quarta-feira, 30 de abril de 2008

Os medos da vida

Quero ser cremado. E se posso ter voto post-mortem no assunto, peço e agradeço que as minhas cinzas, depostas em urna, fiquem guardadas no jazigo familiar em Bustos, junto aos restos dos meus pais. Ali, morto, ocuparei tão pouco espaço quão pouco no mundo ocupei, vivo.
O meu querer é simples e sem mistério: serei um sentimental até o fim.
Decidi-o lá longe, no tempo, quando me esquivava aos funerais da praxe social e me apercebia da necessidade de resguardar o âmbito restrito do acto (o familiar e o cordial).
Um dia houve notícia de alterações legais e eu, querendo estar ao corrente, interroguei um familiar, jurista e amigo, sobre o assunto. Respondeu que o interessado teria de fazer declaração notarial, mas que não contasse com ele próprio (nada quer que invoque a morte). Percebi que ignorava a notícia da alteração. Enfim, deu-me a ler a legislação revista e actualizada.
O horror à morte condiciona muitos comportamentos. Certas pessoas (que não aquele meu familiar), chegam a considerar ímpia, ou desalmada, a incineração de cadáveres. Uma delas é a minha irmã. Mesmo agora, quando se expande a carência de terrenos para os cemitérios (que se resolve aqui e ali pela adaptação de prédios a tal fim), e se reconhece que a incineração é bem mais higiénica e aconselhável de variados pontos de vista.
Não há dúvida: nos medos da morte se reflectem os tamanhos pessoais dos medos da vida. E embaraçam-na, tolhem-na.
Por mim, creio que avancei no tempo de olhos abertos para a inevitabilidade da morte, pelo menos desde as torturas sofridas na Pide, em Coimbra. Contava 35 anos. tive de a enfrentar de olhos nos olhos sem susto e sem desvio. A seguir, foram bastantes as ocasiões em que, reflectindo perante certos comportamentos (egoístas, arrogantes, mesquinhos, deslumbrados por óbvias fantasias) de quem me rodeava, eu intuía que esses comportamentos teriam na origem a determiná-los um certo medo da morte – medo irracional, degradante…


À pressão doutrinária da Igreja se deve provavelmente uma boa parte da repugnância que existe perante a ideia do fim. Nesse caso, a religião prende a gente ao mundo, não a prepara para «outra vida». Não a põe a viver preparando a morte, antes a deixa agarrada à existência até à sufocação. Neste pé se poderão entender as encenações por vezes ridículas com que é costume cerimonizar um falecimento: as urnas, as flores, as condolências, os préstitos cerimoniosos, a arquitectura das campas… Não é uma eventual dimensão «pública» alcançada pelo acontecimento - abrangendo uma comunidade inteira ou um breve punhado de familiares e amigos – que determina o desgosto da perda, se acaso não o eleva ao paroxismo mórbido. Tenho para mim que a morte de alguém é momento de inviolável intimidade, momento a viver pelos mais próximos numa esfera privada. [2ª ilustração: porta de capela em Roriz, Santo Tirso; data de 1560]

domingo, 27 de abril de 2008

Uma nova fase

Detenho-me neste percurso para, de certo modo, retomar o fôlego.
Na verdade, após 85 «postagens» - conforme a expressão corrente, mas, cá por mim, dou preferência a «edições» - num período de três meses, chega o momento de abrandar um pouco e de olhar para trás. Tenciono tratar das etiquetas que permitem catalogar tematicamente cada texto editado e, de passagem, rever-lhes a apresentação, pois de início a inexperiência restringiu a edição de imagens.
Significa isto que vai ser menos assíduo o aparecimento de «novidades» neste blogue. Abre-se aqui uma nova fase mas manter-se-á de algum modo o fio destas minhas crónicas da final-idade. Fio adelgaçado, não partido. Adelgaçado neste ponto para que possa atender ao papel que como administrador deste espaço tenho que desempenhar.
Gostaria realmente de que o espaço continuasse vivo, a receber visitantes. Neste sentido vou trabalhar. Desejo a sua valorização mediante propostas inovadoras em projecto para muito breve, não da sua estagnação.
Poderia portanto escrever, numa tabuleta tão imaginária quão temporária, que o blogue entra em obras de beneficiação por uns dias.
Uma alteração já introduzida retirou os Comentários. Tiveram sempre pouco uso, até agora, porque amigos e conhecidos preferiam enviar por e-mail, directamente para mim, os seus comentários, de modo a obterem mais amplas trocas de opiniões. Poderiam continuar activos, mas… desde há poucos dias começou a entrar por essa janela uma mosca varejeira que, tendo o gosto de frequentar retretes, se julga no direito de vir sujar o que a seus olhos alveja.
Outra alteração que vou tentar introduzir consistiria em inverter a ordem por que os textos podem ser (re)lidos: do início (em 27 de Janeiro) para o fim (digamos, este «post» de hoje).
O que dispensaria deveras, com notável benefício, seria o funâmbulo que passa por aqui em busca de alimento para a baixa intriga que reina nos meandros da literatura ou do jornalismo. Há gente de nós cegos nas tripas e fel no coração, capaz de ler no que escrevo a expressão de ajustes de contas pessoais em trechos que me saem em perfeita bonomia. Não percebe que nomeio com simples iniciais certas figuras que se cruzaram comigo para captar apenas um comportamento, uma personalidade, um episódio real vivido, porque é só o que interessa focar, nunca discutir a própria pessoa.
Evoco factos que se me afiguram iluminantes de um perfil psicológico ou chaves para decifrar existências humanas. Porque, seja como for e custe o que custar, não quero desabituar-me da minha dieta de pão-pão, queijo-queijo. Pago o preço, tantas vezes injusto, e nem o discuto para continuar em paz no meu cantinho - na companhia gratificante de bons amigos.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Fábula do fazedor

Uma superfície lisa é monótona. Cansa e faz nascer desejos de uma elevação libertadora da banal chateza. Desejos de elevação com vista para mais horizonte, mais luz conquistada. Mas de início a ideia manifestou-se nele lentamente, depois, com o tempo, desenvolveu-se. Iria honrar a terra-berço em que nascera e a redondeza.
Um dia notou umas pedras, depois umas pegadas antigas, logo mais pegadas inseridas nuns papéis. Foi juntando tudo, formou um recoleto e nesse lugar fez crescer vagarosamente um monte com os achados que ia acumulando naquela superfície rasa tão aborrecida, onde parecia não existir nada que não fosse também chato.
Engano. Os achados amontoaram-se, constituíram uma pequena colina. Do cimo daquela colina podiam descortinar-se outras colinas espalhadas pela redondeza porque, afinal, via-se agora, a superfície não era tão lisa quanto se supunha.
Ele, o fazedor, pretendeu então chamar as atenções dos vizinhos para a sua descoberta. Pôs-se em cima da elevação que criara e falou. Satisfeito por assim prestar um serviço à sua comunidade, tão útil que, conforme fez questão em demonstrar a quantos subiam ao seu cimo, permitia descobrir a existência de outras colinas em redor a emergir e a ondular na superfície monótona.
A satisfação, porém, foi breve. Apareceu um vizinho a reagir aparentemente porque alguém, que não ele próprio, tinha feito nome com a obra. Ali, mesmo à sua beira e ele… nada?! Foi ao monte recém-construído, retirou os materiais que quis e tratou de erguer o «seu» monte para discutir o outro, mas sem confessar que dele se fornecia e obrando tão à pressa que teve de o encher por dentro com as suas roupas mais velhas e surradas.
Quem lá ia olhava para dentro e via a trouxa da farraparia tapada por fora com as pedras surripiadas ao primeiro monte (os materiais disponíveis eram realmente poucos) mas não estranhava achando normal qualquer trabalho sobre um trabalho já feito. Além disso, as pegadas antigas ficaram ali dispostas numa equação alterada e tão confusa que nunca mais, naquele assunto, alguém pôde saber-lhe o princípio e o fim. E tudo isto mergulhou o fazedor em melancolia.
Em melancolia atravessou várias solidões até que foi de encontro a novos achados. O fazedor amontoou-os com renovada paciência, entusiasmando-se a cada passo porque bastava dar umas voltas levando os olhos curiosos abertos e os achados iam surgindo, eram mesmo inesperados, surpreendentes. Alguém poderia supor que, numa superfície assim tão lisa, tão sonolenta, estava tanto por descobrir?
Quando o seu novo monte já o fazia empinar o pescoço para lhe ver a altura, entendeu que era obra consumada. Tornou a chamar os vizinhos e deu-lhes a conhecer a maravilha dizendo-se ele próprio maravilhado. Só uns poucos, todavia, ousaram trepar àquele outro cimo, decerto por fraqueza de pernas ou por escasso maravilhamento. Houve até quem o criticasse, alegando que arruinava a paisagem.
Perplexo, o fazedor viveu o resto dos seus dias atirando ao ar cada um dos seus achados. Desforrou-se a vê-los cair a esmo até que dos montes restou apenas uma superfície sem memória.
[Ilustração: mural de mestre Alves André (pormenor central), copiado do blogue «Ferroada»]

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dois miúdos tomam a palavra

A apreciação de obras literárias «para crianças», pelas características especiais do género, não deveria ser feita, como é, apenas por adultos. As crianças também deveriam ter opinião na matéria, mas aí se levantam as dificuldades que, sendo óbvias, são grandes. Por seu lado, os apreciadores adultos podem dispor de aptidões pessoais para o efeito, mas isso, pelo que se vê, acontece raramente e no melhor dos casos. O ideal, em suma, seria termos um crítico literário ou comentador que fosse adulto sem deixar de ser «criança» e modelarmente apreciador da chamada literatura infanto-juvenil contemplada como área da Literatura, ou seja, com não menor exigência e rigor.
Evidentemente, os pequenos leitores apreciam de facto as obras que lêem (conforme lhes agradem muito, pouco ou nada), só que o fazem na recepção das obras, portanto do lado privado, já sem visibilidade pública. Interessante, então, seria perceber, se tal fosse possível, que comentários mereceria uma dada obra a algumas crianças… e que esses comentários fossem realmente genuínos e espontâneos, isto é, sem «toque» adulto.
Calhou-me em sorte viver a experiência. Foi na sessão de apresentação da ficção Os Segredos do Subterrâneo (na Cooperativa Árvore, Porto: 26-9-1986), que surgia com o Prémio Internacional da Juventude. Acho que foi a primeira vez que dois rapazinhos quiseram aparecer para se pronunciarem sobre o livro que acabavam de ler. Conhecia só um deles, era filho de casal amigo.
Pires Laranjeira fez o comentário da obra e no fim intervieram os dois amiguinhos. Achei magnífico, deveras assinalável. Seria, julgo, novidade estreme e sê-lo-á ainda hoje. Todavia, apenas um jornal mais atento publicou estas linhas: «Dois jovens assistentes que tiveram a oportunidade de ler o original da obra [corrijo: leram o livro já impresso, claro!] disseram, em termos simples, carregados de autenticidade, a impressão que lhes deixara o contacto com a narrativa.»
Os dois pequenos oradores confessaram-me por fim que, embora revezando-se a falar, só tinham conseguido dizer metade do que desejavam e haviam projectado. Exprimiam surpresa, frustração e desânimo. Grande descoberta: «É difícil falar em público!» Enaltecendo-lhes a coragem, eu concordei: «Pois é! Temos que praticar, é como começar a andar em cima das pernas ao sairmos do colo.»


Tarde luminosa, macia.
A hora já tardada apareceu no restaurante F. G. com três acompanhantes também para almoçar. Foi figura de partido, presidente, político no governo, enfim, é pessoa altamente relacionada… Sentaram-se e logo F. G. ficou de telemóvel na mão. Assim comeu, mudando de orelha e usando à vez uma única peça do talher, enquanto os acompanhantes, tristonhos, conversavam entre si. Poderiam dizer que almoçavam com o fulano? Ou o fulano que almoçava com eles?
A comida deixou-me um ressaibo que nem o café dissolveu.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Belezas de alma feita

Registo mais um desaire no livro das páginas em branco que abro para cada novo conhecimento. Pura perda! O fulano, A. G., aproveitou o mais que pôde das conversas que com ele tive: livrou-se a tempo da toleima de criar uma editora própria para lançar os seus livros, orientou-se para a editora que lhe recomendei, beneficiou de recensões que escrevi quando publicou novas obras, etc. Ele mesmo o disse: aproveitou de mim o máximo. Dele só aproveitei, no fim, a partida.
De início envolveu-me em frases de elogios tão gordos que, perante os excessos de exageração tamanha, lhe pedi insistentemente para abolir de mim tal linguagem. Como quereria fazer-se acreditar falando-me daquela maneira? Enfim, pouco a pouco, moderou-se, como se lhe custasse travar a língua e adaptar a sua expressão normal ao meu requisito. Mas teimou em brindar outras pessoas na minha presença com gordos elogios.
Tratando das aparências, anunciou uma reciprocidade. Ia realizar uma abordagem apreciativa que distinguiria ao que parece uma obra literária minha. Lembrou constantemente o projecto ao longo de meses enquanto eu, agradecendo, manifestava educada reticência. E foi sendo introduzido por mim em associação do género, aceitou convites para refeições,por sinal bem recebidos porque ele passava (dizia) semanas sem sair de casa onde era sozinho e pouco dormia… Económico até no telefone ou no uísque intragável para que as visitas bebessem pouco. E soube que prometia há cinco anos levar um livro oferecido a amigo seu vizinho...
Pois aquela sumidade de alto gabarito académico explicou-me o que fizera: o texto essencial que projectava «para mim» resolvera usá-lo (como veste de Pai Natal) numa apresentação de livro em Braga de alguém «amigo» e que esse texto iria ser encaminhado para publicação na revista literária à qual eu, para o contentar, lhe dissera que ia propô-lo. Fez muito bem, respondi-lhe.
Aquele texto mirífico servir-lhe-á decerto para outras ocasiões, será uma espécie de nómina de circulação académica universal, e com ele A. G. poderá cruzar os anos restantes da vida sem escrever mais nada.


Á. M. partilha comigo as iniciais do nome e mais nada. Não o conhecia ainda, nem de vista, mas o seu primeiro contacto dispensou-me de mais partilha. Aconteceu quando publiquei no jornal depoimentos de alguns autores nacionais num mini-inquérito sobre a situação da chamada literatura infanto-juvenil. Ofendido por se ver excluído, sem vergonha nem réstia de educação, mandou-me carta (escrita à máquina, fotocopiada) a clamar contra a injustiça e a expressar tanta torpeza de carácter que foi remédio santo. Penso que a beleza daquela alma paira no triângulo da sua letra, mas ainda não fui lá ver.
A. M. não é muito pior de aturar que, por exemplo, outro A. M., ou G. M. T. São uns impertigados que por onde passam deixam histórias para contar. Quem os convida critica mas acode a convidá-los.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

A brincar se aprende

Envolvido em perplexidade fico, uma e outra vez, ao deter-me em vocábulos de etimologia tão nebulosa e desafiadora quanto os de brinco, brincar, brincador ou brincadeira. Não vem para aqui uma abordagem linguística de modo a explanar minimamente o assunto, tão surpreendente quanto inesperado e singular. Basta prevenir que «brinquedo» é termo que parece remontar somente ao século XVIII. Ora! Então esses objectos destinados às crianças podem ser assim tão recentes? Não arranjaram sempre as novas gerações algo com que jogar?
Surpresa grande mas natural. Sentiu-a o prezado amigo arq. Fernando Lanhas, há anos, quando andou empolgado com a criação do Museu do Brinquedo no Porto. Não se descobria constância do termo em Português para além de Setecentos!
O Dicionário Etimológico de João Pedro Machado vincula o termo a «brinco», que na nossa língua materna tem significado idêntico ao castelhano: acção ou efeito de brincar – folgar, saltar, ou jóia da orelha, etc. Mas no castelhano significa ainda o gesto de içar e descer repetidas vezes uma criança nos braços, portanto fazendo-a «saltar no ar». Num auto de Gil Vicente e no Poema de Camões encontramos o vocábulo, atestando que era conhecido no século XVI. Os «brinquedos» e as «brincadeiras», aparentemente, vieram depois…
Quanto à origem de «brinco», reina a discrepância do costume. Provirá do germânico? Ou de outra fonte?


Na figura seca e um tanto mirrada, I. L. acumulou de alguma forma três nacionalidades: era alemã, era portuguesa (pelo casamento, que lhe deu o apelido) e era judia. Circunstância algo singular. A certa altura, admitiu que poderia estabelecer uma «ponte» entre as literaturas portuguesa e alemã, pretensão que não passou de esboço.
Um dia, anunciou-se que um escritor alemão fora distinguido com o Nobel de Literatura e alguns jornalistas contactaram-na para saber se ela o conheceria e como o achava. Embaraçada, I. L. telefonou-me de urgência para a redacção, a perguntar-me o que saberia eu sobre tal escritor, o que saberia o meu jornal. Respondi-lhe que sabíamos o que sabia toda a comunicação social: apanhada de surpresa, punha a circular a notícia descarnada, «no osso». Mas ela, pessoa de trato áspero, teimou, quase exigiu pormenores da vida e obra em foco. Evidentemente, não percebia que estava a pedir-me uma espécie de curto-circuito: eu, jornalista «iluminador», esclareceria através dela os outros jornalistas! Coube-me então apelar para o recurso retórico: respondesse I. L. como é de estilo nestes casos: o premiado era desconhecido mas ainda bem que o Nobel o laureava, ia ter leitores, etc. Reagiu prontamente, de brios feridos: isso sabia ela muito bem dizer!
Pois saberia. Mas avaliaria assim tão bem, perante mim, a sua exigência desmedida? A sua impertinência?!

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A cara exposta

Primeiro por instinto, depois por opção consciente, fugi da popularidade que tantos outros perseguem. Quanto mais uma pessoa for conhecida, menos liberdade lhe resta. Eis o que explica o incómodo que sinto ao ver-me fixado na rua por qualquer pessoa desconhecida (a procurar talvez na memória a identificação desta cara).
Curioso, sempre admiti mas nunca desejei plasmar a efígie nos meus livros. Acatei os requisitos do grafismo de cada colecção atendendo, por mera cortesia, os pedidos das editoras que me publicavam as obras. Mas o retratismo perseguiu-me… para me contrariar?
Uma tarde deparei-me na redacção do jornal com a minha cara numa enorme fotografia a acompanhar uma apreciação literária a livro recente (cada página do jornal era então composta em maqueta de papel). Reagi, achando excessivo, e a página foi recomposta. Provoquei, contudo, um pequeno escândalo.
Não houvera ainda jornalista ou autor literário a queixar-se por ver a sua imagem em grande plano. Queixas, sim, havia, mas da falta de imagem. Ora eu não pretendia «favores» na redacção e muito menos com o rabo de fora a rabiar. Imaginei como iria ser visto aquele meu retrato no dia seguinte, impresso no centro da página, e até imaginei que não fora por «simpatia» que alguém o pusera ali, ampliado. Camaradagem tão solícita não traria água no bico?


Agradou-me o que o neurocientista António Damásio disse em entrevista (Ana Gerschenfeld, «Público», 22-03-20007). Confirmando a ética de David Hume, que tinha por base as emoções, explica como os humanos rejeitam as formas extremas de calculismo utilitário em ligação com a produção de emoções sociais. Afirma: «Penso que esta forma mista de juízo moral, que alia a razão à emoção, é a manifestação de uma sabedoria lentamente acumulada ao longo da evolução (tanto biológica como cultural). Os juízos mais simples não exigem esta combinação, sendo possível lidar com eles ou somente com reacções emocionais.» Deste modo, uma «disfunção cerebral», podendo determinar comportamentos impiedosos, pode também existir sem que haja uma «lesão cerebral» clara. Acrescenta: «A melhor maneira de descrever estas personagens despóticas é dizer que se trata de psicopatas narcisistas, que tentam alcançar altas recompensas através da sua brutalidade.»
Preferiria que tratasse dos sentimentos, para os enaltecer, em vez de emoções, porque aqueles são raros e preciosos e estas, creio eu, são experimentadas de alguma maneira por toda a gente, déspotas incluídos. Mas aproveito para sublinhar aquela dita «manifestação de uma sabedoria lentamente acumulada ao longo da evolução» que até animais complexos, como os chimpanzés, de certo modo compartilham quando acatam regras morais simples: «por exemplo, ajudam os outros, quando estão em apuros, o que constitui um comportamento de compaixão».
Damásio, enfim, estabeleceu um princípio ético de alcance fundamental. Nele se revê, em corpo inteiro, a ideia de uma religião natural defendida por Hume (que certos autores ligam ao agnosticismo).

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Dignidade pela educação

Costumo repetir que é a pessoa educada que avulta com toda a sua dignidade humana perante os outros. Claro, a noção de pessoa educada implica uma boa consciência de urbanidade e de cidadania. Confundir maneiras educadas, respeitosas, com humildade, condição social modesta ou timidez é tropelia comum de quem já não atina na matriz em que se gera a autêntica categoria da pessoa. Assim se tornaram ostensivamente lamentáveis os indivíduos que se julgam «formados», cultos e ocupando posições de relevo e que, talvez por isso mesmo, exibem comportamentos em que abunda a grosseria. Gostaria de ter garganta potente para gritar como quem escreve no céu em gordas letras vermelhas: despoja-se realmente de tudo quanto poderia qualificá-la a pessoa rude, agressiva, arrogante, presunçosa, envaidecida com títulos académicos, condição social, fama, riqueza…


Cedo me habituei a enfrentar gente em frenesim com manifestos propósitos de me agredirem ou humilharem. Poucas vezes me alterei. Ao sentir-lhes a ponta fria da animadversão e sem atinar num pretexto sério que a pudesse justificar, isto é, reconhecendo-me maltratado ou injustiçado, via-me imediatamente diante de alguém que a si próprio perante mim se rebaixava, humilhando-se e comprazendo-se na indignidade. Querendo atingir-me, não se importava de agir em agressão gratuita. Sereno, virando-lhe as costas, eu mostrava que não queria degradar-me. Mas não terá festejado essa gente as suas tolas vitoriazinhas, crendo estupidamente que venciam mais do que a si próprias se venciam e no acto se derrotavam?


«Ó jovem algures que sentes em ti subir qualquer coisa que te faz estremecer, aproveita o facto de ninguém te conhecer. E quando aqueles que te tomam por nada te contradisserem, quando aqueles com quem convives te abandonarem de todo, quando te quiserem exterminar por amor dos teus queridos pensamentos, - que significa este perigo visível que te mantém concentrado em ti mesmo, comparado com a manhosa inimizade da glória, mais tarde, que te torna inofensivo, disseminando-te?
Não peças a ninguém que fale de ti, nem mesmo com desprezo. E quando o tempo passar e tu notares como o teu nome circula entre os homens, não o tomes mais a sério do que tudo o que encontras na sua boca. Pensa que ele se perverteu, e desfaz-te dele. Adopta outro, qualquer outro, pelo qual Deus te possa chamar à noite. E esconde-o de todos.» (Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Bridgge, pp. 81-82.)
Quão singulares, mesmo loucas, parecerão hoje estas palavras! A estranheza imensa que provocam! Mas é exactamente nessa agulha do sismógrafo que podemos ver desenhada a curva traçada pela deriva. Vale a pena acordar e sair da confusão! Exactamente como Rilke, estamos na vida com a mesma nudez, apenas nos revestem espessas camadas de ilusões. [Imagem: pintura de Munch.]  

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Envolvido em descrença

Ando a descrer mais e mais das disponibilidades de inteligência que pode brindar-me a «multidão ampla» que me rodeia. Percebo que o meu comportamento público e mesmo algum privado deveria apresentar uma imagem construída, conveniente, e que a deveria vender ao consumo alheio, porque tal é de norma neste ambiente social (não apenas o literário). Mas fui-me retraindo à medida que avaliava a cedência implícita à «economia das representações» em expansão imposta pelas leis do mercado que tudo consome, incluídas as imagens enquanto meros artifícios em circulação. Desalinhei-me completamente ao ponto de a «multidão ampla» não ter de mim melhor opinião do que a que dela tenho.
A exemplo de tantos outros autores, deveria agir como «relações públicas» em sedução máxima para atrair os leitores para os meus escritos, mas fixei-me por fim nesta atitude incomplacente de quem, por opção sincera, se recusa a atrair (a enganar) alguém com acenos de maravilhas mil para dar simples bijuterias. Queria, e quero, chamar a atenção para os meus livros à espera dos juízos que possam merecer, juízos livres e competentes, na atitude de quem não se tem por admirável ainda que um qualquer seu escrito possa brilhar ao sol de alguma inteligência disponível. Em suma, queria apagar-me para deixar correr as obras. Mas concluo: se os autores literários vendem mais, actualmente, os seus livros através das imagens que construíram no mercado, não serão tanto os seus livros (lidos) quanto as imagens (cristalizadas) desses autores que fazem negócio. E valerá a pena ler essas imagens? Serão essas imagens «literatura»?
Entretanto, ancorado nos meus escrúpulos, eu tão-pouco consigo chegar pelos meus livros a uma comunicação real suficiente com os leitores. Descontadas as excepções, onde estão esses leitores? Não chegam para realizar a mais funda e secreta ambição de quem os deu à luz.


Que conversa! Mas um debate sobre conhecer o conhecimento vale sempre uma exploração às derradeiras zonas virgens da Amazónia…
Respondi-lhe:
- Todos nós sabemos menos do que julgamos saber. Porque julgamos certo o que é erróneo e portanto não confirmável, seja por deturpação momentânea da memória, seja por inexactidão do que a ignorância confunde ou por qualquer outra obliteração introduzida no assunto.
Por outro lado, também sabemos mais do que antes supúnhamos - descoberta que nos faz soltar a exclamação: «Pois é! Afinal, eu até sabia!»
Alguns dos conhecimentos que guardamos num esconso qualquer mantêm-se pendentes de uma boa ocasião para se revelar. E será impossível avaliar quanto um dado indivíduo que morre sabia e não chegou a revelar-se-lhe.
[2ª ilustração: pintura de Michael Ende, nasc. 1929]

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Pátria sem filhos

Desde que as nossas escolas começaram a ensinar competências e já não saberes, parece que deixaram também de ensinar o amor da pátria. É um sentimento estranho, mesmo exótico, agora. Em Portugal deixou de valer o patriotismo, talvez seja assunto entregue ao cuidado de alguém que é pago para sentir por nós o que nos competia.
Nesta atitude, escandalizam-nos os estrangeiros que vêm gozar as suas reformas ao nosso sol e, com imenso topete, desfraldam a bandeira da pátria de origem no mastro da casa que compraram no All…garve. Pois querem ensinar-nos o quê?! O português emigrado não faz isso e, quando regressa à pátria, até exibe em casa a marca de onde veio. Não tem por costume implantar no jardim ou no quintal um pau de bandeira e, ainda menos, de o enfeitar com o símbolo nacional - símbolo que não tem na gaveta. Basta-lhe exibir a bandeira da sua equipa de futebol.
O português alheou-se do sentimento patriótico, que passou a considerar rançoso, tonto, ridículo. Identifica-o por aproximação com uma ideologia nacionalista, de direita. Acha que este tempo é de globalização (conforme políticos e empresários gostam de repetir): na mundialização, portanto, se diluem as fronteiras e, ó maravilha, já declaram o português cidadão europeu.
Evidentemente, o comércio reclama portas abertas em geral para transpor livremente os limites territoriais e os fluxos financeiros não lhes ficam atrás, se é que não lhes cortam caminho. Mas estamos perante uma confusão tremenda que se foi instalando subrrepticiamente, desde data recente, no imaginário colectivo. Talvez haja bom motivo para supor que a mudança se iniciou, nos anos ’80, com a entrada de Portugal na União Europeia.
Todavia, a integração europeia não apagou as nacionalidades: integrou mercados e consumidores, políticas económicas e financeiras dos países envolvidos,. A dimensão sociopolítica ficou sentadinha na sala de espera e vai-se entretendo com uns acenos. Por outras palavras, a União Europeia continua composta por uns tantos países: uns principais, outros secundários, uns grandes e fortes, outros pequenos e anémicos… e, claro, aos principais sobra egoísmo nacional.
Verdadeiramente, qualquer que seja a ideia que aloje na cabeça, o português compartilha de algum modo, com a sua sorte, a sorte da pátria que é sua. A soberania dos Estados, aparentemente, anda enfraquecida, as nações e os povos sofrem atropelos neste ambiente de desregulação arbitrária, mas esses são outros tantos problemas da nossa época que urge resolver. Vendo limpamente através das cortinas em suspensão, o amor da pátria é tão necessário hoje como ontem. Com esse amor nos agarramos ao chão que pisamos - a rua, o bairro, a região, o país em círculos sucessivos – e, defendendo-o, nos defendemos. É o nosso barco, queiramo-lo a navegar. O sentimento patriótico, sem sofismas, abre-nos os olhos para o que de facto é nosso; teremos a segurança e a tranquilidade possíveis cuidando do que compartilhamos e nos pertence.
[Ilustração: Mãe, desenho de Isa Ventura]

Activo-contemplativo e vice-versa

Na parede defronte desta mesa em que continuo a ler e a escrever houve em tempos um quadro de grandes dimensões. O amigo P. L. apareceu-me de visita e lavrou parecer: eu era um contemplativo! Discordei mas não o demovi perante a evidência.
O quadro exibia uma foto a cores muito ampliada. Mostrava um jardim com lago, uma ilhota no meio, árvores e arbustos, flores e relvas sulcadas por trilhos ermos, tudo a respirar numa serenidade madura onde poderia sentir-se o piar de pássaros canoras, algum voo de asas deslizantes, ecos perdidos na lonjura para lá do folhedo sussurrante e das verduras.
Era isto a prova da minha índole contemplativa aos olhos (aliás sempre benévolos) do meu cordial visitante. Anunciei-lhe que o quadro era ali provisório e que, por mim, não me achava mais contemplativo do que activo, ou vice-versa. O amigo P. L. tinha formado opinião.
O episódio vem-me à lembrança (deixando-me em dúvidas: estará P. L., agora a repartir-se por três continentes, de Coimbra para África ou Brasil e hoje a descer o pé algures na América?) porque me deparo em página de Hermann Hesse com trecho que me suspende. Cito:
«O meu escopo básico é este: a unidade do homem, além e acima das suas contradições. Não nego, é claro, a possibilidade de certos esquemas como o da “vida activa” e da “vida contemplativa”. Nem que possa ser útil discriminarem-se os homens de acordo com esse esquema. Existem os activos e os contemplativos, mas acima de tudo está a unidade do ser humano. Para mim só vive realmente e, na melhor das hipóteses, só é modelo aquele que encerre em si mesmo esses dois polos contrários. Nada tenho contra o que trabalha e produz sem cessar. Não sou também contra o eremita sempre absorto nas suas preces e meditações. Mas não acho nenhum deles interessante ou exemplar. O homem que procuro e almejo é o disposto tanto à vida participante quanto à solidão, tanto à acção quanto ao mergulho interior. E se, nos meus escritos, segundo parece, dou prioridade à vida contemplativa sobre a activa, faço-o provavelmente por ver o nosso mundo e o nosso tempo povoados por pessoas activistas, operosas, agitadas, mas incapazes de meditar.»
Neste ponto se encontram Hermann Hesse e Claude Julien, embora este, nosso contemporâneo, preconize, como um dia referi, «a eficácia do recolhimento no mundo dos nossos dias». Tem razão, acho eu. O mundo já não é o dos anos ’40, é este, do novo milénio. O que mudou? Enquanto vou relendo com todo o proveito autores admiráveis, isto é, fugindo de verborreias e entulhos do negócio editorial corrente, chegam-me miúdas queixas de quem compra best-sellers e fica desiludido. Explico: não compraram uma «obra», um livro real, compraram uma «imagem» mediática, um nome com força televisiva.
Termino com Hesse: «O povo não aprecia originais: prefere tudo em segunda mão. Só gostamos do novo depois que foi já digerido e alterado, reduzido e modificado pelo uso.»

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Aposto na sinceridade

O episódio ontem narrado traz-me outro à memória. Um dia, há muitos anos, C. L., em visita a minha casa acompanhado por A. G. M., insistiu comigo para que mudasse a posição de uma planta em vaso, na sala, em relação à entrada de luz natural. Argumento: rodando o vaso, a planta receberia luz em toda a volta. Discordei, contrapondo: isso «enganaria» a planta, já habituada àquela posição. Acrescia o seguinte: a sala recebia luz abundante, não se justificariam tais mudanças.
Evidentemente, seria fácil concordar com o visitante e, logo que partisse, recolocar o vaso na posição normal. Mas isso seria hipócrita, um pouco cobarde e desonesto. Achei preferível apostar na sinceridade. Sempre. Pode trazer-nos alguns problemazinhos, nunca arrependimento.
Já minha mãe sentenciava «mais vale perder um amigo que uma boa razão» para afirmar que devemos decidir sempre pela íntima convicção do que é justo ou razoável.
Enfim, fiquei tido como «teimoso» logo ali, sumariamente. Porém, a sorrir-me para dentro, a pensar com os meus botões.
Estas miúdas coisas dos nossos quotidianos não têm importância nenhuma. Mas as imagens das pessoas concretas que temos e usamos constroem-se com essas bagatelas sem importância nenhuma – tão sem importância que nem valem a sério um comentário.


Fui verificar: comecei a tomar notas para «E foi assim» (ver o texto inicial deste blogue) na manhã de 19 de Janeiro de 2006. Passado ano e meio vejo que Zita Seabra, editora e deputada do PSD, publica um livro intitulado precisamente Foi Assim para recordar aspectos da sua trajectória política (iniciada no PCP). Fico a pensar que se um dia viesse a publicar estas crónicas com o título de E Foi Assim… haveria alguém de acusar-me de plagiar Zita, ignorando que não tenho quaisquer contactos com ela e que o meu título é, de qualquer modo, bastante anterior.
Seja como for, verificam-se de facto coincidências por vezes embaraçosas e algumas até são, mais do que embaraçosas, perturbantes. Pois não aconteceu que a crónica do A. A. B., lida na revista «Autores», decalcava totalmente e à evidência as ideias e as reflexões que eu fizera semanas antes em crónica saída no «Jornal de Notícias»? O tema: sabemos pouco cada um, todos saberemos tudo… Naquele tempo sentávamo-nos ambos muitas vezes lado a lado nas reuniões da direcção da S. P. A. à qual pertencíamos. Estive para lhe referir o caso mas calei-me, percebendo que iria magoá-lo e complicar uma relação fraterna. Ainda hoje me pergunto o que terá acontecido, o que lhe terá sugerido o tema e guiado a mão?
Que os escritores se inspiram uns nos outros, é verdade assente. E os artistas?! Aprendemos realmente com todos os trabalhos alheios que conhecemos, a originalidade plena é inalcançável. Resta portanto decidir onde se declara cada influência recebida e começa cada plágio. Exemplo: teria Eça de Queirós bebido de Machado de Assis ou aconteceu a inversa? E não se confessou o grande escritor brasileiro como plagiário?

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O menor teimoso

Registo a curiosidade. Certo amigo taxou-me de «teimoso» num escrito que aparece no livro saído em 2005 para assinalar os cinquenta anos da minha actividade literária. Pretendeu o amigo, A. G. M., salientar um traço no meu carácter, não estabelecer no caso uma avaliação qualitativa. Mas, para mim, trata-se de uma opinião, de uma «maneira de ver» pessoal, logo de uma parcialidade.
Raciocinando com lógica (vale a pena, sempre!): o «teimoso» carece de outro maior para se revelar, e mostrará sê-lo de facto na medida em que tente sobrepor-se-lhe definitivamente. O confronto entre os dois pode envolver, naturalmente, uma dose variável de sinceridade (franqueza) filtrada pelas regras da convivência cordial, que arreda da realização verbal recíproca o que por vezes fica não dito, nem sequer implícito. Digamos então que o equilíbrio da relação diminui com a «caça ao teimoso» e que deixa de reinar entre os dois uma total harmonia.
Aquele amigo, licenciado em Filosofia, parece não ter atendido a esta dialéctica elementar e acabou por se mostrar um pouco mais «teimoso» do que eu. Ficou a perder. Quis ter razão quando deveria ter tanta tolerância quanto o seu interlocutor, que por sua vez não o acusou de nada. Bem observado, o que disse volta-se contra ele próprio e mostra-o, agarrado à migalhinha, perante a minha habitual aceitação, em boa paz, da diversidade humana.
Na leitura de Hermann Hesse encontro um trecho iluminador: «A obediência é virtude. Toda a questão está em saber a quem obedecer. A obstinação também é obediência. Mas todas as outras virtudes, tão estimadas e decantadas, são obediência a leis feitas pelos homens. Só a obstinação é que não lhes dá importância. O obstinado obedece a outra lei: ao “senso” do que lhe é “próprio”.»
Anoto isto como exercício de pura disciplina do pensamento, colhendo de passagem a última discordância de A. G. M. Porfia ele em juntar hedonismo e epicurismo como termos perfeitamente associáveis, e persiste na sua apesar de lhe demonstrar, de acordo com diversos autores, que as ideias defendidas por Epicuro e outros estoicos da mesma escola nada contêm de hedonista, antes pelo contrário. O prazer que defendiam e procuravam viria da fuga diligente aos males do mundo, única forma possível de serenidade e de paz. Coincide o meu amigo, porém, no ponto que vêm repetindo as tubas propagandísticas da Igreja, desfigurando e desvirtuando intoleravelmente a matriz daquela filosofia. Até chega a argumentar comigo com a suficiência de um estilita (pensante que ia para o topo de uma coluna e troava)…
Suponho que A. G. M., companheiro há mais de trinta anos, exterioriza neste caso mais do que teimosia. Vejo-o empenhado em recobrir com uma ideia «filosófica» a atitude que está a assumir perante a vida e o mundo atribuindo a tal ideia um papel justificador. Quer consumir sem baias, quer desfrutar de todos os prazeres possíveis, ou seja, mergulha no turbilhão das paixões (que ofuscam a clarividência), levado pela ideologia em voga que transforma cada habitante do mercado em predador compulsivo.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

AJHLP roída por dentro

Dedico esta página a umas notas evocativas da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP). Também foi conhecida como Casa dos Jornalistas no tempo em que os homens que redigiam os jornais portuenses não tinham profissão regulada nem caixa de previdência. A Associação foi tudo isso, sendo ainda um polo importantíssimo de irradiação cultural.
Foi criada para honra e memória de António Rodrigues Sampaio no trigésimo dia do seu falecimento, a 13 de Outubro de 1882, proclamando-o desde então «insigne jornalista, benemérito da Pátria e da liberdade». Os Estatutos da Associação ficaram aprovados por alvará de 1 de Maio de 1897 e a sua utilidade pública foi declarada por decreto a 19 de Janeiro de 1927. Mais tarde, já na vigência do regime de Salazar, o Governo Civil do distrito aprovou uns Estatutos reformados a 11 de Novembro de 1948.
Nesta data, a associação de cultura possuía o prédio-sede e, entre os seus objectivos, afirmava «a obrigação moral do auxílio na doença ou falta de trabalho [pelo sistema mutualista], e torná-la efectiva pelos recursos pecuniários da Associação» junto dos profissionais da imprensa ou das letras. Dispunha de uma vasta e valiosa biblioteca e de cantina, promovia conferências e outros eventos culturais de relevo no país e publicava uma revista mensal de cultura. Obtinha receitas das rendas de uma fila de lojas instaladas no rés-do-chão (esquina das ruas do Bonjardim e Rodrigues Sampaio), das quotizações dos sócios e de dádivas diversas.
O valor material do seu património cresceu com a doação de uma moradia em Paços de Ferreira, para descanso ou trabalho de jornalistas e escritores, e com a posse de um parque de campismo na Madalena, Gaia. Era, sem dúvida, património de valor bastante elevado, a condizer com o prestígio da sua acção social e cultural. Corporizava o esforço de sucessivas gerações de homens dos jornais e das letras que sacrificadamente tinham vindo a derramar-se em generosidade para dar vida e esplendor à Associação. Porém, no fim dos anos ’70, entrou-lhe o bicho através de umas obras de ampliação da sede - e foi assim.
O centenário da morte de Rodrigues Sampaio, em 1982, não o tirou da sombra, as obras ficaram a meio, foi-se a biblioteca levada pela ventania junto com outro recheio, a moradia dissolveu-se como floco de neve, o parque de campismo também se sumiu e as lojas do rés-do-chão foram sendo encerradas (resta uma) e as rendas extintas. Mas as obras nunca mais avançaram por alegada falta de dinheiro, que era pedido em vão a uma e outra entidade, embora nas contas relativas a 1999 se aponte um conjunto de disponibilidades cujo valor líquido ascendia a 26.197 contos (então ainda reinava o escudo).
Porém, o mais curioso é que tudo isto decorreu até hoje na mais clamorosa indiferença do meio jornalístico e literário portuense, imperturbável perante a lenta agonia e perda irremediável de uma instituição que tanto e tão prolongadamente honrou a cidade e o país. Apenas uma voz intercede, mas quem a ouve? O que mais irá acontecer à AJHLP?

terça-feira, 8 de abril de 2008

Pastor de palavras erradias...

Um livrinho de histórias «para crianças de todas as idades» que publiquei em 1987 mantém-se sob um estranho agoiro. No original e nas provas tipográficas revistas sempre fiz aparecer quatro entrelinhas (i. e., espaços em branco) correspondentes a outras tantas mudanças de plano narrativo. Quando o livrinho saiu, aquelas entrelinhas, importantes e mesmo indispensáveis na coerência e ritmo da estrutura narrativa, haviam-se sumido. O texto, corrido, saltava de um plano para outro, não respirava!
Reclamei, demonstrando-me alheio à deficiência, mas não pude ir mais longe que isto: pedi por escrito a devida correcção em futura reedição, salientando que seria fácil introduzi-la pois não afectaria em nada a paginação já feita. Mas a 2ª edição tardou (sabem porquê?), a minha reclamação amareleceu no papel arquivado, rodopiaram as caras dos responsáveis na editora… e, quando recebi a dita «2ª edição» em 1994, feita sem aviso prévio ao autor, vinha igualzinha à 1ª, digamos tirada a papel químico. E a 3ª, idem, etc. Deverei desistir?
Para já, uma conclusão. Só esta: parece tão difícil inscrever umas linhas em branco naquelas páginas, nos sítios correctos, que o melhor será desistir definitivamente. Porque se instala a economia do menor esforço que facilita as reimpressões, basta meter o material na impressora e transformar uma obrinha literária em vulgar mercadoria.
Explicará isto que se venda tão pouco?


Uma desgraça puxa outra. Certa tarde, na Feira do Livro, folheei uma «novidade» de minha autoria. Fresquinha, acabava de vir da gráfica e a editora estava a lançá-la. Peguei num exemplar e apreciei a edição, folheando-a. De súbito, o alarme: o trecho final de uma história, por sinal extenso, desaparecera!
Todavia, nas últimas provas que revi (com o esforço acrescido de reler mais uma vez, sem tontura nem tortura, o meu escrito), estava tudo bem. Então a vigilância do autor não ia ter fim?!
Pedi imediatamente a retirada da obra. A gráfica arcou com todas as culpas, que por inteiro lhe pertenciam, e reelaborou o livro. Prejuízo grande, sim! Mas houve que pagar desforra: por fim acabou por levar sumiço o parágrafo terminal daquela história em bolandas…
Foi o prémio de consolação dos comilões dos textos alheios!
Outra sorte coube a livro ilustrado por E. Umas poucas linhas de texto que rematavam duas histórias foram trocadas por algum distraído, à última hora, e assim ficaram… e foram ficando.
Quantos leitores atentos detectarão estas anomalias nos livros e avaliarão as canseiras e amarguras que prolongadamente ocasionam aos autores?! Talvez poucos. Mergulhados no estupor de tais falhas ocorrerem em plena utilização de suportes digitais.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

«Boa» literatura para crianças!

Telefonou-me R. T. para anunciar a publicação de uma breve resenha que fez, por ocasião do Natal, a alguns livros para crianças, entre os quais um meu. Faz crítica regular num suplemento literário, por isso explicou que não era esse o caso: no que escrevera aludia meramente à história de cada livro. Preveniu: enfim, nada de crítica, pois que mais haveria a dizer?!
Nada mais há a dizer para além da história, acha o amigo R. T. e eu reconheci naquele ponto o pensamento geral que apesar de tudo prevalece.
Os contos «para crianças» continuam a ser encarados e avaliados como obras menores, da mesma altura miúda dos seus potenciais destinatários. Logo, o que sobre eles sobressai esgota-se no resumo da história narrada. «Pois que mais há a dizer?!» São umas fantasias inconsequentes, umas peripécias mais ou menos engraçadas, coisinhas para distrair, divertir a infância, sem qualquer sumo capaz de merecer a atenção e análise de um adulto e, para mais, leitor calejado…
Preconceitos lamentáveis porque rebaixam as obras literárias destinadas às crianças para o armário da subliteratura. Sabemos todos que não são poucas as obras em circulação que tal restrição merecem, mas… a rasoira leva também de roldão o que reais méritos tenha para ficar e permanecer, a brilhar como pedras brancas.
Nunca me cansarei de repetir: não infantilizem mais uma autêntica literatura para crianças! Para todos os efeitos (e são muitos, e são importantes!), a literatura para crianças tem que «ser boa» para pais e filhos, tem que saber «falar» a todos os leitores e não apenas a crescidos ou a miúdos. Porque existe apenas uma literatura, ainda que distribuída por diversos níveis de qualidade e género.
Uma autêntica literatura para crianças tem que começar por ser «de adultos» para, se atingir nível meritório, poder chegar em boas condições aos pequenos leitores. É possível que os encarregados de educação andem a fechar os olhos e a lavar as mãos neste assunto. Daí a confusão de um professor do ensino básico: quer «dar» às suas turmas um livro meu e pergunta-me que livro lhe aconselho. Entendo: ele evita ler a «coisinha», tem mais que fazer, e eu aqui de longe até conheço os seus alunos…
Acresce um pormenor importante. O Conto, enquanto género literário, enraíza-se na mais profunda tradição da literatura oral e escrita. Moldando ficções de tamanho convenientemente pequeno, convida à inclusão estética de elementos maravilhosos e poéticos que sempre hão-de cativar em qualquer idade os leitores-ouvintes do falar (etimologicamente, fabular).
Mas como impedir essa não-infantilização quando os próprios adultos em massa, enquanto consumidores literários, se deixam infantilizar?! O que por aí reina são fantasias, historietas banais até mais não, e tudo muito divertido, adocicado e convenientemente pré-mastigado ou mesmo pré-digerido.
Vinhas a vir: foto de Isa Ventura

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Viramo-nos para os mestres

A literatura anda a encher-se de buracos negros. Estes fenómenos cósmicos, pouco estudados porque são da esfera do conhecimento astronómico desde há pouco tempo, são igualmente novos no âmbito da criação literária. Têm duas semelhanças fundamentais: no céu como na terra, uma poderosa força gravítica suga tudo em redor para dentro do buraco com um apetite insaciável que devora a própria luz.
Um buraco negro pode assim ser comparado no céu a uma boca hiante, assustadora porque por ela se esvai tudo e mais alguma coisa, apenas deixando cá fora o negrume. No âmbito da criação literária, ao nível do que é terreno, verifica-se outro tanto, pois um buraco negro consegue aspirar de longe e engolir tudo o que seja «criação» literária e «literário» na criação.
De algum modo, este último buraco aproxima-se bastante da designada escrita criativa, recurso último de quem aparece com pouco para dizer e pretende encher papel. Sobra verborreia fácil. Pega numa qualquer ponta de fio, vai puxando, puxando, e o novelo (a obra) fica feita! Mas é escrita em voga, conquista autores e leitores, persuadindo aqueles autores de que hoje está já tudo dito e plagiado quanto baste, e estes leitores de que embora a escrita criativa não pesque novidade nenhuma para desfrute do leitor, pelo menos tem-no a ler e até chega a convencê-lo de que ombreia em inteligência com o autor (com isso se paga o fulaninho).
Estamos, portanto, na hora de nos virarmos para os mestres. Para Aquilino, escritor admirável a cair na mais lamentável e mesmo escandalosa penumbra! Aquilino, o autor de O Malhadinhas não menos do que, por exemplo, Quando os Lobos Uivam. Justamente consagrado como o maior prosador português do século XX!
A probidade intelectual aliada à honesta competência de beirão serrano que pontificou no Chiado literário e mundano, foram traços em realce aquando do centenário do nascimento de Aquilino, em 2005. Lavrou cada página com a destreza e a corajosa determinação do lavrador que desafia as pedras do campo com o bico do seu arado e semeia enfrentando as traições do tempo.
Tinha plena consciência profissional do trabalho que o amarrou à banca. Escreveu (apenas um trecho): «A classe dos trabalhadores das letras é pois um órgão vivo, dentro do grande organismo que é o Estado. Imagino que exportar livros da nossa cultura, da nossa História, da nossa maneira de ver o Mundo, se deva antepor, em escala de importância , a exportar chitas ou caixas de sardinha. […] A França deve o prestígio que tem no Mundo à sua literatura, que, de resto, constitui um dos seus primeiros artigos de exportação. Por isso, subsidiava e subsidia, no estrangeiro, livrarias e institutos, e os seus homens de letras de categoria estabelecida são simultaneamente os seus agentes diplomáticos.»
Mestre Aquilino não quis nada de escrita criativa, preferiu ser criador na escrita. Não quis ser «fácil» de ler, autor de consumo rápido que rápido o leitor digere mas que o engorda e não alimenta. Entretanto, esta singela evocação e homenagem ocorre no dia em que o ministro da Cultura, a enaltecer a língua portuguesa, afirma nos jornais que Fernando Pessoa tem mais valor económico do que a PT. Pessoa deve ter aberto no Panteão Nacional os olhos para a maravilha mas Aquilino, ali ao lado, continua sem arejo.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Foi uma espécie de elogio...

Há uns anos, algumas pessoas conhecidas insistiam em prodigalizar-me uma espécie de elogio: consideraram que não era fácil de enganar. Queriam dizer que eu identificava certos jogos vulgares, não que me investia da infalibilidade do papa. Estou a recordar agora aquelas pessoas e a notar o afastamento em que se instalaram sem explicação plausível (afora a mudança de paradigma).
Acho curioso. O seu contacto, comigo, o tal que «não era fácil de enganar», deixou de ser estimável, recomendável?
Terão agora entrada livre, no círculo das suas relações preferenciais, os fulaninhos fáceis de enganar?!
Enfim, pode um cisco de juízo provocar uma discriminação?
De facto, ocorre uma viragem nos comportamentos sociais, portanto nas atitudes e nos costumes. Abre-se todo o lugar à circulação dos indivíduos formatados pela ordem predominante, ordem tão férrea que vai funcionando como a mais eficaz tirania imposta pela conformação geral. Assim, quem abra o bico para qualquer «dissonância» no ambiente criado, ainda não será o terrorista na sala mas já vai sendo o inoportuno incómodo a evitar convenientemente.
Viragem sem novidade nenhuma, é claro. Mas até a este nível individual podemos sentir como as dramáticas transformações do mundo se documentam aos olhos de quem, postando-se na margem, vê a engrossar e a bramir a corrente que avança para a irracionalidade cretinizante e a submissão palerma.


Porque venho derramando aqui recordações, reflexões, garatujas? A interrogação assalta-me e não sei responder-lhe.
Vergílio Ferreira confessava ter necessidade diária de escrever, pulsão para mim desnaturada. Tenho necessidade, sim, de comunicar, de me sentir para sentir o Outro. De sopesar o meu tempo e o meu mundo. De exprimir um pouco do que penso.
Estar vivo é perceber cada cintilação de mudança que surja à tona, percebendo que permanecemos vivos na medida em que sejamos capazes de aprender algo de novo a cada passo, em cada dia.
Falta-me provavelmente convívio intelectual mais vivo e substancioso, compensações para as faixas envolventes da solidão próprias, até certo ponto, da idade sénior. Num breve relance apenas, quantas perdas eu poderia contar por ausências, lutos, despedidas em acumulação imparável!
Acresce um fenómeno: pelo menos nesta cidade, as redacções que conheci anulam qualquer broto de amizade interpessoal (os jornalistas, antigos companheiros, conhecem-se para se desconhecerem). Por outro lado, vêem-se por aí autores literários metidos nas conchas dos egos intumescidos que trazem às costas, como caracóis, quando se dignam aparecer em público onde deixam a brilhar o seu ranho.

terça-feira, 1 de abril de 2008

«Oscares» antes e agora

Lembram-se da festa que nos foi servida aquando da última atribuição dos «Oscares»? Na véspera, no próprio dia da sessão e no dia seguinte, as televisões, os jornais e as rádios esforçaram-se para nos tornar aquela noite memorável. Eu tenho-a presente, não quero ser ingrato.
A cerimónia da atribuição dos bonecos na Academia de Hollywood é espectáculo a não perder pelos fabricantes e fornecedores do Espectáculo. E é assim ano após ano: trombetas sonorosas irrompem a proclamar ao mundo quem melhor trabalhou na fábrica hollywoodesca. A freguesia arregala os olhos, deslumbra-se com pompas e circunstâncias, make-ups, vestes e lantejoulas espectaculares, vedetismos ansiosos para imensas capas das revistas, mas sem ver novidades em cena.
Os próprios bonecos continuam sem graça ao fim de uns oitenta anos de produção em série. Por algum motivo ganharam o nome que passou a identificá-los. Consta que alguém, ao ver o boneco pela primeira vez nas mãos do responsável pela organização dos prémios, achou nele semelhanças com um seu tio «Oscar». O baptismo ficou, não se arranjou outro.
Apesar de tudo, a noite hollywoodesca faz-se lembrar em mim porque não encontro termo de comparação mais eloquente para ilustrar o fosso cavado entre o agora e o antes. Um antes que recua somente à década de ’80, digamos uns fugazes 25 anos. Quem está agora na maturidade, se acaso tem memória, poderá recordar a indiferença geral que reinava, e não apenas em Portugal, perante as sessões dos «Oscares». Se for jornalista, tanto melhor.
O evento era encarado como expediente de mera propaganda do cinema estado-unidense (mas então havia – ainda resistia - um cinema europeu: francês, italiano, sueco, checoslovaco, polaco…) e, nesses termos, desvalorizado. Hoje dir-se-á que havia um «preconceito». Os jornalistas tendiam a omiti-lo dos seus media, pois reinava uma capacidade de julgamento crítico capaz de escolher em cada cinematografia entre produções comerciais e produções artísticas. Onde isso já vai!
As produções comerciais EE.UU. engoliram o mercado, as televisões nivelaram-se por baixo para agradar à mediocridade do maior número possível, a variedade das expressões e dos estilos ficou cilindrada pela expansão dos grandes estúdios, a míngua de recursos no campo da concepção artística das obras procurou compensação numa pesquisa infindável de efeitos e mais efeitos especiais…
O que a sessão de atribuição dos «Oscares» demonstra ano a ano é esta perda da qualidade geral das obras cinematográficas produzidas por uma indústria formatada para o lucro e consumidas por multidões igualmente formatadas. O que demonstra, em suma, é toda a vastíssima devastação operada no critério e no gosto dos públicos em poucos anos.