sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O espírito religioso...

Relendo Hume:
«Se a superstição vulgar é tão benéfica para a sociedade, disse Fílon, como se explica, então, que por toda a história abundem os relatos das suas consequências perniciosas para os negócios públicos? Tumultos, guerras civis, perseguições, subversões de governo, opressão, escravatura, estas são as tristes consequências que sempre acompanham a sua preponderância na mente dos homens. Sempre que o espírito religioso é mencionado numa narrativa histórica, podemos ter a certeza de que iremos em seguida encontrar uma descrição detalhada das misérias que o acompanham. E nenhuma época pode ser mais feliz ou próspera do que aquela em que nunca o tiveram em conta ou em que nunca ouviram falar dele.»
«É um absurdo acreditar que a Deidade tem paixões humanas e uma das mais baixas paixões humanas: um apetite insaciável por aplausos. É uma inconsistência acreditar que, tendo a Deidade esta paixão humana, não tenha também outras e, em particular, um desprezo pelas opiniões de criaturas tão inferiores.»
«E se esse Ser divino estivesse disposto a ofender-se com os vícios e as loucuras dos tolos mortais que são a sua própria obra, os adeptos das superstições mais populares estariam certamente em maus lençóis.» (Diálogos Sobre a Religião Natural, trad. Álvaro Nunes, Edições 70, Lisboa, 2005, pp. 135, 143 e 144, respectivamente.)


Um outro livro que há dias acabei de ler tem título desafiante: O Fim da Fé. O autor, Sam Harris, americano e talvez judeu, reage aos ataques do 11 de Setembro declarando «guerra ao terrorismo». Apoia Bush e a teoria do choque de civilizações, a guerra preventiva e o Estado de Israel, etc., num contexto mundial em que, na sua opinião, o pacifismo é imoral. Tudo altamente polémico, em linha com o pensamento da direita no poder em Washington e portanto de acordo com uma expansão do «imperialismo americano», esse outro evangelismo militarizado. Ataca o fundamentalismo islâmico a partir de um outro fundamentalismo, o seu, que não analisa nem justifica. É uma retórica irritantemente tendenciosa pelo que contém de propagandístico. Questiona-se o leitor: terá isto algo a ver com uma estratégia de defesa pessoal do autor? Com efeito, Sam Harris insiste em condenar ao longo do seu livro a fé religiosa e vai ao ponto de considerar que as crenças não devem ser respeitadas, sejam cristãs, maometanas ou judaicas. Para ele, o Ocidente permanece, neste aspecto, imutável desde o século XIV, atraso este «gravíssimo» (sic), que apela à intervenção metódica da racionalidade em todas as esferas de acção humana. Contrapõe ao Ocidente o Oriente e acaba por admitir o budismo.
Achei a leitura penosa mas também estimulante. Num tempo de comportamentos «politicamente correctos» (logo conformistas), gostei de ver o norte-americano corajoso e finório que me aparece a repudiar em bloco as crenças tradicionais embebidas em sobrenatural.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Leituras clandestinas

Tive um dia o gosto de surpreender I. M. D. com o livrinho A Arte de Não Crer em Nada e O Livro dos Três Impostores, dois textos prefaciados por Raoul Vaneigem, um talvez vindo do século XIII e o outro talvez do século XVI, livrinho publicado em 2002 na colecção de bolso da Europa-América.
Pois agora é a mesma amiga que me surpreende a mim, pondo-me nas mãos uma Memória de Jean Meslier, pároco de uma aldeia francesa da região de Champagne, título publicado por sinal também no ano de 2002 pela Antígona. O caso do autor e da obra impressionou-me vivamente por dois motivos paralelos.
A Meslier (1664-1729) é atribuída a autoria da frase «Enforcai o último rei com as tripas do último padre», fico agora a sabê-lo depois de a perceber em glosas várias no correr dos anos. E posso finalmente ler alguns trechos escolhidos do «Testamento» que deixou, documento espantoso que se espraia por três volumes manuscritos, mais de mil páginas ferventes de revolta contra o poder da religião e da aristocracia.
Espanta-me o caso deste padre cismático e sem dúvida de escassas leituras, pronto a arriscar a pele no início do século XVIII em defesa de camponeses maltratados pelo senhor local e a arriscar até a própria vida ao escrever, noite após noite, o mais violento ataque de que tem sido capaz o génio humano contra a tirania e as hipocrisias do clero. Concebia uma organização social sem Deus, igualitária, justa e fraterna, tão avançada na época que ficaria como outro motivo de espanto.
O homem escondeu o que ia escrevendo enquanto viveu, mas, após a sua morte, a obra entrou em circulação (pelo menos uma selecção dos trechos principais), fazendo estalar crescentes ondas de escândalos beatos, irritações e elogios.
O leitor que tenha passado a vida entre livros, a descobrir o mundo, o pasmo derradeiro é, nesse caso, mais difícil de mastigar. Entre tantas páginas crípticas, tantas leituras clandestinas, tantas transgressões, como foi possível manter Jean Meslier e o seu escrito rigorosamente escondidos dos seus olhos (abertos, digamos, há uns cinquenta anos)? Que santa aliança juntou a política, a clerezia e a acção cultural nessa eliminação radical até 2002? E que cautelas terão conduzido a editora lisboeta a intitular o volume de «Memória» e a fechá-lo com artigos pró e contra Meslier? Ai liberdade, liberdade!
O «Testamento» e o nome do autor, revelados de súbito, espevitam o leitor português escandalizado. Porém, nenhuma enciclopédia doméstica cita Meslier, apenas o Dicionário Filosófico, editado em 1972, lhe dedica um aliás excelente artigo, onde o dá como «filósofo materialista, fundador da orientação revolucionária no socialismo utópico francês». É muito e é pouco! Vou à Net e então a cena abre-se de todo. Só na Wikipédia deparo com um nunca acabar de referências…
Não há dúvida, no universo da cultura resta sempre um continente novo por explorar à nossa espera. Porque este mundo é mesmo surpreendente.
(Ilustrações: pormenores de grafito, Merc. Bom Sucesso, Porto)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Um relance ao céu


Num tempo cheio de muito outrora, ao espremer verdades feitas, apercebi-me do caso: os católicos, qualquer que fosse o fervor da sua crença, não se diferençavam visivelmente de quaisquer outras pessoas conhecidas sem prática religiosa. Diferençavam-se, sim, pelas características da personalidade própria de cada uma inclusive entre os católicos. Não era, pois, a religião um elemento distintivo na vida quotidiana. Imperava o mesmamente na regra dos costumes, e eu, num pasmo ingénuo, andei a magicar: se o catolicismo não manifesta a presença no comportamento objectivo das pessoas crentes, que papel exerce na realidade?
Deste espanto caí noutro e tão incrível – porque era tão surpreendente quanto absurdo – que me agarrou e ficou. A religião promete o Céu mas esquece-o, colando-se ao rés do chão escuro. Aplica-se afincadamente a preparar os crentes para ascenderem a esse Céu feitos alma libertada da vida terrena e coloca-os, tementes de Deus na morte, de olhos fitos nos nichos dos santos com abóbadas pintadas de azul celeste e estrelinhas de oiro. E quando o oficiante invoca o Céu no altar, os crentes vêem-lhe tão-só o braço erguido a apontar para o alto. A catequese ensina-os a rezar de olhar erguido mas sem os advertir de todo que estamos num planeta que gira em torno do Sol, numa galáxia algures na Via Láctea, no Universo em expansão povoado por outras infinitas galáxias e ainda mais infinitos sóis e sistemas planetários.
O Céu místico transformou-se numa simples metáfora para os que não se cansam de o invocar em construções de horizontes fechados como canção embaladora e o caso impressionou-me tanto que escrevi «um relance ao céu» para lembrar a sua existência. Não consegui desprender nem um olho da catequese e levá-lo em passeio ao céu natural, não valeu o meu sermão (aliás inédito) para nada, mas já o filósofo da minha rua o garantia, o mundo está recheado de sábias sentenças e parece cada vez mais perdido.
Imagino que os crentes, sobretudo os católicos, se prendem em demasia à terra. Afinal, não compreendem a vida que neles próprios respira. Se tivessem uma ideia do lugar que as suas existências reais cumprem neste terceiro planeta que gira em torno do Sol, e do lugar que o seu sistema planetário ocupa na Via Láctea, certamente a crença que professam teria outro alcance e o céu deixaria de ser metáfora para regressar ao seu natural.


Epicuro (341-270 antes da nossa era), tão atacado e deturpado na sua filosofia pela Igreja, e outros pensadores estoicos antigos, perante a existência do mal no mundo, raciocinaram com uma lógica implacável. Reproduzo:
«A divindade ou quer suprimir os males ou não pode ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode é impotente; e a divindade não o pode ser. Se pode e não quer, é invejosa, e a divindade não o pode ser. Se não quer e não pode, é invejosa e impotente, portanto não é divindade. Se quer e pode (que é a única coisa que lhe é conforme), donde vem a existência dos males e porque não os elimina?»

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Fantástico a rodos

O cinema e a televisão, principalmente, andam a encher-se de uma onda impetuosa de histórias e de historietas com os fantásticos mais mirabolantes. Voltaram as feitiçarias, os bruxedos, as magias negras e brancas, tudo servido na bandeja do sobrenatural mais incrível. As realidades do mundo, tão dramáticas, já não prestam para alimentar a arte… industrializada. A inspiração tornou-se delirante.
Tanto retrocesso já provocou um brado angustioso: estamos a afundar-nos num limbo espesso de ignorâncias e crendices supersticiosas de outra Idade Média. A selvajaria extrema quer instalar-se na profusão espectacular dos efeitos especiais e das novas distracções alienadoras quando os recursos imaginativos da ficção parecem definitivamente cansados e gastos. Até se nos depara um filme que postula a antropofagia sem horror, antes propondo-a «compreensivelmente»!
A Idade Média merecerá a comparação com o nosso tempo? Raciocinemos. Não estaremos a ofendê-la?


As salas de exibição de filmes saíram da cidade e foram-se amontoando em pontos da periferia, de onde, aliás, também já estão a desaparecer. Na verdade, o cinema, espectáculo popular, após o movimento cineclubista dos anos ’50-’60 entrou em crescente declínio. A coincidir, por sinal, com a transformação do espectáculo «popular» em «wollywoodesco» em grande parte do mundo. O mesmo filme corre durante uma semana em sessenta salas nacionais, milhares no mundo inteiro. Passa por aí o rolo compressor. Mas é neste quadro de crise aberta, entre lamentações constantes de perdas de espectadores em debandada, que mais é notório o caso do festival que ano a ano põe em exibição na cidade e arredores perto de três centenas de filmes. Obras de ficção – o mais possível abundantes em vampiros, fantasmas, bruxarias e outros ingredientes do fantástico – são projectadas nos ecrãs em corrupio, durante catorze dias febris, de acordo com o muito badalado programa. E a multidão acode ansiosa e consome cinema em doses maciças, seis ou sete fitas à tarde e à noite, como se de repente aquele cinema fosse coisa preciosa em vias de extinção.
A entidade organizadora faz negócio e tão bem resultou desde logo que se instituiu em fundação, uma fundação para exibir filmes como se de tal houve necessidade, que discute e até exige dos políticos locais, que obtém espaços na comunicação social, patrocínios e apoios às dúzias, subvenções…
Conclusão a extrair?
Feixes de palha, pequenos e soltos, não atraem comedores fartos de erva seca. Mas uma receita salvadora foi encontrada: montões da mesma palha erguida a fazer vista, com bandeiras em volta a acenar e fanfarras a apitar, em cenário pimba-festivaleiro, consegue cheirar a pão quente e excitar as narinas de consumistas ávidos. Saberão eles que comem por junto a erva seca que a retalho os enjoa?

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Re-ligação, precisa-se

No jornal que costumo ler encontrei uma notícia tão inesperada que se me afigurou incrível na sua singularidade. E foi assim: precisei de esperar trinta anos em regime de liberdade de expressão democrática para me deparar com a maravilha!
Um italiano ia a tribunal de Viterbo pedir a condenação de certo padre católico, aliás seu antigo amigo pessoal, acusando-o de impostura. Anunciava este na sua igreja que Cristo existiu realmente, que era figura histórica, sem possuir disso provas bastantes. Ora a lei fundamental italiana contempla o crime de impostura do povo ingénuo e simples…
Coincidiu a notícia com o lançamento de um livro em Lisboa. O autor, do século XVIII, era David Hume (1711-1776). Do conhecido (pelo menos de nome) filósofo inglês surgiam em português os Diálogos Sobre a Religião Natural. Era tempo. Tempo de retomar a filosofia da religião e de reavaliar o que seja a religião natural em resposta à teologia tradicional, ou seja, de sopesar devidamente a herança espiritual e, sobretudo, se possível, de resolver a famosa questão do «enigma de Hume».
Que atitude, ou posição, teria sido a dele, realmente, em matéria religiosa? A de ateu, camuflada em vista das pressões do seu tempo?
No início do século XXI, a questão parece mais abordável mas nem por isso promete de facto resultar mais produtiva. Escasseia o espaço para discutir Hume no espaço do capitalismo selvagem e da globalização económico-financeira acelerada, ou melhor, da alienação e do conformismo. É reconhecível o esforço do autor dos Diálogos para retirar a moral da religião a fim de pôr termo a tão perniciosa mistura, no sentido de vir a estabelecer-se uma verdadeira religião. Sublinham os comentadores que o autor espalhou pelas páginas que escreveu numerosas observações sobre o tema, mas que nunca definiu cabalmente o que pensaria a tal respeito. Porém, este reparo não colhe. Equivale a pretender que Hume exorbitasse do seu papel, coisa a evitar no seu tempo, por certos motivos (possíveis perseguições), como neste tempo, por outros (recusa do humanismo).
Penso que o «enigma de Hume», afinal, não é enigma nenhum. Ele desejou e esperou, simplesmente, que os homens pudessem e soubessem aprender a viver em sociedade tal como os mais humildes seres da natureza, isto é, em perfeita harmonia. A «religião natural» seria a efectiva re-ligação do homem individual ao todo que é a humanidade no seio da natureza. Por outras palavras, a «religião da humanidade» seria a única com verdadeira justificação no mundo, projectando este para a dimensão cósmica que realmente o insere.
O «enigma» reside na incompreensão deste desiderato. Algo tão simples e natural que, à evidência, se torna numa dificuldade insuperável para este incorrigível e cada vez mais perigoso e bárbaro género humano!

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Diapositivos


1. Estou a olhar para onde vi antes dois velhos prédios geminados. Foram demolidos há um ano, as pedras das suas paredes pagaram, ouvi dizer, as despesas da demolição. Pois já vejo o terreno coberto de arbustos e ervas, vegetação espessa que vai formando ali um verdadeiro matagal. As sementes soterradas pela construção dos prédios havia mais de cem anos puderam enfim despertar da letargia e estão agora a medrar à chuva e ao vento.
Imagino engenheiros e arquitectos a projectar o prédio que em breve se erguerá no terreno. E aquelas plantas desaparecerão outra vez, agora sob uma espessa placa de cimento, regressando à escuridão tumular da terra. Até um dia…
A resistência e a vitalidade indómita das sementes!


2. A um amigo de longe que me perguntara como ia eu na escrita, respondi-lhe comparando-me à pereira que vejo da minha varanda encostada à empena do prédio vizinho, na esquina do muro que veda um terreno. Teimosa árvore! Dá pêras rocha todos os anos, as pêras caem de maduras.
Um dia esse amigo visitou-me em casa e quis saber se tal pereira existia de verdade. Mostrei-lha, era árvore tão real quão metafórica, pois também eu me aplico a dar uns frutos que não sei quem cuida de colher, saborear.
Estou a recordar a peripécia e a contemplar a pobre teimosa, de novo carregada de frutos já cor-de-palha a alegrar o cone das folhas verdes. E torno a perguntar-me para quem escrevo eu, por que motivo as pereiras todas deste mundo têm de dar fruto.


3. Encontro dois namorados muito juvenis de pé, abraçados e a beijarem-se, no canto, à saída do meu prédio. Colados, nem consigo ver-lhes as caras, apenas a mão dele enfiada na cintura da rapariga, sobre a nádega. Vou, regresso tempo depois e encontro-os ainda envolvidos. Ardências de sangue na guelra! Mas algo me desperta. A vibração feminina pode diferir da masculina, eu sei, já fui rapaz. O meu espanto: terá o rapazinho sangue na guelra? Se tem mesmo, como aguenta tanto tempo? Será dos que vão pela rua com a namorada a misturar beijos e chiclet?


4. A glicínia prospera alegremente por cima do telhado estendendo ao sol um manto de verdura e cachos de cor violeta. Ao lado, um arame oblíquo liga o poste de iluminação pública ao telhado. E todos os anos vejo um primeiro rebento da glicínia ondulando na aragem, projectado do tufo, a apalpar o fio e nele se enrolar em busca de apoio e de maior altura. Depois, outros rebentos a espirrar seiva estendem-se naquela direcção, forma-se um corrimão de verdura que trepa até ao topo do poste, onde as hastes, adejando em torno como um polvo vivo agora tacteiam. Alguém tarda este ano a intervir ali, de tesoura na mão, contra o invasivo crescimento. Eu sei que lá em cima abunda bom vento e bom sol, mas também vejo o vazio envolvente do topo que a glicínia não vê. Acabo a sentir-me planta, é meu o tronco castanho feito de grossos braços retorcidos, torturados, que se afundam na terra. Penso que a glicínia já tem na sua seiva a memória daquele crescimento anual e que, sofrendo os cortes que lhe aplicam, saúda com alegria esta demora… (Ilustrações originais de Isa Ventura)

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Os «poetas» e os outros

Alguns companheiros estranham, porque me conhecem o percurso e o perfil, que nunca me tenham visto integrado em comissão de trabalhadores, conselho de redacção, num órgão de classe. Item explicativo: o jornal é sítio que não engendra amizades e, pior ainda, o trabalho jornalístico e, nas horas vagas, o literário, absorveram-me sempre. Numa linguagem mais chã: não me sobrou tempo para ir aos copos com compinchas de ocasião, a tecer cumplicidades e a engendrar carreirismos. Ou seja, não andei a vender-me aos meus próximos.
Pecado capital. Os compinchas toleram menos as singularidades de um diverso que as patifarias de um vulgar trampolineiro.
Pondo as coisas a descoberto: as pessoas reconhecem as diferenciações individualizantes e acham-nas inevitáveis, em teoria, mas tendem a procurar e a juntar-se com «iguais». São pessoas «normais»… Tendem a segregar do clã quem declarem «diferente» e, embora correcto e qualificado, cheio de boas intenções, demonstre o sinal da diferenciação: acordará contra si a força do número, a ditadura de uma certa vulgaridade.
Indubitavelmente, o espaço estabelecido de uma certa vulgaridade está longe de ser o céu na terra. Disso me quer convencer M. O., que me telefona queixosa e não menos perplexa. Franca e amiga, avessa a duplicidades, falha, diz ela, ao querer relacionar-se positivamente com os colegas do seu escritório e sente-se ostracizada como se fosse leprosa. Vê-os em óptimos entendimentos depois de lhe terem feito, quando se sentiam desfeiteados, críticas a tudo e todos, elogiando mesmo a sorte dela, que estava fora da «panelinha»… e depois tornam a imiscuir-se no grupo.
Pergunta-me M. O. se merece a solidão em que a deixam. Digo-lhe que é esse o nome da sua paz. Se for a mulher que imagino, descobrirá nela própria bem melhor e mais preferível companhia.


No princípio dos anos ’90, um político declarou na comunicação social que os jornalistas eram afinal uns empresários. Quereria dizer «comerciantes», o que evoca por contraste o caso do L. V. L., poeta exilado no Rio de Janeiro, a quem um amigo arranjou uma coluna num diário para ganhar a vida e ele, poeta, queixou-se: a sua colaboração no jornal não era paga. Ouviu a resposta: então L. V. L. tinha a coluna à disposição e ainda perguntava como havia de ganhar a vida?!
Fui dos poucos ingénuos que viu na afirmação do político português uma aleivosia, mas olhei em torno e mais longe. Vi poucos interessados na profissão pela profissão, muitos que passavam por ela como se fosse plataforma de trânsito ou nela permaneciam ao serviço de corporações… fazendo entretanto os seus outros miúdos negócios privados.
Jornalistas vocacionais eram uns pobres «poetas», como L. V. L., que se davam apaixonadamente à profissão porque sim e se viam marginalizados pelos companheiros que à socapa os envolviam em desdéns e desprezos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Jornal de contrastes

Deixara de trabalhar em casa, isto é, de traduzir, cronicar e etc., pois voltara ao jornalismo, quando me deparei com J. V. M. à entrada de uma sessão cultural. Disparou-me:
- Então não publicas mais nada?
Entendi. Queria dizer livros, literatura.
- Por acaso tenho meia dúzia de títulos contratados. Se tudo correr bem, saem todos este ano, mas até lamentaria a circunstância. Acho-a indesejável…
- Isso é uma ameaça?! – ripostou ele com vivacidade.
- É o que tu quiseres! – contestei.
Conhecia J. V. M. desde que, ainda rapazinho, viera da ilha e, a morar em Espinho, brincava aos poemas. Esbugalhava os olhos, arregalava-os para a largura do céu, mas ainda não atestava o bojo como quem do fácil se alimenta porque nada leva a sério. Mas já gostava de se espipar em risos. Um dia procurou-me no jornal para me pedir que caucionasse ali a sua admissão junto do director. Queria ingressar no jornalismo.
Fiz por ele o melhor e ele foi aceite. Passadas semanas já me dava motivo de arrependimento. Gratidão? Companheirismo? Princípios? Nada disso, era o riso nele a rebentar.
Aguentou-se pouco tempo naquela casa, fez carreira como jornalista e escritor e, sobretudo, fez-se notar como quem gosta de comer e de rir – de tudo menos de si próprio. É notável a obra de destruição que deixa por onde passa e o curioso é que poucos se atrevem a indiciá-lo em público. O fulano não possui algum poder real, apenas se serve do que abunda por aí, gentinha pronta a envolvê-lo em impunidade porque gosta de comer e de rir com ele, vendo-o sacudir o bojo.


M. R. entrou a fazer parte da redacção em maré de viragem. Na década de ’80 o jornal ainda era tido como de «esquerda», pelo menos na opinião da direita, e na administração alguém terá presumido que não destoaria a inclusão de um socialista de esquerda (trotskista) na paleta do quadro redactorial. Mas a seguir ocorreu a viragem e M. R. foi posto a executar trabalhos que pouco ou nada requeriam das suas aptidões e competências, antes pretendiam rasurar a valia do jornalista.
Tratado como «incómodo», M. R. acabou por ser encarregado das «cartas ao director»: punha em prosa limpa a súmula das missivas dirigidas à direcção de modo a ficarem publicáveis. Tornou-se assim «as pupilas do Senhor Leitor», conforme se lia num dístico aposto na sua mesa.
Nós víamos a arbitrariedade, sorríamos à suave ironia do dístico e não podíamos fazer nada. E o rapaz era culto, já tinha nome literário: publicara um volume de poemas, traduzira do inglês o poema A Caça ao Snark de Lewis Carrol e prometia continuar. Sem mais paciência, M. R. deu-se pressa e foi trabalhar como tradutor para a União Europeia. Assim se perdeu mais um valor para o jornalismo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O telex «pedrado»

Ninguém entendia um telex redigido em inglês, proveniente de agência internacional de notícias. Tomei-o nas mãos. Efectivamente, era ambíguo: o texto não tinha aspecto de notícia, nota de reportagem, comentário, nada disso. A tradução pedia dente afiado, competente, que não aparecia. Mas eu, que do inglês assumidamente sabia pouco mais que nada, depois de ler em diagonal o texto, adverti nas primeiras linhas a palavra «stoned» entre outras conhecidas e concluí logo que se tratava de uma brincadeira de algum redactor da agência que se divertia a confessar-se «pedrado».
Mal acabara de explicar isto ao J. S. e já ele me arrebatava o papel e, agitando-o na mão erguida como bandeira de vitória, anunciava aos companheiros próximos que, oh façanha, conseguira a tradução!
Recordei agora este episódio ao encontrá-lo por acaso na Biblioteca Pública. Tinha um emprego precário, de simples tarefeiro, pois saíra do jornal onde fora introduzido para ajudar a uma viragem à direita na redacção; imaginou-se ali com apoio «grande» até ao dia em que das nuvens caiu em desgraça.
Quando entenderão estes pobres serventuários que não contam nada para quem os usa como peças de xadrez nos tabuleiros dos seus jogos?


Pela redacção passavam usualmente uns quantos fulaninhos para «experimentar» o jornalismo em trânsito para coisa mais proveitosa – a política, o ensino, o negócio. Cuidavam mais da própria imagem nas suas relações profissionais e sociais que da informação. Para todos os efeitos, estavam ali em colheita de passagem.
E. P. B. foi um deles. Recém-licenciado em Letras, escrevia com os pés, aos trambolhões na sintaxe e na ortografia a tal ponto que por vezes se tornava hermético. Desculpava-se dizendo que os seus professores não tinham conseguido ensiná-lo – os incompetentes! - e entretanto ia abrindo caminho em áreas de negócio externo na «crítica de arte».
Os seus escritos careciam, no mínimo, de atenta revisão, de profundas emendas, requisito indispensável para a publicação. Todavia, isso equivalia a reescrever-lhe os trabalhos, no fim de contas, a «limpar-lhe a cara» em público. Surpresa: enquanto esteve ao serviço da redacção, E. P. B. assinou abundantes textos, que saíam no imediato em prosa escorreita porque alguém, na sombra, à última hora, sistematicamente, lhe fazia o favorzinho…
Contraste! Eu tinha que vigiar bastante o que escrevia e assinava para que não viesse à luz com falhas ou deturpações esquisitas. Ensinando-me que, numa redacção, podem coexistir «príncipes» e «plebeus».
Obras de santa engrácia!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Para mim o digo

Para mim o digo, acho que honrei mais o jornalismo do que a profissão me honrou a mim. Insisto na afirmação, convicto de que poucos leitores de jornais perceberão o seu verdadeiro alcance. Decerto nem imaginam quantas vezes a profissão me envergonhou ao ter que a exercer junto de certos profissionais, logo com eles estando confundido. De qualquer maneira, eu dispensaria o qualificativo sempre que vem mencionado. Dei o mais que pude à profissão mas não me prezo de a ter exercido.
Curiosamente, outro aspecto que continua sem remedeio possível é o de estabelecer, para valer sem mais prova, que fui para o jornalismo profissional depois de me situar no plano da literatura. Era então, no fim dos anos ’50, colaborador regular e remunerado de jornais diários, como o «Jornal de Notícias», em cuja redacção ingressei uns anitos depois. Entrei pela «porta baixa», como estagiário, e tarimbei, olhado de revés pelos profissionais, duvidosos se um «literato» (sic) era capaz de redigir a notícia mais simples. E faziam constar a peripécia: Alexandre Herculano tentara um dia escrever uma «chapa cinco» e, depois de falhar diversas tentativas, desistira. Badalavam: Alexandre Herculano, ahn?!
Ousaria eu avantajar-me a um Herculano?!
Provei-lhes rapidamente que se enganavam. Sem ter a estatura do historiador exilado em Vale de Lobos, redigi notícias, artigos, entrevistas, crónicas, reportagens… De facto, a escrita jornalística não poderia confundir-se com a escrita literária, mas ambas recorriam à expressão verbal no fenómeno da comunicação – e era aí mesmo que eu estava e queria continuar a estar!


Um jornalista, J. S., depois deputado socialista, morreu deixando recordações. A última vez que o vi foi no televisor. Imagem deprimente do inveterado tabagista, desdentado e asmático. Traz à lembrança alguns episódios vividos em comum. O dia em que ele, puxando-me pelo braço, se pôs a soletrar trechos da crónica que eu assinava no jornal do dia. A demonstrar como estava bem escrita e dando-me o direito de acreditar, porque o conhecia, que antes alguém lhe pusera na atenção a pequena maravilha… Para J. S., o autor da «pérola», coitado, tão modesto que era, talvez nem soubesse apreciar o que fazia! E aquela ocasião em que ele, com prosápia disfarçada de candura, me explicou como ascendera de redactor à direcção do jornal graças a uma estratégia exposta ponto por ponto… e sem atingir, sequer suspeitar, que estava perante um jornalista que jamais quereria ser director… Porque, eis a questão!, ele, director com prazo de validade à vista, fora capaz de proibir a publicação, em regime democrático, de um texto meu, de opinião, durante uma greve de jornalistas… Grande façanha! Teve prémio: foi para a Assembleia da República.
O jornalismo ficou para nós outros.
Nota: se esta evocação peca por impiedosa, venham à colação as picardias de J. S., por elas primeiro atingido. (Grafito, pormenor central. Esc. C. Michaelis, Porto)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Culturas: de duas, uma!


As mudanças ocorrem a uma velocidade crescente e tão vertiginosa que dificulta a correcta avaliação das suas consequências. E provoca uma espécie de geral anestesia.
Em datas recentes (digamos nos anos ’80 do século passado), ainda coexistiam na sociedade portuguesa duas manifestações perfeitamente reconhecíveis: as da cultura popular e as da cultura erudita. No sector dos livros, aquelas eram marcadas pelas leituras de novelas policiais, de ficção científica, banda desenhada e outras de pura diversão; havia o cinema comercial, o teatro de revista, o artesanato, exibições de folclore, etc. As manifestações de cultura «erudita» dispensavam então este adjectivo, pois se autonomizavam e distinguiam nitidamente (apesar da existência de uma linha divisória sempre fluida e até sujeita à contradição). Os jornais diários que se prezavam tinham páginas ou suplementos culturais/literários e muitos semanários regionais seguiam-lhes o exemplo (onde hoje temos discos, filmes e algum best-seller de autor-marca).
Em poucos anos, esta realidade em equilíbrio alterou-se. Deu mesmo um trambolhão tanto mais espantoso quanto na verdade é inadvertido! A transformação tornou-se violenta e radical pela entrada em cena da indústria dos bens culturais. Graças à democratização do país, o marketing entrou em pleno no mercado, massificou os consumos dos bens e operou a popularização dos espectáculos. As leituras de policiais, ficções científicas, bandas desenhadas, o folclore e filmes comerciais, canções ligeiras em voga, etc., perderam a mácula anterior e passou a vigorar o paradigma do mercado que impõe como bom e até óptimo o que mais se vende e consome. Chegámos assim ao tempo de toda a nossa literatura ser ou parecer light na medida em que for a que mais esteja em evidência. A cena foi invadida por manifestações exclusivas de cultura popular, só elas contam porque só elas são visíveis, enquanto as da cultura «erudita» se refugiaram nas academias, onde aliás se cobrem de sombras que também sobram para alguns pontos disseminados de cultura viva em resistência.

Dos tempos de Salazar retém-se estórias ainda hoje de proveito e exemplo. Eis uma, a lembrar que o país profundo afinal mudou pouco.
Um próximo do ditador questionou-o, admirado porque o presidente de Conselho nunca tinha, aparentemente, qualquer dificuldade em arranjar quem convidar para integrar as suas equipas governativas. Claro e sucinto, Salazar respondeu:
- É a inveja! Todos têm inveja uns dos outros!
A inveja continua a reinar por cá. O invejoso trata de ignorar a concorrência que não consegue descartar para que ninguém daquele lado lhe faça sombra. A herança salazarenta persiste nas mentalidades portuguesinhas. Amesquinha tudo. Promove a perpetuação da mediocridade nacional. O favorzinho, a cunha... (Ilustração: desenho de Emerenciano)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Língua... pícara

Manuel Rodrigues Lapa considerou o nosso idioma materno uma língua de cultura e eu, em livro do ano 2000, coloquei-a no panteão como a marca maior do génio português. Todavia, também advertia naquele texto, na forma de surdo lamento, uma deterioração em curso dos sons vocálicos. Trata-se de uma erosão fonética curiosa. Sons de aa, oo e ee em palavras que na articulação normal deveriam ser abertos, estão a ensurdecer por aí como se os falantes tivessem fôlego a menos ou já fosse feio torná-los sonoros. É o caso, por exemplo, de fácil, berma, penhora, que soam como facil, bêrma, penhôra.
O fenómeno recrudesce sem corrector visível ou possível, ao lado do castelhano, que se mantém bastante fiel à herança da matriz latina. Por outro lado, não por acaso, o português do Brasil – do qual nos chegam diariamente as falas através das telenovelas – oferece entonações sedutoras que bastam para atrair numerosos candidatos à lusofonia creio que, desde logo, pela sua sonoridade.
Em pasmo fico quando aponto o fenómeno com preocupação e os meus amigos me dão a sentir a imensa despreocupação que é deles. Alguém há-de acordar um dia… e será tarde!


Lembrando factos com toda a simplicidade: a novela «Lazarilho de Tormes», de meados do século XVI, inaugurou a picaresca na literatura espanhola. E a ficção picaresca ficou desde então como a marca mais original e caracterizadora da literatura castelhana.
Dizer que «Lazarilho» é um clássico emérito é, portanto, dizer o mínimo por óbvio. Mas é um clássico deveras popular desde que surgiu, especialmente nos dois países ibéricos. Seria curioso e elucidativo averiguar quantas traduções e edições portuguesas a novela já teve ao longo de quatro séculos e meio. Duas das mais recentes, do século XX, põem em equação os seguintes aspectos:
- Os editores e os leitores deste tempo andam a prestar pouquíssima atenção aos clássicos da literatura universal, talvez porque rodopiam hipnotizados em torno do que é efémero, como se não houvesse mais nada;
- O «Lazarilho» publicado no início dos anos ’70 em «livro de bolso» e apresentado como «texto integral» (indicação na capa) pela antiga editora Portugália, em Lisboa, não é realmente a novela completa, pois lhe faltam as partes «críticas» suprimidas pela censura eclesiástica da época, o que de algum modo restabeleceu em Portugal, na segunda metade do século XX, a Inquisição espanhola do século XVI. Além de que a tradução exibia defeitos.
- A edição integral foi editada em 1977 pela Civilização, do Porto. É ainda hoje a mais recomendável (posto que tenha sido eu o tradutor e prefaciador), embora aquela livraria-editora fosse considerada de orientação por sinal bastante conservadora. (Ilustração: desenho de Emerenciano)

domingo, 17 de fevereiro de 2008


Clamor e escândalo

A estranheza com que olho o mundo tal como se nos mostra no primeiro decénio do século XXI torna a justificar-se. Certa noite vi um filme de ficção no canal Fox, perdendo o início, portanto o título, mas o filme foi repetido e então, dominando a repulsa, atingi o final. A revolta casa-se aqui com o escândalo mais clamoroso.
O filme, pela voz dos seus intérpretes, proclama que «é preciso matar para comer». Não em tom de comédia, antes em drama sério. Não as espécies venatórias fora dos períodos de caça aberta, sim a espécie humana não protegida. Atónito, vejo militares nos States dos tempos da expansão para Oeste em cenas atrozes de canibalismo. O horror total declara-se ao espectador quando lhe é mostrado que comer carne humana alimenta com poderes mágicos o canibal: ferimentos de tiros, de golpes de espada ou punhal, etc., que ele tenha recebido no corpo ficam curados num instante; e além disso, a besta-fera ganha poderes para-normais! Um major e um tenente, em luta, morrem por fim em armadilha para ursos, mas a danação contamina o general recém-chegado ao forte, que é atraído pelo cheiro da panela e come o guisado de carne humana… Horror!
Sem dúvida, privado de qualquer distanciamento perante o ignóbil, o filme instiga comportamentos desumanos, repelentes e ostensivamente criminosos até à pura insânia em qualquer país. A ficha técnica indica Eslováquia, México, Londres e, claro, a Twenthy Century e a Fox, rede de tv por cabo muito conhecida nos EE.UU. em ligação com sectores republicanos de direita. Ora o filme passa no canal umas quantas vezes e não se ouve um grito de angustiada aflição. Tudo dorme em almofadas de leis escarnecidas, enquanto se propagandeia «mata e come» no planeta globalizado! Até a Igreja, atentíssima na detecção da vida no embrião uterino, fica muda. Tanto silêncio ensurdece!


Manhã recente: o jornal aterrou-me. Um escritor mexicano, de nome obscuro, matara e esquartejara a namorada e apanharam-no em flagrante a devorá-la. Exibia uma foto a cores do canibal, ferido na cabeça e de cara ensanguentada porque resistira à polícia. O filme da Fox, visto há meses, ressurge na memória arrepiada. Para onde caminha esta «civilização» que civilizou povos (para os colonizar) ditos canibais, levando à frente a cruz e o credo?!
Não tarda, chega a notícia de jardineiro ucraniano que mata e come o patrão, na cintura de Lisboa…
É a verdade terrível, instalou-se e expande-se a loucura da barbárie. Curioso, parece que todos olham para o lado. Mas há quem, de olhar fixo, fique no horror, a pensar. O consumismo transforma o consumidor numa máquina com função única de devorar muito e depressa para se sentir pleno. A massificação, forma acabada da tirania, coisifica-o, dissolvendo-lhe a individualidade no caldo anónimo. O princípio da barbárie deve estar por aí, na aniquilação do indivíduo real a pretexto de lhe afirmar um individualismo de fachada.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Destruição global

Chamem-lhe o que quiserem, globalização, desestabilização geral, capitalismo selvagem, imperialismo, porque as consequências reais que expande são estas.
Destruiu-nos o cinema. Os filmes que passam pelo mundo sujeitam-se às categorias catalogadas pelas normas. Generalizou-se o arsenal de recursos técnicos, multiplicaram-se os efeitos especiais e rarearam até à indigência as realizações artísticas ao ponto de o cinema se difundir, degradado, como espectáculo banal.
Destruiu-nos a televisão. Os canais, de sinal aberto ou de cabo, nivelaram-se todos por baixo, cada vez mais baixo, até ao aviltamento em assumida e prazenteira mediocridade. Nem os temáticos negam o populismo nivelado por baixo, a dormência dos estereótipos e das rotinas.
Destruiu-nos os jornais, invadindo-os com publicidade, primeiro para equilibrar falhas da receita das vendas e depois, pouco a pouco, forçando-os a preencher com «conteúdos» o espaço da informação que os anúncios deixavam vazio. Desmiolados, varridos de cultura, sensacionalistas e colonizados pela Visão Única, os jornais assemelharam-se entre si, perderam vendas, e então apareceram e abundaram os gratuitos estraga-papel.
Destruiu-nos o teatro, que paralisou nos palcos autistas à espera de Godot e pouco se atreve a pegar nos clássicos gregos, em Shakespeare, Chekov, Pirandello, Ibsen, Brecht, Lorca, entretendo-se com umas tretas enfadonhas que homens sem qualidades poderão aplaudir. E a dramaturgia nacional?
Destruiu-nos a literatura, impondo a industrialização dos bens culturais no mercado e vergando este aos ditames dos marketings mais fortes. Os livros tornaram-se vulgares mercadorias em circulação que têm de dar lucros rápidos e, portanto, serem de consumo acéfalo. Nada de novo resta para dizer. Os leitores atravessam cada monte de prosa paginada e saem no fim sem recolher patavina do percurso de um ou dois quilómetros de letras alinhadas. Meia dúzia de «autores-marca» que produzam obras «modelares» conforme interessa ao mercado chegam para abastecer a máquina industrial.
Destruiu-nos o prazer natural do jogo, prática lúdica. Confundiu-o com competição acérrima que ninguém quer perder nem que seja por uns ridículos feijões – os golos (caríssimos golos!) Esmagou a variedade dos jogos tradicionais praticáveis até a centrar no futebol e transformou este jogo em espectáculo de multidões e prática especializada de uns poucos profissionais comprados a milhões.
Destruiu-nos a capacidade de pensar e julgar, de ter e proclamar opinião própria, pela insistência em modelos mentais simplistas e repetitivos que conformaram os cérebros massificados pelo rolo compressor de todas as variedades reais em circulação. Tanta opressão e tirania instalou o pior fundamentalismo, o que não se reconhece a si próprio. «Democrata» é quem pensa como nós e ponto final.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O livro do comércio

Repetem-se no meio literário português uns casos curiosos. Habituamo-nos a best-sellers sucessivos. Novos escritores surgem publicando três ou quatro livros por ano. Um, em seis anos, somou mais de vinte: poemas, ficções, peças de teatro. Quer fazer estouro?! Críticos mediáticos deram atenção à obra de um deles, G. M. T. Enchem páginas de parangonas mas dizem pouco. Lembro um por dizer que o autor era muito criativo: em vez de escrever, por exemplo, «a vizinha Espanha», preferia «a Espanha vizinha». O crítico, então, não estaria deslumbrado, estaria expectante. Mas G. T. M., nascido em 1970, inunda tudo de persuasão alagadora. Só nuns quatro anos iniciais, averbou na sua bibliografia catorze títulos (ficções e poemas), diversos dos quais distinguidos com prémios, traduzidos e editados no estrangeiro… A obra recente do autor trazia já na contracapa, como abonadores do seu génio, palavras encomiásticas de Hélia Correia e Eduardo Lourenço, além de Helena Vasconcelos e Mafalda Lopes da Costa. Um leitor, crendo na praça literária lisboeta (onde se fazem e desfazem famas e reputações e tudo acontece porque o resto do país é «província»), pega no livro e aprecia. Espanto! Onde estará a Jerusalém reconquistada, a revelação, o génio, o maravilhamento?! Espanto a recrudescer: passa um tempinho e o romance é cumulado de prémios e celebrado como a obra máxima do ano na Itália, no Brasil, depois na Europa multinacional!...
…E vem à memória a resposta mordaz que Humberto Eco, o sabido, deu numa entrevista por volta de 1990: decidira parar de ler as novidades literárias e esperar dez anos para então, se valesse a pena, lê-las! Sugerindo que essas novidades de estrondo iriam antes ficar esquecidas…


Faz-se lembrar o discurso que o romancista John Maxwell Coeetzee dirigiu à Academia Sueca ao receber em 2003 o Prémio Nobel de Literatura. Não foi um discurso formal, pois se assumiu como narrativa, significativamente intitulada «Ele e o seu homem». Muito a propósito, observou: «Porque lhe parece agora que no mundo há apenas um punhado de histórias; e proibindo-se que os jovens pilhem os anciãos, os jovens terão de ficar para sempre em silêncio.»
Mas quem os cala?

A transformação do livro, objecto com dignidade cultural, em vulgar produto de consumo expansivo, rápido e lucrativo, declarou-se na onda de compras das principais editoras portuguesas pelo grande capital. Apanhados de surpresa, os leitores não estavam nem estarão preparados para enfrentar a viragem. O livro produzido pela indústria cultural banalizou-se. Abunda nas grandes superfícies comerciais e serve, como chiclets de mil sabores, para levar à boca, mas engorda como fast-food e talvez venha a substituir o Prozac. Entra por uma abertura e sai por outra sem deixar coisa que se veja, nem memória, no tubo…

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Prestígio exterior

A mim e aos companheiros do jornalismo da mesma geração surpreendeu-nos sempre o prestígio incrível que esta profissão tinha para quem a via de fora. Era profissão sedutora, alvoroçava as imaginações ao ponto de tornar inacreditável, por tão estreito, um salário real. Triplicado, já convencia… Porém, conseguir multiplicar por três o vencimento sem mentir ou sem atropelos mais ou menos sérios à deontologia e à honra pessoal, era raro. Logo, como estranhar? Ocorriam cedências, pecadilhos, venalidades, acordos escondidos na manga. Chegou a dizer-se que comprar um jornalista nem era caro, bastava um almocinho e umas palmadinhas nas costas. A redacção continuava «escola de civismo». E foi assim… Começara a publicar uma série de textos acerca do valor da floresta enquanto elemento ecológico, económico e paisagístico para enaltecer o mérito da fibra da madeira inclusive para o fabrico e exportação da celulose. Ao segundo dia, o companheiro J. C. quis apresentar-me um enviado por uma empresa produtora da celulose. Quis ele saber que havia mais três textos da série para sair, fez-me notar a preocupação da sua empresa quanto ao teor do meu trabalho e eu pude tranquilizá-lo: tratava então, simplesmente, de «descrever» pela rama os dados factuais do sector nacional, não de estabelecer abordagens polémicas. Não o terei conseguido de todo. O companheiro J. C. logo me convidou a, se quisesse, passar a receber da empresa um estipêndio. Declinei a oferta e fiquei mais bem informado de quem era quem na redacção.


Conheço J. T. do trabalho nos jornais. Por vezes surge no café matinal onde sabe que me encontra debruçado na leitura das notícias. Hoje telefonou a manifestar uma estupefacção.
- Fui ao seu café e não o vi. Mas quer saber? Perguntei se você ali tinha estado e se já tinha saído, disse o seu nome e lá ninguém sabia quem era!
- Pois não. É natural que ignorem o meu nome.
- Então você não frequenta aquele café há dezenas de anos?
- É verdade, frequento. Mas nunca houve necessidade de lhes falar de mim. Basta-lhes saber que desejo o café cheio, sem açúcar e bem tirado!
J. T. conhece meia cidade, sabe juntar o nome a cada rosto que circule na praça, conhece a crónica de muita gente, devia estar a ouvir-me com imenso espanto. Porque onde pára, faz conversa. Diz quem é e indaga de quem lhe fala. Serei eu menos comunicativo? Na verdade, entro naquela porta e sento-me àquelas mesas há uns 25 anos bem contados, lidando agora com os terceiros donos do café. Encontro migalhas espalhadas pelo tampo ou a cadeira, o ambiente poluído por fumo e vozearias, fulanos a cervejar às 9.15 horas da manhã. Ora, ora, em mim o hábito manda e comanda.
Para cúmulo, o café ostenta um nome absolutamente insólito: «Belo Sonho». Levou-me a escrever um conto com esse título.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O que o povo quer...

Pelas mesas do café onde me sento de manhã para ler o meu diário vejo andar de mão em mão o suplemento de pequenos anúncios do jornal em que escrevi a espaços ao longo de quase toda a vida. É notório: a leitura daquelas páginas enegrecidas pelas tintas interessa a freguesia muito mais do que a treta desportiva… e eu sei os gordos lucros que o suplemento dá à empresa editora!
Habitações para alugar ou em compra-venda, negócio de automóveis, ofertas de sexo, empregos, etc., geram um caudal publicitário que, em termos comparativos quanto aos espaços ocupados, é dos mais caros da tabela de publicidade. Entretanto, a «feira» dos pequenos anúncios agrandou-se e transformou-se numa espécie de instituição.
Aquele suplemento a passar de mão em mão e de mesa em mesa, como bíblia matinal, acorda em mim uma recordação. Nostálgica, fatalmente, pois está a virar-me para um tempo remoto, meados dos anos ’80. Constava-nos que a administração do jornal mandara fazer um estudo-inquérito de mercado cujas conclusões mantinha num secretismo singular. A nenhum jornalista eram divulgadas e apenas alguns «interlocutores válidos» dos administradores pareciam conhecê-las de raspão, mas estes limitavam-se a prevenir-nos que as conclusões eram absolutamente explosivas, arrasadoras.
Na altura o jornal venderia uns sessenta mil exemplares diários e já ocupava uma boa quantidade de espaço com os pequenos anúncios, de modo que a gestão da empresa era folgada, lucrativa e mesmo apetitosa. Situação grata em especial para os jornalistas da casa, que se esforçavam por elaborar uma informação isenta e séria, percebendo que todo o jornal do dia se submete na rua a um eficaz plebiscito. Pelo que compram e lêem, os leitores decidem o que querem…
Os vinte anos seguintes promoveram uma viragem total. A meia dúzia de páginas tornou-se suplemento (em tamanho, quase outro jornal só de anúncios), os jornalistas isentos e sérios foram-se embora levando consigo os ideais, o jornal duplicou as vendas graças a uns concursos comezinhos e começou a dar os maiores lucros de sempre (agora a outra empresa proprietária).
Na verdade, as conclusões do famoso inquérito apontavam justamente – soube-se mais tarde – para esta preferência maioritária de leitura popular: pequenos anúncios!
Assim o povo ordena… com a inteligência que denota.


Participei como secretário numa direcção de jornalistas da qual L. H. M. era presidente. Projectei a publicação de uma folha de informação para os sócios, elaborei a folhinha A-4 dobrada ao meio e mostrei-lha. A primeira página abria com «editorial», um breve texto não assinado que apresentava e justificava a edição. Ao devolver-me o original, o presidente apontou a gaguejar para uma emenda que fizera naquele texto: em vez de executar escreveu realizar. E mais nada. Mas no fim, lá apareciam umas iniciais acrescentadas: L. H. M. Saúdo o grande autor!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Escritores e intelectuais, hoje

Os escritores e os intelectuais em geral estão, neste tempo de paradigmas perdidos, mais que nunca, colocados no fio da navalha. Sobretudo os mediáticos, fazedores profissionais de opinião. Como atender ao papel que por definição lhes cabe desempenhar na sociedade europeia, hoje? Deixarem-se levar pela corrente pode ser cómodo e apetecível, mas pode também significar traição. Questão fulcral nos anos limiares do século XXI, leva-nos a retomar, com evidentíssimo proveito, alguns trechos de Claude Julien:
«Mas as escolhas daquele que escreve são ao mesmo tempo mais complexas e mais simples. E muito limitadas as opções que se lhe apresentam. Fugindo de negociatas e arrivismos, dedicando-se exclusivamente à sua arte, ele pode optar por se retirar para longe do ruído e do furor que tantas vezes nublam a vista, confundem o entendimento, paralisam a reflexão. Este mundo trepidante, ébrio da sua própria febrilidade, rapidamente condena semelhante retiro; isso de alguém desejar assim abstrair-se da agitação e das tormentas, dir-se-á, é trair a fraternal solidariedade dos homens, abandonar ao seu trágico destino as vítimas das crises que dilaceram o planeta, e talvez enterrá-las mais ainda no seu drama de fome, humilhação e sangue.»



No entanto, para Claude Julien, subsiste a eficácia do recolhimento no mundo dos nossos dias:
«O activismo nunca foi a melhor forma de as pessoas se inscreverem utilmente nos debates contemporâneos. O facto de uma pessoa se lançar para o meio da contenda em nada garante que fique na história, e que alguém se retire numa torre de marfim não é necessariamente uma traição. Muito pelo contrário, a tentação de o fazermos vai-se tornando cada vez mais forte, e cada vez mais justificada, à medida que aumenta a velocidade da máquina de trucidar gente.»
O Autor pondera a questão «o verdadeiro é o que vence?», mas aponta «um único outro modelo possível [nem o do contemplativo nem o do ambicioso]: o do intelectual que não pretende deixar um nome nas crónicas, que nem sequer tem a ilusão de pesar na evolução das ideias e dos acontecimentos. Mas que apesar de tudo luta, mesmo estando convencido de que irá perder o seu combate.» (Prefácio ao livro Le Devoir d’irrespect, Paris, 1979.)


Ando a lembrar-me da resposta que André Gide deu a quem lhe anunciava que um certo leitor pretendia conhecê-lo pessoalmente. «Para que quer ele conhecer-me»?, ripostou. «Já conhece o melhor de mim!»
Percebe-se porque o dito, muito difundido, deixou de circular neste tempo, e até se percebe por que motivo os livros de Gide entraram no desvão literário. Actualmente os escritores querem ser «vedetas mediáticas», actores em cena aberta. E os leitores, arrebanhados, aplaudem.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Foto: A. M., Silêncio recolhido (Palácio de Cristal)

Querer não querer

– Quero não querer! – disse eu como quem se justifica de modo a esclarecer a conversa.
– Olha, olha, ele não quer nada! – exclamou o meu interlocutor. Reagira em voz alta para ser ouvido, em manifesta discordância e até de absoluto escândalo, como se me acusasse, perante os presentes, por eu ter dito que ia atirar-me da janela da redacção, contagiar-me de olhos abertos com sida, ou querer morrer já ali fulminado.
– Eu não disse não quero, disse quero não querer! – reafirmei, paciente e melancólico, sabendo perfeitamente que não mais seria atendido. Podia contribuir para fortalecer uma ideia feita, não para a corrigir ou anular.
Se tivesse dito algo como: desejo não desejar, ambiciono não ter ambições, interessa-me não ter interesses para exprimir a mesma atitude de princípio, obteria idêntico resultado. Arriscava-me, desafiando a compreensão de quem me rodeava. Dava-me a conhecer como «outro», mas eles ouviam-se surdamente a si próprios na esfera restrita dos seus interesses onde apenas os «semelhantes», num jogo de espelhos, eram reconhecidos…


Em circunstância posterior ousei experimentar outros companheiros próximos. Poderia falar de modos diversos para exprimir a mesmíssima coisa, mas foi isto que me saiu:
– A minha ambição é não ter ambições.
Claro e perceptível era o sentido da frase, conjecturei. Errado! Um colega saltou imediatamente e, atravessando a redacção, clamou em acusação para escândalo geral:
– Ele não tem ambições!
Mais escandalizado, porém, fiquei eu. Afirmara exactamente o inverso, definindo até uma posição quanto a isso, mas o companheiro de jornalismo não me ouvira – ouvia-se!
Porque, vejamos, eu tinha ambições (e, ai de mim, vou tendo), só que eram diferentes e até divergentes das que a lei do número ditava no rebanho onde o colega se inseria. Contudo, as minhas ambições pessoais, que de resto declarava querer banir, não eram reconhecidas ou reconhecíveis pela mentalidade reinante. Tão-pouco era lícito (leia-se decente) proclamar ambições diversas dentro do rebanho sem discutir, reflexamente, a lei do rebanho. Lei totalitária, portanto. Do grupo contra o indivíduo isolado. A aconselhar a uniformização, pelo menos aparente, das mentalidades e comportamentos gerais, ou seja, dos valores éticos e estéticos do grupo. De contrário, o «resistente» era tomado por ceguinho. Inteligente era apenas quem mostrava pensar e agir como eles. Ambições, sim, apenas as «normais», de gente «normal».
De qualquer modo, estes confrontos foram assaz esclarecedores de quem era eu e com quem estava…

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Recordações

Em 1958, estava eu de regresso à terra natal. Henrique Barreto continuava a dirigir o «semanário republicano» por ele fundado e em cujas páginas começara a escrever artiguelhos uns cinco anos antes. Mas o homem ia então nos 82 anos e o seu jornal, a «Gazeta de Cantanhede», a publicar-se desde 1917, também pediria algum renovo. Era difícil lançar naquele tempo um novo jornal, pois o regime da ditadura filtrava cuidadosamente as candidaturas à respectiva licença. Iria a «Gazeta» acabar quando o seu director e proprietário desaparecesse? Por que não pensar e preparar uma evolução?
Um dia, em conversa cordial à mesa do café próximo, expus-lhe estas considerações. Não desejaria ele ter um continuador?
Acendeu-se nos olhinhos frios de Henrique Barreto uma chamazinha. Mas ele propôs um negócio, uma venda. Vendia-me o jornal – assim mesmo! Por que preço, indaguei. Trezentos contos. Era quantia avultada e até bastante inesperada (serviria para comprar um prédio catita), que no entanto ele se esforçou por justificar: o jornal dava-lhe um lucro líquido substancial. E era receita regular, pingava.
Não pudemos chegar a acordo, lamentavelmente. Adverti-o de que, por tal caminho, a «Gazeta» iria extinguir-se sem deixar rasto nem qualquer glória para o seu fundador. E foi o que aconteceu em 1973, quando morreu Henrique Barreto. Sem proventos de venda…


Celestino Neto era pessoa respeitável, muito recta e ponderada. Recebera nas mãos, por disposição de Eugénio Ribeiro, o semanário «Independência d’Agueda», jornal com tipografia própria, e manteve-o sem quebra, desde 1962, graças a apoios de colaboradores e amigos fiéis. Se as colaborações minguavam, a velha máquina de escrever do director demorava-se mais tempo a bater as teclas para que as páginas do semanário saíssem preenchidas e a correspondência continuasse a ir para o correio. Desistiu sentindo-se esgotado de forças, mas antes cuidou de lançar um aviso para que os amigos do «semanário republicano» interviessem de modo a garantir a continuidade da publicação. Ele «herdara-a», queria doá-la a quem a merecesse.
Aquele aviso, e também apelo, lançado aos democratas de Águeda, teve um único efeito: informados por Celestino Neto de que eu, recém-saído do «Jornal de Notícias», admitia a hipótese de «pegar» no jornal, inclusive mudando do Porto para lá, fui convocado para uma reunião nesta cidade. Deparou-se-me um grupo de apoiantes, meia dúzia de indivíduos, alguns dos quais desconhecidos, e por fim acordámos, facilmente e de bom grado, na solução. Eu iria tomar conta do semanário, era compromisso não escrito mas validado «porque era de cavalheiros».
E nem mais uma palavra se ouviu sobre o assunto. Nunca mais.
Celestino Neto desapareceu em 1969, com 82 anos. E o jornal também, tristemente.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Jornalistas de caneta

Os jornalistas do meu tempo começaram por manuscrever os seus textos, passaram para as máquinas dactilográficas, tiveram que começar a contar os espaços e as linhas dos escritos e adaptar-se depois aos teclados dos computadores. Nem todos conseguiram acompanhar esta viragem. Um deles foi NTN, que acabou a carreira ainda a garatujar no papel umas letras que nem ele próprio por vezes entendia quando já estava prestes a perder no jornal o derradeiro decifrador dos seus caligramas.
De certo modo, NTN seguiu, emudecido, para a reforma com o fim de uma era tecnológica. Comigo deixou a recordação de umas quantas disputas pirrónicas. Exemplo: questionava o género feminino em ministro, juiz, arquitecto e, oh céus, com estoicismo, admitia tão-só a secretária!; e desacreditava o homem que na força da vida lhe afirmasse ter sexo quase diário, até abria bem a boca para troçar da «mentira» sobretudo se o gabarola não tivesse filhos declarados. Em honra de um deles compôs um lembrado epigrama (de que guardo o original, por ele laboriosamente batido à máquina, em folha da redacção): «Trinta fodas bem espetadas / dá por mês o nosso homem; / mas é semente perdida / pois por garanhão que o tomem / nem em cu nem em barriga / se viu a levedação / de tão grande fo[r]nicação.»
Corrijo a omissão da letra na última palavra: um lapsus linguae?
Foi ele dos primeiros licenciados a ingressar na profissão, acho que no início dos anos ’60, em jornal do Porto. Padecia de insónias. De vez em quando punha-se a cochilar, hirto na sua cadeira ou de cotovelos sobre a mesa. Notando-o, o chefe de redacção, a vir de passagem das oficinas gráficas, comentou:
- Aqui temos o melhor comentário ao jornalismo português!
Reinava ainda o regime da mordaça, a censura prévia.
NTN era jornalista bastante respeitado. E, apesar de tudo, bom conversador. Um dia o diálogo levou-me, para encerrar a questão, a concluir:
– Bom, mas os idiomas nascem todos de erros.
– Oh, não! – discordou de imediato. – Há regras…
Pelo contexto, entendi que ele admitia a existência de uma espécie de idioma original, feito e perfeito, do qual todos os outros, posteriores, teriam derivado. Mas ambos conhecíamos o duplo significado de «errar»: praticar um erro ou seguir por um desvio, andar ao acaso. E ainda que possam ter existido uns poucos idiomas «originais» – não um único, em África, berço da humanidade –, é óbvio que a Torre de Babel que atordoa o mundo resultou de múltiplos desvios e erros em propagações e ramificações sucessivas. Estudou isto muito esclarecedoramente Merrit Ruhlen em A Origem da Linguagem.
Aspecto interessante relacionado: os especialistas detectam um paralelismo entre a evolução das ramificações linguísticas e a dos genes das etnias. Parece que uma evolução foi acompanhando a outra…

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Génios

Apreciadores das criações artísticas deveras admiráveis defrontam-se ciclicamente com esta questão inesgotável: não será inerente ao génio uma qualquer psicopatologia? Até que ponto o ser genial resultará de uma «anormalidade»? Em termos corriqueiros: poderá alguém ser «genial» sendo «normal»?
A pergunta regressa a nós como boomerangue lançado e esquecido. Trazendo na cauda de meteoro questões como a de saber se a epilepsia será de todo uma doença. E empurrando-nos para venerandas galerias onde desfilam Da Vinci, Galileu, Mozart, Dostoievski, Shakespeare, Van Gogh, Picasso, Einstein, Pessoa…
Nem vale a pena questionar o que será «ser normal» ou arguir que é gente vulgar a que arruma os génios na galeria das mentes perturbadas, pelo catálogo das maleitas, apenas porque os vêem brilhar a incomensurável distância. É razoável supor que o ser genial aparece na biografia com uma marca tremenda, atingido por uma espécie de danação ou de um excesso. Isso, porém, nem sempre é bem interpretado. Na verdade, os génios ficam possuídos por uma pulsão que os leva a esventrar tudo o que lhes trave a realização. Estará nesse ponto dramático a medida da grandeza maior que cada um atinge?
Hermann Hesse, Nobel de Literatura em 1946, destacou no caso o impulso primordial. Escreveu: «O princípio da arte é o amor. O valor e alcance de toda a arte serão determinados sobretudo pela capacidade de amar do artista.» Afirmação talhante, mais nítida, definitivamente, com esta outra: «Génio é força de amor. É anseio de doação.»
Aqueles muitos que tentam compatibilizar a realização da sua obra com as suas necessidades vitais (isto é, habituais: amizades, família, sociedade, prazeres) parecem ficar envolvidos por uma mediania. A vibração que nos comunicam não sacode fortemente os arcanos mais esconsos da humanidade – da nossa própria humanidade.
Condição inapelável, a arte terá sempre que mergulhar na humanidade até o fundo mais fundo da sua aventura. Mas será a pessoa de cada artista que terá de responder com as suas opções na escolha do seu caminho: génio é anseio poderoso de dádiva, é força de amor. Não precisa que lhe digam que só alguns alcançam a categoria maior e também não cai na toleima – tão presente na nossa actualidade – de se apresentar como genial de aviário ou a caminho de o ser antes de ouvir um coro de vozes livres que lho imponham. Percebe o conjunto de talentos e de intuições, de perspicácias e de visões, de coragens e de entregas, que uma genialidade autêntica mobiliza para se organizar, avaliando isso pelo que lhe falta.
Os génios rareiam tão naturalmente quanto os cimos altaneiros avistados ao longe pelos habitantes dos vales e, para alguns, das meias alturas. Naqueles cimos divisa-se a redondez do horizonte, mas chega-se lá com esforço, em fila indiana, porque em socalcos serranos não entra a roda. E quem afirma que os habitantes dos vales e das meias alturas trepam poucas vezes aos cimos augustos porque, acomodatícios, perros das pernas, se limitam ao rés-do-chão? São eles que mais abundam e mais nos acompanham. De qualquer modo, todos os artistas são convocados pela partilha.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Encontrei-o esta manhã

Cruzei-me esta manhã com P. G., antigo colega de jornalismo. Esteve um passo à frente de mim na hierarquia do jornal (imagine-se porquê) e reformou-se com 40 anos de serviço naquela casa com a categoria de chefe de redacção longamente mantida - sem escrever um texto mas afiançando o comportamento ao serviço das administrações.
Notei que estava mais gordo, com excesso de peso, e ele, com a cabeça de prego na água que se lhe conhece, explicou.
Tinha ganho mais dois quilos de peso, apenas. Porquê? Deixara havia meses de usar gravata e o sangue subira-lhe pelas veias do pescoço e ficou assim, gordo só na cara. Mas agora corrigia o caso, tornando a usar gravata!
Aparecia na rua engravatado, é certo. Tinha 75 anos e a cara inchada, sem uma ruga - aquela cara que Altino do Tojal, no romance A Homenagem, achou que, se lhe escarrassem em cima, o dono aproveitaria para fazer a barba.
Grande novidade, porém, é esta: P. G. abria agora a boca, ó espanto, para se queixar dos administradores que ele, o fiel serventuário, servira ao longo de 40 anos. O jornal (papel sujo de tinta que sempre quisera de leitura leve e rápida, uns cinco minutos, e depois atirado ao lixo) já não lhe chegava a casa pela oferta da praxe. Falara com administrador amigo, e nada. Então ele, embora retirado, mas tendo prestado tão bons serviços, já não contava?!
Tem toda a razão S. T. (depois reitor de universidade): aquela cabeça é mesmo de prego. Nadando, cai para a fundura.
Outra boa gente considerou desde sempre negligenciável ou pior o P. G. Nunca faltavam motivos para isso. Em relação a mim desenvolveu uma rivalidade surda, talvez mesclada de inveja pessoal e de serviço contra a esquerda. Eu entrara para a redacção sendo já cronista regular do jornal e colaborador do «Suplemento Literário». Era ali um «literato», visto de revés. Tratei de ter cuidado, mas P. G. tinha «poder» e exerceu-o. Impediu-me, em Setembro de 1963, de ir à Figueira da Foz para um encontro cultural-literário que eu organizara com A. A. M. Depois, em Junho de 1964, fui levado pela Pide. Regressei passados três meses, P. G. ganhou balanço (o ambiente da ditadura ajudava). e, de parceria com um subdirector (o F. C., futuro administrador da RTP reciclado para a democracia), intrigando, arranjou modo de me ver porta fora em 1965. M. P. M., director e bom amigo, deixou-o agir, depois arrependeu-se…
A democratização permitiu-me voltar para o «meu» jornal. Um «preço» me foi imposto e, decorridos uns doze anos, um «preço» final também suportei aquando do acordo de reforma um pouco antecipada. O P. G. cantou vitória: tinha-me «expulso» da cidade e devolvido às berças...
Esta manhã esclareci-o: continuei a residir no meu lugar (felizmente arredado da estrumeira cada vez mais pestilenta da redacção), entregue ao meu primeiro amor, a literatura. O boato idiota posto a correr, de que trocara a cidade pela aldeia, fora ele próprio que o lançara! Ainda quereria mantê-lo?!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Liberdade, liberdade

O vício da crónica encaminhou-me a pouco e pouco para escrever fora do jornal, nas manhãs domésticas, portanto nos meus ócios. Assim mantive a derradeira coluna daquelas minhas colaborações semanais. Ocupava tempos livres mas ganhava tranquilidade. Porém, acabei por desistir definitivamente da tarefa. E foi assim…
A última crónica, por sinal com o título de «Liberdade, liberdade», ficou com a publicação complicada. Por que motivo?, indaguei. Alegou-me o responsável, S. A., que a escrevera num dia em que estivera de baixa por doença, com gripe.
E isso impedia-me de manter a colaboração regular?, estranhei. Uma colaboração que oferecia ao jornal que me empregava?, sublinhei.
Isso mesmo!, reafirmou.
«Liberdade, liberdade» saiu mais tarde (pudera não!) mas encerrou a Linha de água, título da coluna. Viu-se então, dava água pela barba aos meus próximos. E tinha leitores fiéis, alguns dos quais logo me manifestaram que devia retomar a coluna. Exprimiam-se em termos simpáticos, sem dúvida, embora insinuando também que estava a faltar-lhes com algo a que tinham direito. Pois não continuava eu a trabalhar no jornal? Retorquia-lhes, paciente: escrevam uma cartinha à direcção do jornal a dizer isso mesmo, não é grande maçada, pois não?!
Acredito que nem um amigo daqueles se deu à maçadoria. E o direito a exigir de mim manteve-se de pé: a um autor cabe ter deveres…
Um clima de inveja manifestou-se de corpo inteiro no jornal quando me dispus a publicar O Museu no Sótão, livro que recolheu uma quantidade de crónicas saídas naquela coluna. E de novo S. A. interveio com excepcional dureza: pretendeu impedir – sim, impedir – a publicação do livro, alegando que as crónicas pertenciam ao jornal! Crónicas escritas por mim nos ócios e… dadas de mão beijada!
Consultei um especialista de Direito do Autor, L. F. R., que me confirmou as ideias. Os textos, assinados por mim, continuavam realmente a pertencer-me três meses decorridos que fossem sobre a sua publicação.
Evidentemente, ninguém conseguiu travar a edição do livro, mas deu-me a medida do que na sombra se urdia. Fiquei sem pinta de vontade de tornar a ver o meu nome impresso naquelas páginas indecorosas.

Uma evocação de Ribeiro Sanches que redigi à pressa em folga de fim-de-semana e que saiu no jornal a tempo foi distinguida com prémio pecuniário. Aconteceu, porém, que a notícia respectiva acabou descartada, caso estranho porque de regra é o próprio jornal se honrar nessas ocasiões. Mas os chicos-espertos são mestres no manuseio dos seus recursos.
Divulgou o prémio a imprensa da concorrência.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Uma segunda natureza

Os hábitos são para mim o que normalmente são para qualquer idoso: uma segunda natureza. Encetar o dia às 7 horas ou algo depois e sair de casa em cima das 9 horas colou-se a esta rotina diária como pássaro ao voo. De jornal na mão, procuro a mesa do café, notando a presença próxima de clientes certos como eu. Uma senhora de meia idade avançada poisa os óculos nas páginas de um diário de mexericos, lendo-as a todas com uma minúcia e uma atenção concentrada que maravilha. Detém-se para tagarelar em voz alta com as vizinhas. Um velhote, seguramente reformado, fuma absorto, de beiço caído, a resolver problemas de palavras cruzadas, crucigramas, «sudokus», etc. Outro cliente habitual senta-se, fumando, com dois jornais desportivos para estudar como quem interioriza um argumentário para enfrentar assembleias de infiéis. O caderno dos anúncios anda de mão em mão, em redor de uma mesa rodeada por cinco raparigas e um rapaz, todas fumadoras menos ele e todos interessados em garimpar no rio da publicidade. E chega a senhora idosa do costume, taciturna, de cigarro fumegante na mão, a anunciar-se ao longe pela tosse cavernosa; depõe as bolsas de compras numa cadeira, bebe a goles o café, termina o cigarro e sai. Que sabor terá o café engolido de mistura com o fumo?
Levanta-se agora a moreníssima trintona, outra vez grávida mas sempre de cigarro na mão, que sai com os três acompanhantes diários para irem abrir a loja vizinha de compra e venda de objectos usados. O fulano corpulento do tique nervoso na perna, cruzada ou não, lá está encaixado a custo entre a cadeira e a mesa, a tremelicar fazendo horas. E chega outra rapariga, de cigarro a arder entre o indicador e o dedo médio da mão direita, gesto mais precioso que o de uma majorete em parada a erguer o joelho; também procura o caderno dos anúncios, vê-o noutras mãos, pára junto da máquina dos cigarros, baixa-se para colher um novo maço e, contrariada, sai. O dono da loja dos telemóveis e a companheira acabam de tomar o pequeno-almoço, ele repara na rapariga que sai e cumprimenta-a com breve aceno. Somente três pessoas, este casal e eu, de todos os presentes, não fumam… e a sala está cheia.
Cheia de fumo, de ar poluído, irrespirável.
Devo crer que as pessoas vêm ao café, mais que tudo, para fumar? Como cães que vão à rua para se aliviarem no passeio, diante dos nossos narizes?
Passei a maior parte da vida a suportar o fumo dos outros, façam o favor de ver o estado do meu aparelho respiratório, fartei-me de passividade! Encaro fixamente, olhos nos olhos, durante uns segundos, uma fumadora próxima, tentando adverti-la de que está a sujar o que é para mim uma necessidade vital inapelável, sendo ainda o mais elementar dos meus direitos, respirar, e ela baixa os olhos, lisonjeada, entendendo que a acho uma rapariga bonita, admirável…
Está bem, concordo, ao tabefe não se chega a lado nenhum. Mas não servirá ao menos para acordar quem adormece embalada como criancinha no berço?

[Trago da gaveta este texto para dar à proibição de fumar no meu café as boas-vindas!]

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Foto: A. M. Lembrança das caldas de ChavesPosted by Picasa

Não são de ninguém?

Uma das experiências mais marcantes da minha vida recolhi-a em 2003, em contacto com estudantes (do 2º e 3º ciclos) de um colégio católico de Famalicão, Anadia. Aceitara o convite para ir falar-lhes dos autores e da cultura regional bairradina e do lugar que ocupam no universo da cultura portuguesa. Uns duzentos jovens, aproximadamente, encheram a sala. Uns quantos, pelas idades aparentes, indiciavam insucesso escolar.
Perante tal público, comecei por um preâmbulo para enquadrar o tema e lembrei o habitual sistema de pertenças que nos envolve e socializa. Uma estranheza tornou-se em breve tão nítida que, enfrentando-a, interroguei quem me ouvia:
- Então vocês não sentem que pertencem às vossas famílias, às vossas amizades, à vossa terra, à equipa de futebol que aplaudem, à pátria, e até ao próprio tempo da vossa vida?!
Respondeu-me um mutismo absoluto. Espantoso.
Considerei o motivo: era só um, o mais tremendo.
Aquelas novas gerações sentiam que não pertenciam a coisa nenhuma! Desenraizadas, sem referências visíveis, sem pais nem mães, sem namoros, sem raízes. Entregues a si mesmas, sim, mas arrebanhadas e ensimesmadas, despojadas de qualquer pertença. Nem religião, nem igreja, embora estudassem em escola dirigida por uma religiosa. Supondo talvez que nessa matriz desmatrizada estaria a afirmação mais conseguida de uma autonomia individual pós-moderna!
Gelei. Abreviei a palestra que tinha em vista e a sessão remediou-se com um excurso sobre jornalismo e temas conexos, assaz excitantes para aquelas imaginações juvenis. Mas ponderei: como poderão viver estas novas gerações privadas de qualquer sistema real de pertenças?
Barricando-se num opaco individualismo (supondo que assim reforçam uma mirífica autonomia), os indivíduos amesquinham-se e perdem-se.
Sem dúvida nenhuma, para todos os efeitos, são as ligações estabelecidas por cada indivíduo às suas comunidades concretas (a pequenina e, degrau a degrau, até as maiores) que, socializando-o, lhe atribuem uma dimensão humana. Sem tais ligações, o indivíduo mora no vento. Sem densidade, paira.
À memória vêm, inevitáveis, determinadas cantigas que andam no éter. Uma voz de certa banda portuguesa muito popular, entoa: «Quando se nasce nasce-se selvagem, [tu, jovem] não és de ninguém»; e outra voz, de outra banda, alinha: «Ninguém é de ninguém mesmo quando se ama alguém»… Palermices deletérias que as rádios, incluída a RDP, elevam frequentemente à antena!
Eis as parcelas e a soma. E não há quem se queixe?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Contemplações

Um crítico literário estabelece na prática a abrangência de géneros e de estilísticas da sua intervenção. Será, por assim dizer, essa a opção assumida na matriz do seu gosto, pois dificilmente poderia ser «universal», aberto a todo e qualquer livro. No caso de R. T., aprecia amiúde ficções, poemas, narrativas. Redige umas notas de leitura sobre livros para crianças por fraternal companheirismo com os respectivos autores, não por pretender possuir qualquer competência específica. Mas supõe-se que esta competência cintile com especial brilho em fulanos que, como J. A. G., exibem formação académica apropriada e um longo tirocínio pontuado por imensos textos na imprensa periódica e alguns livros de estudos e ensaios inseridos nessa área. Pois, apesar de tudo, aconteceu a surpresa. E foi assim…
Há anos, ofereci ao J. A. G. um livro de histórias «para crianças» acabado de sair e respondi-lhe na ocasião às diversas perguntas que formulou. Indagou-me de certas características do livrinho, o sentido e o alcance literários do texto, etc., e eu tive muito gosto em explicar-lhe as minhas motivações, persuadido, então, de que sintonizávamos ambos idênticos valores éticos e estéticos (depois o fulano passou a dar vivas ao mercado e às suas leis). Foi, porém, com espanto genuíno que encontrei na apreciação por ele elaborada a seguir tudo o que eu lhe dissera e… quase mais nada. Releio agora essa apreciação «crítica» num volume já a amarelecer. Como este sorriso.



Os excessos nefastos que se acumulam neste tempo fazem-me evocar amiúde, por contraste, o exemplo admirável de homens, grandes cidadãos, que conheci e recordo com vivo apreço. Ruy Luís Gomes, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Agostinho da Silva, Óscar Lopes, Armando de Castro, António Borges Coelho… Ou Carlos Paredes, Fernando Lopes Graça… Cidadãos verticais, com uma enorme dimensão humana, cultural e social, sempre modestos e afáveis a cada momento, simples e sem jactância, confundíveis com qualquer figura do povo. Ainda mais admiráveis por isso mesmo.
É dever nosso segui-los de olhos fitos, recusando arrogâncias, exibicionismos, alaridos de feira, vaidades de três ao cento. Neste diapasão se torna audível a mais fidedigna e veemente categoria da pessoa real, a sua verdadeira substância humana.
Nunca a menosprezar os outros alguém conseguiu fazer-se respeitar. Talvez nem mesmo fazer-se temer (atitude expansiva com algum sinal terrorista).


No que escrevo vai o melhor de mim, leia-me quem queira! Nestes termos faço minha uma frase célebre de André Gide (a duvidar do interesse que alguém, um leitor, poderia ter em ir conhecê-lo pessoalmente). Mas sempre venho procurando que a distância entre o que exprimo e a pessoa real que sou se revele diminuta ou, se possível, inexistente. Acompanho Rilke (1875-1926): «Eu não vivo em sonhos mas sim na contemplação de uma realidade que talvez seja o futuro.»