Invenção do nosso tempo, supremo requinte: temos programadores para programar «cultura». Que «cultura»? Cá pelo burgo invicto, uma empresa municipal diz-nos o que é, basta ler a «agenda cultural» para Maio-Junho nesta cidade gloriosa que foi capital europeia de cultura em 2000.O rectângulo de papel, em estilo convite, apresenta o programa de um mês e vale a pena lê-lo. Temos ali o panorama dos eventos agendados e temos mais, a noção de «cultura» que reina no Porto feliz. Levado a balança de alta precisão, quase nos faz ouvir, sonora e campanuda, a troça: Queres cultura? Pimba!
O programa anuncia desporto e animação: provas de ténis de veteranos e benjamins, jogos tradicionais, festa de flores (onde a Primavera?), viver sem tabaco, caminhada pela paz, exibição de skates e de surf, festa para crianças, corrida pela encosta do Codeçal e Guindais, natação, pólo aquático, voleibol e futebol, tudo para ver, mais corrida nas festas da cidade (23 de Junho), e muita música para ouvir e aturdir os ouvidos em vários dias e locais. Um mês em cheio! Espectáculo!
Mas isto é «cultura»?, estranhará o dissonante. Calma! O programa inclui mais alguma coisinha, afinal é o mês das festas da cidade, vamos pôr colgaduras nas janelas e pôr a luzir as jóias da arca. De notar o Festival Indie, que vem de Lisboa em extensão; e o FITEI, festival de teatro do Seiva Trupe, e ponto final. Resta o circuito das galerias na Miguel Bombarda e a tenda dos livros em saldo na praça…
Nada mais consta da «agenda cultural» do município administrado pelo senhor que dois erres tem no nome. Que é pessoa de vibrante afeição à Cultura se sabe desde que gasta o que gasta com corridinhas de avionetas sobre o rio e desfiles de automóveis antigos!
Evidentemente, andam a pregar por aí uns fulanos que têm da Cultura umas ideias bacocas. Teimam que Cultura é a das letras e das artes, veja-se só tanta falta de pós-modernidade. Pois damos-lhe a resposta: Pimba!...
…E não desceu ainda do céu alma caridosa que explique ao senhor dos erres que, onde se declara «tudo é cultura», logo também se declara, em pura lógica, que «nada é cultura» e, portanto, se torna necessário e até urgente inventar a Cultura autêntica e o legítimo lugar para ela.
Acresce o seguinte: em geral, as pessoas dignificam-se e valorizam-se, não com pimbalhices, sim com vivências de Cultura autêntica.









