Ia já nos 18 anos quando varei pela primeira vez a fronteira nacional. Cheguei a Tui e admirei-me. Era igual, ali, a atmosfera respirável, bati com os sapatos no chão e a terra parecia a do Alto Minho. Até o aspecto do granito velho de muitas moradias continuava a ser familiar.Todavia, a Galiza foi conhecimento guardado para mais tarde. Demorei, por exemplo, a maravilhar-me na Ria de Vigo. As danças da existência levaram-me primeiro à língua e literatura castelhana e só quando me abeirava dos quarenta fui descobrindo a fala-nai (fala-mãe) e os autores galegos. Cimentei então esplêndidas amizades, andando anos por lá a ouvir os amigos galegos citarem factos históricos do quadro das relações galego-portuguesas que para mim (apenas para mim?) permaneciam obscuros ou omissos.
Pouco a pouco, apercebi-me de que os amigos galegos conheciam bem melhor uma quantidade de circunstâncias e dados históricos da nossa relação comum do que nós próprios. Isso denotava uma abertura e uma estima dos galegos que, estranhamente, deixava indiferentes os portugueses. Tudo contribuiu, afinal, para me alargar os contactos e os convívios, os horizontes culturais e as experiências de vida.
Tornei-me assim num «lapista» (adepto de Manuel Rodrigues Lapa, bairradino como eu, que sempre defendeu a aproximação cultural galego-portuguesa e mesmo a integração da fala-mãe no Português actual, de modo que seria um retorno à matriz original daquele braço linguístico separado do tronco antes comum). E foi assim que escrevi em 1972 um estudo sobre a situação cultural galega (3º prémio de Ensaio nos Jogos Florais Minho-Galaicos, Guimarães), publiquei poetas galegos como Celso Emilio Ferreiro e Manuel Maria (nas Edições Razão Actual que antes criara), colaborei na Encuesta mundial sobre la lengua y la cultura gallegas (ed. Akal, Madrid, 1974), trouxe ao Porto alguns cantores de intervenção e os seus discos, etc. Tantas memórias!
Do outro lado do rio Minho era tido como um amigo, para honra minha. Vinham visitar-me e eu, ouvindo-os lembrar com gosto a época da revista «Águia», de Teixeira de Pascoaes, Manuel Oliveira Guerra e outros paladinos da aproximação galego-portuguesa, ia mostrar-lhes a Praça da Galiza com o seu belo monumento a Rosalia de Castro para os deslumbrar. A pedra trabalhada pelo escultor é na verdade surpreendente.
O estatuto autonómico da até então província e, sobretudo, uma dita «normalização» da fala-mãe, que se caracterizou por lhe impor uma óbvia subordinação ao Castelhano (resultado: um «castrapo» = mistura de castelhano e português), enredou lamentavelmente a questão sociolinguística da Galiza ao ignorar o postulado essencial da doutrina de Rodrigues Lapa. Prosseguiu a aproximação entre as duas margens do rio Minho mas não nas desejadas bases culturais: o designado Eixo Atlântico vale o que vale. Ficou, nesse sentido, o papel exercido durante anos pela revista «Nós», onde tanto colaborei, e as Irmandades da Fala (Pontevedra-Braga).
Serve isto para explicar que existe na minha cidade uma praça com o nome da Galiza e que neste nome se dilata o coração. [Ilustração: monumento a Rosalia de Castro na Praça da Galiza, Porto]








