sexta-feira, 30 de maio de 2008

Queres cultura? Pimba!

Invenção do nosso tempo, supremo requinte: temos programadores para programar «cultura». Que «cultura»? Cá pelo burgo invicto, uma empresa municipal diz-nos o que é, basta ler a «agenda cultural» para Maio-Junho nesta cidade gloriosa que foi capital europeia de cultura em 2000.
O rectângulo de papel, em estilo convite, apresenta o programa de um mês e vale a pena lê-lo. Temos ali o panorama dos eventos agendados e temos mais, a noção de «cultura» que reina no Porto feliz. Levado a balança de alta precisão, quase nos faz ouvir, sonora e campanuda, a troça: Queres cultura? Pimba!
O programa anuncia desporto e animação: provas de ténis de veteranos e benjamins, jogos tradicionais, festa de flores (onde a Primavera?), viver sem tabaco, caminhada pela paz, exibição de skates e de surf, festa para crianças, corrida pela encosta do Codeçal e Guindais, natação, pólo aquático, voleibol e futebol, tudo para ver, mais corrida nas festas da cidade (23 de Junho), e muita música para ouvir e aturdir os ouvidos em vários dias e locais. Um mês em cheio! Espectáculo!
Mas isto é «cultura»?, estranhará o dissonante. Calma! O programa inclui mais alguma coisinha, afinal é o mês das festas da cidade, vamos pôr colgaduras nas janelas e pôr a luzir as jóias da arca. De notar o Festival Indie, que vem de Lisboa em extensão; e o FITEI, festival de teatro do Seiva Trupe, e ponto final. Resta o circuito das galerias na Miguel Bombarda e a tenda dos livros em saldo na praça…
Nada mais consta da «agenda cultural» do município administrado pelo senhor que dois erres tem no nome. Que é pessoa de vibrante afeição à Cultura se sabe desde que gasta o que gasta com corridinhas de avionetas sobre o rio e desfiles de automóveis antigos!
Evidentemente, andam a pregar por aí uns fulanos que têm da Cultura umas ideias bacocas. Teimam que Cultura é a das letras e das artes, veja-se só tanta falta de pós-modernidade. Pois damos-lhe a resposta: Pimba!...
…E não desceu ainda do céu alma caridosa que explique ao senhor dos erres que, onde se declara «tudo é cultura», logo também se declara, em pura lógica, que «nada é cultura» e, portanto, se torna necessário e até urgente inventar a Cultura autêntica e o legítimo lugar para ela.
Acresce o seguinte: em geral, as pessoas dignificam-se e valorizam-se, não com pimbalhices, sim com vivências de Cultura autêntica.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Pertenço aos meus lugares

Nasci entre pinhais e vinhedos, cedo me habituei aos toros recém-serrados postos em monte que via ainda a escorrer resina branca e peganhenta. Quando quis explicar por que motivo, morando há tantos anos na cidade, não me desligava da minha terra natal e sua região, ocorreu-me a imagem daqueles toros tombados. Exprimia tão bem o que eu sentia que passei desde então a evocar aquela imagem para poupar mil palavras.
Cortado pela base, um toro revela desde o centro até à casca o conjunto de anéis cada vez mais amplos que constituem a sua história de vida. E um homem? Poderá a sua história de vida ser encarada como um desenho de anéis cada vez mais amplos desenvolvidos a partir do seu centro até à periferia?
Eu creio que sim. Tomo mesmo a imagem como uma metáfora capaz de exprimir o que por vezes se me embrulha na boca. Encontrando por aí um caminho que me leva até uma das questões mais instantes do nosso tempo.
Vejamos. Toda a existência se inicia com o nascimento e este ocorre algures, num lugar concreto. Esse lugar fica para essa existência como o seu centro e será em torno desse centro que tal existência depois se amplia.
A apreensão do espaço circundante é gradual, vai crescendo com o tempo da existência e ganhando amplitude… Estou aqui a visionar não apenas uma existência humana, também o centro do toro do pinheiro, os anéis envolventes a crescer, cada vez mais largos, a sucederem-se uns aos outros, anos após ano… Comparação inevitável!
Acontece porém – e aqui está a questão – que encontramos na actualidade uma abundância de existências descentradas e como que privadas da capacidade de apreensão dos seus espaços naturais. Vivem num sítio sem lhe pertencerem. Estranho fenómeno!
Ora eu declarei um dia, neste blogue, a falência do sistema de pertenças, vendo-os como elemento básico social congregador das famílias e de toda a acção gregária, das comunidades pequenas e grandes e, por fim, das nações. Está visto, não sonho mudar o mundo (tão ocupado ando a prevenir que não me mude), mas é a tal questão que respondo quando tento explicar que, simultânea e coerentemente, sou da minha terra natal, da minha região, da cidade em que vivo há 45 anos, do meu país, da Europa e, o mais possível, do planeta Terra.
Nesta atitude, estranho a estranheza que por vezes me manifestam perante o facto de ter vindo a publicar livros que contemplam a terrinha que foi meu berço, a minha região de origem e o meu país. Julgo ouvir esta frase no ar: «Então um escritor volta-se assim para o local e o regional?» Querem convencer-me de algo insólito.
Esquecem porém que toda a existência estabelece um centro de mundo e que é a partir desse centro que se expande. No meu caso pessoal, pertenço igualmente a Bustos, à Bairrada, ao Porto, à pátria, etc., pois tudo isso corresponde a níveis sucessivos de vida que fui atingindo. Se me serrarem pela base, aposto que verão esses anéis rodopiarem volta a volta, em círculos cada vez menores, até regressarem ao ponto central onde tudo se iniciou…

domingo, 25 de maio de 2008

Coragem, vou à Feira do Livro

Por favor, emprestem-me o vosso olhar. Estou a encher-me de resolução para ir à Feira do Livro cá da minha cidade. O evento realiza-se há tantos anos quantos eu tenho de existência, mas a vida vivida desviou-a dos meus trilhos, estou agora irremediavelmente distanciado.
Fui informado de quantas editoras participam, quantos stands se alinham em alas paralelas, quantos milhares de títulos estão presentes nas estantes e nos escaparates. É certo, a feira tem vindo a crescer imparavelmente. Já não tenho mais olhos para a monstruosidade.
Tanta farturinha asfixia o visitante, seja o curioso mediano ou o leitor entendido. Percorrem aturdidos a feira, sentindo o desejo de pegar num livro a esvair-se-lhe em poucos passos. Livros e autores dos supermercados, dos quiosques e das estações de correios misturam-se de cambulhada com frases espaventosas, capas berrantes de best-sellers de ontem, de hoje e de amanhã, os autores nacionais com os estrangeiros.
É impossível não lembrar os livros que têm em casa não lidos ou mal abertos e que os enfastiaram, para quê comprar mais leitura? Está provado que um romance até pode ser bem escrito, o autor ser célebre e celebrado, além de português, nosso, e nada, ou pouquíssimo, se conter nessa narrativa cuidadosamente construída mas vazia por dentro. Parece que a realidade do mundo em que vivemos não tem mais histórias para alimentar as ficções, resta explorar a chamada escrita criativa que no cisco desliza.
Mas então, senhores, para quê montes de papel estragado? Existem tantas editoras neste país ainda tão pobre e atrasado, tanta gente a produzir literatura, fazem-se aqui mais de mil edições novas por mês… E tem avançado a concentração das editoras, a maioria caiu já nas mãos de apenas três entidades capitalistas, o monstro deixou a cabeça a descoberto.
Têm avançado também as feiras do livro pelo país, as feiras de saldos, restos de edições ao desbarato, feiras e mais feiras. Disse-o em tempos: o livro banalizou-se. Agora, quando o conteúdo se esvai, distingue-se e proclama-se o cheiro do papel impresso, o manuseio sensual do livro - a exterioridade!
Outrora, na vetustez das idades, o livro valeu pela escrita que continha. Livro e edição respondiam bem à necessidade literária. Podiam surgir em papel áspero e amarelado, com folhas dobradas por cortar mas cosidas, e mal brochado, de capas pobrezinhas… Falavam, porém, das angústias concretas de gente real, falavam da vida autêntica em epopeias grandiosas ainda que fossem quotidianas, e os leitores estremeciam com cada estrebuchar de humanidade que os humanizava.
Hoje o livro-objecto inunda o mercado. É a mercadoria do negócio da indústria cultural que esconde na paisagem alterada o Livro que teima em manter a sua antiga dignidade perante os leitores. Se este Livro permanecer escondido, a paisagem irá encher-se definitivamente de fabricantes de livros-objecto e então o remédio último será o regresso aos queridos livros antigos para o reencontro na leitura da dignidade perdida.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Texto anónimo achado dentro de uma garrafa

Retratistas diversos têm tratado de fixar a vera fisionomia do povo Tuga. Esforços vãos. Captaram-na com visão muito externa, como se, visto de fora, o povo Tuga fosse comparável e, por esse lado, compreensível. Mas esse povo, o retinto, não evolui com o tempo, não foge à fixação. Nega é o seu próprio retrato na medida em que, imobilizado, com ele se encontra.
Um novíssimo retrato poderá ser tentado desde que não queira ver em movimento uma fisionomia parada. Tentemos, pois, num flash, apontar para o país dos Tugas que se espalha pela «província» e está presente na capital, onde a fisionomia avulta atrás das portas e espreita às janelas de bairros e becos, nos centros e nas periferias (lembrete: esvai-se a cidade nas páscoas e nos natais e então é que se vê a quantidade de país profundo amontoado no topo macrocéfalo nacional). Acumulada a quantidade significativa de povo Tuga, poderá desenhar-se o seu novíssimo retrato a tinta da china, isto é, preto no branco. Começa por apalpar na sombra da história a formação do corpo social, remontando senão ao Fundador, pelo menos a Quinhentos, ao povo das caravelas embarcado ao cheiro de riquezas na lonjura, regressando abonado e tornando a partir sem cheta porque cá não cuidou de encetar bom governo, preferiu esbanjar o ganho. Deixou o governo para outros, já que ele se afidalgava, crescendo em orgulho, entre viagens e aventuras, ao ponto de a pobreza ou a miséria alastrar no país até pedir à rainha a criação da primeira Misericórdia.
A alma desse avoengo - aventureiro em terras estranhas, fidalgo na sua terra (detestável terra, nada faz por Ele!) – passou de geração para geração, alojando-se no âmago do povo Tuga como um atavismo, de onde se projecta em manifestações tão banais que se tornam invisíveis. Manifestações, porém, que saltam à vista quando a alma do fidalgo arruinado, estereótipo nacional, que outrora mandou o criado à rua a esmolar uma côdea para a fome de ambos, é picada e acorda do sono. Então o povo acredita no Pai Natal como uma criança: pede serviçais que o substituam na governação do país, e pede serviçais que lhe escalonem as dívidas e as renegoceiem com o banco. Reaparece pela mão das velhotas «caridosas» que alimentam na rua uma porção de gatos vadios, pombas, gaivotas, ratos, etc., pondo sobejos de comida sobre o papel do recente apelo da autarquia para que tal não façam. Assoma no gesto de quem deixa o saco de lixo à beira do lancil, junto à roda do automóvel que vai esmagá-lo, ou no sorriso da mulher que, contente porque, uau!, «está na tv», explica que a sua situação, com o cônjuge desempregado e ela atingida por extinção do emprego sem despedimento colectivo, é agora uma «situação complicada». O Tuga volta a emigrar por saber que «lá fora» consegue endireitar-se e, milagre!, fazer-se «outro». Se uma tempestade lhe derruba a tenda, reclama que «alguém há-de pagar» os danos, não ele. Discute futebol porque na sua roda é o que mais se discute e ele não quer ficar de fora, ora essa. Os seus vizinhos têm a mania mas ele faz-lhes ver. Afirma como suas as opiniões da cassete do partido e dos maiorais do clube, vota pouco e por fezada. Agrada-se de políticos que julga conhecer por os ver na televisão. Está com a maioria, seja qual for, mas prefere que a maioria rime com ele. Acredita na mediocracia mas ninguém lha explicou e também não pensou bem no que isso pode ser.
[Pela cópia: :-)]

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Um país distraído

Cena habitual: ao balcão peço um café cheio. Quem atende fita-me e acena um pouco, dá o troco ao último cliente e… vai servir o cliente que chega. Esqueceu-me! De facto, vejo a pessoa que trabalha como que ausente, está ali e também está longe. Repito-lhe o pedido, «café cheio, por favor». A pessoa parece responder «ah!» como quem acorda, vai para a máquina e confirma: «cheio?» Mas a chávena aparece-me logo semicheia e eu insisto: «cheio, por favor». Algo contrariada, a pessoa executa por fim o que lhe peço mas deixa-me em crer que me acha esquisito.
Não é cena episódica. Ocorre num qualquer balcão dos meus e tão frequentemente que se tornou vulgar, logo, «invisível». E assim se manteve até que, um dia, a conversar com um certo engenheiro, por sinal jovem, o contraste saltou para me acordar a atenção. Espanto! Quem falava comigo estava inteiro diante de mim, falava comigo todo presente. Fitava-me e sentia-o tão atento ao diálogo quanto eu!
O espanto apurou-se porque de imediato se tornou perceptível que, por aquelas bandas, normal era encontrar interlocutores «presentes de corpo inteiro». O contraste ficou então estabelecido. Habituara-me em demasia ao meu ambiente cheio de gente desconcentrada, como que pairante, sonhadora, evanescente, e, por contraposição, finalmente descobria-o.
Eu estava, porém, a uns milhares de quilómetros da orla atlântica que habito e à beira do Pacífico, longe, portanto, da pátria lusitana. Mas uma luz acendera-se, uma atenção nova deveria aplicar-se em tal direcção. E foi assim que, desde há anos, ando a observar comportamentos reveladores de vulgares alheamentos no rectângulo ibérico.
Seremos talvez, em parte, um povo distraído por um qualquer fenómeno que estará a pedir estudo ponderado de especialistas da vertente psicossocial. Perguntar-se-á: distraído com quê? Não o perguntem a mim, perguntem ao povo, àquele mesmo povo que parece andar ausente, nas nuvens, e sem querer acordar.

Hoje é dia de inauguração de mais um centro cultural. Bendito país! Cobre-se de uma rede de centros culturais cuja acção «cultural» incide principalmente, ou mesmo exclusivamente, na promoção de espectáculos. Investe-se muito dinheiro na criação de tais equipamentos. Com que fim? Chamar as populações envolventes para consumir os espectáculos que desfilam pelo palco?
Que tipo de espectáculos? Teremos teatro? Do sério, bom? Teremos cultura viva? Literatura, arte? Não. Teremos espectáculos musicais. Muita música, e da ligeira, para abanar o capacete, porque é mais popular e porque a bilheteira reclama freguesia. Talvez da pimba, ou quase, de sucesso garantido. Grupos em itinerância precisam de vender os seus últimos sucessos gravados em CD, agora de venda difícil ou muito lenta nas lojas.
Enfim, há vozes que declaram Portugal com uma economia de casino. A mim parece-me que somos bem mais o país do espectáculo.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Chove publicidade

Os publicitários apoiam-se energicamente numa teoria para defenderem a sua profissão e a validade do papel que a publicidade desempenha na esfera da economia. Alegam que a publicidade serve os consumidores, não porque estimule sobretudo a concorrência, sim porque, ao expandir os consumos, faz crescer em volume as produções e daí virá o respectivo embaratecimento. Assim, pela teoria, saem a ganhar os conumidores.
Evidentemente, o que os consumidores querem ter para compra é artigos baratos e da melhor qualidade possível. Porém, isso vai-se tornando miragem no deserto. A carestia é geral, os preços sobem, o valor do dinheiro é comido pela inflação enquanto os níveis de rendimento estagnam ou, na realidade, diminuem.
Entretanto, chovem as campanhas publicitárias, os anúncios, as promoções, os estratagemas, as habilidades de vendedores de feira. Os televisores, a imprensa, a rádio, os espaços públicos, os computadores, os telefones domésticos ou pessoais… andam sob uma frenética invasão de reclamos. A inundação chega-nos às caixas de correio e bate-nos às portas.
Esta manhã a campainha tocou com insistência. Vozes anónimas anunciavam a distribuição de publicidade; outras vezes, sem se anunciar, o distribuidor esperava que a porta se abrisse para despejar o saco. Mas pouca gente tolera já o desperdício. Então, em alternativa, os papéis são deixados em monte, â entrada.
Na verdade, parece que chegámos ao tempo de recusar mais publicidade para a compra do que não podemos alcançar ou para o que não desejamos. Possivelmente os consumidores estarão a perceber que a despesa feita pelos fabricantes e comerciantes com cada campanha de anúncios entra sempre nos custos do produto e que estamos agora a querer, claramente, artigos mais baratos e de boa qualidade. É suposto que, em numerosos casos, a publicidade encarece inutilmente artigos de uso indispensável ou quotidiano.
Julgar-se-á decerto que neste ambiente de crise instalada há quem tente sobreviver para não morrer, jogando ao máximo nas operações do mercado, mas nem as empresas reclamadas nem os publicitários poderão rebater facilmente a contra-teoria segundo a qual a despesa de uma campanha de anúncios tem que ser paga pelo próprio produto promovido. Não estamos em época de prosperidade, de expansões do mercado, sim em época de sinal inverso. Entre tanta desregulação global, a realidade vê-se nua.
Seja como for, uma questão emerge neste quadro. A publicidade distingue-se da propaganda porque obedece a um código deontológico que impede por exemplo a publicidade enganosa. Apela ao consumo, atrai os consumidores e ponto final. Manipula às claras, digamos assim, recorrendo inclusive à análise dos comportamentos psicológicos. A propaganda, não. É insidiosa, mal intencionada. Tenta dominar os cérebros, não para qualquer consumo, mas para colonizar as consciências.
Questão a analisar seria a de saber se a publicidade continua entre nós fiel ao seu código deontológico ou se anda a contaminar-se com alguma propaganda.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O valor de uma nota varia

Quem diz que uma lei não vale o mesmo para toda a gente abrangida, poderia mesmamente dizer que o dinheiro tão-pouco vale sempre o que mostra valer. Na realidade, o valor de uma nota varia consoante o grau de necessidade que permite satisfazer, dependendo isso, é claro, da circunstância concreta em que essa nota esteja na mão do seu possuidor.
Induz-me ao tema um particular amigo. Disse-me que instalou um novo sistema de aquecimento em casa com tecnologia inovadora («ecológica» a crer no rótulo, mas eléctrica), aquisição paga com uns milhares. Deixou-me a pensar: ele e a família moram naquela casa há uns trinta anos bem aviados; conheço-lhe os convectores eléctricos de parede que lá tem desde o início; assisti depois à introdução do fogão na sala com recuperador de calor e sua distribuição pelos aposentos; depois à instalação de aparelhos de ar condicionado; e agora tomo conhecimento da introdução do quarto sistema de aquecimento doméstico.
Talvez devaneie, porque estou a imaginar que o meu amigo foi sendo atingido pelo fenómeno da «desvalorização» do dinheiro à medida que avançava na carreira profissional e ganhava mais. Há trinta anos auferia pouco e os convectores bastavam-lhe – o valor das suas notas estaria próximo do convencional urbano equiparável –, mas esse valor foi-se alterando pela conquista das sucessivas elevações de rendimento. De modo que, ganhando hoje, em termos relativos. digamos seis vezes mais do que há trinta anos, pode vaticinar-se que as suas notas terão perdido em valor real, para ele próprio, quase outro tanto. Será isto que os quatro sistemas de aquecimento lá de casa estarão a demonstrar?
Dispenso ouvi-lo para ter a certeza de que o meu amigo discorda de mim. Conhecemo-nos tanto quanto nos estimamos. E uma laranjeira dá laranjas, o fruto está para a árvore como natural consequência. Ou melhor, cada caminho que percorremos tem as suas próprias encruzilhadas. Ganhar bem no emprego, ou mesmo muito bem, põe a brilhar a valia do fulano e habilita-o a consumir mais e mais (telemóveis, livros, espectáculos, viagens, restaurantes), a guiar um belo automóvel e a ter direito a duzentos à hora para ultrapassar os lesmas nas autoestradas. O felizardo enche o peito do ar, sente-se erguido na crista da onda, pois acumula casa secundária e casa de férias e consome como os maiores…
A evolução por que tem passado nos últimos anos este amigo segue o modelo «virtuoso» vigente, de ambicionar dinheiro e mais dinheiro para consumir sem baias. Saúdo com sincera alegria a sua ascensão profissional, não esquecendo porém que o dinheiro pode atrair diversas corrupções incluídas as «limpas».
Enfim, o contraste aparece. Experimenta bem o valor real da nota mínima que descubra amarrotada no fundo de um bolso quem se dói de olhar para os estendais de pobreza e mesmo de miséria a crescer ou que, simplesmente, foi assaltado longe de casa, em local desconhecido, e, despojado dos seus valores, precise de beber uma água para acalmar e sair da situação. Vai-lhe apetecer acariciar aquela nota mínima…

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Comida à mesa

Percorre o mundo um calafrio novo. Vai faltar a comida, o preço dos bens alimentares trepa pelo céu como foguete anunciando a calamidade. É o que vem repetindo a comunicação social mais solícita, os especuladores agradecem.
Sentem o calafrio na espinha os povos empobrecidos e os pobres desde sempre. Os ricos, coitaditos, vêem-se obrigados a reconhecer agora que neste mundo a pobreza é a regra e a riqueza a excepção. Mas, constituindo a minoria, talvez estes se imaginem dentro da nau do novo dilúvio e em fuga da guerra no mundo global.
Os vendedores da Monsanto desfraldam a bandeira dos transgénicos (ou organismos geneticamente modificados) e redobram a grita tentando impingir o seu discurso. A mim, filho de agricultores rurais em zona de minifúndio, a propaganda dos transgénicos traz-me à memória a treta que levou meu pai a substituir os estrumes orgânicos por adubos nos anos ’20 e ’30. Os agentes da CUF pintavam então com as cores mais radiosas um porvir de abundância e paz para todos… que engordou em paz a Companhia União Fabril.
Pois bem, hoje querem convencer-nos de que os alimentos são também formas de energia, comparáveis ao petróleo ou aos biocombustíveis. Deste modo, os seres humanos são vistos como «máquinas produtivas» carecidas do combustível que é cada vez mais caro e mais raro. Situação preocupante? Não em Portugal!
Os governantes desdramatizam. Sorriem, apaziguadores, e recomendam calma. Têm razão. O espaço rural nacional, com a agricultura quase completamente arruinada e que leva o país a importar pelo menos metade do que come, não é motivo de preocupação. É verdade que dois milhões de portugueses foram postos a viver no gueto da pobreza estreme e que a classe média baixa caminha para lá ou já lhe bate à porta, mas, caramba, o país dispõe de óptimos recursos!
Se e quando as cozinhas e as despensas portuguesas estiveram minguadas, teremos para comer os golos nas balizas, tão nutritivos que cada um vale milhões.
Teremos as relvas, inclusive dos campos de golfe que se multiplicam pelo país, relva viçosíssima, rica em clorofila, que vão atrair-nos como burros esfaimados.
Teremos os carros de luxo e toda a abundância circulante que coloca o índice nacional de automóveis-população entre os mais altos europeus.
Teremos os telemóveis excedentes que resultarão da colheita por confisco a quem possua mais de um.
Teremos as toneladas de papel estragado com carinhas larocas e frivolidades, as colecções das lojas de confecções a abarrotar de última moda e os sortidos das sapatarias para mastigar como o Charlot dos tempos difíceis.
Teremos para sobremesa, perfumadora de hálitos, as estantes de chiclets com a gama completa de sabores espalhadas por todo o lado.
Bem pode a comunicação social multiplicar os alaridos contra a falta de comida que já assola o mundo. O governo português não tem realmente que se preocupar, ora essa. Sabe governar ou não sabe?

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Onde melros joviais

Habito na cota alta da cidade, onde vejo o sol nascer, rodear lentamente este monte nas horas da sua parábola, até cair a ocidente, no oceano. Para mim mesmo repito: as horas passam devagarinho mas como os anos voam! E aqui continuo eu, de mãos no teclado, como gato doméstico tão preso ao borralho que quase nem ousa subir para miar contra a solidão nas telhas do prédio.
Vou descansar os olhos para a janela. Neste espaço interior desenhado por quatro ruas, onde resistem árvores, roseiras, relvas e heras, deviam voejar desde há semanas bandos de andorinhas. Mas o espaço ficou varrido dos arabescos das suas asas negras em contorções de voo no encalço dos insectos.
Há poucos anos elas ainda pairavam por aqui em abundância, mas já não construíam ninhos que se vissem. Escondiam-nos algures, decerto em árvores, fugindo das paredes das casas e das proximidades humanas. Quer dizer, ainda vinham, mas depois desapareceram e julgo que, pelo menos para mim, não tenho mais a Primavera completa.
Vêm, sim, gaivotas em quantidade crescente do lado do mar. Poisam nas cérceas e nas chaminés as largas patas natatórias, enchem os ares de grasnidos estridentes a discutir umas com as outras, descem ao piso das ruas, vigiam nos tejadilhos dos carros quem avance até menos de dois ou três metros. Depois, em segurança, picam sobre sacos de plástico com comida, que rasgam e espalham, disputam com as pombas e afastam-nas.
Na ausência das intrusas, as pombas e os pardais ficam em paz. Catam no chão os restos de refeições que as velhotas da vizinhança, revesando-se (ou competindo entre si?), renovam na «mesa» escolhida, uma velha soleira de porta sem uso. Ao crepúsculo as gaivotas debandam de regresso à orla marítima e então as derradeiras migalhas servirão para engordar ratos e ratazanas.
Num pequeno rectângulo, antigo pomar-horta em plena cidade, onde ainda assomam ramos teimosos de algumas árvores de fruto – uma laranjeira, um pessegueiro – desenvolve-se um silvado espesso e alto, que já avança crescendo por cima do telhado de um armazém contíguo. Sabugueiros alargam as frondes num canto e dão sombra ao chão e a parede alagada de heras.
Por aqui voam e saltitam dois melros de bico amarelo em volteio diário. Poiso certo do casal – se um deles for mélroa – será talvez a árvore mais frondosa deste espaço interior do quarteirão arrumada ao canto mais ermo. Porque é aqui que os dois vivem, tranquilos e contentes.
Vejo-os com simpatia, lembram-me a poesia de Guerra Junqueiro dedicada ao melro do seu quintal e que foi célebre. De facto, também este (ou estes) melros assobiam com gosto horas a fio. Mas…? Voltarei a abrir a janela, tentarei imitar-lhes de novo o assobio jovial para que os malandrins me respondam e retomarmos o diálogo canora interrompido?
Duvido. Ainda me resta assobio, vontade de assobiar? E não me faltam as andorinhas?

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Tradutor mal pago apaga-se

Ocupei muito tempo de vida a traduzir livros, trabalhando para editoras de Lisboa e do Porto. Só uma «História do Mundo» levou-me uns bons três anos, pois abrangia dez grandes volumes. Uma certa quantidade de traduções puderam sair anónimas mas, contando apenas as que receberam o meu nome, postas em rima, suponho que chegam à minha altura. Acontece, porém, que tal rima ninguém a suspeita ou descortina.
Realmente, o tradutor apaga-se por trás da obra que verte para a sua língua materna. Poucas vezes sobressai e ganha prestígio pessoal pela competência e talento que, nos melhores casos, revele nesse ofício. Trabalha, afinal, no recolhimento do seu espaço doméstico, à margem de contactos sociais, talvez isolado como um eremita. Ganha pela empreitada que aceitou fazer e habitualmente tem prazos a cumprir.
Depois de longamente porfiar, o tradutor vê espalhadas pelas livrarias e pelas bibliotecas as «suas» obras, mas apenas ele as junta na retentiva. Mais ninguém irá ver juntas as migalhas do seu «bolo» e reconhecer pelo nome quem o levou ao forno, salvo se algum curioso for espreitar os registos do catálogo nacional de uma biblioteca pública.
Quer isto dizer que o tradutor até pode possuir as capacitações suficientes ou sobejas para realizar obra literária própria e, no entanto, por qualquer motivo (usualmente material), desiste e resigna-se. O domínio e bom manejo das línguas (duas, pelo menos), a segurança e fluidez da escrita combinadas com uma especial sensibilidade para notar as subtilezas de estilo de cada autor e a destreza para encontrar equivalentes expressivos para esses trechos são, nomeadamente, alguns dos aspectos que caracterizam a tradução literária como forma de criação literária e mesmo num exercício tão apaixonante quão desafiante. Mas também não é menos indispensável ao tradutor uma sólida cultura geral.
Por aqui se vê que o trabalho da tradução merecia ser bem pago. Não é. Curiosamente, já foi mais bem remunerado do que actualmente. Nos tempos da tipografia com a velha composição em chumbo, o editor punha diante do tradutor o livro a verter e sobrevinha o acordo. Depois o cálculo passou a basear-se na quantidade de páginas ou de linhas dactilografadas entregues, muitas vezes «a olho». Este sistema apurou-se. Os editores impuseram que o tradutor escrevesse em folhas normalizadas, com número de linhas e linhas com comprimento prefixados. Alegação: dispensavam o cálculo da extensão dos textos.
Onde isso já vai! Na era da informática apurou-se ainda mais o cálculo dos editores. Exigiram os textos em suportes digitais (a disquete, a pen ou outro suporte) e não tardou que a contagem geral dos espaços apenas contemplasse as letras… A paga do tradutor foi caindo, caindo, a sua competência real tornou-se valor um tanto negligenciável… E agora perguntem-me: porque terei eu desistido recentemente de aceitar mais traduções?
De facto, a tradução embarateceu e parece morar hoje nas ruas da amargura. Lembra que esta desvalorização acompanhou a desvalorização geral do trabalho.