segunda-feira, 31 de março de 2008

Somos testemunhas!

Nesta final-idade em que me vejo, volto-me para o passado sem o castigo da mulher de Loth, porque é na actualidade do mundo que me transformo em estátua de assombro imóvel.
Vê-se a população ensimesmada, atomizada em solidões irredutíveis, massificada em estereótipos pimba, banida da informação decisiva para o exercício da cidadania, distraída com jogatinas e espectáculos a rodos entre corridas estéreis.
Habituando-se mais e mais a uma passividade bovina, ao conformismo incómodo, à derrogação sistemática. Anestesiada por corrupções em denúncia contínua, banalizante, escamoteadora. Caminhando aos magotes pelos labirintos dos grandes centros comerciais, a consumir com os olhos ou a crédito. Instalando-se na submissão pela prática do juízo suspenso (que aconselha a calar a opinião própria excepto quando se trate da defesa do próprio interesse, altura em que o indivíduo, estremunhando, estará sozinho perante o flagelo), até ficar sem opinião.
Primeiro a população não sabia o que lhe escondiam, depois foi deixando de querer saber. A parte viva que existia latente no seu íntimo, onde apreendia o sentido humano, isto é, o senso moral, embotou-se, deixou de reagir, e a capacidade pessoal de indignação ficou tida não apenas como inesperada, também como inconveniente.
De mistura com as mentiras e meias verdades em diária circulação, multiplicam-se os casos de escravatura económica e sexual, enriquecimentos súbitos inexplicáveis, raptos, torturas, violações impunes das leis, feitiçarias e outras crendices medievais, canibalismo… São estas as pedras, de formas diversas, que recobrem os pedregais do nosso caminho. A capacidade de espanto cede o lugar ao embrutecimento dos sentidos.
A informação agiliza-se como propaganda sem véu, a manipulação das consciências expande-se com golpes de crescente audácia. A publicidade requinta expedientes dos mais grossos aos subliminares porque, agora sim, é proibido proibir. Estimula-se a desmemória.
Estados «exemplares» (pois outros lhes seguem o exemplo), que se afirmam na vanguarda da defesa dos direitos humanos e da democracia avançada, avançam na liquidação acelerada dos serviços públicos em benefício de oligarquias financeiras, debilitam a segurança social e promovem o desemprego, enquanto agravam os impostos da maioria, esmagam as classes médias, aumentam as despesas militares, ordenam discricionariamente. Alegam que pretendem minorar as despesas da administração mas sobra-lhes dinheiro e sangue para gastar em guerras alheias.
Do tempo de crise passou-se para o tempo da decadência, extinguiu-se uma vigorosa opinião pública, e chegámos a isto. Não há mais lugar para o patriotismo (que anda confundido com nacionalismo - porque rima com ismo?), cuidado, recomendam os orfeónicos comentadores de serviço. Manifestar sentimentos, num mero assomo de humanidade, já surpreende. Eis o processo das mudanças em curso. Vamos pedir mais mudanças? Está visto, avançamos, afoitos, para o paraíso!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Em busca da expressão

Tenho a mão mais afeita a escrever que a boca para falar. Na memória auditiva soa-me cada sílaba das palavras que escrevo, mas sou irremediavelmente, como se vê, de pouca garganta. Levo na escrita os cinquenta anos que o velho companheiro e bom amigo S. F. contou (segundo a praxe, que os enumera a partir da data do primeiro livro), mas algo ficou atrás. O escrever começou pelas garatujas ensaiadas nos palimpsestos semanais das folhinhas provincianas e das primeiras revistas. Porque o escrever é a exteriorização corporizada de uma vivência ou de uma ideia que surge com uma dada forma que todavia pode ser inadequada, imperfeita. É preciso escabichar.
Escrever será, portanto, o acto de trazer de uma certa escuridão interior para uma luz iluminante algo que pode resultar como uma espécie de revelação, mínima que seja – e só quando isto acontece vale a pena escrever ou acreditar que se escreveu. Creio que é esforço perdido o escrito que não contenha alguma cintilação, uma qualquer vibração estreme, por muito que andem a circular e a inundar-nos os textos que trabalham ao invés, tratando de indizer, no que se assemelham tanto uns aos outros que já nos cansa a repetição, o pleonasmo, a cacofonia.
Em momentos eufóricos, tenho ouvido amigos dizerem que escrevo bem, mas sabemos que para se escrever bem se necessita, em primeiro lugar, de se pensar bem. Será que penso bem? Sempre?!
Claro, para se escrever bem é preciso escrever pouco e emendar muito. Emendar sem desfalecimento, em busca da ideia, da expressão autêntica. Deitar fora a parra e aproveitar a uva, incansavelmente, até à tortura. Numa quixotesca luta com as palavras-moinhos de vento, apesar das indiferenças dos sanchos panças. É isso que vale a pena. Acredito que a figura do escritor, qualquer que ele seja ou queira ser, emerge a partir daí. Então o seu papel estará a cumprir-se, ele desentranhou-se fazendo-se parteiro da sua criação. O resto ficará por conta do público – e digo-o na persuasão clara de que os leitores, enquanto leitores, têm afinal algumas obrigações a cumprir em seu próprio proveito… se acaso pretendem fugir às massificações.
Afinal, e sem surpresa, o escritor é pessoa com B. I., donde, aquele será o que esta pessoa for. A obra feita espelha o autor por mais que este se furte e esconda nos enleios da criação. Por seu lado, um leitor deixa-se ler pela obra na medida em que sobre ela se pronuncie apreciativamente. E teremos de convir – autores e leitores – que publicar um texto implica entrar numa partilha estabelecida entre quem o escreve e quem o vai ler. O autor criterioso rejeita malabarismos de fraseados hábeis e sonoros, mas ocos; não tenta pôr em comum senão o melhor de si mesmo pelo respeito natural inerente a quem vive com sinceridade a vida e a arte literária. Esforça-se honestamente por conseguir que cada escrito seu, ainda que breve, seja a gota incendiada capaz de reflectir a totalidade do ser. É isso, esse extracto parturejado, que tem mérito para atingir o espaço público onde, não por acaso, se questiona hoje qual o papel que cabe aos intelectuais desempenhar…

quinta-feira, 27 de março de 2008

É difícil verbalizar

Vou extrair a custo, com umas pinças e pelo canto da boca, meia dúzia de palavras escorridas porque não sobra lugar para carpir mágoas de literato. Mas li no derradeiro suplemento de artes e letras que resta na imprensa uma recensão ao meu último livro, o Quase Tudo Nada, feita pelo amigo L. S., e essa leitura deixou-me algo melancólico. A apreciação é ao máximo compreensiva, aguda mas também calorosa e cordial. Tenta abranger os sentidos globais da narrativa e todavia… repete-se em mim, em crescendo, esta sensação de que o principal exposto obra a obra vai ficando omisso e cada vez mais perdido na sombra. Realmente, se quem escreve não encontra umas tantas pessoas que se pronunciem sobre o que o autor lhes dá a ler, não se completa o processo criativo. O caso é este: o circuito perfeito da comunicação requer que a leitura de uma obra tenha na devida conta as obras anteriores do autor e até, porventura, outras obras atinentes do presente ou do passado.
É difícil verbalizar o aspecto em questão desde logo por dois motivos: a) parece rabujice de ingrato vaidosão, que se manifesta insatisfeito porque nada o contenta; b) só por toleima o sujeitinho (eu) pretenderia que um breve artigo de jornal procedesse a tão criteriosa quão extensiva abordagem… Mas é justamente por este lado que se vai acumulando a experiência daquela omissão que põe o autor a sentir que anda a perder-se o essencial da relação que o liga numa obra a outra obra sua anterior, qualquer que seja.
Quando o amigo S. F. me surpreendeu organizando o livrinho que assinalou em 2006 os meus 50 anos de actividade literária, fiquei esperançado. Iria finalmente organizar-se uma visão global do que venho publicando pelo menos desde 1985? É certo, avançou-se um passo em tal direcção mas, a ver bem, ficámos aí pelo primeiro passo. Apalpou-se a casca do fruto sem se ver bem o que estaria lá dentro. As linhas de força não ficaram cerzidas e à vista, a coerência interna do percurso e do corpus não transpareceram em síntese. Digo-o sem ponta de queixa, antes com meridiana limpidez. Porque é bom ter amigos e, ainda melhor, merecê-los.


Enfrentar o peso dos anos quando já se amontoam é algo consabidamente tormentoso para o ser humano. Mas isso, afinal, pouco significa comparado com as transformações do mundo em que me vejo depois de chegar a sénior. Esse o principal problema a emergir na minha vida e para o qual não estava de modo nenhum preparado. Arrogâncias ostensivas de quem quer ter tomates e os sente bem protegidos, desprezos bárbaros pelos Outros «porque são diferentes», o uso da força por cima da lei e da ética, do direito e do pudor em busca de interesses egoístas imediatos, tudo isso transforma o mundo numa selva medieval. Os conflitos estoiram por todos os lados, espalham um ambiente de guerra intimidativa, ameaçadora. Interrogação íntima: hei-de crer que o meu fim chegará, quando chegar, como uma verdadeira libertação - a «libertação» de tanta miséria vulgar?

quarta-feira, 26 de março de 2008

Gente minorca pela porta

Almocei em restaurante na Foz rodeado por jardinzinho arborizado, à vista de rochas, areias e mar. Em mesa próxima, vi J. R. acompanhado, Finório e arteiro como é, à saída fez que não me via, esquecidíssimo de quem lhe preparou, sem nada pedir em troca, o primeiro livro-álbum sobre a sua vida e obra. Desforra irónica do seu fiel tributário, em rasgada saudação, ao vê-lo passar:
- Boa tarde!
E ele, como que apanhado de surpresa e sem se deter:
- Ah, boa tarde!...
Lidando agora com presidentes, ministros, banqueiros, milionários, sumidades principais de estirpes várias, como iria ele notar alguém como eu, imerso na arraia-miúda?!
Estava o nosso livro a ficar pronto e já ele me declarava, à mesa de minha casa para onde o convidara com a mulher, o seu desgosto (deveria eu perceber a sua «ofensa»?!) porque o meu nome não tinha o som campanudo que a obra merecia.
A despedida que lhe fiz, na soleira doméstica, pôs termo aos convites. Gente assim grande minorca, diria o Matulinho, não me caberia mais pela porta.
Acerta na mosca o amigo A. R. quando, a gracejar, repete que nós ambos, ele e eu, seremos talvez das pouquíssimas pessoas capazes de conhecer J. R. quanto baste: fomos ao ponto de perceber uma articulação defeituosa que o homem tem num dedo da mão direita e que sempre disfarça na perfeição.


Esta manhã saudou-me no café A. R. S., antigo companheiro de redacção (temporário) e meu vizinho. Lembrou-me que há dias me exibiu, com notável regozijo, um seu outro automóvel aparcado na rua. Ia a sentar-se ao volante e, vendo-me, fez soar a buzina com estridência. Tive de reparar no objecto.
Contradição irremediável: ele fazia comigo a exibição que criticara aos outros…
Há vinte e tantos anos andava num carrito dos mais pequenitos e económicos, onde encaixava bem pois é pessoa de pouca estatura. Talvez já andasse então a sedentarizar-se em demasia, locomovendo-se em cima das rodas, porque…
Naquele tempo, terminada a jornada de trabalho, eu costumava regressar a casa a pé, trajecto estimado nuns dois quilómetros, dezoito minutos preciosos para dissolver os nervos e abrir o apetite para o jantar, rua de Camões acima, viragem à esquerda, transpunha a Constituição, era um salto! Não quereria o A. R. S., de repente sem rodas, acompanhar-me? Convenci-o, mas o trajecto de dezoito minutos levou-me meia hora bem aviada.
Na redacção, no dia seguinte, reclamou: estava «todo partido»! A princípio ri-me, era uma piada. Mas não, ele (trintão, fumador) queixava-se a sério. Sentia-se dorido e arrependido por ter feito a caminhada, meia hora a passo normal. Tive de aceitar-lhe a jura: «nunca mais!»

terça-feira, 25 de março de 2008

Um conto hiperbólico

Estou a desejar escrever um conto hiperbólico para conceber a possível origem do Dom – aquele precioso carisma que põe a brilhar quem o possui e que, a crer nos livros, tem raiz no latim donu-, significando também presente, oferenda feita aos deuses; mas que evoca o dominu, senhor, dono, possuidor, proprietário, chefe, soberano.
Começaria por evocar o aparecimento, lá longe na fundura do tempo, dos primeiros heróis saídos das façanhas nas grandes batalhas vitoriosas que a soldadesca colocava sobre os escudos ensanguentados, dispostos em camada, e levava, elevados e enlevados, em triunfal desfile, coroados de aplausos. Alguns livros de história antiga relacionam a cunhagem das primeiras moedas nas cidades-estados com as efígies dos heróis das respectivas conquistas porque as insígnias dos seus escudos as identificavam. Mas isto não entra no conto; interessa-lhe bem mais a rivalidade que desde cedo se estabelece entre o herói, poderoso senhor da cidade, e o xamã principal. Um reina sobre o terreno, o outro sobre o espiritual, mas as invejas recíprocas põem-nos em confronto.
De facto, o herói feito senhor precisa que o xamã, ou o chefe espiritual, proclame a conquista consumada como alto desígnio obtido pela graça celeste, e tanto isto se repete que o herói vai sendo tido cada vez mais como filho mítico dos deuses. O xamã confirma-lhe mesmo o dom recebido dos céus e, em lugar sagrado, com gestos cerimoniosos e rituais, celebra-o como ungido.
Enlaçadas, estas duas figuras dançam nas páginas da história. Requereram-se uma à outra ao longo dos tempos até se tornarem reciprocamente indispensáveis, porque desde o seu advento, a cidade tratou de dominar o campo, espaço cheio de «pagãos», vocábulo este com etimologia originada no latim paganus = habitantes de aldeias, de campos, significando «idólatras». E quando, mais tarde, surgiu o Império com religião oficial, os «pagãos» continuaram submetidos ao poder maior da cidade.
Será preciso lembrar que o xamã antigo se actualizou numa figura de bispo com cruz no peito cravejada de pedrarias? [Ilustração: escudo dos Reis Católicos]


Acontece vulgarmente: uma pessoa pode dar sem se dar. Dará, porém, tão-só coisa materializada: um beijo, um aperto de mão, um objecto qualquer. Mas assim, dando algo que pode dar sem envolvimento pessoal, dá o que der sem qualquer retorno.
O envolvimento emocional da pessoa que se dá gera uma corrente que se projecta na outra pessoa e que logo regressa, intensificada e duradoira, a quem se deu. A pessoa contemplada surge como uma espécie de espelho da primeira, conforme parece ter entendido o cristianismo (assentando porém no conceito de «esmola» a recompensar numa «outra vida»). Não são, pois, as ingratidões e asperezas do mundo que justificarão o egoísmo, a frieza de carácter. A envolvência emocional permite trocas vitais indispensáveis ao ser humano e quanto mais amplas essas trocas forem, mais vivificado e humano fica o ser. Vivemos uns através dos outros e através dos outros nos expandimos. A dimensão humana atingida pela pessoa concreta assume o tamanho das trocas que a pessoa efectuou.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Gravata para qualquer fato

Deparou-se-me A. G. S. há mais de quarenta anos. Empregado na secretaria do Hospital de Santo António, onde os reporteres dos jornais iam em busca de elementos para notícias de mortos e feridos para as pequenas notícias «chapa cinco» (o regime da ditadura filtrava as outras novidades). Rapaz sempre bem disposto, sempre pronto para acamaradar e nessa altura a iniciar-se como colaborador desportivo no meu jornal.
Ninguém lhe conhecia estudos, bagagem cultural, alguma experiência jornalística, mas ele, sempre prazenteiro, cuidando de sorrir e pouco falar, em breve iludia a lacuna e entrava para a redacção. No jornalismo nunca escreveu nada afora pequeninas «chapa cinco» (na gíria profissional) nem se distinguiu sequer numa conversa de teor assinalado. Tão-pouco se pronunciou alguma vez em termos de orientação político-partidária e todavia «parecia socialista» pois na sua roda abundavam pessoas da mesma cor partidária. Até arranjou maneira de chefiar durante anos uma delegação de jornal capitalino conotado com grupo dessa tendência. Conhecia e conheciam-no «todos» os jornalistas e etc., era simplesmente um tipo porreiro. Ia a todas, não faltava a nenhuma. Cabia bem em qualquer grupo, era gravata que combinava com qualquer fato.
Um dia A. G. S. sentiu acordar nele um interesse cultural específico na forma simples de uma curiosidade. E foi assim: um alfarrabista seleccionou e vendeu-lhe pouco a pouco montes de velhas publicações tripeiras a preços de saldo, foi adubando o negócio charlando com o que sabia da história local – «é preciso saber vender, criemos um cliente» - e estabeleceu-se entre ambos uma relação amistosa. Tornou-se vital para A. G. S. porque o alfarrabista se encarregou de lhe alimentar o gosto pela recolha das memórias do burgo já impressas.
Entretanto os livros, revistas e jornais adquiridos iam formando monte, o monte parecia biblioteca, foi necessário instalá-la em casa própria e, para justificar a aquisição das publicações, como não saberia pronunciar-se sobre mais nada, A. G. S. tratou de reaproveitar o que uns autores mais ou menos esquecidos haviam deixado escrito, misturando-o com um pouco das suas pessoais recordações. Começou a assinar textos no jornal e quem o conhecia admirou-se: tardou, tardou, mas por fim o rapaz saía da casca.
Outras pessoas, por vezes de formação escolar e vocação francamente modestas, também escrevem nos jornais, dando-nos motivo de espanto se acaso lhe tivermos conhecido a expressão escrita original. Fraquezas ortográficas, sintácticas ou estilísticas surgem tratadas pela revisão dos jornais. A pessoa acaba por ficar com uma quantidade de textos revistos, depois ganha fôlego e com eles organiza um livro. Tem acontecido. E agora, integrados na «geração grisalha», o ciclo repete-se, a um livro segue-se outro livro…
Voltando ao ponto: A. G. S. acabou por se ver declarado «erudito», «investigador» em jornais ditos de referência (os seus amigos espalham-se por todo o lado), não tardou mesmo a surgir na televisão e a ter nome sonante como glória da urbe. Espero que não morra sem estátua e avenida evocativas. A parte baixa da cidade merece-o.

sábado, 22 de março de 2008

A variação e o tema

Paulo Quintela tem razão. Rilke, por ele traduzido (e creio que também editado em 1955), antecipou Proust e a sua «busca do tempo perdido». Sem a torrencialidade romanesca proustiana (Mário Sacramento fechou-se em casa uns quantos dias para beber da torrente), bem merece uma revisita ao seu único romance, Os Cadernos, aparecido em 1910. Relendo-o, achamo-nos a pensar nos artifícios marotos que fazem e desfazem as famas e as modas literárias, notando que Proust continua presente nos circuitos da leitura (franceses, europeus) e das citações obrigatórias, enquanto Rilke, o grande inovador, se afunda no limbo.
São assim as sentenças arbitrárias de quem decide na matéria, historiadores da literatura, sociólogos dos consumos literários, críticos e comentadores, editores e leitores levezinhos como praganas ao vento… Por tudo isso e o mais que fica omisso, nós, leitores, temos de permanecer atentos. Atentos e sintonizados com os autores e as obras de ontem que valem a pena e que servem hoje para trancarmos as portas ao que nos invade – os verbos de encher. Desconfiando mais e mais das gloriazinhas que estalam, estrondosas e efémeras, todas as semanas, todos os dias, para deslumbrar deslumbrados… Precisamos de resistir firmemente às enxurradas, precisamos de não perder o pé do terreno firme. Atentos e apegados aos «velhos» livros sempre novos para retomarmos o encanto imorredoiro das autênticas maravilhas. Onde pulse, sincero e veemente, um coração humano na busca de voo libertador.
Entretanto, faz-se lembrar o dito atribuído exactamente a Proust e que tão glosado passou a ser: Rilke é o tema, ele a variação… [Ilustração: retrato de Rainer Maria Rilke, de autor desconhecido]


O estudo da assinatura de um indivíduo e da respectiva evolução através dos anos resulta deveras interessante ainda que se dispensem as especiosidades da abordagem grafológica. Há casos em que se alternam os nomes próprios, sobrenomes e apelidos, conforme as ocasiões. Também a grafia muda de uma ocasião para outra, de modo que se enraizou o costume de nos pedirem a assinatura «como está no bilhete de identidade».
Algumas pessoas assinam desenhando um gatafunho quase ilegível, como se quisessem manter por ali a cara irreconhecível ou como ministro que despacha de cruz; outras vão alterando o caligrama como quem busca no ar a forma ideal e não a encontra.
Lembro-me de, com dezoito anos, ter pensado pela primeira vez: «que assinatura vou ter?» Na verdade, nessa altura já a tinha no B. I. e em dois cartórios notariais. Mas, espontaneamente, resolvi mudar - outra teria que ser a minha definitiva. A primeira extinguiu-se depressa… e ainda hoje me pergunto o que, naquela idade, modelou o meu gosto para assinar assim, inclusive com risca por baixo. Francamente, não sei de onde me veio a ideia.
Não sei mesmo! Porque a perrice da risca ficou para me arreliar.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Inconformados com a História

O pintor G. C., desaparecido em 1994, não deixou apenas obras, também deixou recordações. Tinha uma personalidade peculiar que se exibia tão pouco quanto o esquivo cágado que afirmava ter no jardim da moradia e que nunca cheguei a ver. A simpatia e a convivência, ou a maré azada, desataram porém, da boca peculiar, o que antes retinha sob reserva.
Foi ao deambularmos numa conversa ociosa que o artista deixou sair, como um desabafo, a sentença: todos os males do mundo vinham das consequências da Revolução Francesa! Antepus-lhe breve dúvida e G. C. reafirmou: na sua opinião, a Europa, pelo menos, perdera-se com a lamentável revolução de 1789…
Apurei então o olhar. Aquele homem, já idoso e em perpétua solteirice, vivera em França uma porção de anos e por lá deixara uma filha. As suas obras – tapeçarias, frescos, óleos – espalharam-se por castelos, palácios e ricas mansões, onde continuaram a habitar as dinastias de quem, até pelos laços de sangue, chorava o triste fim de Maria Antonieta e do ancien régime na guilhotina; essas obras não alcançaram (ou não procuraram?) as casas da burguesia outrora revolucionária que, apesar dos ascensos democráticos, no século XX pouco apreciava ainda os requintamentos da arte e da cultura…
Aquele homem manifestava portanto uma discrepância radical com o seu tempo. Recusava-o. Gostaria de viver entre clero, nobreza e povo, recebendo encomendas dos dignitários para ostentar nos seus salões e almejando privilégios feudais. Este seu e nosso tempo seria para ele uma piolheira.
Há quem viva um tanto no passado - que estranho! É certo que isso ocorre, por motivos estéticos, por exemplo com Sophia, cuja obra literária invoca bastante a cultura da Grécia clássica. Mas os motivos de G. C. não eram estéticos, eram flagrantemente ideológicos. E então veio-me à lembrança esta informação remota: que os cursos de História da Universidade portuguesa durante a ditadura salazarista se enchiam de Cartago e Peloponeso, Alexandre e Carlos Magno, o Renascimento, etc., parando às portas da Revolução Francesa porque… aí entrava-se na Era Moderna e então, cuidadinho!...
Afundei-me em perplexidades e estranhezas. Podia compreender G. C. na medida em que de facto o incompreendia. Morreu atropelado na rua, estupidamente. Ficou para mim associado a uma outra figura bizarra que encontrei na Itália. O director de museu próximo de Carrara (Ligúria), franzino e nervoso, escandalizou-se ao perceber que um português, também colonizado (sic) pelo Império Romano, não repelia o latim, presente no substrato da nossa língua nacional. De facto, o homenzinho enfureceu-se e, enfurecido, até nos virou as costas!
Quantas pessoas ficam assim presas e paradas num certo ponto das margens do rio da história do mundo e a discuti-la sonhando com uma desforra?

quinta-feira, 20 de março de 2008

Sonoridades inaudíveis

A meio da tarde fiquei à beira do jardim da Cordoaria, dentro do carro, esperando quem tardava. Então, de surpresa, fizeram-se ouvir carrilhões na torre dos Clérigos. Um concerto! Alguém, um raro carrilhonista, estaria a dar socos e pontapés nos comandos para fazer repicar os sinos.
Maravilha!
Quando a pessoa amiga deixou de se fazer esperar, disse-lhe:
– Ainda bem que tardaste. Corri os vidros e pude apreciar um esplêndido concerto nos carrilhões ali dos Clérigos.
Incredulidade:
– Concerto? Nos Clérigos? Não acredito. Parece que a torre até já se esqueceu que tem carrilhões!
Ri-me com vontade:
– Bom, também eu não sabia de concertos nenhuns, mas agora, depois de ouvir este, hei-de ouvir mais. Certamente são periódicos, vou averiguar…
Averiguando, explorei a roda das relações pessoais. Colhi o mesmo espanto e a mesma incredulidade. Neste ponto, pensei: por que diacho pessoas que tão bem julgam conhecer-me resistem assim, forte e feio, a crer no que digo tendo-me embora na conta de sério?!
E como é possível que tão inaudíveis sejam os brônzeos sinos da torre tripeira a bimbalhar?!
Tenho agora, na colecção de discos, um com o som dos carrilhões dos Clérigos. Felizmente. Pelo sim, pelo não. Como fará reagir os incréus?


Notícia para alegrar o dia cinzentão: um cientista do rectângulo ibérico afirma que a inteligência dos portugueses está a aumentar. Neste caso, porém, quem anuncia a boa nova é quem pretende pô-la a render, pois o cientista se apresenta como autor de recursos já criados, óptimos para expandir ou melhorar as capacidades mentais. Não por acaso, até quer ir mais longe, o que significa que projecta expandir o negócio.
Possivelmente, terá alguma razão. A inteligência, em certos indivíduos bem escrutinados, tem o poder da luz amplificada e estimulada, mas deixa-nos a perguntar: para que deve servir mesmo a inteligência? O raio da luz laser age como instrumento de cirurgias curativas ou como raio de morte?
Entretanto, para que alguns escolhidos fulgurem como sóis em noite escura, camadas e mais camadas de gente arrebanhada mergulhará na idiotia ou na imbecilidade. Não saberá ler = entender uma página ou fazer
de lápis na mão uma conta de somar. Para isso caminhamos.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Sem réstia de reforma

Oiço amigos meus dos mais estimados queixarem-se de circunstâncias familiares que os impedem de viver a reforma como a desejaram e fico chocado. As circunstâncias pessoais reduzem-se a uma única: têm filhos e filhas, que criaram, agora têm netos e netas, que tratam como seus novos filhos; e se filhos ou filhas no celibato, a caminhar pelos trinta adiante, não lhes saem de casa, mantém-se no essencial a situação.
Aqueles amigos sentem-se acorrentados por um enleio emocional que não repelem porque, conforme explicam, gostam de quem puseram no mundo e de cuidar da família enquanto podem. Mas passam os dias em corridas, sem tempo para si próprios, sem um naco para estar num convívio apetecido. São pais permanentemente disponíveis para acudir a tudo e mais alguma coisa, netos de e para a escola, maleitas súbitas, carências de dinheiro, bricolagens de emergência. E repete-se uma exclamação pungida: como há-de ser depois de desaparecermos?
Cansados, atentos a qualquer toque do telemóvel, abalando a seguir em miúdos alarmes, deixam-me nos ouvidos um desespero larvar a lavrar. Como se explica tanto peso, tanta exigência, dos filhos sobre os pais, que estes meus amigos exprimem e suportam, estando reformados há anos mas sem réstia de reforma, quando as estruturas familiares em geral se desmoronam?
Não sei explicar, apenas concluir que o papel dos progenitores aparece hoje, por aqui, com duração tão prolongada quanto a sua existência…


Conheci M. C., natural das Gafanhas, em 1955, em Caracas, onde fizemos amizade e até compartilhámos um quarto arranjado na moradia de uma viúva. Era rapaz simples, trabalhador, aplicado, muito católico. Reencontrámo-nos mais tarde, cá pelo rectângulo, quando casou em Santo Tirso. Anos decorridos, soube que era construtor civil em Aveiro, enquanto eu ia jornaleando, publicando livros, isto é, enquanto o amigo M. C. ia acumulando mais e mais riqueza e eu acumulava letras, algum conhecimento. Há dias telefonei-lhe a indagar se continuava na caça aos euros. De facto, já se perdia da memória um nosso almoço em Aveiro e a promessa de M. C. nos tornarmos em breve a encontrar…
Esta nossa conversa telefónica foi marcante. Percebi que o meu amigo M. C., creio que promovido à categoria de milionário, andava agora a mostrar-se reticente nos contactos comigo. Enfim, deu-me a impressão de que me imaginava um «poeta», certamente infeliz, crivado de dívidas, noctívago e olheirento, de cabeleira desgrenhada (que gracinha!). Protegia-se porventura de eventuais pedinchices e lamúrias (o almoço, para o qual o convidara, teria sido um isco)…
A minha percepção baseia-se meramente no alívio, no vivo contentamento por ele manifestado ao saber que dispunha do suficiente para pagar os meus derradeiros anos de existência numa residência sénior por acaso nada baratinha.

terça-feira, 18 de março de 2008

Surpresas do quotidiano

Estou para saber o que concluir de uma conversa tida com um médico que conheço e estimo, E. L. C. É da minha idade, portanto está aposentado há tempo, mas continua activo na policlínica, onde o encontro, após os anos de serviço no Hospital Militar. Conversa comigo com óbvio gosto. Um dia perguntei-lhe:
- Vê-me sem problemas de saúde mas, se estivesse, por uma qualquer doença escondida, condenado a desaparecer digamos em três meses, avisava-me?
- Ora, não, de modo nenhum! – respondeu ele, terminante.
- Seria a suprema traição! – avisei.
Manteve-se firme, inquebrantável. No máximo, avisaria alguém da família, nunca o pobre da vida por um fio.
Vou raramente à policlínica e deixámos há tempo de nos reunir para um jantar convivencial. Na conversa de hoje tornei ao assunto, admitindo que ele poderia ter revisto tão redonda opinião. Encontrei-a inalterada. Lembrei a «traição suprema», o «direito à verdade», a interdição em que ficava o doente de arrumar como entendesse os seus assuntos.
Pensei mesmo que o médico estava ali a colocar-se à altura do deus que tudo sabe e foge a intervir. Colhi dele, médico-deus, uma única justificação: certo dia um paciente insistiu para que o médico lhe dissesse a verdade; a esperança de vida, curta, foi-lhe revelada e o homem correu a lançar-se da ponte para o rio…
Não consegui apurar se o caso envolveu um doente do E. L. C., embora suspeite que não (tratar-se-á decerto de uma história que circula entre os defensores do sigilo) e tão-pouco pude confirmar se terá a ver com algum preceito deontológico. Duvido.
Acresce que aquela piedosa alma católica teimou comigo e permaneceu inabalável também num outro ponto. Avisou-me: eu, que tive pais com autênticas «mortes santas», vendo-me condenado à morte iminente, modificar-me-ia. Sofreria uma transformação - «como toda a gente», sublinhou. Entendi: a figura da morte iguala-nos a todos, desaparecem os corajosos e mais ainda os heróis… Desisti de o convencer, só morrendo! E nem lhe falei que iria ser cremado…


Vi entrar J. I. no autocarro em que seguia. O pintor e marchand avançou pelo corredor na minha direcção e eu, que deixara de o ver, saudei-o com satisfação, notando-lhe o envelhecimento. Mas J. I., embaraçado, obrigou-se a convencer-me de que não costumava andar em transportes públicos, que só ia ali adiante para não sei quê, entrara porque… E parecia realmente muito contrariado, mesmo humilhado pelo nosso encontro dentro do transporte colectivo, embora eu lhe lembrasse que também ia nele, que era solução a mais prática… Inútil. Agitado, aquele amigo escapuliu-se porta fora logo a seguir!
Se o que ele sentiu era vergonha, essa vergonha de repente passou para mim, invadiu-me.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Democracia? Como é?!

Heresia! Não sou a favor desta democracia representativa. Tolero-a em irremediável divergência porque me parece absurdo que quem elege os seus representantes para exercerem cada mandato fique desarmado ao dar-lhes pelo voto esse poder. Quem elege devia ter o direito de demitir os representantes que no decurso do mandato traíssem legítimas expectativas. Só por esta bivalência os eleitores se defendem de políticos que, uma vez legitimados pelos votos, negam, como tantas vezes acontece, os seus compromissos para se lançarem em acções ruinosas.
Num sistema que se pretenda verdadeiramente democrático, os eleitores não podem apenas eleger, devem também ter o direito de exonerar ou destituir a qualquer momento os elegidos que não servem. Tão-pouco devem aceitar eleições que derem o poder a representantes que exercerão os cargos durante os respectivos mandatos assumindo responsabilidades puramente «políticas» com base em regimes jurídicos por eles próprios acordados para se protegerem enquanto «classe». Votar assim neles, como se diz, corresponde a passar cheques em branco.
Um sistema democrático vivo e maduro requer uma participação cidadã intensa, um escrutínio permanente processado por uma opinião pública autêntica, mas isso parece perturbar governantes por seu lado em condições de conviver perfeitamente com elevados níveis de abstenção, desinformação ou desinteresse generalizado pela coisa pública. Nega-se a si mesmo o sistema que apela ao voto dos eleitores, por carecer da legitimação do poder popular, para depois se apropriar desse poder, delegado a prazo, como presa conquistada e sem retorno possível à vista.
Os cidadãos quando votam não se entregam a quem elegem nem podem ser tidos como seus reféns. Continuam a ser cidadãos livres, capacitados para todas as decisões posteriores, incluída a de pôr na rua quem tenha o poder e não saiba usá-lo dignamente. Consequência lógica: os cargos públicos acabarão por ter carácter temporário, a política deixará por fim, felizmente, de ser «profissão».
Estas ideias, na sua clareza singela, são aqui expostas apenas porque não emergem à tona dos dias. É notória a escassez de discussão sobre o que é democracia como se a forma vulgar que assume estivesse feita e acabada para todos os usos e todo o sempre. Porém, a democracia não é fato pronto a vestir. É sistema com formas e conteúdos altamente variáveis, sujeito a todas as mudanças sociais operadas em sentido expansivo ou restritivo.
Quem não se contenta com uma vulgar aparência da democracia exige a sua realização em plenitude com a ideia a cintilar no luminoso horizonte da utopia.. Objectiva o seu aprofundamento progressivo sabendo que não chegará decerto ao ponto de lhe esgotar o potencial mas, entretanto, vai-se rindo dos profissionais da política que em pânico, a coçar-se com ataques de urticária, vislumbram o eventual advento de uma temível «democracia directa»…

sábado, 15 de março de 2008

As novas glutonias

Acumular riqueza cria adicção, dependência, tal como as drogas «duras». E não será adicção menos séria. De facto, quanto mais a riqueza se acumula, maior será a necessidade de a ampliar, normalmente por dois motivos: o possuidor tem à vista riquezas mais opulentas e invejáveis; a segurança da sua riqueza não se consolida enquanto houver em campo riquezas mais fortes, por sua vez animadas de proporcional glutonia.
Por este caminho, o processo torna-se vicioso, imparável. Ao dar sentido à vida pela ambição insaciável, a riqueza (imensa ou grande) mostra o grau de loucura que lhe seja inerente. Quem detém tanta riqueza fica na condição de seu mero servidor ao sentir-se no dever de a conservar e ampliar.
Por outro lado, a concentração da riqueza (actualmente em concentração financeira máxima) deixou de ter qualquer funcionalidade de interesse social. Não promove mais indústria, mais produção, mais emprego; pelo contrário, tornou-se esterilmente especulativa e ferozmente predadora. Faz circular a riqueza existente fazendo-a mudar simplesmente de mãos.
Regra sadia e sábia a estabelecer consistiria então em acreditar que a riqueza pode prejudicar-nos quando nos mingua muito menos do que quando nos sobeja. Uma pessoa não precisa realmente de um gordo pecúlio para viver com liberdade e alguma qualidade de vida. Talvez não custe em demasia o que a pessoa pode consumir racionalmente em vida até partir deixando o remanescente, quer dizer, o excesso sem uso (e sem descobrir que é mais fácil acumular dinheiro do que inteligência?).


Estas novas gerações, que namoram e tardam a casar, nasceram e cresceram num ambiente de facilidades. Luziam as facilidades como promessas convincentes. Era a liberdade, era o direito, era a maior emancipação da juventude… Deparam-se, porém, com um ambiente adverso, pobre de tais facilidades. Envolvem-nas teias de dificuldades cada vez mais dramáticas e estas novas gerações, trilhadas pelo contraste, andam perplexas e abatidas. Parece que não entendem por que tanto se lhes prometia e quase nada conseguem agora salvo com incríveis sacrifícios individuais. Empregos precários, opressivos, violentos, mal remunerados. Quem lhes aponta a causa, o maremoto do capitalismo selvagem dito neoliberal?


Os europeus, e sobretudo os portugueses, imitam crescentemente os norte-americanos. Aspiram a um mesmo sistema político, copiam deles o estilo de vida - gostos, hábitos e consumos - e até já tomam os Estados Unidos em bloco como pátria ideal da civilização. Engordam os corpos com comidas rápidas, esquecendo no entanto as aspirinas. Esquecendo também que a magreza é mais saudável que o excesso de peso. Em suma, copiam dos outros o pior, não o melhor.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Querer e conseguir

G. impôs-se como pintor através de longa luta. Poderia até dizer-se que na luta se modelou a sua longa vida. E tão constante e difícil foi esta que acabou a marcá-lo pela singularidade.
O principal problema de saúde que atormentou G. durante imensos anos esteve na visão. Recorreu a sucessivos transplantes de córnea para adiar a cegueira, a princípio parcial mas grave e depois total. Ora um pintor privado de ver, o que pode fazer? Porém, o que o pintor sabia fazer era pintar. Resistiu numa pintura algo gestualista na última fase e depois, mergulhado na cegueira, seguiu em frente. Familiares dispunham as tintas em pontos certos do cavalete e ele, tacteando, escolhia os pincéis e espalhava-as na tela. Pintava «de memória» quadros por vezes algo perturbantes, surpreendentes. E assim continuou a resistir.
Tanto se empenhou que conseguiu interessar o Centro Cultural de Belém no projecto de uma exposição. Mas os contactos postais entre Porto e Lisboa não respondiam a todas as dúvidas e G. teve de ir lá para uma reunião. Foi acompanhado, é claro, por familiar. Quando os responsáveis do C.C.B. souberam que o pintor chegara para a reunião e que era cego, estupefactos, gaguejando, mandaram dizer que não podiam recebê-lo. Regressou G. revoltado e contou aos amigos a peripécia na figura de vítima de mais uma discriminação escandalosa. E os amigos, compadecidos, nem lhe perguntaram se alguma vez um pintor cego em actividade conseguiu fazer-se aceitar.


Certamente como qualquer outra pessoa, E. R. tem as suas peculiaridades. Há talvez vinte anos afirmava, com tocante convicção, «eu quero!» Exprimia uma aspiração ao máximo sucesso e queria obtê-lo, não depois de morto, antes em vida e bem depressa. Declarava o seu pleníssimo direito. Mas repetia-mo com um sorriso meio escondido (curioso: achava que, pelo seu inverso, ou seja, feito tolo, não quereria outro tanto para mim), enquanto eu pensava, ouvindo-o, que quem tal queria era ele, a sós, decerto na companhia de mais alguém fixe… e ponto final. Era pouquíssimo. Sobretudo depois de concordar comigo numa geral «crise de atenção».
Nos últimos tempos, o amigo E. R. deixou de proclamar o objectivo que erguia como bandeira. Terá desistido da ideia de que bastava querer para conseguir? De qualquer modo, entristeceu. Desistiu mesmo de falar dele próprio na terceira pessoa do singular, como de um outro. Mantém o comportamento retraído e o gosto de se publicar acho que para alimentar uma vigorosa fé no futuro. Acredita na justiça do tempo, diria eu, como um náufrago. Entretanto, a mim, encontra-me vestido com nenhuma esperança. Lavo os olhos na água matinal e vejo-me no espelho; olho pela janela e estou neste mundo…
São demasiado altos os preços da portagem para entrar na ponte e atingir o outro lado. Ouso discuti-los como quem se descarta das derradeiras ilusões – as ilusões que são o combustível da vida, mas que a nível vulgar se confundem com efémeras exibições na feira de vaidades.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Autores defendem copyright

As leis de um ordenamento jurídico nacional querem-se universais mas não valem, porque não podem valer, o mesmo para todas as pessoas abrangidas. Isso depende da posição de classe que cada uma tem no interior das sociedades em que a desigualdade impera. E é o que se verifica quando entra em debate a defesa de direitos dos autores perante as novas formas de pirataria (leia-se apropriação ilícita de obras cobertas por copyright).
Curiosamente, não vejo tratadista da questão a recordar o pormenor e tão basilar ele é que separa desde logo o conjunto dos autores nos diversos níveis de interesse a defender contra as pilhagens das cópias ilegais (entre outras piratarias do negócio da edição). Distinguirei só três.
Quer nos situemos no campo da música, do teatro, do cinema, ou da literatura, estaremos sempre diante de uma realidade complexa que apesar de tudo nos inclinaremos a ver tripartida: os autores-vedeta ou em voga, popularíssimos, no topo da pirâmide (onde poucos cabem); a camada intermédia dos autores (mais ou menos numerosa e volátil): e a camada inferior, da base (vasta e obscura).
Os rendimentos que podem chegar aos autores – se tudo correr bem! - advém-lhes das obras vendidas em condições legais, de modo que serão os autores mais ligados aos consumos massificados dos bens culturais os que mais direitos recebem ou têm a defender. São, porém, uma minoria, pois a maioria é constituída pela arraia-miúda dos que pouco vendem e esses nenhuma lei específica têm que os defenda. Verifica-se então que é a música, sobretudo a ligeira, que de longe mais factura, seguindo-se-lhe a televisão, o cinema e o teatro, aparecendo a literatura bastante abaixo. O tratadista do assunto, consciencioso, deveria começar por apontar este facto. Mas anda omitido, agora que se aventa a organização de uma «frente» contra a pirataria para a qual chamam todos os autores.
Donde, teremos que concluir que os direitos dos autores e a sua defesa não interessam igualmente cada autor. Interessam-lhe, sim, na proporção do que cada um vende no mercado e, se vende em escala industrial, aspira legitimamente a receber nessa mesma escala, a dos milhões. A defesa dos seus direitos valerá esses milhões. E porque são poucos estes autores, a luta, incontornável, pretenderá avançar até uma mobilização geral… naturalmente justificada por um equívoco mais ou menos óbvio e transparente: os autores da arraia-miúda pouco ou nada beneficiarão se apoiarem quem já tem a maior força.
Apenas os autores «intermédios» mais próximos do topo poderão sentir a chamada para a resistência. Porém, a situação portuguesa não parece auspiciar um resultado condigno nessa «frente», dada a competição tremenda que se agrava no campo da música ligeira, dos espectáculos e dos livros dos autores-vedetas. É no campo onde mais caudal têm os rendimentos correntes que a competição se encarniça. Os interesses presentes no terreno ganham aí forças tentaculares.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Escrever, hoje

Saio da conversa impressionado. Os amigos S. F. e A. A. M. declaram-se indiferentes à situação objectiva em que estão autores literários com «presença» comparável à nossa. Teimam ambos em continuar a escrever e a querer publicar de olhos cegos para uma realidade cada vez mais opaca. Para eles, é como se a situação actual fosse a de há trinta ou quarenta anos com alterações mínimas. Concorrem aos prémios em busca de alternativas editoriais para os seus inéditos e cada vez menos as «novidades» têm alguma réstia de visibilidade, leitores, permanência. Aponto-lhes a minha editora: por carta anunciou-me que ia retirar do mercado e saldar em feira ao desbarato sete obras minhas, todas recentes. Aqueles amigos encolhem os ombros, tornam-se evasivos. Parecem ignorar ou quererem contornar as consequências directas que resultam das mil e tantas novas edições que saem mensalmente neste pobre país, fazendo rebentar os armazéns pelas costuras. Direi: resistem a interiorizar as mudanças do tempo. Continuam, imperturbáveis, vendo tantos, que podiam ler (o verbo de encher?), a escrever com a freima sagrada de quem tem a última palavra em riste e a publicar nas centenas de editoras em actividade…
Atitude desconforme. Tão desrazoável a sinto que me enredo em pensamentos que me trazem cabisbaixo de regresso a casa. Com esta idade, vejo-me envolvido nos langorosos braços de D. Solidão, praticamente sem sentir família, sem alguém a quem deixar a minha obra publicada e a póstuma. Ainda e sempre a escrever, e não apenas estas linhas cruzadas do meu solilóquio. Questão essencial, hoje: escrever o quê? Para quem? Para quantos?
Interrogações minhas. Aqueles amigos não ajudam à resposta (desejavelmente colectiva, para situação colectiva).


Repete-se uma cena ridícula.
- E a menina o que deseja? – pergunta a empregada do balcão, uma fresca rapariga.
Sem dúvida nenhuma, o aspecto da cliente indica uma idade que a habilita a ser folgadamente avó dela. Todavia, a cliente acolhe com naturalidade o tratamento de «menina».
A terceira idade recua assim, envergonhada, perante a afirmação grotesca da «juventude» em moda aos balcões do negócio popular.
Decerto o fenómeno implica e explica um outro, o de rapariguinhas de catorze-dezasseis anos. Ao lado das mães, que parecem suas irmãs mais velhas, disparam-se para a vida adulta com tal pressa que depois, com vinte-trinta anos de idade, já acumularam rodagem que as transforma em «velhas» prematuras.
Anda a «juventude» elevada à categoria de mito que tudo é e nada contém?
Contraste bizarro: andam a proclamar por aí que os rapazes atingem realmente a idade adulta aos quarenta!

terça-feira, 11 de março de 2008

Zeca: a letra e a música

Corridos vinte anos sobre a morte de Zeca Afonso, eclodiram pelo país numerosas homenagens que o evocam como expoente da música popular portuguesa. Jornais, rádios e televisões multiplicaram declarações que o deram como o mais consensual dos autores-cantores e, note-se, tão consensual que até quem não o estima deveras, consabidamente por divergência ideológica, andou por aí a aplaudi-lo.
Pois é, a música soa, atinge o cérebro e enleia num afago as circunvoluções da massa cinzenta. Este poder encantatório das melodias foi por mim recordado num texto que publiquei no meu jornal quando Zeca deu concerto no Porto (texto retirado da «arte d’escrita»), onde eu observava que a música une. Dá-me gosto supor que amansa as feras e vejo agora a ideia confirmada pelas vozes plurais que soam na efeméride dos vinte anos. Mas Zeca discordou então de mim e mandou dizer. Penalizado, não me arrependi daquele texto, nem sequer de ter ido ao seu concerto em horário pós-laboral e pagando bilhete, esquecendo as entradas por convite que companheiros do jornal utilizaram e lhes foram oferecidas de mão beijada.
Quem escreve e se dá é que se trama (não menos de quem entoa a melodia)…


E. A. fez questão de no-lo dar a saber: perdeu uma noite de sono hesitando na colocação de uma vírgula num poema em fase de publicação. Um seu leitor lembra-me agora aquele desvelo para justificar a admiração pelo poeta martirizado pela sua arte. Certo, não é preciso ser poeta laureado para saber quanto custa parir um verso luzente como o sol, mesmo que todos os laureados sonhem com o esplendor ou que nem todos caprichem na minudência da vírgula.
Mas E. A. não tem apenas quem lhe manifesta admiração. Dissipados os cânticos e os incensos gastos no seu passamento, descobre-se que muito cansa o narciso por tanto se querer amado.
Lembram-se?, diz-nos um outro. Evoca o tempo em que o poeta, tendo realizado já a sua obra maior, se queixava. Aprendia a ser árvore no seu cantinho, saía do casulo para o café onde se constituía um círculo beato, «El País» destacava-o em belos artigos, viajava até os Estados Unidos com fotógrafo e… ao longe luzia-lhe a miragem de uma candidatura ao Nobel, pois, por exclusão de partes, seria ele o maior poeta ibérico!
Foi então, ouve-se murmurar, que se iniciou aquela gloriosa ascensão aos céus onde se bebe ambrósia entre os deuses. Recebeu, em vez do Nobel, um prédio por doação municipal. Conquistara por fim o direito de se deslumbrar consigo mesmo e de outro tanto exigir aos seus próximos.
O que haveria de dizer este poeta da frase-programa de outro poeta, Rilke: «Não peças a ninguém que fale de ti, nem mesmo com desprezo»?
Pois, continua o outro, quando E. A. ainda era inspector, carregava a fundo nas firmas que sabia pertença de certos poetas, dele consabidamente rivais, buscando não a colocação ideal de uma vírgula, sim a coima castigadora. Nestes termos se desenha a traço leve uma personalidade bifronte.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Roupas da moda, uniformes

As vestes, que marcaram em tempos as categorizações sociais e até as profissões dos indivíduos, ainda hoje são o sinal mais óbvio das aparências, embora apareçam uns indivíduos enganadores, desprovidos das «marcas» em voga, que podem passar por pobres calças rotas sem-abrigo (pois até falam desbragadamente) e vai-se a ver, são filhos de papás abastados. Mas a evolução geral dos costumes tem vindo a uniformizar os vestuários de tal maneira que os «modelos» básicos em uso se expandem, rápidos, pelo Ocidente, pelo Oriente, pela África, demonstrando a globalização da moda.
Que nem sempre foi assim, sabemo-lo e confirmamo-lo de olhos postos em imagens antigas, retratos de famílias realengas, aristocráticas ou endinheiradas, entre eminências diversas. Bispos e arcebispos acompanham bastante bem a regra. Ora a observar tais imagens é que estamos a submergir-nos em puro espanto, pois notamos que nos vetustos tempos dos retratados eles se cobriam, com uma porfia maníaca, de espessas camadas de roupas. Esvaziavam um armário inteiro em cima do lombo com ajuda de criadagem!
As damas não lhes ficavam atrás. Alombavam também com camadas de roupas que começavam em cima da pele e terminavam, quando tinham de terminar, nos tecidos expostos. O conjunto constituía para as mulheres uma verdadeira blindagem (daí, talvez, as notícias de tão poucas violações?), pelo que também lhes acudiam as criadas para vestir, pentear e despir.
Ponto importante era o do preço pago por aquelas roupas todas.
Fidalgos houve, a crer no que dizem as crónicas, que se arruinaram na compra de sedas, brocados, veludos e escumilhas! E de chapéus à moda sabe-se que houve sempre fartura.
Contraste: quando aqueles luxos raros custavam fortunas, não faltou quem os usasse em prova de ostentação ainda que nos ombros lhes pesassem uma arroba; agora, quando os tecidos têm preços menos inacessíveis porque a confecção industrial os «democratizou», o vestuário aligeirou-se, reduziu-se ao mínimo dos mínimos. Terá isso a ver com o aquecimento global e o arboricídio selvagem?!


Tarde de sol fagueiro abrindo uma Primavera temporã. Último dia da exposição de pintura com apresentação de livro que reproduz os desenhos expostos. O pintor E. R. emociona-se ao agradecer por fim. Evoca o seu «sonho de menino», pintar. A assistência aplaude calorosamente, percebendo a piedade que exprimia por si próprio e o seu apelo implícito para que nós outros estivéssemos com ele na realização do sonho. Apelo inútil, patético. O pintor parecia ter esquecido que todo o ser humano alberga pelo menos um sonho morto-vivo e que o seu apelo o tornava presente no foro íntimo de cada um dos ouvintes.

sábado, 8 de março de 2008

Governo planetário, já!

A globalização (não a introduzida pela Internet, sim a imposta por interesses e estratégias do comércio e da livre circulação dos capitais) tem espalhado batalhões de braços em riste a bater-lhe palmas. Então, se assim é, vejamos o mundo assim globalizado. Notemos os seus problemas mais instantes e agudos.
A conservação do ambiente natural e da biodiversidade, isto é, o controlo mundial dos gases nocivos, não tem correctivo. A degradação já se torna irreversível.
A paz planetária continua ameaçada mais e mais pela difusão de bombas nucleares, pela militarização do espaço (a «guerra das estrelas») e pelas mobilizações imperialistas dos polos.
E não se vê de onde virá um governo efectivo, ou um colectivo de governos unificados, em condições de dar resposta suficiente aos problemas globalizados.
Todavia, são estes problemas planetários que mais afectam a população planetária. Podem fazer estoirar a Terra. Seria bom que deles falassem quantos falam de globalização com aplausos de braços em riste, em vez de aplaudirem o predomínio das estratégias do comércio e das finanças internacionais. São estas forças (não eleitas, não democráticas, sem rosto) que sufocam, numa pilhagem crescente, o mundo. Fazem-nos sentir ao vivo a falência completa dos governos principais e a necessidade premente de se trabalhar pela formação de um autêntico e eficaz governo planetário. Para que governe o planeta de olhos abertos e mereça os impostos que pagamos…


As descobertas permitidas pelos estudos iniciados em torno das chamadas fontes hidrotermais submarinas, situadas a profundidades por fim acessíveis, obrigam pelotões de cientistas a rever conjuntos de ideias até agora assentes sobre a origem e evolução dos organismos vivos. Admite-se que estará ali, nas profundezas oceânicas, por sinal em ambiente de altíssima pressão, sem oxigénio, sem luz do sol e maximamente tóxico, a matriz primigénia autêntica dos seres conhecidos da natureza. Reacende-se, assim, um debate científico dos mais estimulantes que irá manter-se, quero crer, por muito tempo.
Os astrónomos, que tacteiam as funduras do Universo sondando todas as manifestações de vida, ficam também na necessidade de reavaliar ideias tidas como assentes. Os «modelos» que condicionavam o aparecimento e a evolução dos organismos em determinadas condições naturais preexistentes estão assim a alargar-se, porventura a dissolver-se um pouco e a reajustar-se. Por isso ganha cada vez mais consistência a hipótese de que, quando pensamos a matéria (orgânica ou inorgânica), estamos a pensá-la apenas num certo estado. Ora a matéria, sendo transformável, não é destrutível. Em si mesma contém, indissoluvelmente, espaço e tempo – as duas dimensões fundamentais. Matéria-espaço-tempo é, revelada, a forma absoluta de todas as formas possíveis da génese. E vêm à baila os «buracos negros» no centro das galáxias, os neutrinos…
Enfim, dai-me matéria e dar-me-eis tudo – espaço, tempo e vida em evolução.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Prendas da vizinhança

Um vizinho que tive fez-se notar pela vulgaridade. Baixote e gordinho, de avançada maturidade, pele fina e nédia como a de um paxá do nosso imaginário, mas casado com umas amplas saias e de cabelo na venta, passava o tempo sentado. Estranhava vendo-me subir os degraus da escada porque ele não prescindia do elevador. Objectava-lhe: conservamos no corpo o que usamos, perdemos o resto. Creio que nunca me entendeu, pois a mulher continuou a queixar-se. Acusava-o de ir de carro até algures e, lá chegado, tornava a sentar-se, a vê-la mexer. Por fim, o homem morreu já sem sair do passo curto cama-sofá.
Enriquecido após a falência de empresas que administrara, o homem até viajara um pouco noutro tempo: tinha ido à Galiza e a Paris, dormira uma ou duas noites nesta capital, fora ao Moulin Rouge (naturalmente na companhia de quem falava francês), fora com mulher para o quarto… Enfim, grandes aventuras! Peripécias dignas de ser contadas!
Acabou por me declarar o que pretendia. Dispunha-se a contar a sua vida ao «jornalista» para que escrevesse um livro. Um romance!
Sorri abertamente; bastava conhecer a mentalidade do sujeito para contar com a prenda. Comecei:
- Imagina você que está a propor-me um trabalho para quanto tempo? Doze meses? É pouco, mas façamos as coisas por metade, seis meses. Ora um trabalho desses, digamos especializado, seria pago por quanto? Pelo vencimento mensal do redactor de jornal? Multiplique-o então por seis. A soma enche-lhe o olho, estou a ver na sua cara, mas falta agora o custo da produção do livro na gráfica, multiplique essa soma por três…
- Isso não! – explodiu o homem.
- Calma, ainda não é tudo. Acrescente o seguinte: alguém iria comprar o seu livro? Quem iria lê-lo, ainda que o recebesse oferecido?
- Mas eu estive em Paris, fui ao Folie Bergers, ao Moulin Rouge…
- Acredito. Milhões de pessoas, todos os anos, passam por lá largando a notas festivas que fazem andar o moinho, você foi mais um. E, enfim, porque teríamos nós todos de pensar que as miúdas peripécias da sua vida eram mais interessantes do que as que cada um de nós viveu, lá ou algures?
Estraguei-lhe a fantasia mas reconquistei o sossego.


Esta tarde cruzei-me no passeio com uma orgulhosa mamã. De olhos em alvo, vinha ao meu encontro impelindo o carrinho pelo passeio estreito e fez toda a questão em calcar com as rodas o meu sapato. Reclamação (muda) da senhora: ali ia o seu bebé, atenção! Devia ter-lhe deixado aberto o caminho, saltar para a via!
Decerto numa atitude afim, vêem-se automóveis com autocolantes a advertir o mundo: «Bebé a bordo. Cuidado!»
Atenção e cuidado exigidos aos outros? Para os seus rebentos?

quinta-feira, 6 de março de 2008

Uma língua «esquisita»

O homem dos jornais surpreendeu-me. Classificou de «vício» este velho hábito de os ler. A conversa ligeira vinha de trás (lamentara eu que tanta da nossa gente ande a arredar-se da informação e que, por outro lado, esta se afunde cada vez mais no poço do pensamento único e da verdade feita), e derivou para o jornalismo tabloide infestante, o sensacionalismo barato, o verbo de encher. Mas o homem não entendia como uma boa informação é indispensável ao cidadão e ao sistema democrático. Defendeu-se com um argumento coxo: vendia os jornais nacionais e não os lia por estar todo o tempo a atender pessoas sem capacidade para tratar de uma formalidade das mais simples. E contou uns casos demonstrativos.
Será esta a gente do país profundo. Camada espessa que não lê jornais, não entende o melhor da informação porque não a relaciona por não ter memória ou não ter educação para equacionar os factos. Ou que devora página por página, linha por linha, um jornal desportivo, como todas as manhãs faz o vizinho habitual da minha mesa do café. Camada amorfa do diz-que-disse, que trabalha e se rala tratando da vidinha, de olho vigilante na vizinhança, que discute os eternos futebóis, escandalozitos e telenovelas, mas que ignora a situação real do país ou da sua cidade, as últimas mudanças havidas ou a haver, e que não responde se lhe perguntam o que é ser cidadão porque isso será falar uma língua esquisita. É este o país das vetustas e esquecidas promessas de Abril, que o povo arrebanhado, com o seu peso eleitoral, condena ao desgoverno e às tropelias de políticos de meia tijela. Como estranhar que a emigração se faça de novo em caudal?
Uma certa esquerda engravatada e bem pensante diverte-se nestes dias a pôr em circulação na Internet um «Power Point» a demonstrar que é o próprio povo o culpado do atraso do país, não os políticos que o povo elege. Omite porém dois factos capitais: os políticos tornaram-se indispensáveis ao povo sem ninguém lhes dar tal direito; são os políticos que governam o país com leis, recursos e decisões estratégicas, objectivos - logo, o país real que querem e lhes convém é exactamente este.


Apenas eu notarei o pormenor? Cada período de Natal e Ano Novo vejo em multiplicação as caixinhas com ranhura aberta a pedir moedas em cima dos balcões e bem à vista do freguês. Generaliza-se, portanto, esta muda pedinchice que parece dirigida aos clientes mais certos de cada loja. Todavia, há poucos anos eram ainda as lojas que brindavam no período festivo os seus melhores clientes. E agora são estes convidados a festejar o pessoal onde eram brindados?!
O segundo milénio traz fartura de mudanças (quase nunca para melhor) e uma delas será, provavelmente, a introdução subliminar, nas mentalidades correntes, de um estatuto de consumidores moldados pela ideologia do mercado. Deixaram de ser «utentes», «usuários», etc., ao serem promovidos a «clientes». O mercado, para existir também a nível simbólico, faz-se pagar para mais se legitimar.

quarta-feira, 5 de março de 2008

A fuga para nenhures

O caso vivido no comboio misturou-se com o jantar. Não resisti a descrevê-lo a quem comigo estava à mesa e… estarreci ainda mais porque não fiquei sem resposta. Apenas um caso, o mais impressionante.
Os pais de uma menina de quinze anos perceberam certa noite, de regresso a casa de madrugada, que a filha chegava um pouco depois deles. Admiraram-se, pois não lhe conheciam tais hábitos, e quiseram avisá-la.
Então isto são horas? Onde estiveste? Numa festa, com as minhas amigas. Ah, bem, isso é contigo. Porque já sabes, se fizeres alguma coisa de mal, é para ti mesma que o fazes. Sim, eu sei.
Esta conversa foi reproduzida no dia seguinte pelos pais ao amigo que no-la repetia agora mergulhado em estranheza.
- Aqueles pais deixam a menina à solta, nem lhe controlam as saídas nocturnas nem nada, e afirmam-se convencidos de que sabem educá-la e protegê-la tendo apenas o cuidado de lhe dizer e redizer que se fizer mal, será para ela! Formidável, não é?! E o pior é que realmente eles se convencem de que isso basta!
A que ponto se chegou, a fugir para nenhures e sem saber do quê.


Logo ao chegar, a cachopa avisou-me:
- Não te chegues, estou com gripe.
- Lamento.
- Mas já comecei a empaturrar-me com laranjas…
- Porquê?
- Vitamina C!
Uma pausa. Sorri com meia cara, a indagar:
- Mas ainda não consegues crer naquela ideia que te dei um dia, que a doença se declara no corpo onde falta uma determinada substância que existe na natureza?!
- Ora, não acredito nisso!
- Não acreditas nisso e, repara, atiras-te às laranjas em busca da vitamina que julgas boa contra a gripe. E teimas em não encarar o teu corpo como um activo laboratório bioquímico a funcionar em ligação estreita com o sistema da natureza que te oferece laranjas no tempo em que mais te convém comê-las…
…E mais dificuldade terás, julgo eu, em perceber duas simples evidências: que o teu corpo é formado de algum modo por imensos bocadinhos das estrelas que vês no céu e que, sendo a tua casa a Terra, terceiro planeta do Sol, para todos os efeitos o teu lugar é esse todo, o Universo…

terça-feira, 4 de março de 2008

O que fica para os «outros»

Sentei-me no comboio num daqueles lugares duplos fronteiro a outro igual. Foi ocupado por rapaz de uns trinta anos e sua menina de uns quatro, que ficou à janela. Ele operário, ela filha, supus, e não me enganei. Tarde agradável, não iria permitir-me pegar no livro, cochilar. A menina, muito viva e realmente encantadora, pedia atenção que o pai lhe reduzia ao mínimo. Dir-se-ia que preferia alhear-se da garota, calar-se e descansar. Bastara comprar-lhe um entretém. Dava a ideia de que levava consigo não uma filha, sim um vulgar embrulho recebido num sítio e a entregar noutro. Divorciado, tornei a supor; a ex-mulher confiou-lhe o rebento pelo período da regra e ele vai agora descarregá-lo no regaço da sua própria mãe para seguir com a vida. Por aqui se percebia a nula intimidade existente entre os dois.
A menina distraiu-se enquanto pôde com o seu brinquedo, depois virou-se para a vizinhança acessível, eu. E pouco a pouco, tagarelando, foi fazendo amizade comigo. O pai sorria satisfeito por alguém, com aspecto de avô, atender a sua miúda, que repetia agora recomendações ouvidas à mãe entre gestos e expressões que a insinuavam. Naturalmente ela teria emprego, deixaria a menina em casa entregue à avó materna. Afigurou-se-me então que tinha ali diante dos olhos um exemplo de quanto investimento, não apenas afectivo, falta a algumas relações entre pais e filhos. De quanta solidão ou de quanta indiferença gelada se instalou no interior dos espaços domésticos!
A nossa conversa ia animada quando o lugar vago à minha esquerda foi ocupado por rapariga, estudante a crer na sua leitura. Entretanto, eu ia explicando em brincadeira o que víamos desfilar pela janela: oliveiras, pinheiros, laranjeiras, ovelhas, cavalos, bois, etc., com a respectiva contagem, passámos para jogos com dedos e mãos… Tanta novidade para a mente infantil! Tanto espaço em branco para povoar!
Depois a rapariga entrou no diálogo, disse que ia ao Porto inscrever-se na Faculdade, o rapaz espevitou-se, mostrou presença e simpatia, e acabou por trocar com ela números de telefone antes de sairem os três em Vila Nova de Gaia…
As horas de viagem tinham deixado de ser vazias, uma sensaboria, para aquela criança esfomeada do que lhe mingua - atenção. É bem verdade, não poderemos saciá-la dando-lhe um chocolate no dia de anos e outro pelo Natal quando a necessidade é permanente.


Recolho em dia posterior a notícia que corre. Os pais portugueses são os que na Europa comunitária menos brincam com os seus filhos: apenas seis por cento. Uma pessoa fica estarrecida mas não admirada. Confundem-se a falta de tempo, a falta de hábito e a falta de gosto para que os papás estejam com a família. Decerto perderam-lhe o jeito. Isso vai ficando entregue aos «outros», às amas, educadoras de infância, professoras…
Que espécie de gente está assim a ser criada?

segunda-feira, 3 de março de 2008

O povo e o ícone

Emerge Salazar à tona dos dias quando algo remexe nas águas profundas do colectivo nacional. E não admira. Apesar dos anos que levamos de regresso ao sistema democrático, o país aparece restaurado conforme o desenho que dele herdou. Salazar é o ícone fatal que reflecte a matriz do povo português ao ponto de se poder perguntar se não será mais este povo que engendrou aquele ícone e nele se compraz.
Para além das aparências «democráticas» em diluição, vê-se instalado no terreno o essencial do regime da ditadura. A comunicação social toda, sob eficaz domínio, deixa o povo entreter-se com futebol, telenovelas e miúdas invejazinhas; a justiça e as polícias governamentalizadas; os milionários (agora contam quinze mil, quando Salazar morreu, seriam milionárias quantas famílias portuguesas: seis?), enriquecendo aqui dentro e saindo a investir lá fora; a governação atraindo investimentos estrangeiros a todo o preço e adiando uma estrutura económica menos aleatória; os assalariados tolhidos por medos e angústias em crescendo; as populações embaladas em promessas de consumismo sonâmbulo e adiando o despertar… Não era diferente deste o país que Marcelo Caetano, após Salazar, pretendeu. E então, acredita quem tal viu, abundava mais cidadania, mais solidariedade e capacidade participativa; havia quem visse, ouvisse e lesse. Tudo isso desapareceu, foi varrido ou esmagado. Quem tem uma verdade importante, de notório interesse geral, e a proclama em público expondo-se aos zelos alheios, fica ciente de quantas atenções agencia. No meio da praça, em cima de um banco, falará na Travessa do Fala Só.


Uma outra estória, neste caso profundamente embebida na memória popular, conta que o ditador convidou para uma refeição diversos chefes de governo, ministros e líderes estrangeiros. Querendo pôr a reluzir perante as visitas a sua sabedoria de governante, mandou pôr na mesa um único limão, que circulou pelos comensais até que lhe chegou às mãos. Todos os presentes acharam que Salazar não conseguiria espremer melhor o que já estava bem espremido, mas enganaram-se: o ditador apertou ainda mais o limão e, para geral espanto, extraiu do mirrado fruto quanto precisava.
O povo reconta a estória saboreando-lhe a graça. O ditador até dava lições, era mesmo económico!...
Porém, quem a inventou (pois o caso não é rico de verosimilhança) certamente não pretendeu, nem de longe, exprimir tal conclusão. Pretendeu denunciar, não espalhar gracinha. Quis dizer que até de um povo pobre, atrasado e oprimido era possível extrair quanto o ditador quisesse – e, com todas as ajudas dos seus apaniguados, conseguiu-o. A lição, política, ficava à vista. Mas o povo (o limão), mesmo depois de viver em regime democrático, insistiu sempre em não ver, preferindo deixar-se espremer para continuar a saborear a gracinha.

domingo, 2 de março de 2008

Massificação em curso

A massificação de populações inteiras resulta de uma forma de opressão, de uma tirania exercida que se revela mais violenta quando chega ao ponto de passar despercebida como se fosse «natural». Mas sê-lo-á a força que modeliza a infinita variedade humana num padrão único – consumista, egotista, hedonista-sem-eden? Que trabalha principalmente para instalar cada pessoa em ilhotas de solidão, no meio de distracções em torrente contínua, em atitudes de passividade «virtuosa», em alienação das realidades do mundo?
E populações deixam-se massificar, aderem ao rebanho humano adoptando comportamentos apenas porque lhes são apresentados como «da massa» ainda que sejam novos e minoritários. Pessoa bem massificada não é anti-social… O direito à diferença, sim, é visto com desconfiança, como um desvio culposo da norma.
Mas o fenómeno reveste-se de contrastes curiosos. Quanto mais os indivíduos se descaracterizam, dissolvendo-se de olhos abertos na massa anónima, mais se multiplicam os sinais incorporados de pretensa individualização: tatuagens, brincos, cabelos compridos, penteados insólitos, roupas bizarras, comportamentos singularizantes. Esta tendência avulta maiormente na procura quase frenética de «identidade» - da própria pessoa, da sua linguagem (cada vez mais empobrecida e estereotipada), ou de uma comunidade, país, cultura… Assim tão rara, a «identidade» tornou-se um bem precioso na medida em que nos falta.


Os modelos da linguagem geral entraram também no fenómeno da massificação. Sem pertenças, os indivíduos acabam integrados na massa para com ela se identificarem. Se anda no ar uma qualquer inovação linguística, acatam-na, ainda que a saibam errónea, decerto para se sentirem confortavelmente integrados na massa. Desvios da norma como, por exemplo, expressões «há uns dias atrás», evidente pleonasmo, ou «à última da hora», entre outras, instalam-se, passando do plano oral para o escrito, de mistura com recursos viciosos a vocábulos polissémicos e outras bengalas da expressão – tais como repetir «matéria» ignorando variantes possíveis: assunto, questão, tema, problema, etc. - que reduzem e empobrecem cada vez mais o vocabulário em uso. E acontece o cúmulo: a revisão de uma editora para a qual eu fizera a tradução de um romance com elementos históricos de Génova do século XIII teimou comigo em «traduzir a tradução» querendo simplificar muita terminologia, que aliás desconhecia, como se fosse possível evocar um ambiente medieval sem usar vocabulário da época…
Acresce a veloz implantação de barbarismos ingleses perfeitamente dispensáveis. Por este caminho, a nossa língua materna tornar-se-á irreconhecível no breve espaço de duas gerações. E no Brasil permanecerá conservado o remanescente da herança maior da cultura portuguesa.
(Ilustração: desenho de Paula Rego)

sábado, 1 de março de 2008

Deus não intervém

Quando Teresa de Calcutá se finou circularam comentários a várias vozes sobre umas quantas cartas em que a «mãe dos pobres», aflita com as misérias tantas deste mundo (onde são precisos uns milhares de pobres para acumular riqueza suficiente para fazer um único milionário), exprimia a sua dúvida, ou descrença, em Deus. Essas cartas foram então justificadas por figuras da Igreja em termos razoáveis. Argumentaram: toda a fé, incluída a de Deus, vive e convive com a dúvida na medida em que crer e descrer são momentos de uma mesma vivência religiosa. Pois não passaram por momentos desses, desgarrados e angustiosos, os maiores santos?, acrescentaram. E a Igreja prepara-se para sacralizar Teresa.
Os teólogos católicos consideram que a designada «noite» ou «escuridão» de Deus tem por fim supremo pôr a pessoa crente à prova. Acontece, porém, que esta petição de princípio se torna imensamente perturbadora, pois não explica nada e abre janelas para terríveis perplexidades.
Com todos os atributos e poderes, poderá acaso Deus pôr assim à prova uma criatura? Se Ele, omniscientemente, omnipotentemente, sabe que a sua criatura aguentará o abalo da dúvida, estará a torturá-la inutilmente, ideia esta que, por ímpia, não colhe.
Se Ele próprio, o Adorado, tem dúvidas e quer apurar a verdade daquela adoração, então deixar-nos-á a nós em dúvida quanto àquela omnisciência omnipotente.
Se a criatura soçobra, se a sua fé se dilui na escuridão espessa em que não raia a luz divina, até que ponto poderá a criatura assumir em consciência a culpa da sua queda?
E sendo assim, o poder de Deus sofrerá dano, pois até um crente, erguendo-se quase à altura divina, poderá ver-se em condições de O negar. Teríamos então de concluir, com os teólogos medievais, que não existe apenas Deus, também existe e reina um Diabo igualmente poderoso…
Derradeira perplexidade: tentar as almas graças a Deus?!
Bastará isto para demonstrar quanto a alegação teológica a si própria se anula, enredando-se em labirintos sem saída? Restará, ainda e sempre, a saída de emergência escatológica pela porta dos fundos: Deus escreve direito por linhas tortas, quem somos nós para compreender os insondáveis desígnios do Senhor?! Dito isto, os teólogos voltarão a poder dormir a sesta descansados, mas, perguntemos nós, não estarão os católicos a precisar de outras e melhores convicções?
Se tais desígnios são insondáveis, vejamos agora: do que fala quem fala de Deus ou em Seu nome, apareçam como profetas, místicos, visionários ou teólogos?
Recurso extremo: se o mero raciocínio nos conduz a um irremediável agnosticismo, oiçamos os catequistas a bater na racionalidade: para ser boa, a crença tem que se desembaraçar da razão, tornar-se «puro sentimento». Mas poderá haver sentimento humano sem razão? E poderá a razão declarar a sua própria perda sem cair na loucura? Será a crença religiosa, por fim, uma superstição?