sábado, 27 de setembro de 2008

Tanta ausência, amiga!

Porque gosto de vir a este café e escolho sempre este lugar? E porque teimo em manter os olhos fitos na entrada?! Em outras ocasiões esperava-te sem dúvidas, ias surgir num instante para o encontro combinado, mas hoje, eu sei, não irás aparecer e, no entanto, continuo atento à porta - tanta é a minha saudade, amiga!
Lembro-te sentada na cadeira do outro lado desta mesinha tão pequena que nos permitia a proximidade de mãos nas mãos, o olhar mergulhado até ao fundo no outro olhar, a intimidade da conversa sussurrada, cúmplice. Por vezes uma expansão de alma, uma recordação dolorida, uma lembrança a sangrar em carne viva soprava nuvens, a chuva batia e punha a pingar as tuas lindas janelas antes luminosas. E quantas vezes me emocionei também eu, contigo, sentindo-te mulher inteira e de verdade?!
Mas eram nuvens passageiras aquelas no céu que nos cobria. Em breve sorrias, de rosto erguido para mim, envolvida pelo beijo especial desta amizade que nos comove. Sei, sabemos, que em volta nos verão certamente como dois amantes apanhados num encontro furtivo, pois é atraente a tua figura de mulher madura, só não vêem que tenho anos que chegariam para ser teu pai…
…E nunca provei dos teus lábios, sabendo todavia que neles poderia colher o mel dos pólens das mais bonitas flores do mundo. Respeito, amiga, a tua condição de mulher cônjuge, o teu pudor de mãe. E rimo-nos de todas as suspeições, de todas as torpezas, hipocrisias e fealdades do decoro corrente, meras fachadas, que miram de soslaio uma amizade como a nossa e se põem a imaginar.
Ainda reina o preconceito: será digna a casada que tem um amigo e com ele se encontra e conversa? Serão realmente limpas as intenções de um tal homem? Enfim, poderá existir uma amizade pura entre homem e mulher e, para mais, casada?!
Ai, amiga, se esta gente soubesse que a nossa amizade é ternura estreme, amizade e ternura que vêm da sinceridade dos corações! A comunhão é, entre nós, plena e sem disfarces. Damo-nos um ao outro em entrega imaterial, felizes por existirmos sendo como somos e nos encontrarmos em perfeita sintonia.
Talvez esta nossa amizade seja amor, uma qualquer forma de amor, porque eu continuo atento à entrada e, momento a momento, vejo a tua cadeira vazia. A divagar, pergunto-me: alguém poderá sentir-se preenchido por uma mesma pessoa durante todo o tempo? Lembro, de Florbela Espanca, dois versos: «Quem disser que se pode amar alguém / durante a vida inteira é porque mente!» Porque a pessoa amada e a pessoa amante se transformam, deixam de ser as mesmas.
Querida amiga, confirmas-me neste ponto preciso: é normalmente nova, isto é, diferente, cada experiência de amor ou de amizade que cada pessoa empreenda, pois que a pessoa envolvida em cada caso é diferente. O que trocamos, amiga, não foi expropriado a ninguém. Avalia nesta base a falta que me fazes, aqui, para, como disseste, beber um café, nos ouvirmos ou abraçarmos, nos olharmos em silêncio, a sonhar com viagens ou a filosofar futilmente, soltando as imaginações no ar livre!
[Ilustração: escultura de Benson Park, Loveland, Colorado, jardim desde 1985 com mais de cem obras.]

domingo, 21 de setembro de 2008

A cócega do humor

Os portugueses vivem num ambiente pesado, andam cabisbaixos, deprimidos, infelizes. O ambiente invade as ruas. Nem as alegrias do futebol já tonificam a alma colectiva quanto baste! A tristeza descamba aqui e ali em situações de naufrágio e desespero. O desemprego, a inflação, o abaixamento drástico do nível de vida, a criminalidade em ascenso, tudo contribui para ensombrar as fisionomias.
Diagnosticar a origem do negrume (os efeitos da recessão, a crise) é pouco. Mas como demora a cura a anunciar-se, e ainda mais a chegar, aí temos a panaceia de recurso: programas de humor diários em opípara abundância. É recurso barato e universal, sem contra-indicações nem efeitos secundários afirmados.
Temos humor na rádio, humor na televisão, humor nos jornais, humor nas caixas de correio electrónico, humor no telefone… humor a correr por todo o lado. Temos produtores de anedotas a trabalhar de mangas arregaçadas. Quem sabe cuidar das necessidades do povo derrama estas brisas frescas no país murcho e entorpecido.
Mas o humor é coisa séria, voadora e bonita como a borboleta bela-dama. Aparece e acontece de asas abertas ao ar livre quando muito bem entende e o sol brilha, não em locais fechados de produção diária, em série, onde os martelos dos profissionais da anedota nacional, batendo nas suas bigornas, arrancam mais barulho do que humor. Espalha-se então a gracinha sem piada nenhuma.
Circulam pelo país as piadas fáceis, as anedotas descoloridas e sem jeito – orientadas para um nível cultural primário ou de viela - que deixam as bocas inertes, incapazes de se descerrarem num sorriso, numa completa indiferença. Talvez seja caso para supor que tanto esforço humorístico cansa, tanta cócega pré-fabricada já irrita. Sabe-se, aliás, que barrigas pouco cheias dificilmente sentem a cócega e que só com prodígios de arte consegue encher-se uma barriga de riso.
Irá isso demonstrar uma ingratidão? O povo tem falta de empregos estáveis e devidamente remunerados, falta de melhor qualidade de vida, de segurança. Aspira a melhores sistemas de saúde, de justiça, de ensino, etc., etc. Está aí a estagnação, a crise? Tenham paciência e esperem um pouco, está bem?! Entretanto, tomem lá este brinde, façam o favor de se distrair!

A indústria do humor serve ao povo o que o racionamento comeu.
Todavia, a experiência empírica parece anunciar que os períodos de quebra económica não são amigos do humor, antes, na inversa, os de alguma prosperidade. De barriga satisfeita e em paz, a piada graciosa tem graça e solta o riso prazenteiro. A cócega ajuda à digestão. Tanto humor, hoje, no país deprimido, talvez sirva apenas para demonstrar o que diz certo autor: que subjaz um fundo pessimista em cada humorista. O autor descreve-os como pessoas notavelmente desiludidas com o mundo e consigo próprias, que produzem anedotas porque na realidade se queixam de tudo.
Assim, os humoristas seriam uma espécie de palhaços que choram quando querem fazer rir. E temos a imagem clássica: junto da boca aberta em teatral gargalhada vemos a máscara da dor.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Olhar sem ver?

Somando impressões e sinais, convenço-me de que olhamos muito e vemos pouco. Por isso temos como certo que o melhor modo de esconder o objecto que desejamos guardar é deixá-lo bem à vista. Digamos então um exemplo: entramos num café, numa cervejaria ou num restaurante e, observando de relance o ambiente criado pelas respectivas decorações, poderemos sentir a «cultura» que ali se respira avaliando a concepção e o gosto que o decorador e o patrão do negócio exibem, detectando mesmo alguma da ideologia que os impregna.
De facto, habituei-me a pensar que é preciosa a quantidade de sinais, logo de informação, que podemos recolher da realidade objectiva. Falei disso há anos num trecho de certa narrativa. Mas hoje pergunto: quem concorda comigo se disser que outro tanto poderemos obter, por exemplo, da imagem com que se apresenta um autor literário numa sessão com os seus leitores?
O tema foi-me sugerido há dias por um estimado amigo que me questionou querendo apurar do que me servia para «ler», de certo autor, os seus (e outros) livros quase sem os abrir. Pois basta ter olhos e, além disso, ver…
Veremos o conteúdo determinar o estilo da mensagem. Entrevistado ou a palestrar, um autor mostra como e para quem escreve. Se tem livros no supermercado ou ambiciona vir a ter, o autor apresenta a imagem própria envernizada ao gosto de quem pretende vendê-los no supermercado. Note-se o que diz e como o diz. O seu nome aspira a ser popular, com valor de «marca». Propõe à admiração geral os seus livros, referidos entre apreciações encomiásticas de outros nomes sonantes. Representa-se a si próprio. Interessa-lhe seduzir para vender.
Esse autor aparece em público negligenciando algo de novo que poderia anunciar e considera «natural» o seu esforço de autopromoção. Quer igualar-se aos autores mediáticos, seus mestres, que lhe dão boas lições: vê-os como relações públicas ou mesmo vendedores ambulantes das suas obras. Para ele, realmente, os leitores compram um livro desde que esse livro seja badalado quanto baste. Logo, para esse autor, não se requer talento, génio, arte para vencer - apenas marketing, força de venda.
Autores literários deste tipo, assim tão esfusiantes e gárrulos, parecem ser muitos e, todavia, não são numerosos, apenas se acotovelam no proscénio. Distinguem-se da grande maioria dos «outros», que duvidam da boa qualidade que possa trazer a quantidade até porque o mercado dos best-sellers funciona para gerar lucros e não para atribuir qualificações literárias.
Estes «outros» apostam na diferença. Se aparecem em público, é para estabelecer comunicação de teor cultural com dimensão humana.
Só a um «outro» poderia acontecer esta peripécia: um dia encontrou na rua um conhecido, parou, e a seguir apareceu outro. O recém-chegado, após as apresentações, traçou um perfil do autor, enaltecendo-o generosamente, conversa que fez virar o primeiro conhecido, velho amigo, para o autor, numa reclamação algo escandalosa: «Então eras assim importante e não dizias nada?!» Há realmente quem diga pouco da sua importância. Acredita que os leitores têm deveres a cumprir para consigo mesmos…

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Ortografia em mudança

Paradoxo irremediável: questões de linguística estão entre as mais enfadonhas, boceja sobre elas a maioria das pessoas ao primeiro minuto e depois deserta. Resiste à matéria apenas algum especialista caturra ou outra raridade, com ardor bastante nos fôlegos para escabichar em questões especiosas de lana caprina. Linguística, filologia, gramática, ortografia… arreda daí, não há estômago para tal empadão.
Porém, eis o paradoxo, basta que se anuncie uma qualquer mudança, mínima que seja, proposta para o corpo da língua, e logo surgem e se multiplicam os clamores. A opinião pública incendeia-se, flamejam os discursos, alastra o direito à indignação. A maioria cerra fileiras para se opor às mudanças propostas pelos especialistas caturras – porque a língua é nossa, isto é, de toda a gente, e alguém quer expropriá-la na nossa boca!
Assim acontece desde as reformas ortográficas introduzidas no período da primeira República. Discussões e debates sem fim vem demonstrando que na verdade as questões linguísticas despertam intensas paixões, como se viu recentemente a propósito do novo acordo que pretende unificar a ortografia do Português. A polémica serenou, entrámos no «tempo de preparação», mas logo que este intervalo termine e que a lei aplique no terreno a nova ortografia, teremos de novo a lavrar, sem surpresa, as labaredas…
Cá por mim, tentarei sobreviver a mais esta reforma ortográfica. Será a terceira no decurso da minha vida (não é pouca coisa, não senhor!), pois a primeira foi a que nos emendou a mão ao escrevermos pae, mãi, êste, a pesar de, etc., e a segunda retirou os acentos aos advérbios de modo, implacàvelmente, etc. As adaptações foram então sempre fáceis, agora o avanço da idade deixa alguma dúvida.
Aliás, o novo acordo é um tanto mais extenso. Introduz mais alterações do que as reformas anteriores. Dada a dimensão global do Português - que é uma notável língua de cultura -, afirmar que altera apenas 2% pode induzir-nos em erro. Vai precisar de atenção e disciplina quem quiser escrever escorreito o novo Português… e agora com alfabeto de 26 letras.
Todavia, espero que nenhum polícia da língua me prenda por desacatar qualquer regra. Continuarei a escrever como sei, pelo menos até que as alterações se banalizem pela generalização nos espaços públicos. No entanto, terei (teremos todos) que fazer um esforçozinho.
Comecemos desde já, isto é, não deixemos o assunto esquecido para chegarmos a ele tarde demais. Uma adaptação lenta é preferível a confusões de última hora. Fixemos algumas regras: os nomes dos meses e da estações do ano vão ter iniciais minúsculas Haverá grafias duplas: aspecto coexiste com aspeto, cacto com cato, caracteres com carateres, facto com fato, corrupto com corruto; recepção com receção; peremptório coexiste com perentório, sumptuoso com suntuoso.
Portanto, desaparecem as consoantes mudas. Mas irão mesmo desaparecer?

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Jogo: vício e perdição

Peço desculpa, vou apontar para mim mas isso não serve para me inculcar como exemplo. No berço em que me formei, o trabalho honrado era o verdadeiro e único título de nobreza (de sangue vermelho) reconhecido. O respeito pela palavra dada e o cumprimento de todos os compromissos é que davam à pessoa a sua dignidade. Neste ambiente, faziam-se ouvir as vozes mais enérgicas contra todas as formas do jogo. Era a figura acabada do vício e da perdição.
A moralidade que amaldiçoou o vício do jogo ou o hábito de jogar a dinheiro retirou-se, envergonhada e vencida, para os fundos e calou-se definitivamente. Nos tempos actuais, o moralismo corrente parece aceitar bem que um fulano enriqueça muito e depressa, se possível com pouco ou nenhum trabalho. Logo, o trabalho já não dignifica, tal como o cumprimento escrupuloso da palavra dada e das obrigações pessoais.
Quem se mantenha apegado aos comportamentos da antiga cidadania (a velha escola de civilidade) reveste-se de uma pátina inconfundível. É um «fóssil» de outros tempos, uma relíquia assombrosa da idade. Restam pessoas com honra própria, sem dúvida, mas este atributo, sem reconhecimento social que baste apesar da sua rareza, anda escondido nas arcas de cada peito.
Na verdade, o jogo deixou de ter as condenações que já teve. Ao invés, tornou-se quotidiano, normal, aceitável. Não se ouve uma voz a clamar que no jogo só pode haver vício e perdição, tão-pouco se estranha a abundância dos jogos em oferta.
Temos a lotaria, o totobola, a raspadinha, o euromilhões. Temos os casinos – o mais recente nasceu em Chaves –, os casinos on line na Net, os concursos da TV com prémios… Num país pobre e pequeno como o nosso, tanta fartura é surpreendente.
Consta que são os pobres que mais jogam. Em número, quero dizer, não decerto em quantias jogadas. Porém, sendo numerosos, elevam naturalmente as somas totais envolvidas: muitas migalhinhas fazem belos montes. E nem vale a pena comentar por que queimam os pobres na jogatina algo do pouco que possuem, pois todos sabemos que apenas um prémio gordo os salva do seu destino.
Todavia, poucos saberão avaliar o volume da riqueza que é assim drenada semana a semana dos bolsos de uma vasta camada de povo para se acumular em proveito exclusivo de uns poucos. Os jogadores enriquecem alguém desconhecido, que agradece à sorte, não à multidão dos que jogaram e perderam.
A popularidade crescente dos jogos a dinheiro associa-se de algum modo à popularidade do futebol (expandida aos videojogos). Mas o futebol de competição é espectáculo ruinoso, custa mais dinheiro do que por norma consegue render. Os jogos a dinheiro, no entanto, custam só a quem joga: lucram os premiados e, sobretudo, as respectivas organizações. Estas saem sempre a ganhar - e quanto será?!
Em suma, os jogadores enriquecem os premiados e também as entidades promotoras dos jogos. Eis o que deveria merecer, em tempo de crise, a devida consideração à competência política. Numa economia de casino, o jogo legal concorre para agravar as desigualdades sociais e retira mérito ao trabalho produtivo.

domingo, 7 de setembro de 2008

A noite do fossado

Os agri(o)cultores das letras vivem de costas voltadas. Convivem pouco e reúnem-se ainda menos afora ocasiões excepcionais. Se têm alguns outros escritores na sua lista de amigos, é pelo acaso de circunstâncias felizes. Lembram um bocadinho aquelas raparigas casadoiras que se juntavam para ir ao baile imaginando-se cada uma delas a mais bonita de todas.
Parece que foi sempre assim, pelo menos por cá, não há que estranhar. Estranha foi a disposição que me levou naquela noite a ouvir o que a romancista tinha a dizer ao público. Moveu-me a curiosidade. A sala compôs-se: curiosos éramos nós todos.
A senhora publicara livros de poemas e depois romances - uma enfiada de romances a tombar logo para um pretenso cunho histórico. Li os primeiros, achei-os desinteressantes e maçadores, sem rasgos ou requintes de estilo, mas a senhora foi fazendo caminho, caminhando. Os anos correram e ali estava ela a explicar, a esclarecer, a recordar. Doutoramentos e uns quantos mestrados tinham focado os seus romances no Brasil, país que a senhora visitava e aonde os seus livros (por ofertas?) chegavam.
A sessão aqueceu ao anunciar a escritora que o seu último livro evocava uma peripécia histórica das relações Portugal-Brasil de tal maneira reveladora que certa amiga lhe telefonou do outro lado do Atlântico a chorar, emocionada. Outras revelações foram surgindo, mas uma salientou-se, pela repetição, de forma que se tornou numa espécie de esteio do discurso, um leitmotiv em evocação histórica: o fossado medieval referia-se ao costume português de abrir fossos no terreno para a defesa!
Eu julgava que o fossado (aludindo outrora também a tomadia) ficara na história como matriz arcaica do serviço militar obrigatório que imperou durante séculos até data recente do século XX. Consistiu outrora na obrigação de a população vilã ou também os peões irem em expedições de guerra ofensiva contra os sarracenos, de acordo com as condições dos seus forais ou costumes. Limpei-me de dúvidas consultando o Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão, onde o fossado remonta ao século IX, e o sempre útil Elucidário de Viterbo. Confirmei ainda em dicionários usuais. Tudo bem.
Na ocasião admiti que a autora de romances históricos fantasiava por graça. Mas não. Regressou diversas vezes à sua ideia para afirmar que os portugueses de antanho abriam fossos cada vez mais além, dentro do domínio vizinho, e assim expandiram o território nacional. Foi ao ponto de considerar isso como marca distintiva do carácter finório da nossa gente.
Ignoro onde terá ido a senhora beber tal ideia, mas eu já vacilava sem atinar se ela romanceava a nossa história, se os frutos molecos da sua imaginação. Reparei no modelo da sua explanação. A senhora aprendera bem a envernizar a imagem na esfera mediática, pela imagem pretendia vencer. Percebia-se bem o desiderato: importava pouco o que ali dizia, importante era atrair o público para os seus livros.
Ai, se ela soubesse que isso me serviu para «ler» os seus outros livros sem os abrir.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Oi, Vinicius! Saravá!

Entrei na aventura literária no início dos anos ’50, quando crescia no ambiente culto brasileiro e português um certo escândalo. Incrível: : um diplomata (e repetia-se como que sublinhando o termo, um diplomata!), actuava cantando noite adentro pelos bares cariocas. Assim nasceu o «poetinha».
Era ousadia valente, mesmo no país do samba e do carnaval, um escritor, um intelectual, aparecer em espectáculo público sem qualquer ademane protocolar. Além disso, aquela veneta de compor e cantar versos e sambas que o povo, cantando também, aplaudia!... Nos círculos cultos do Portugal de então, no seu bafio salazarento, o caso parecia espantoso, tão espantoso que chegava a ser degradante. Os jornais falavam, a notícia corria, que descrédito! Inacreditável!
Mas Vinicius de Morais, nascido em 1913, era para todos os efeitos filho de poeta e tocador de viola. Cantou no coro do colégio, onde montou pecinhas de teatro. Formou-se em ciências jurídicas e sociais em 1933, entrou na carreira diplomática em 1946, e publicou peça em 1954, quando já estava, desde meados de 1950, a participar intensamente no movimento musical brasileiro (MPB, com Carlos Lyra, Tom Jobim, Toquinho).
Assim se desenhou no tempo a figura e a presença do poeta que teve coragem para resistir, permanecendo quem era. Resultado? Foi talvez o derradeiro aedo, isto é, poeta-cantor, poeta-músico, poeta-poeta integral, se formos buscar à tradição clássica da cultura grega o respectivo precedente.
Vinicius não descurou a obra literária, aí temos as «Antologias» para no-lo lembrar e revisitar o seu inolvidável «operário em construção». Mas o seu caminho estava escolhido, era um aedo - ou, se se quiser, bardo, um pouco jogral – e o seu caminho foi feito caminhando… a cantar e a dizer-fazer poesia.
Artista de rara estirpe, o «poetinha» cantou o amor e a beleza da mulher. «As muito feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental.» Cantou a vida, que «é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida». Noctívago incorrigível («De manhã escureço / De dia tardo / De tarde anoiteço / De noite ardo»), teve fama de «vagabundo que nada fazia» fazendo tudo o que fazia: belíssimos sonetos, canções famosas, músicas para filmes. Encontrou no uísque «o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado». Detestou «tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata».
Em 1968, ano em que esteve em Lisboa com Chico Buarque e Nara Leão, foi aposentado compulsivamente da carreira diplomática após 26 anos de serviço. Corporizou-se a sentença, consumou-se a condenação. Juntava-se ao escândalo puritano o correctivo balofo. E foi assim que Jacinto do Prado Coelho, director do «Dicionário de Literatura», ed. Figueirinhas, omitiu Vinicius da obra escondendo-o todavia algures pois não consta dos índices. Quem se lembra hoje de Jacinto e da sua picardia? É poeira e mais nada.
Vinicius de Morais, falecido em 1980, saravá! Continue vivo, «poetinha», e connosco! Saúdamo-lo nesta evocação, matando saudades em (link)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ser parte da solução

Fala-se de crise, já ninguém a discute tão instalada a tem o país. Chega então a maré de lembrar que a quantidade de dinheiro em circulação não diminuiu (será até mais abundante), nenhum incêndio reduziu a cinzas as notas maiores deixando nas caixas do multibanco as de dez e vinte. As maiores desapareceram das mãos da arraia-miúda segundo uma lógica nada democrática; mas por essa lógica se avalia como sabe falar quem diz que são precisos milhares de pobres para fazerem um único rico.
Os pobres, hoje, são os que trabalham por quinhentos ou seiscentos euros mensais executando tarefas de escassas qualificação durante horários e sob exigências disciplinares de crescente severidade. Repetem-lhes que têm que produzir mais para poderem ganhar mais, como se tal fosse viável com tais patrões e directores a dar-lhes ordens. E agora, nesta crise geral (não apenas económico-financeira) que se expande, apenas falta pedir aos pobres - que já vivem com o mínimo ou ainda menos - para baixarem o nível de vida a fim de reduzir os desperdícios do consumismo…
Na verdade, é isto mesmo que anda a ser apregoado pelos media, que aconselham a poupar água, a poupar luz, a poupar dinheiro para aforro. Com o apelo a uma maior produção, temos  a consigna emblemática da Ditadura restaurada: «Produzir e poupar, é o que manda Salazar!» Estarão a coincidir meras aparências?!
Seja como for, os problemas da nossa época, além de sociais, são também ecológicos. Uma sociedade nacional reclama regulações cruzadas em diversos sentidos a fim de obviar a graves rupturas, mas a conservação da natureza, isto é, da biosfera, já surge como condição de sobrevivência planetária. Para todos os efeitos, chegámos ao momento de compreendermos que dependemos vitalmente de recursos naturais finitos, como a água ou o ar respirável.
Somos pessoas cultas e civilizadas, hoje, na medida em que alcançarmos essa compreensão. Este grupo de pessoas será por certo «parte da solução».
Sabe-se, pois o facto é incontroverso, que aumentou desmesuradamente a diferença entre o que ganham uns quantos privilegiados, a minoria, e o que ganham as classes populares. Então, vendo de relance, as classes populares serão muito menos a «parte do problema» (podem querer consumir mas faltam-lhes os meios), do que os poucos que ganham muito e consomem nessa escala. Entre as nações, os Estados Unidos são disso um exemplo eloquente. Impõe-se agora a conclusão: não basta ter dinheiro para ter direito real a consumir certos bens de qualquer maneira (lembrete: menos de 1% das coisas compradas nos Estados Unidos no dia-a-dia não estarão no lixo dentro de seis meses).
As circunstâncias obrigam-nos a questionar o nível de vida da minoria abastada e também os seus modos de vida, lazeres incluídos. Obrigam-nos a não confundir consumismo e qualidade de vida, indo ao ponto de pôr na mesa da discussão o modelo de desenvolvimento vigente. Este bendito «crescimento» tem que ser contido, apenas os incorrigíveis teimarão em supor que iria ser imparável.
Oiçam o padre Fanhais: «Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar».