quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Tudo posto a render

Custa a acreditar no que se nos oferece à vista. O frenesim das compras natalícias tornou a electrizar o ambiente, atafulhou de trânsito em corropio as ruas e as estradas. Esvaziaram-se, nas lojas, as prateleiras das prendinhas; esgotaram-se, dizem, os programas de mini-férias… Onde se terá, então, escondido a crise?!
Já não temos salários baixos, vencimentos em atraso, pensões de miséria?! Ou será isto magia suprema da quadra festiva? Prodígio de galas e luzes multicores em exibição pública entre cânticos e epifanias de cassete?!
Os portugueses, tolhidos por dívidas acumuladas que «um dia» irão ser pagas, desistem pouco dos bons costumes. Tiram os anéis dos dedos, pagam as compras no supermercado com cartão de crédito e acodem ao penhorista, porque a tradição manda e festa é festa. Renegoceiam as dívidas, tantas contas complicadas, ainda bem que há quem ajude, assim lhes livrando a cacholinha daqueles cuidados, podem continuar a consumir, «um dia» alguém terá que pagar…
Afirma quem tem voz que a comunidade nacional vive acima das suas possibilidades, significando que gasta mais do que tem para gastar. Porém, há anos e anos que na comunidade se repete a afirmação e (graças à chico-espertice?) não se vê acontecer nenhum desastre.
Entre os portugueses e o país existe um notável paralelismo, assim como entre a careta e a letra. Pois não se anuncia que os edifícios públicos do património histórico-cultural português vão ser vendidos ou, à falta de melhor, arrendados a privados? Logo, também Portugal tira os anéis dos dedos e acode ao «invejoso» em maré de aperto.
Temos a crise financeira, empresas a fechar, a estagnação económica, o desemprego, tudo a crescer. Tantas contas complicadas para as cacholinhas administrativas, ainda bem que temos cá dentro quem ajude quando lá fora as coisas estão pretas. Manda a tradição, festa é festa!
Os milhares de milhões que a crise financeira custa ao Estado servem, evidentemente, para recompor o poder da alta finança, livrando-a da banca-rota. Mas esses milhares de milhões alguém os terá que pagar – e aposto, não serão os políticos milionários e muito menos os senhores da alta finança. Será o povo chico-esperto.
Sobre os ombros de milhões de portugueses vão recair em breve aqueles milhares de milhões na forma de migalhas (de todo o tamanho) a pagar em impostos novos ou agravados. Os proprietários de imóveis e os consumidores em geral pagarão, com toda a sua chico-espertice, os luxos do TGV e do novo aeroporto, as portagens nas vias sem custos e etc. E se a Autoeuropa desertar e as exportações caírem a pique?
Festa é festa… até quando? Pessoas, empresas e entidades diversas endividaram-se seriamente, em paralelismo com o Estado, que dá o exemplo indo à frente. Quem, na confusão contabilística reinante, sabe realmente das contas da administração nacional? Quem atenta nas variações do nosso PIB e indaga pelo PNB (produto nacional bruto)? País e povo estranho este, perpetuamente adiado! Inviável?!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Restaure-se o social da economia!

A conclusão a extrair do post anterior é a de que o sistema económico em que estamos a viver contém o sistema moral nele implícito. Não é certo, pois, que toda a economia seja amoral, conforme José Castro Caldas bem demonstra no seu artigo. Logo, não é possível tratar as toxicidades do mundo actual sem tratar do sistema global que as gera, isto é, conseguir limpar as feridas e curar a doença sem eliminar a origem da pandemia.
A conclusão desemboca numa consequência de múltiplos alcances. Este sistema económico é profundamente marcado pela especulação financeira, actividade «económica» privada que gera lucros sem produzir bens socialmente úteis e que gosta tanto de paraísos fiscais ao ponto de os multiplicar onde lhe fazem jeito. Porém, foi por aí que entraram as desregulações todas que desencadearam esta crise – uma crise tão séria e grave que, segundo algumas predições, o capitalismo terá de sofrer grandes reformas ou vai explodir um dia na cama da sua própria insensatez.
Mas seja como for, a globalização financeira, as arremetidas das deslocalizações, a titularização de dívidas, as privatizações de serviços públicos, as portas francas das ofshores, as quebras dos PIB nas economias americana e europeias (de produtores-vendedores de bens de consumo, transformaram-se demasiado em importadoras-compradoras), e etc., derivam das estratégias seguidas pela especulação financeira. Pretende lucros rápidos e gordos, cada empresa e respectiva administração valem na medida em que podem atender ao objectivo.
Assim avançou uma mercantilização geral das relações sociais, o desemprego, o retrocesso do poder real de compra das populações, os endividamentos familiares e o afundamento das classes médias, as falências, as fraudes, a instabilidade. Deste modo, se alguém me diz que a especulação financeira vai continuar por este caminho (como o meu velho amigo A. V. G. fez, a puxar-me pela língua), eu entendo que alguém está a defender, nesta ordem de ideias, a continuação do que antecede, e também um tanto o consumismo e as agressões ao ambiente, a violência doméstica, a prostituição, a emigração forçada ou ilegal, em suma, a defender o rico e forte senhor minoritário contra os fracos - a maioria… democrática.
Na verdade, julgo que não será possível isentar a economia de uma clara dimensão social. Evidentemente, esta dimensão pode ser escamoteada ou obliterada, mas isso resultará numa perversão do sistema conducente a um universo de relações desumanizadas. Será este o sistema caracterizador da fase imperialista do capitalismo (mais acelerada concentração da riqueza, depauperação de populações, risco de uma guerra em larga escala)?
Um sistema económico, qualquer que seja, estabelece no terreno os valores da sua própria moralidade. Portanto, será imoral se o sistema se quiser imoral. Mas que valor tem afinal a sentença aqui ditada? Por outras palavras: poderá um jornalista veterano, arrimado apenas à sua cultura geral, pronunciar-se sobre economia? Talvez sim. O estado da decadência das instituições em crise pede aos cidadãos pronunciamentos corajosos e desassombrados.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

«Economês» confunde economia

Ressoou pelos quatro cantos a frase famosa: «É a economia, estúpido!» Martelada que foi, entrou nos ouvidos e ficou nas memórias a significar que a coisa mencionada seria tão óbvia e tão indiscutível quanto o pôr-do-sol ou a marcha imparável do tempo. Assim se impôs uma economia a valer por si mesma qual soma aritmética, ou seja, sem outra relação lógica que não fosse consigo mesma.
Mas não será isto «economês» balofo e corriqueiro? Será possível, na verdade, que esta economia nada tenha a ver com as consequências que provoca nos planos social e moral? Pode a economia, colocada no próprio lugar do seu funcionamento, ser amoral… ou imoral?
Um artigo de José Castro Caldas, intitulado «A impossibilidade de uma economia amoral» («Le Monde Diplomatique», edição portuguesa, Dez. 2008, p. 2), lança a questão numa surpreendente abordagem que as mentes adormecidas deveriam ler para espevitar. Com efeito, aquele investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra demonstra algo que está à vista e, todavia, continua invisível.
Cito dois trechos: «a crise do capitalismo que estamos a viver é uma crise moral. A crise de uma economia que se pensou a si mesma como nem moral nem imoral, mas antes amoral e que foi sendo politicamente construída à luz desse pressuposto.» «Esta sociedade, ou melhor, este projecto de sociedade, é o que se encontra em crise. Essa crise é, antes de tudo o mais, moral: principia no não-reconhecimento das obrigações e da gratidão mútua.»
José Castro Caldas lembra duas obras de Adam Smith, a Riqueza das Nações, clássica, e a muito menos lida Teoria dos Sentimentos Morais, para as comentar no ponto em foco, uma sociedade de mercadores «que empolgou muitos dos que agora clamam pela ‘moralidade’ e pelo ‘castigo dos culpados’.» Sublinha: «Os contratos são o cimento da sociedade puramente mercantil» para considerar: «Não fosse o sentido de obrigação mútua (de natureza moral) que apesar de tudo existe, os contratos nem sequer seriam concebíveis.»
Chegou-se por aí ao enfraquecimento das obrigações e gratidões mútuas, isto é, a uma sociedade de risco. «O mundo dos negócios é o domínio onde a aversão aos compromissos, ou se preferirmos a preferência pela liquidez, se manifesta de forma mais pura.» O autor liga a J. M. Keynes esta preferência pela liquidez, o designado «dinheiro vivo», que se exprime nos mercados das acções, em instabilidade sistémica e agora descamba na crise financeira e em crise de confiança. O artigo conclui: «A sociedade e a economia caracterizadas pela liquidez estão tolhidas na sua capacidade de realizar projectos em conjunto, de enfrentar colectivamente problemas. Estão bloqueadas, presas numa armadilha. Em crise… moral.»
Devo pedir desculpa a José Castro Caldas pelo temerário arrojo de tentar resumir o seu texto numas poucas linhas, mas pretendi trazê-lo aos outros vossos olhares e penso que me irão agradecer. Derrama uma luz nova, reveladora de quanta manipulação afecta as inteligências, condicionando-as.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Mosaico inacabado

Contei-as agora. Somei cento e trinta as crónicas editadas neste blogue iniciado em Janeiro. É altura de balanço no mês terminal do ano.
Naturalmente, cada uma das crónicas é um texto que o leitor recebe como peça autónoma, assim como um «todo». O cronista escreveu-as ao longo do ano, página a página, ora evocando as suas memórias pessoais, ora recordando peripécias e figuras com que lidou. Mas também comentou acontecimentos da actualidade e reflectiu, debateu ideias ou questionou mentalidades.
Com efeito, no meu percurso existencial, assisti ao deflagrar da Segunda Grande Guerra e ao advento da penicilina, dos motores a jacto, dos plásticos, da televisão. Acompanhei a propagação da rádio, do cinema, dos automóveis, o avanço da físico-química, da astronomia, e aguentei sob o regime de Salazar. Os anos já longos que levo de vida, todavia, não me poupam ao que sinto quando vejo recordado como História factos que para mim são «do meu tempo».
Apesar de todas as suas maravilhas, não se me afiguram ditosos os meus anos de vida. Por isso exarei a exclamação «Que tempo!» à entrada do blogue, no Limiar. Sempre trabalhei e estudei conforme pude e soube, mas isso atendeu a uma função tão vital e primária como a de respirar. As maravilhas do «meu tempo» histórico perdem-se, a meus olhos, em sombras e negrumes que certos discursos apontam como a falência geral do progresso moral perante o progresso técnico.
Esta perda, pela obnubilação, tem vindo a aumentar dramaticamente. Sinto com pungente nitidez que não estava preparado para viver num ambiente social deste género. Por supor que mereceria melhor sorte na fase última da existência? Ignoro.
Eis o que tenho vindo a querer exprimir no conjunto destas crónicas. Gostaria que, depois de terem sido lidas uma a uma, possam agora, a outro nível, serem percebidas como uma espécie de mosaico. É mosaico mental composto pela agregação das peças com formas e tonalidades diversas, mas de tamanho quase regular como numa calçada à portuguesa. Que a visão lúcida do leitor ilumine o conjunto!
Eu julgo que em cada pessoa pode conter-se um universo e que cada pessoa, ao exprimir-se, poderá exprimi-lo o mais possível, trazendo-o para a luz. O «meu tempo», vivido no meu lugar, tem sido marcado por vivências talvez sem adequado registo. Ora o cronista tem por função o papel de testemunha e de espectactor. Aqui deixa o juízo do seu tempo no tempo do juízo, narrando: E foi assim…

domingo, 7 de dezembro de 2008

Monstruosidades vulgares

As monstruosidades impressionam, causam horror e pânico. Mas existem monstruosidades de vário tipo. Se forem de tipo vulgar, isto é, se se repetem, tornam-se um tanto habituais: como que perdem a malignidade e transformam-se em meros aleijões familiares.
Assim aconteceu outrora com a escravatura, a segregação racial, a pirataria, o canibalismo, a tirania do forte sobre o mais fraco, os atentados contra a criança e a mulher, a desumanidade em todas as suas formas. Entramos neste esplendoroso século XXI cheio de civilização, riquezas e tecnologias, a proclamar orgulhosos «direitos humanos», e que acontece? Somos informados que há gente a trabalhar escravizada, a segregação étnica continua, há piratas a assaltar navios e a fazer reféns, canibais matam e comem em orgias de superstição, crianças e mulheres são caça apetecida inclusive para exploração sexual, a força maior ainda aplica as mais brutais formas de exploração do homem lobo do homem!
Somos informados e no entanto quantos de nós sabem ou querem saber? Quem advertiu, por exemplo, a emenda das frases que no «Pai nosso» cristão aludiam a dívidas e devedores, motivo antigo de escravização? As monstruosidades estendem-se pelo mundo nas agonias do nosso tempo, banalizam-se pela multiplicação, mas nunca deixam de ser monstruosas, de causar pânico e horror.
A crise mais dramática no nosso tempo concentra-se precisamente no ponto em que verdadeiras monstruosidades se tornam vulgares, não por serem leves ou pequenas, mas porque são apenas… vulgares («normais», frequentes). Parece que as multidões se vergam a tolerar o intolerável, resignando-se a uma qualquer fatalidade imaginária que inalam, como um veneno, neste ambiente. É, porém, à relação do homem com os outros homens que devemos regressar para reencontrarmos o diapasão, a pedra de toque de tudo o que é determinante no tecido limpo das relações sociais.
A atitude como cada pessoa encara e trata uma outra e toda a gente reflecte o estofo da sua própria humanidade e, por aí, a sua ideologia, o pulsar da sua opção cívica e política. Não é possível estar de barriga cheia e contente ao lado de quem, perto ou longe, sucumbe de fome. Ninguém pode, sem grave contradição, ser de esquerda e apoiar hoje uma (des)governação de direita que dizima as classes médias.
Monstruosidades vulgares giram hoje no carrossel que põe a desfilar os basbaques de gesso defensores da democracia política, esquecendo, porém, que tal democracia, esvaída dos seus conteúdos económico e cultural socialmente humanizados, vale pouco menos que nada assim reduzida a figura de retórica. Um problema, no entanto, subsiste: alguém poderá viver bem e sentir-se em segurança neste mundo escalavrado que acumula tensões e contradições explosivas? Ainda que se distancie das multidões, metido dentro de espessas muralhas?
Um bom e velho amigo em visita, há poucos dias, deixou-me envolvido nestas reflexões. Alinha na «esquerda», aplaude a terceira via, mas declarou-me «de esquerda» aos seus acompanhantes. Nenhum de nós, porém, vai rodear-se de muralhas…

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O mundo sob terror

É facto indesmentível, percorre o mundo um vento soprado pela boca da insânia. Os atentados ocorridos há dias na cidade indiana de Bombaim parece que levaram até mais longe as previsões do pior que está por vir no processo desta desregulação global permanente. A violência assume sem vacilar as formas da brutalidade de uns quantos que entram em desespero no estertor de qualquer esperança.
A brutalidade daqueles ataques foi pasto de televisões, jornais e rádios durante dias. Encheram-se de ecos os continentes com cenas da destruição, contagens de mortos e de feridos. Duas palavras foram marteladas no ar: muçulmanos, terroristas.
Mas outra palavra, a terceira, sobressaiu inevitavelmente: aquela violência atingiu inocentes. E poderiam acaso não ser inocentes os atingidos, fossem turistas ou indianos? E, todavia, quem leu Jean-Paul Sartre do tempo da guerra na Argélia, colónia francesa em luta pela independência, pôde compreender que ninguém, e não apenas em França, era «inocente».
Os Franceses beneficiavam da exploração da colónia, bebiam do seu vinho e etc., teriam dificuldade em provar que o nível de rendimento nacional não lhe devia nada. Logo, como poderiam sentir-se «inocentes»? Alguém, ontem ou hoje, num mundo assim, terá a ilusão de estar verdadeiramente «de fora»?
O meu computador tem componentes feitos na Ásia e no Extremo Oriente, ao almoço comi laranjas do Chile e nas lojas vejo sapatos, vestuários, etc. vindos das cinco partidas, entro em casas com soalho de madeira africana… E o ouro negro, o petróleo da energia que povos ricos extraem com tanta violência, vem de onde? Eu, como toda a gente, sou culpado e tenho consciência disso.
Culpado serei, porém, bem menos do que a equipa governante, com George W. Bush à frente, que ordenou a invasão de um país indefeso, o Iraque, onde talvez um milhão de pessoas já tenham sido mortas, entre crianças, mulheres e velhos, e vários milhões de habitantes enxotados para o exílio. Um crime de guerra a somar a outros, praticados na Palestina invadida e ocupada à força de armas e sangue, no Afeganistão, no Kosovo, no Darfur, no Zaire (Congo)… Crimes colossais sem responsáveis, sem julgamentos, para esquecer.
Nos ecrãs das televisões do mundo dito «civilizado» e nos nossos olhos ficam apenas as imagens da violência exercida por muçulmanos de esperança completamente perdida, os designados «terroristas». Armaram-se e lutaram às cegas com o sacrifício supremo da própria vida e ficam como bárbaros fanáticos para quantos, amolecidos de carácter, seriam incapazes de bem menor sacrifício. E quem lembra onde estão a morar os piores terroristas, as maiores ameaças da paz e da segurança?
A cobertura mediática de tais acontecimentos limpa cuidadosamente as nossas consciências. Tenta abafar-nos e mesmo anestesiar-nos os cérebros sob a torrente diária do que devemos conhecer e como devemos entender. Quer atordoar-nos com discursos de direitos humanos, liberdade e democracia, para deixar a rir de todos os direitos universais e à solta quem não sabe o que isso é. Até quando?!