Perde vigor a ética nos negócios, aumenta a desconfiança e mesmo o descalabro nas relações sociais. É uma triste verdade, o ambiente de crise desenvolve-se na cama nefasta destas circunstâncias. Importa, porém, notar a particular influência que exercem no descalabro geral as acções e declarações de políticos - os tais que declaram o preto branco e o quadrado redondo conforme lhes convém.Diversas empresas transformam-se aqui e ali em armas apontadas ao peito dos que com elas lidam, trabalhadores e fornecedores. Os donos e uns quantos administrativos fiéis tornaram-se nómadas predadores, saltam e armam a tenda onde há colheita a fazer, atrás deixando terra queimada, salários em atraso, impostos por pagar, créditos bancários malparados. Acudiram antes a diversos subsídios e apoios públicos, digeriram-nos à pressa enquanto reproduziam a cassete contra o Estado previdência (pois o querem em exclusivo), e abalam em triunfo.
Confiar, hoje, é arriscado e problemático. A palavra honrada, a seriedade das intenções, a rectidão do carácter tornaram-se não a regra, mas a excepção. E foi assim que se implantou o paradigma de uma desregulação no interior das famílias e das sociedades, à semelhança da desregulação global que alterou as relações internacionais.
A metáfora que melhor exprime o descalabro ético do nosso tempo estará talvez no automóveis que vemos parados em fila dupla, com os quatro piscas ligados, a estrangular o trânsito. Quem os conduz age como se os piscas os habilitem a largar o carro onde calha. Colocam-se desse modo na vanguarda marcante, não na exemplar.
Ainda assim, surgem comportamentos tão abusivos e descarados, ou tão impudicos e desonestos, que aos visados, sejam meros clientes, apanhados de surpresa, só resta estarrecer. Comportamentos não de indivíduos, sim de empresas poderosas que têm no topo figuras milionárias. Empresas que andam apontadas por atafulharem os tribunais com processos de cobrança coerciva por dívidas no sector das telecomunicações.
Cito dois casos. O primeiro remonta à data em que cancelei o serviço telefónico da rede fixa. A derradeira factura da PT registou um saldo a meu favor de uns milhares de escudos, levei o documento a uma loja da empresa para o reembolso e foi-me dito que não havia quem me pagasse (as máquinas são mais correctas nas contas do que as pessoas)!
Todavia, a PT reivindicou um pagamento por uma alegada «portabilidade» do meu número de telefone – que afinal não era meu! Esperava-me pior. Aderi à Home da Optimus, o aparelho ou a rede tinha graves deficiências e, sem assistência pós venda, após meses a aturar os chicos espertos da loja Home e de contactos com a sede da empresa, desisti formalmente com saldo a meu favor: uns 48 euros. Três anos depois recebo carta de advogado com ameaça de tribunal - o meu saldo transformara-se em dívida! Fui lá provar os factos, ouvi boas promessas e desculpas, tornei a receber carta para reembolso do IVA pela empresa e… mais nada. Mas a empresa obrigou-me a pagar segunda «portabilidade»! Poderei dizer agora que o número é meu?!



