Trata-se, afinal, de uma verdadeira hecatombe, como se houve explodido ali uma potente bomba nuclear. O espanto, mesmo a incredulidade, acolhem de início tão graves sentenças? Olhemos, então, para o caso dos pescadores galegos que trabalharam na recolha dos derrames (pois não mais poderiam pescar) e têm agora alterações de ADN (que pode continuar idêntico mas com funcionamento diverso)...
Vamos podendo saber umas coisinhas e, juntando-as, chegar a conclusões - o que não é proibido e talvez até seja sinal de inteligência e consciente cidadania. Sabemos, ouvimos e lemos, por exemplo, que já andam dispersos em águas marítimas bocadinhos de plásticos microscópicos que os peixes ingerem... e nós podemos comer. A pureza das águas dos abastecimentos públicos e o ambiente respirável das cidades levanta dúvidas ou sérias reservas.
Os biólogos marinhos detetam crescentes anomalias nos sistemas reprodutores dos animais. Notam hermafroditismos ou ausências de definição sexual (condição para um animal se reproduzir), e outras malformações. É impossível não lembrar, neste quadro, o alastrar das baixas taxas de natalidade humana... e, porventura, a voga atual de certos comportamentos sexuais.
Logo, porém, é impossível parar. Outras lembranças se precipitam sobre quem não ignore as concentrações de chumbo, de mercúrio e outros químicos perigosos: os generalizados insucessos escolares, enfraquecimentos da capacidade de concentração, hiperatividade infantil, baixas alarmantes de natalidade... O petróleo, que envenenou o século XX com guerras e poluição, apenas principia agora a mostrar todo o potencial destruidor do qual brotou - dentro do efeito de estufa - uma gigantesca concentração da terrena riqueza não menos perigosa e poluente.

sábado, 4 de setembro de 2010

Água em garrafas de plástico

É curioso ver como certas mensagens em circulação se anulam umas às outras num despique que não aproveita a ninguém. Amigos solícitos distribuem uns avisos que nos previnem dos perigos que corremos ao consumir a água da rede pública, outros avisos alarmam-se com a «pegada humana»: as montanhas de vasilhas de água feitas de plástico a crescerem no planeta. E ninguém sabe como viver sem abastecimento de água canalizada nem exige aos respectivos governos que imponham aos vendedores de água, por lei, o uso de garrafas de vidro, material reciclável.
Os avisos são terminantes. Quem bebe da rede pública ingere, segundo lemos, um quilo de fezes num ano. Resposta risonha, a sair da manga: bebamos vinho!
Não brinquemos, então, com assuntos sérios. Porque a água dos rios que alimenta as redes públicas contém, além de restos excrementícios, vários poluentes químicos de elevada perigosidade e a esses as análises laboratoriais correntes teimam em não ligar. A poluição dos plásticos, derivados do petróleo, acrescenta-se na água aos outros elementos poluidores... e não são apenas cancerígenos.
Estamos, sem dúvida, sujeitos à poluição acumulada na atmosfera e na terra que nos dá de comer, mas lembremos que cerca de três partes do nosso corpo são compostas por água. Na base deste problema planetário gigantesco aparece em grande plano a matéria prima que transformou o século XX  no «século do petróleo». Ora as reservas mundiais estão gastas mas ainda não esgotadas, sendo de esperar, portanto, que o «século XX», com todas as suas tresloucadas tinetas, se prolongue com mais guerras, destruições e poluições ostensivas em prol de uma exploração capitalista cega e predadora.
Os malefícios gerais derivados da exploração petrolífera global são sem dúvida muito superiores e muito mais graves do que é voz corrente. Não o sabe a opinião pública generalizada porque as poderosas centrais que manipulam a informação global continuam ao serviço, filtrando (isto é, censurando) os factos «inconvenientes», a exemplo do que ocorreu com os malefícios do tabaco, tarde e a más horas reconhecidos e assentes. Mas um dia, outra vez tarde e a más horas, iremos deparar-nos com a realidade real do que foi, preto no branco, o calamitoso século XX, o do petróleo.
A Europa perdeu então o seu protagonismo.  E não só. Assistiu a guerras e conquistas abjectas, destruições criminosas, pilhagem de recursos não renováveis, imposições descaradas da força como lei quando tal convinha, redução e amesquinhamento da vivência democrática e da cidadania popular, promoção de políticos cada vez mais «cinzentos» ou mesmo medíocres para lugares cimeiros, desaparecimento de Mestres prestigiosos capazes de brilhar pela cultura humanística, o pensamento e a ética social...
Este século XX ainda não acabou porque o mundo se alimenta ainda de petróleo (até quando?!). O que foi e o que valeu no manicómio dos mais loucos comportamentos está à espera do historiador realista que lhe pinte o retrato. Essa será a herança hedionda pela qual as novas gerações julgarão e condenarão as anteriores - declarando-as estúpidas, feias e más.

NOTA ESPECIAL
Quem escreve esta coluna, sendo aprendiz confesso da vida, não é especialista em coisa nenhuma. Aqui, ao versar uma diversidade de assuntos, como é seu hábito, tem o cuidado de previamente se informar em fontes credíveis antes de botar sentença. Nesta base, divulga conhecimentos de interesse geral que os media tendem a silenciar mas que um jornalismo independente deveria informar. Sim, os media alarmariam as populações, mas cumpririam o seu dever! Porque o desafio, hoje, é: venha a esta coluna, daqui a dez, quinze ou vinte anos, alguém que leia e aponte onde o cronista errou no que anunciou ou, digamos, previu no que estava à vista no seu tempo!  

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Mulheres confrontam homens

A maioria das pessoas que vemos à espera de consulta num centro de saúde, num lar ou em qualquer outro local onde se concentrem os idosos, são mulheres. Achamos isso tão natural que quase nem vemos o que é visível. Habituámo-nos longamente à desproporção sabendo todavia que o normal é nascerem mais rapazes do que meninas.
A explicação que havia para o facto de a maioria inicial do género masculino depois se perder na demografia nacional apontava para as baixas que os rapazes iam sofrendo enquanto não saíam do período da juventude. Grande razia! Tão grande que entrava também na explicação uma superior resistência das mulheres aos achaques: mulher doente, mulher para sempre, dizia-se.
Mas o paradoxo não está aqui. Começa a aparecer em dados recentes do INE que mostram as mulheres com mais desemprego, aguentando também velhas desigualdades salariais. Trabalhando, ganham menos do que os colegas machos, mas elas são de facto, no conjunto do país, a maioria da população: em 2005 seriam 5,5 milhões, algo como 51,6%.
Segundo o INE, a desproporção aumentou entre 1975 e 2005: ficámos com 94 homens para cem mulheres. Na verdade, estas aumentaram para sete anos a sua esperança média de vida. As raparigas casam-se mais cedo do que os rapazes e, enquanto estudantes, por sinal até se distinguem com melhores classificações.
Apesar de tudo, algo nos escapa na situação. A diferença numérica existente entre os sexos, favorável às mulheres, não ajuda deveras a entender o que se nos oferece à vista. Abunda bem mais o sexo feminino que ensina nas escolas ou trabalha nos empregos mal pagos (caixas de supermercados, cafetarias, lojas), em centros de diversão noturna, etc., e vai-se multiplicando nos recintos desportivos como praticantes ou espetadoras.
Abunda, aliás, por todos os lados: nas enfermarias, repartições públicas, redações dos jornais, forças de segurança, além de escritórios, fábricas... As raparigas correm para fora de casa, enchem a paisagem. E se, comparativamente, casam mais cedo, talvez admitam o enlace com rapazes uns anos mais novos.
Por tudo isto, parece estar a instalar-se a impressão de que é o sexo feminino que sobressai hoje, avultando sobre o masculino. Este como que se encolhe (apenas numericamente?) em face do avanço impetuoso a que assiste, numa especial inversão dos papeis sociais que os dois géneros desempenharam até anos recentes. Mas acaso estará contido nesta anotação um qualquer preconceito machista?
Nem de longe. O que pode fazer-se lembrado é o aviso de que certos plásticos diluídos na água dos rios estarão a contribuir para a multiplicação de espécies de peixes com aparentes dificuldades de gerar machos e portanto de se manterem como espécies. Estudos posteriores, bem mais alarmantes, apontam o mesmo efeito provocado na espécie humana: numa comunidade sob investigação, salvo erro canadiana,  cresce a desproporção dos sexos, pois nasciam cada vez mais meninas e menos rapazes.
Admiração, nenhuma. As cidades pequenas e grandes bebem dos rios. Os químicos presentes nos vulgares plásticos, diluídos, espalharam-se nas águas, nas terras, nos ares... e a espécie humana, com toda a sua imensa e poderosa sabedoria, talvez venha a ter, nos próximos séculos, tanta sorte como a dos peixinhos em degenerescência...