quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A ética da desregulação

Perde vigor a ética nos negócios, aumenta a desconfiança e mesmo o descalabro nas relações sociais. É uma triste verdade, o ambiente de crise desenvolve-se na cama nefasta destas circunstâncias. Importa, porém, notar a particular influência que exercem no descalabro geral as acções e declarações de políticos - os tais que declaram o preto branco e o quadrado redondo conforme lhes convém.
Diversas empresas transformam-se aqui e ali em armas apontadas ao peito dos que com elas lidam, trabalhadores e fornecedores. Os donos e uns quantos administrativos fiéis tornaram-se nómadas predadores, saltam e armam a tenda onde há colheita a fazer, atrás deixando terra queimada, salários em atraso, impostos por pagar, créditos bancários malparados. Acudiram antes a diversos subsídios e apoios públicos, digeriram-nos à pressa enquanto reproduziam a cassete contra o Estado previdência (pois o querem em exclusivo), e abalam em triunfo.
Confiar, hoje, é arriscado e problemático. A palavra honrada, a seriedade das intenções, a rectidão do carácter tornaram-se não a regra, mas a excepção. E foi assim que se implantou o paradigma de uma desregulação no interior das famílias e das sociedades, à semelhança da desregulação global que alterou as relações internacionais.
A metáfora que melhor exprime o descalabro ético do nosso tempo estará talvez no automóveis que vemos parados em fila dupla, com os quatro piscas ligados, a estrangular o trânsito. Quem os conduz age como se os piscas os habilitem a largar o carro onde calha. Colocam-se desse modo na vanguarda marcante, não na exemplar.
Ainda assim, surgem comportamentos tão abusivos e descarados, ou tão impudicos e desonestos, que aos visados, sejam meros clientes, apanhados de surpresa, só resta estarrecer. Comportamentos não de indivíduos, sim de empresas poderosas que têm no topo figuras milionárias. Empresas que andam apontadas por atafulharem os tribunais com processos de cobrança coerciva por dívidas no sector das telecomunicações.
Cito dois casos. O primeiro remonta à data em que cancelei o serviço telefónico da rede fixa. A derradeira factura da PT registou um saldo a meu favor de uns milhares de escudos, levei o documento a uma loja da empresa para o reembolso e foi-me dito que não havia quem me pagasse (as máquinas são mais correctas nas contas do que as pessoas)!
Todavia, a PT reivindicou um pagamento por uma alegada «portabilidade» do meu número de telefone – que afinal não era meu! Esperava-me pior. Aderi à Home da Optimus, o aparelho ou a rede tinha graves deficiências e, sem assistência pós venda, após meses a aturar os chicos espertos da loja Home e de contactos com a sede da empresa, desisti formalmente com saldo a meu favor: uns 48 euros. Três anos depois recebo carta de advogado com ameaça de tribunal - o meu saldo transformara-se em dívida! Fui lá provar os factos, ouvi boas promessas e desculpas, tornei a receber carta para reembolso do IVA pela empresa e… mais nada. Mas a empresa obrigou-me a pagar segunda «portabilidade»! Poderei dizer agora que o número é meu?!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Junto sinais e leio...

Pertenço ao tempo em que uma empresa, onde surgia, era tida em geral consideração. Produzia, gerava riqueza, expandia os empregos. Digo que pertenço a tal tempo mas deveria dizer também que nessa pertença me honro.
Declaro-me fora do tempo presente, pois «no meu tempo» um empresário dava a cara à empresa de maneira que reciprocamente se prestigiavam. Foi o tempo do «progresso»! Hoje as empresas acima dos tamanhos pequeno ou médio não têm a cara dos donos à vista e, quanto à dimensão social que realmente a empresa assume ao surgir, estamos conversados. E dado que bastante produção industrial deixou de verter ganhos rápidos e chorudos, os antigos patrões (termo este derivado de «padrão», exemplo) agruparam-se, enriquecidos, em sociedades financeiras de investimentos e especializaram-se, já não em produzir, mas em especular.
A especulação pode não produzir nada de concreto e, todavia, gerar lucros vultosos que, com um pouco de habilidade, até ficam – louvado seja deus! - isentos de impostos. Isto é sabido, estamos a rever a matéria. Mas percorreu-me a espinha um calafrio ao ler no papel, uma e outra vez, o trecho: «Verifica-se, com matéria de facto, que o sistema bancário privado é estruturalmente predador e desonesto – não serve aos interesses das sociedades em que estão implantados, serve-se delas.»
Quem conheceu o «outro» tempo, em que os banqueiros até resistiam a pôr anúncios nos jornais, vê publicidade enganosa, espanta-se e não acredita. Um depositante, tratado naquele tempo como um esmoler pelo mendigo, lê hoje que o que os bancos querem é apanhar-lhe o dinheiro, espanta-se e não acredita. Paga os cheques, o cartão e as comissões, receia o custo das idas ao MB, ouve anunciar que os pensionistas mais pobres têm de pagar «manutenção de conta», espanta-se e não acredita.
O sistema financeiro de vanguarda desertou do terreno da economia real, que é por definição o da empresa clássica, para se concentrar no investimento puramente especulativo. Produzir bens reais úteis interessa cada vez menos, jogar na bolsa ou investir especulativamente (comprando algures empresas em risco, mandando administrá-las a chicote e depois abandonando-as exauridas) interessa cada vez mais. A dita «economia de casino» habita em offshores e vai estendendo os tentáculos.
Apontar, tão ao gosto de certos patrões, os níveis baixos da produtividade nacional (que aparece num quarto lugar, entre os piores), não ilude o facto de que os trabalhadores fazem o que lhes mandam. Sublinha, portanto, a escassa competência com que as empresas são administradas e não outra coisa. Mas se é verdade o que consta por aí, que já temos em Portugal uns quinze mil milionários, juntemos e interpretemos os sinais da realidade…
Talvez isso tenha a ver, por algum lado, com os níveis da desigualdade de rendimentos em Portugal, quase a rivalizar com os americanos. Pensemos então no que regista o «Finantial Times» (19-05-2008), citando um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento publicado em 2005: cinquenta das maiores fortunas do mundo ganhavam mais do que os 416 milhões de pessoas mais pobres.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Faltam termos de comparação

Mulheres, sobretudo jovens, multiplicam-se nos empregos. A percentagem das portuguesas empregadas é por isso das mais altas no quadro europeu. Conhecemos o facto há longos anos e pouco ou nada parece notar-se. Todavia, traduzindo embora uma evolução positiva (liberta as mulheres da sujeição económica a pais ou maridos), o facto introduziu graves consequências e logo esta: contribuiu também, como efeito perverso, para forçar no país um abaixamento geral dos salários.
Ocorre-me de novo esta ideia em contacto com a directora de uma instituição privada de solidariedade social para idosos. É jovem, licenciada em Serviço Social, em início de carreira. Terá entre 25-30 anos e, muito provavelmente, ainda espera companheiro.
A licenciatura, como qualquer curso tecnocrático, serviu-lhe para iniciar a vida activa. Repete quatro ou cinco vezes a mesma frase, convicta e firme no seu posto como se já tivesse atravessado todas as dúvidas e atingido conclusões definitivas. A formação em Serviço Social, e porventura em geriatria, embrulha em nicles uma obra fundamental de Michel Foucault como «Vigiar e Punir», que lhe cito, e põe-me em dúvidas: estará ela habilitada a compreender um idoso?
Realmente, a menina teima comigo. Pensa que um idoso perde a razão apenas porque, atenção, acumulou anos vividos - fica imputável e sem ter consciência disso! Não um ou outro idoso atingido qualquer degenerescência, sim em regra!
A circunstância impediu a controvérsia que se requeria, mas custou-me. Gostaria que a menina me dissesse em que idade certa, na sua opinião, um idoso perde a lucidez das suas faculdades mentais. E neste caso, se um idoso não é capaz de sentir essa perda quando nele se inicia, como poderia ela garantir a si própria, apesar de jovem, que não tem agora a mente perturbada?!
Eis como a menina avaliava o idoso que tinha pela frente - menina directora de uma IPSS privada. E eis como progride no terreno a mentalidade tecnocrática, isto é, desumanizada, que manda para a reforma pessoas com cinquenta anos de idade e pede que trabalhem até aos setenta as que estão no activo…
Passou o tempo em que os velhos foram ouvidos e respeitados. A supremacia do «novo», do «jovem», decalca o modelo económico do consumismo que é o non plus ultra da mentalidade tecnocrática que tudo mercantiliza. Um hóspede idoso de IPSS transforma-se à entrada em «cliente», conforme esta menina directora insiste em o designar, ignorando decerto que a semântica do termo alude a freguês e a lucro, quando uma IPSS não pode ter finalidade lucrativa legítima.
Saio da reunião entristecido. Aquela menina tão firme porque atingiu conclusões definitivas, que decerto não leu Foucault e vai lançada na carreira, está privada dos termos de comparação que eu, por via da idade, tenho e utilizo. Cresceu neste ambiente modelado pelo capitalismo selvagem, vulgo neoliberalismo, que tudo coisifica e, ingenuamente, supõe que o mundo foi sempre assim inóspito, onde uma pessoa nasce para consumir e dar lucro a quem manda.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O cronista cede o lugar

Nas circulações do correio electrónico cruzam-se mensagens reencaminhadas com anexos os mais diversos. Chegou-me agora um, apenas com texto, que me surpreendeu. Decidi inactivar as mãos. Hoje o cronista cede o lugar a quem, no anonimato, escreve assim. Omito apenas trechos iniciais do texto intitulado País:

«Um jovem de 18 anos recebe 200 euros do Estado para não trabalhar; um idoso recebe de reforma 236 depois de toda uma vida do trabalho.
O mesmo fisco que penhora indevidamente o salário de um trabalhador demora três anos a corrigir o erro.
Um professor é sovado por um aluno e o Governo diz que a culpa é das causas sociais.
O café da esquina fechou porque não tinha wc para homens, mulheres e empregados. No Fórum Montijo a wc da Pizza Hut fica a 100 mts e não tem lava-mãos.
O Governo incentiva as pessoas a procurarem energias alternativas e depois multa quem coloca óleo vegetal nos carros porque não paga imposto sobre produtos petrolíferos.
Nas prisões distribuem gratuitamente seringas por causa do HIV, mas é proibido consumir droga nas prisões!
Um jovem de 14 anos que mata um adulto não tem idade para ir a tribunal. Um jovem de 15 leva um chapada do pai por ter roubado dinheiro para droga e é violência doméstica!
Uma família a quem a casa ruiu e sem dinheiro para comprar outra, o Estado não tem dinheiro para fazer uma nova, vai viver conforme pode. Seis presos que mataram e violaram idosos vivem numa cela de quatro sem wc privado, não estão a viver condignamente e a associação de Direitos Humanos faz queixa ao Tribunal Europeu.
Militares que combateram em África a mando do Governo da época na defesa de território nacional não têm reconhecida nenhuma causa ou direito de guerra, mas o primeiro-ministro elogia as tropas que estão em defesa da pátria no Kosovo, Afeganistão e Iraque.
Começas a descontar em Janeiro o IRS e só vais receber o excesso em Agosto do ano que vem; não pagas às Finanças a tempo e passado um dia já estás a pagar juros.
Fechas a janela da tua varanda e estás a fazer uma obra ilegal; constrói-se um bairro de lata e ninguém vê.
Se o teu filho não tem cabeça para a escola e com 14 anos o pões a trabalhar contigo num oficio respeitável, é exploração do trabalho infantil; se és artista e o teu filho com sete anos participa em gravações de telenovelas 8 horas por dia ou mais, a criança tem muito talento, sai ao pai ou à mãe!
Numa farmácia pagas 0.50€ por uma seringa que se usa para dar um medicamento a uma criança. Se fosse drogada, não pagava nada!
E agora?! Sim, eu sei, vais voltar a olhar para o teu umbigo e dizer que tudo está bem; se disseres que está mal, que pensas fazer?! Deixar que os outros resolvam por ti?! Então mereces tudo isto em dobro.
Mexe-te, grita, mostra a tua indignação e luta. Ou em breve poderás estar tu e os teus dentro destas estatísticas e o teu vizinho fará como tu: olhará para o lado.»

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Não há mais Histórias da Literatura

Viver com os livros, não apenas tê-los em casa ou abri-los por desfastio. Amar a Literatura - feita de estreme poesia - por nela sentir o latejar da vida toda. Há gente assim, aberta para o mundo das Letras como para um outro céu azul recamado de estrelas fulgentes.
Essa gente habituou-se às Histórias da Literatura. Cada país, mais do que cada língua, não as dispensou no curso do tempo. Periodicamente, um autor habilitado empreendia a tarefa. Em Portugal, os últimos foram, que me lembre, Albino Forjaz de Sampaio, Fidelino de Figueiredo, António José Saraiva e Oscar Lopes.
As suas «Histórias» evocam o dealbar da nossa Literatura, as correntes e os movimentos estéticos-literários que se seguiram, os autores em evidência em cada período, as singularidades e os valores intrínsecos assumidos por cada mutação sociocultural. De certo modo, ao arrumarem por categorias os grupos literários e as individualidades, os historiadores como que deixavam desenhado no terreno os caminhos seguidos pela criação literária. Ao distinguir ou a separar, uniam e tornavam coerente o quadro da evolução nacional.
Recuados para além da linha da recepção (que se pronuncia sobre os livros recém-publicados), os historiadores podiam estabelecer com maior segurança as suas perspectivas críticas. O mérito dessas obras contribuía para alicerçar autênticos prestígios e elevar em glória uma obra e um nome. O público leitor era informado.
Mas há quantos anos não se vê aparecer uma nova História da Literatura Portuguesa? Conclusão: a maré não vai boa para este género historiográfico. Alíás, ter-se-á extinguido mesmo o lugar de onde surgia. Apenas parece restar espaço para uma sociologia dos consumos.
De facto, terminaram as escolas, os movimentos de vanguarda, as correntes regidas por uma determinada consigna. Deixou, portanto, de existir na realidade aquela substância que servia ao historiógrafo para distinguir um de outro período. Desde há uns trinta anos, aproximadamente, há, sim, apenas uma literatura de autores individuais não assimiláveis entre si.
Viável, nesta situação, é a elaboração de dicionários de autores, obras estas que têm vindo a sair com alguma frequência. A obra de Oscar Lopes e António José Saraiva apenas a vejo em reedição, por sinal cada vez mais rara. O público leitor arreda-se de especificações críticas que foram apaixonantes: o neo-realismo, o presencismo psicologista, o visualismo do novo romance, o realismo naturalista, o parnasianismo…
Ocorreu realmente uma mudança decisiva. Os livros banalizaram-se, transformados que foram em objectos de comércio. Publicam-se agora num mês tantos títulos como antes na roda de um ano. E já quase ninguém faz crítica regular nos jornais. Mas é possível agora ganhar bom dinheiro com a literatura na condição de se ganhar o mercado e, para isso, basta ter o rosto nos ecrãs e nas páginas da imprensa. Proliferam, portanto, os autores que escrevem para vender, de mão guiada pelo manual da «escrita criativa», e que os leitores consomem como se não houvesse mais nada!

domingo, 9 de novembro de 2008

Um soco no estômago

E foi assim: inesperado e violento. Veio o golpe de um congresso de panificadores hoje reunido, onde se anunciou o encerramento de duas mil padarias e o despedimento de uns dez mil empregados. Escasseia, no país, o pão!
O pãozinho, alimento elementar e por isso também simbólico! O pãozinho, que é a última coisa a faltar à mesa dos mais pobres! A refeição completa dos desgraçados sem conduto, adquirido com o dinheiro último que reste no bolso!
Ontem, na minha terra natal (algo suburbana mas ainda aldeã), já me deixara estarrecido a senhora do atendimento. Queixou-se de que vendia menos pão. A viatura da distribuição saía menos e ao balcão acudiam poucos fregueses a comprar menos, quando antes deitavam ao lixo pão de sobra. E a senhora contou: vendo o gesto, ia tirar o pão velho dos contentores e dava-o às suas galinhas, mas agora não há mais sobras…
Pois sim, o pão ficou mais caro recentemente e a carestia tornou-se geral no meio da crise declarada. Mas o pão, senhores?! O pãozinho que só as bocas famélicas sabem de sabor tão doce e aromático?!
É preciso ânimo para reconhecer: onde escasseia o pão, há fome.
Fome!
Os panificadores em congresso, querendo salvar o negócio, pediram medidas de apoio ao Governo. Têm voz. Mas estão a fechar as padarias, a multiplicar-se os desempregados, e aí temos em crescendo os sem-abrigo, a multidão a engrossar às portas humanitárias das sopas quentes. E estes muitos não têm voz, o Governo sabe-o: ocupados como andam a procurar nos restos a sobrevivência, nem ouvem já quem fala no alto.
Todavia, é neste ponto que se ilumina e decide a relação que cada governante e cada cidadão concreto estabelece de facto com cada outro ser humano. Como se, por exemplo, uma pessoa é ou não capaz de mastigar a sua comida com indiferença vendo ao lado alguém a rilhar fome. Acresce que a pessoa abastecida com comida até pode sentir-se em grande unção religiosa.
Na verdade, há quem, rodeado por muralhas de egoísmo, não se importe com o Outro. E pode erguer as mãos, bater no peito e dar esmola se possível para obras pias. Mas, e os governantes, senhores?! Os governantes têm por obrigação funcional prover de segurança a comunidade constituída por todos.
Ora, nesta comunidade, estão a alastrar à vista negras manchas de fome. A segurança alimentar antecipa todas as outras: da saúde, da habitação, etc. Que resposta dão os governantes à fome que se expande?
Para quem queira ver, a resposta é clara. As desigualdades são cada vez mais gritantes e mesmo terríveis. Os problemas sociais agravam-se dramaticamente. Uma parte da sociedade parece em condições de vir a perecer, condenada do alto.
Civilização, isto? Coesão nacional, isto? A pessoa com fibra humana, o simples cidadão, destaca-se nesta situação do conjunto de quantos vão na onda amontoando riqueza ou consumindo freneticamente sem olhar para o lado.