domingo, 29 de junho de 2008

Praça da Galiza

Ia já nos 18 anos quando varei pela primeira vez a fronteira nacional. Cheguei a Tui e admirei-me. Era igual, ali, a atmosfera respirável, bati com os sapatos no chão e a terra parecia a do Alto Minho. Até o aspecto do granito velho de muitas moradias continuava a ser familiar.
Todavia, a Galiza foi conhecimento guardado para mais tarde. Demorei, por exemplo, a maravilhar-me na Ria de Vigo. As danças da existência levaram-me primeiro à língua e literatura castelhana e só quando me abeirava dos quarenta fui descobrindo a fala-nai (fala-mãe) e os autores galegos. Cimentei então esplêndidas amizades, andando anos por lá a ouvir os amigos galegos citarem factos históricos do quadro das relações galego-portuguesas que para mim (apenas para mim?) permaneciam obscuros ou omissos.
Pouco a pouco, apercebi-me de que os amigos galegos conheciam bem melhor uma quantidade de circunstâncias e dados históricos da nossa relação comum do que nós próprios. Isso denotava uma abertura e uma estima dos galegos que, estranhamente, deixava indiferentes os portugueses. Tudo contribuiu, afinal, para me alargar os contactos e os convívios, os horizontes culturais e as experiências de vida.
Tornei-me assim num «lapista» (adepto de Manuel Rodrigues Lapa, bairradino como eu, que sempre defendeu a aproximação cultural galego-portuguesa e mesmo a integração da fala-mãe no Português actual, de modo que seria um retorno à matriz original daquele braço linguístico separado do tronco antes comum). E foi assim que escrevi em 1972 um estudo sobre a situação cultural galega (3º prémio de Ensaio nos Jogos Florais Minho-Galaicos, Guimarães), publiquei poetas galegos como Celso Emilio Ferreiro e Manuel Maria (nas Edições Razão Actual que antes criara), colaborei na Encuesta mundial sobre la lengua y la cultura gallegas (ed. Akal, Madrid, 1974), trouxe ao Porto alguns cantores de intervenção e os seus discos, etc. Tantas memórias!
Do outro lado do rio Minho era tido como um amigo, para honra minha. Vinham visitar-me e eu, ouvindo-os lembrar com gosto a época da revista «Águia», de Teixeira de Pascoaes, Manuel Oliveira Guerra e outros paladinos da aproximação galego-portuguesa, ia mostrar-lhes a Praça da Galiza com o seu belo monumento a Rosalia de Castro para os deslumbrar. A pedra trabalhada pelo escultor é na verdade surpreendente.
O estatuto autonómico da até então província e, sobretudo, uma dita «normalização» da fala-mãe, que se caracterizou por lhe impor uma óbvia subordinação ao Castelhano (resultado: um «castrapo» = mistura de castelhano e português), enredou lamentavelmente a questão sociolinguística da Galiza ao ignorar o postulado essencial da doutrina de Rodrigues Lapa. Prosseguiu a aproximação entre as duas margens do rio Minho mas não nas desejadas bases culturais: o designado Eixo Atlântico vale o que vale. Ficou, nesse sentido, o papel exercido durante anos pela revista «Nós», onde tanto colaborei, e as Irmandades da Fala (Pontevedra-Braga).
Serve isto para explicar que existe na minha cidade uma praça com o nome da Galiza e que neste nome se dilata o coração.
[Ilustração: monumento a Rosalia de Castro na Praça da Galiza, Porto]

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Em torno do meu nome

Fiquei de olhos colados ao recorte do jornal. O papel, amarelecido, com um título em letras vermelhas, falava de voltinha dada em torno do meu nome. De um salto recuei mais de vinte anos: aquela crónica, saída no meu jornal em 22-08-1987, pôs-me o filme a correr no ecrã da memória.
Evoquei a redacção e a piada fácil que o meu escrito mereceu (como tudo o que naquele ambiente sobressaísse do chão). Mas desde a meninice era muita a estranheza com que eu e os meus irmãos percebiamos os nomes que os nossos pais nos haviam escolhido. Nomes invulgares os quatro, do primeiro ao último (o meu). Indagávamos o motivo, os nossos pais entreolhavam-se a sorrir… e nada esclareciam.
Quando já ia nos 58 anos resolvi indagar por minha conta. Peguei na palavra que me dava o nome, consultei onomásticas, vasculhei na biblioteca e coligi uns dados curiosos. Havia arsénios espalhados por metade do planeta, a começar pelo Leste, onde se citava o poeta Arsenii Tarkovskii, então com Oito ícones traduzidos em Portugal, e hoje sabe-se que o presidente do parlamento ucraniano é outro Arsenii. Parece que entre nós o nome foi adaptado do francês Arsène, que por sua vez o tomou do grego Arsénios, baseado em ársen através do latim tardio Arsenius.
Evidentemente, a palavra designa também a substância química altamente venenosa, de aparência metálica negro-azulada, da qual o arsénico, por exemplo, é derivado. Certos autores, por exemplo José Pedro Machado, atribuem a ársen o significado de «viril, másculo». Neste sentido, o grego arsenikón (latim arsenicum) significaria «que tem propriedades fortificantes».
A piada fácil espirrou na redacção contra mim porque… estaria na gabarolice! Os companheiros ignoraram que não escolhera o meu nome e que ao nascer tão-pouco poderia saber o que diziam do Arsénio os alfarrábios que por fim eu iria consultar. Não quiseram saber dos livros que consultei nem apreciaram o bocadinho de informação que o texto incluía: referia que o arsénio pode ser nome próprio ou apelido, existindo ainda na forma feminina de Arsénia, substância já conhecida dos Árabes no século IV e, segundo dois autores, os alquimistas conheciam como o «arsénio dos filósofos».
Tenho agora, felizmente, outros companheiros, outros leitores. Resisto porém a pôr aqui por extenso o que li numa espécie de horóscopo (recebido por e-mail como FW) com base nos dias do mês. Logo nas primeiras linhas, a «carta astrológica» estabelecia: «O nativo deste dia, […] vive constantemente em busca do desejo da moralidade. É um pensador, um estudioso e, em vista disso, profundo conhecedor de vários assuntos, podendo destacar-se e ter sucesso nos mais variados segmentos, como ciência, ocultismo, filosofia ou sobre a Natureza na sua mais abrangente expressão. O 25 é perfeccionista, exigente (consigo e com os outros), diplomata, versátil, com grande capacidade intuitiva, senso analítico e perspicácia. Por vezes precisa de ficar a sós, em silêncio, para poder meditar e receber inspiração do Eu interior.»
Não me encanta nada a astrologia, mas fiquei impressionado e não direi porquê.

[Ilustração: retrato de Arsenii Tarkovskii.]

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Voz do Mundo novo

O Mundo velho ensurdeceu. Habituou-se demais ao comodismo. Tão-pouco vê bem para lá do alcance dos seus interesses imediatos, que são os do laissez faire. Mas, neste «deixai fazer», a visão excede pouco o tamanho do seu nariz que, porém, como o da fábula, cresce muito por causa das mentiras. Assim desatende o Mundo velho à voz do Mundo novo.
Porém, a concentração da riqueza e do poder atingiu níveis colossais. Transformou-se num factor principal de perturbação mundial e talvez, se tiver tempo para isso, numa ameaça global. À memória vem então certos estudos outrora lidos e esquecidos que analisavam por dentro o comportamento do sistema capitalista. O auge do sistema, gerado pelo auge da concentração, culminaria num autoritário e arrogante imperialismo (económico, político, cultural) inibidor da democracia e da liberdade.
O que parece hoje demonstrado à evidência é que o sistema capitalista, com a sua dinâmica própria, não é capaz de se autocontrolar. Carece das funções reguladoras de cada Estado, amigo declarado do mercado, logo da livre concorrência, mas que intervém na defesa de interesses pontuais privados quando estes tremelicam alegando defender o interesse nacional. As funções reguladoras do Estado e de organizações internacionais (Banco Mundial, Org. Mundial do Comércio, FMI, etc.) têm que ser reapreciadas e relançadas de modo a poderem controlar os excessos dos predadores dos recursos naturais planetários em extinção.
A voz do Mundo novo precisa de se repercutir nos quatro cantos do velho para afirmar o direito geral dos povos e das nações a terem futuro. Para relembrar quanto a pobreza é de regra na extensão do velho - onde crescem as massas gigantescas dos despojados -, e a riqueza excepção. Para apontar que até na nação mais poderosa do globo existem vastas camadas de pobreza e assinalar, no quadro de uma outra escala, agora global, como se reproduz essa assimetria da pirâmide social nacional na percentagem dos países pobres em face dos ricos… a denotar quanto a lógica do capitalismo gera a desigualdade.
O Mundo novo rejeita a partilha dos pólos por várias nações, pois os concebe como verdadeiros espaços internacionais. Aspira à emergência de um governo planetário (talvez uma ONU com reforçados e eficazes poderes de intervenção), composto por todos os países com votos iguais mas valendo o tamanho das suas populações, de modo a proteger o planeta dos desmandos e das loucuras. Quer na mesa alimentos saudáveis produzidos pela agricultura biológica...
A voz do Mundo novo tem tanto a dizer que, começando a falar, quando se calará?


Oiço as queixas que tens do teu mundo e compreendo-as. O mundo não muda e parece cada vez mais irremediável. Mas deixa-me perguntar-te: O que fazes para o tornar melhor? Meramente no teu pequeno círculo? Se achas que não tem emenda, que emenda poderás ter tu?

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Bruno Torfs: esculturas em madeira, parque australiano

Mundo velho x Mundo novo

Admiremo-nos: não desapareceram as pessoas que desejam a transformação do mundo, e mais, que nas suas diversas áreas até trabalham para isso. Sem dúvida, essas pessoas todas não estão a querer um mesmo mundo, pois agem conforme as direcções dos seus desejos. Mas todas sabem que o mundo novo a que aspiram tem de nascer e já está a nascer dentro deste mundo velho.
Ora este mundo velho está coberto de problemas. O primeiro, agora em flagrante actualidade, é dos mais arrasadores - o preço do petróleo. Nada tem de imprevisto, tão anunciado foi o problema ao longo dos últimos decénios. Para todos os efeitos, o século XX foi o do império do petróleo (com guerras, acomodação de países e regiões a interesses geoestratégicos, expansão dos motores a energias fósseis), tal como o século XXI assinala o fim daquele império com o tipo de economia inerente.
Não são apenas as reservas mundiais da matéria-prima que se esgotam entre manigâncias dos especuladores sobre os preços da energia. É também o equilíbrio ecológico, com o aquecimento do ambiente, que impõe a paragem. Hoje sabemos que precisaríamos dos recursos de três planetas Azuis para continuarmos a poder viver deste modo um pouco mais de tempo – eis um poderoso factor de transformação.
O mundo velho consumia petróleo, o mundo novo quer consumir energias renováveis, não poluidoras. O mundo velho habituou-se ao automóvel privado, o mundo novo prefere o transporte público. O ordenamento dos espaços urbanos também reclama e exige racionalidade: urbes mais concentradas e simultaneamente mais amenas e habitáveis. Os velhos hábitos consumistas têm igualmente que sofrer forte correcção, domesticando a montante a publicidade e até a produção de bens inúteis que alimentam os himalaias de lixos amontoados por reciclar.
Ouve-se cada vez mais o apelo para que poupemos água. É o mundo novo a fazer ouvir a sua voz à saída de um século de incríveis loucuras. Sabe que o futuro é inevitável e que vai tê-lo garantidamente, haja olhos abertos e mundo velho cegueta posto no sossego do museu.
E a alegada «globalização»? Será apenas a da alta finança apátrida e dos negócios chorudos seja como for? Para os norte-africanos e outros imigrantes que se arrimam à Europa fugindo à fome e à miséria, a «globalização» é uma panaceia. Esbarram nos portões de fronteiras muito concretas e reais, apenas o dinheiro gordo que saltita de paraíso fiscal em paraíso fiscal não as conhece por muito que lhe faltem os papéis da legalidade.
Ah, pois, o «terrorismo». Faz tremer o mundo velho, que comprou e continua a comprar matérias-primas a países pobres, fazendo crescer as desigualdades e mesmo as rivalidades fraticidas entre os povos. O mundo novo quer menos desigualdade social e económica para ter mais paz, compreendendo que, onde não reina verdadeira liberdade e justiça, a condição humana vive espezinhada e em revolta permanente.
A gente que continua dentro do mundo velho parece embalada num sonho lindo sem fim. Por favor, acordem-na as pessoas que trabalham para erguer o mundo novo que está a nascer dentro do mundo velho a cair em cacos.

sábado, 14 de junho de 2008

O poder de saber

Como se relaciona o saber com o poder (e vice-versa)? Umas quantas vezes, no fio dos anos, me detive já a ponderar a questão em busca do equilíbrio que não negasse nenhuma das duas instâncias. É equilíbrio difícil, dirá comigo quem reflicta um pouco sobre o que é saber e o que é poder.
Regresso à questão sentindo que neste ponto preciso avulta um problema que marca a crise maior do nosso tempo. De facto, o que se nos depara em geral é a predominância (a potenciação) do poder, na medida em que o saber a ele se subordina. Assim, na realidade, se nega na realidade este perante aquele.
O saber colocado ao serviço do poder vive dentro de um compromisso. É um saber condicionado por um objectivo prático, pelo que terá o mérito real que esse mesmo objectivo tiver. Abraçado ao poder que serve, com ele partilhará a sorte.
Evidentemente, nenhuma forma de poder prescinde de saber próprio para se exercer. Cito Michel Foucault: «Não é possível que o poder se exerça sem saber». Porém, que saber será esse? Um certo saber pode adquirir-se tão-só para o exercício de um certo poder (conforme se vê no trivial quotidiano): é o caso do engenheiro que estudou para ter a profissão, do bioquímico que investiga no laboratório a cura de uma doença para a indústria dos medicamentos patentear, do político que militou e se formou no partido para governar o país…
Foucault, no passo acima citado, acrescenta: «não é possível que o saber não engendre poder». Então, vejamos agora, que poder será esse?
O poder, nas suas múltiplas expressões (um império, uma nação principal, um magnata de portentosos recursos), sempre foi precário e muito provisório - o mundo que o diga! Tanta precaridade ainda mais salienta a barbárie em que tantas vezes assenta a construção desse poder. Por outro lado, a ruína de um poder grandioso manifesta tanto mais clamorosamente quão longe, e perdido, andou do autêntico saber.
O autêntico saber não se deixa manipular nem corromper. Desconfia até da força pronta para intervir, talvez da própria vontade de intervir. Recusa, desde logo, o poder pelo poder. Sente que é saber enquanto faculdade livre, actividade poética.
O saber aplicado a fins utilitários compromete-se. Vive a contradição do médico (que recebe o preço da consulta quando, por dever deontológico, deveria tratar o seu doente ainda que ele não lhe pagasse). Nestas sociedades mercantilistas, que tendem a medir tudo pela capacidade material de compra e consumo, escasseia espaço livre para o saber brilhar.
Aliás, se quisermos atinar no ponto certo, concluiremos que o saber se dignifica em verdadeiro esplendor apenas quando se aplica na dignificação e na emancipação da pessoa humana concreta. Na minha ideia, os restantes saberes são plurais. Numerosos e de aplicação especializada, perdem a singularidade.
E eis como, em plena idade tecnológica, estamos no mundo a debater-nos com um défice atroz de saber!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Idosos descartáveis?

São os velhos. Os velhos que poucos gostam de ver e de aturar – e ainda menos de querer. Estorvam a vida de quem tem pressa. Dão imensas ralações a meter no hospital ou num canto onde alguém os guarde mas que nem assim deixam de dar chatices aos seus descendentes, tão atingidos já pela decadência final dos progenitores.
E os velhos multiplicam-se por aí fora quando as escolas primárias fecham e se reconvertem em alojamentos para a terceira idade. A população portuguesa está a envelhecer, é a «revolução grisalha» que também avança por muita Europa. Mas a multiplicação dos seniores portugueses, aparentemente, não reclama nem favorece uma reconsideração social, de resto indispensável, a todos os níveis do problema.
Os costumes não ajudam, longe como estamos da veneração que envolvia outrora os velhos de respeito. Na verdade, a estrutura familiar tradicional enfraqueceu-se e entrou em depressão. Mitos como os da «juventude» e do «consumismo» contribuem para colocar os velhos na condição de supra-numerários no mundo vivo e já sem prazo de validade. Serão por isso descartáveis?
Privados de associação, sindicato ou deputado eleito, os seniores resignam-se. Parecem demais - são «peste»!  Vão para onde os mandam e comem a sopa que lhes servem. Os «lares» (eufemismo vulgar) não chegam para atender à procura, sempre uma lista de espera está à espera de quem chama à porta.
É conhecida esta situação, tal como alguns casos isolados, mais ou menos escandalosos, de maus tratos, que por vezes afloram na comunicação social. Mas isso, a bem dizer, é nada em comparação com o que ouvi, de fonte segura, sobre desmandos e abusos diversos gravíssimos praticados em instituições privadas de solidariedade social (IPSS). A fiscalização da Segurança Social, que subsidia os «lares» e à qual compete averiguar as denúncias, registou-os e ordenou encerramentos (e onde vão depois os familiares meter os seus velhos?!)
Prender um mísero deficiente a um poste, ou manter vários idosos num quarto abjecto, coberto de porcarias, maltratá-los ou descuidá-los, pouco pode estarrecer. Porém, estes casos estão longe de ser esporádicos. E não têm comparação com outros, altamente chocantes. Um exemplo: certo utente entregava a sua pensão, a família ajudava, a Segurança Social subsidiava e, tudo somado, o «lar» recebia uns 2.500 euros! Outros exemplos, menos escandalosos, ainda assim, supreendem.
São frequentes as exigências de elevadas quantias para «furar» a lista de espera e receber um novo utente. É dinheiro que entra nas algibeiras da corrupção, garantem-me. Ocorre igualmente a exigência da entrega, por doação, de casa ou outro bem imóvel pelo idoso para que seja recebido. Casos destes alimentam negociatas e esquemas que envolvem directores, comissões fabriqueiras, etc., entre abastanças particulares sumptuosas que contrastam com a penúria dos «lares» que os mesmos dirigem.
Ora as IPSS, declaradas como entidades não lucrativas, por sinal ligadas na maioria a misericórdias e à Igreja, pedem ao Governo melhores apoios. Reclamam do Estado mais e mais «previdência» mas defendem as privatizações com unhas e dentes. E, nas eleições, guiam os velhos a votar no partido que eles sabem…

domingo, 8 de junho de 2008

Miradoiro com ecos

As teclas, hoje, vão descansar? Sinto-me em pousio, não estou para compor, linha a linha, um texto. Escrever o quê?, penso pela enésima vez, duvidando do que irá valer na verdade o meu escrito contra as resistências do mundo. Quem escreve não muda a realidade, opina uma senhora, sem dúvida interessada e culta, num comentário que li agora em outro blogue. Mas, para afirmar a ideia, a senhora também escrevia…
A palavra escrita e posta em público não tem poderes mágicos, é certo, sabemo-lo todos desde que aprendemos a lavar os olhos na água pura da clarividência, por isso repetimos que está escrito tudo o que é preciso para salvar o mundo, falta mesmo só… salvá-lo! E no entanto, quem escreve e publica - podendo embora evocar no seu gesto o homem primitivo que pintava na caverna a cena de caça que pretendia propiciar - intervém afirmando a condição da sua cidadania e toma posições depondo na mesa comum o seu juízo.
Hoje, porém, tolhe-me o cansaço, este cansaço em que me submergem tantas tropelias a correr à solta contra os direitos humanos, contra a dignidade dos povos, contra a inteligência e o simples bom senso lavado de reles interesseirismos. Por algum motivo me espantarão sempre as pessoas, tal como as nações, cuja consciência individual ou colectiva assume a forma e o alcance variável dos seus objectivos egoístas.
Estamos no tempo do pensamento único, que predomina porque vem emanado de cimo (e que por isso contém o selo real da autoridade), já nos habituamos a todos os ataques indiscriminados como estratégia da melhor defesa. É o tempo do unilateralismo, rosto ostensivo do imperialismo. Qualquer causa, ainda que se mostre claramente nefasta, anda por aí a justificar-se com espessas argumentações sem contradita audível e que se impõe pela força bruta das tubas da propaganda. As máquinas dos pregões funcionam a pleno vapor e as multidões encolhem-se atemorizadas.
As ameaças à segurança dos povos e das nações estabeleceram-se como base de uma próspera indústria e, politicamente, isso serve para restringir os espaços de exercíco de cidadania e das liberdades democráticas. A «globalização» expande, diluindo, as fronteiras do «terceiro mundo» até outras áreas, nivelando-as por baixo. A emigração de populações esfaimadas que forçam a entrada em zonas de consumismo e desperdício compulsivo ateia reacções xenófobas e de vesgo nacionalismo.
É possível que, de acordo com uma opinião que parece ir ganhando consistência, estejam a acumular-se semelhanças (ameaçadoras) entre este ambiente geral de crise socioeconómica e financeira e o ambiente que marcou o início dos anos ’30 do século passado. Foi a década da instabilidade social e do desemprego, da propaganda sufocante e da obliteração da inteligência, da ascensão dos fascismos, da guerra civil espanhola, da Segunda Grande Guerra, dos horrores de Guernicas e dos racismos…
Façam o favor de me persuadir: a massa de nuvens negras que avançam pelo céu estão num defeito da minha vista. Mas, à cautela, previnam-se: leiam o post de ontem «A propósito de Vladimir Maiakovski», no blogue Ferroada de Carlos Rebola. Vale a pena!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Patriotismo futeboleiro

Uma louca vertigem varre o país de lés a lés e, dia após dia, embrulha-o numa onda asfixiante. Televisão, jornais e rádios esbracejam em frenética diligência até à geral sufocação; empresas gritam o apoio tão magnânimo que concedem anunciando-o através das tubas da sua fama, e todos, todinhos no povo raso e mais alguns, não querem ficar-lhes atrás. Rezam mesmo pela vitória dos novos messias que se preparam para salvar a pátria.
Andamos bem informados. Sabemos a cada momento onde eles, os novos messias, estacionam, vemos os seus alojamentos, o cozinheiro explica-nos o que lhe dá a comer, depois o seleccionador, o empresário, o amigo do lado, o médico, o jornalista que está lá a ver no meio do grupo de mirones, torna a explicar coisa nenhuma, e sabemos dos treinos, e dos programas, e das peripécias, e de tudo o mais, e etc., sem esquecer o sensacional caso da formiguinha coxa e de outras niquices em desfile interminável.
No campo de futebol temos o modelo perfeito da sociedade capitalista. Vence ali a força competitiva do dinheiro mais musculado. Educativo até à corrupção das regras.
Aos novos messias, grandes atletas, está garantida uma segurança que nem todos os chefes de Estado com menos de cinco estrelas usufruem. Valem uma carrada de milhões, é claro. São deuses! Esperamos deles o milagre redentor nosso.
E não se vê ninguém a perguntar de onde sai o dinheiro que paga aquela equipa mais os técnicos e quantos a servem, aquela factura toda. Ninguém pára a perguntar-se quanto custa um golo, isto é, por quanto fica cada um metido na baliza dos «outros» e quantos, entre nós, terão de pagá-lo ou já o pagaram. E ninguém parece duvidar que o pé que chutou aquela bola para a baliza tem mérito afirmado para valer, a partir desse momento, mais uns quantos milhões. E o ceguinho ainda menos vai perceber algum dia que quanto mais gente massificada estiver de olhos postos nos espectáculos desportivos, mais os futebolistas vão valer no mercado dos jogadores (tal como os actores do cinema ou da televisão ganham conforme as suas audiências).
Teremos de concordar com os orquestradores de serviço nesta campanha embrutecedora. É preciso convencer o povo de que aqueles novos messias vão salvar a pátria. Basta a vitoriazinha, um golo certeiro. Instalemos portanto no país um patriotismo futeboleiro (depois de alterarmos as feições do sentimento patriótico): na era da «globalização» temos empresas, temos privatizações, não resta mais «país», «nação»...
Que portugueses se preocupam agora, nesta asfixia, com o derradeiro escândalo a eclodir no país? Com a situação dos sistemas da Justiça, da Educação, da Saúde, reconhcidamente essenciais ao Estado democrático? Quem vai perguntar se a Polícia Judiciária, por exemplo, tem reais meios para operar contra os grandes piratas modernos? Alguém irá erguer a voz e perguntar se a pátria tem viabilidade económica ou se estará a afundar-se enquanto prossegue este baile?
Ora! Esperemos o milagre. Basta um golo certeiro e a vitória será nossa. E a pátria será salva! Viva o patriotismo da bola, de bandeiras ao vento nas janelas e nas varandas! Viva!