quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Rãs a cozer na panela

Quantos de nós terão partilhado um anexo de e-mail que, muito solícito, nos pedia para identificarmos os três últimos símbolos do código de barras? A ideia seria boa. Identificávamos o que era da produção nacional. Consumindo o que produzíamos, apoiávamos a nossa economia e combatíamos o desemprego.
Mas o que seria boa ideia, nesta cabeça irremediável, emperrou. Cogitando, não partilhei a mensagem com ninguém. Acusem-me agora de boicotar os esforços portugueses para sair da crise.
É que a sugestão para apoiarmos desse modo a produção nacional trouxe à lembrança outras sugestões recentes igualmente positivas. Uma apresentação (ou pps) sobre a «pegada humana» referia que deitamos fora, para o lixo, a cada cinco minutos, dois milhões de vasilhas de água - garrafas de plástico - (isto sem esquecer os maços de cigarros, os telemóveis, etc.). A mensagem era clara: devíamos banir a compra de água envasilhada em garrafas de plástico.
 Beberemos então a água directamente da canalização? Errado. Outra presentação anunciou que cada pessoa ingere com a água, num ano, um quilo de excrementos. Logo, optemos por beber vinho; mas...
Foi preciso parar neste ponto. A estranhar, como o menino estremunhando do seu sono. Então agora é assim?!
Então o Estado, administrado pelo Governo nacional, que tem autoridade para nos compelir a pagar impostos, já não tem autoridade nem vontade para nos garantir a máxima segurança quanto ao ambiente, à saúde, à formação escolar, à justiça e à paz no território? Se o vasilhame de plástico é problema, por que não impor o de vidro (reciclável)? Se a água do abastecimento público anda cheia de matérias fecais pois os rios se transformam em canos de esgoto, por que não aplicar regras normativas severas e eficazes que os protejam? Se os maços de cigarros e os telemóveis usados são montanhas de lixo, não vê isso o Estado tão ágil e pressuroso a salvar bancos falidos?
Quer dizer, é a nós, consumidores individuais, que compete ter consciência dos problemas sociais e meios para os resolver? Motivados um a um (isto é, verticalmente) por mensagens deste género, bem intencionadas mas condenadas ao fracasso? Quando o Estado, administrado pelo Governo, tem na mão os instrumentos operatórios para abranger com a máxima eficácia, no plano horizontal, toda a população? Afinal, para que lado governa o Governo que deixa aos consumidores o encargo de atender aos problemas colectivos?
Estas interrogações trouxeram à memória a fábula proposta há tempo por Olivier Clerc, escritor (e muito etc.) nascido em 1931 em Genebra, Suíça. Se a rã que nada na panela sentir a água a 50º, salta fora para não se queimar; mas se a temperatura for subindo pouco a pouco... Escreve ele (texto revisto da tradução brasileira): «Isto mostra que, quando uma mudança acontece de um modo suficientemente lento, escapa à consciência e não desperta, na maior parte dos casos, reacção alguma, oposição alguma, ou alguma revolta. / Se olharmos para o que tem acontecido na nossa sociedade desde há algumas décadas, podemos ver que nós estamos sofrendo uma lenta mudança no modo de viver, com o qual estamos a acostumar-nos. / Uma quantidade de coisas que nos teriam causado horror há 20, 30 ou 40 anos, foram pouco a pouco banalizadas e hoje apenas incomodam ou deixam completamente indiferente a maior parte das pessoas.» Legenda da ilustração original , em italiano: «Vejam: se a água aquece muito lentamente, a rã não se apercebe de nada!»
E, todavia, sentem o escaldão a crescer cada vez mais pessoas. Rãs apanhadas na panela com todas as outras, são opinião pública amordaçada pelos abastecedores da opinião publicada.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Homens que faltam à vida social

Não vão bons os tempos para uma certa estirpe de homens de qualidade. Isto é perfeitamente claro mas, ainda assim, a consciência da falta que deles se avoluma na vida social parece facilitar pouco a definição do seu perfil. É, ou pode ser em partes desiguais, um misto de intelectual-cidadão, escritor-artista, pensador-interventor...
Também pode agregar, conforme os casos, algo de monástico. A figura do monge mistura-se razoavelmente com o perfil geral da estirpe dos homens que faltam. É alguém que vive na Cidade e, simultaneamente, à margem, como que ostracizado por decisão própria.
Talvez haja por aí algum homem destes e não consigamos senti-lo entre o vozear tumultuoso que nos envolve. É por certo um desconhecido quase ignorado. Não habita no espaço público embora o frequente e é um desconhecido porque foge da esfera mediática.
A disciplina a que se obriga separa com clareza a cultura de massas (que encobre a cultura popular tradicional em extinção tal como a sua matriz, os espaços rurais, substituídos pela invasão do suburbano) da cultura culta. A de massas, para ele, é o consumismo consumidor, o reino do espectáculo alienante e da mediocridade instalada pelo negócio.
Os homens que fazem falta à vida social aparecerão com figura bastante anacrónica e, todavia, podem ser de vanguarda. Avaliam quanto teriam de perder desde logo em autêntica liberdade mental e em coerência ética se embarcassem nas vulgares aventuras. Não lhes interessa a fama, o poder ou o dinheiro - interessa-lhes, por definição, afirmar em plenitude a liberdade criadora do que é humano, do que é estético e deveras redentor.
Quem respira o oxigénio da esfera mediática sujeita-se aos ditames do mercantilismo, da concorrência, das imagens de marca em circulação "pós moderna". Ora o mercado coisifica o que nele entra; o dilema consiste portanto em alguém se deixar coisificar ou não. O intelectual-cidadão (compósito do escritor-artista, do pensador-interventor, etc.) recusa subverter a sua lucidez, a sua independência de espírito na agitação estéril do espectáculo
permanente que serve hoje para o que serviu outrora o "ópio do povo".
A vida social precisa angustiosamente de homens assim, com mentalidade e cultura humanista para opor eficazmente à mentalidade e à cultura tecnocráticas. Capazes de permanecer em retiro, atentos aos sinais do mundo, sempre disponíveis para descer à praça a clamar J'acuse!, e afastarem-se em seguida. Homens de modéstia mas também de altiva dignidade e coragem suficiente para responder ao rei que apenas querem que se desviem um bocadinho e não lhes façam sombra...

domingo, 20 de dezembro de 2009

Na festa do Sol


Manda a tradição, muitos são ainda os amigos que preenchem os dias desta quadra trocando saudações e votos de boas festas. Andamos de ouvidos e olhos cheios de «Feliz Natal», «próspero Ano Novo» em exibição por todo o lado. E até cheios de doces, chocolates mil e rabanadas com a noite da consoada todavia distante... Já cansados de ver tantos pais Natal vermelhuscos e rotundos a cheirar a Coca-cola publicitária, tantas árvores de todos os tamanhos carregadas de lantejoulas, tantos papéis de fantasia a envolver o presentinho, tanto presépio tosco embora comovente na sua pobreza. Fartos de neves cenográficas lindinhas, de renas e veados em paisagens nórdicas, que nos dão vontade de escaqueirar o cenário postiço para aceder à realidade real... Uma quadra assim consumista e mercantilizada é cansativa em demasia! (Uma notícia dizia há dias que o comércio nacional, apesar da crise, vendeu mais 18% do que em 2008. Sabemos todos, 2010 vai ser pior.) Mas vou retribuir aqui, por este meio expedito, os votos que com amizade e gentileza os amigos me enviam, simbolizando a festa do Sol, celebrada no solstício, na reprodução de uma nova pintura que simboliza o Amor, garante da renovação da vida. (Pintura de Isa Ventura, 2009: 50x70 cm.)  

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

E continuo no país

Mal comparado, um prédio assemelha-se a um país. A portaria dá para os negócios estrangeiros, no primeiro piso temos a produção económica. No teor do regulamento interno encontramos o sistema legal em vigor, na administração podemos ver o governo nacional... e por aí acima até ao telhado, cobertura da justiça e da segurança social.
No condomínio, é a administração das partes comuns que governa o essencial no interior das casas. Porém, a gente da nação-prédio manifesta uma indiferença, quando não um desprezo pela governação das suas partes comuns. Diz, convencidíssima, que, se são de todos, não são de ninguém.
A gente quer lá saber disso! Tem mais que fazer, vamos lá. A propriedade colectiva é metáfora incompreensível.
Do que é «público» cuidem os «políticos», que se colam à coisa como as sanguessugas à perna, mas que por isso mesmo e por muito mais que não vem ao caso, a gente olha de revés ou com desprezo. Não fazem nada e ganham balúrdios, diz a gente. Sabemos bem o que se passa, aquela malandragem a nós não nos engana.
De facto, o prédio-nação mete água por todas as frestas. De momento parece estar num coma induzido, mas logo, atingido por um disparo, acordará dentro de um pesadelo. Ou estará a lembrar-se daquele especialista que veio estudar-nos e partiu dizendo que, se não fosse a corrupção, teríamos por cá um nível de vida médio igual ao da Finlândia?
Felizmente, nunca escassearam «políticos» para se devotarem, voluntariosos e sem queixas, ao serviço público. Quando uns se reformam e saem da liça, sobra sempre um pequeno exército de pretendentes. Todavia, as reservas dos melhores anos estão como que esgotadas, até já vem recrutas de divisões distritais e  juniores.
Os papéis estão distribuídos e aceites, tratem «eles» da coisa pública que nós sabemos o nosso lugar. Ah?! Sim, ouvi dizer. Discute-se actualmente na assembleia o novo orçamento? É o segundo rectificativo, as despesas têm crescido em barda? Correu-se a salvar os bancos, os elevadores, a coluna de água, as receitas minguadas sem previsão nem aviso prévio? Que gente portuga liga a isso? Isso é para «eles», nós temos que trabalhar, ir à vidinha... Haja alguém que nos governe.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

No meu prédio estou no meu país

Tenho habitação num prédio em regime de propriedade horizontal. Estou aqui - porque daqui vejo o mar - há mais de trinta anos e ando agora a remoer uma ideia esquisita. O meu prédio lembra-me o país em ponto pequeno e os associados no condomínio parecem-me cada vez mais uma amostra elucidativa do povo portuga.
O prédio é muito mal administrado e não é lá grande coisa quanto a categoria. Falta-lhe ambiente cuidado porque reina indisciplina nas partes comuns. Há obras que são autênticos despedícios. Até a limpeza e a arrumação são medíocres.
Todavia, a administração faz-se pagar. A despesa do condomínio sobe constantemente. Todos reclamam e protestam quando o elevador avaria ou umas lâmpadas fundidas demoram a ser substituídas nas escadas, murmuram e cochicham de boca na orelha apontando o preço alto das últimas obras e dos remendos por tapar que essas obras deixaram à vista. Mas é difícil convencer um condómino a aceitar o cargo de administrador.
As assembleias são demoradas, fatigantes e, no entanto, improdutivas. Fala-se muito para o ar, em queixas e queixinhas de uns contra outros que nada têm a ver com a ordem de trabalhos. Ignoram-na tão irremediavelmente como ignoram a regulamentação legal dos condomínios. Querem sentir-se livres para avançar por cima do que der jeito.
Nas reuniões não abrem o bico para soltar reparos sérios, críticas pertinentes. Guardam isso para as suas conversas de corredor ou desvão de porta, onde repudiam decisões que antes aprovaram em reunião. E foi assim que concordaram com uma proposta surpreendente, para pagarem melhor a administração, e dizem agora que o senhor ganha muito e quase nada faz.
O telhado reclama revisão e conserto urgentes há muitos anos... e nada. Um condómino ousou pensar numa solução e expôs formalmente em assembleia o projecto que resolveria decerto o problema sem gastar dinheiro: estudar ali a instalação de painéis fotovoltaicos. A microgeração seria financiada por banco, a exposição solar do prédio e as dimensões da instalação eram verdadeiramente apropriadas, o contrato tinha boas garantias e até o velho problema do telhado ficaria resolvido...
Mas era um projecto extraordinário. Prometia um rendimento bonito para o prédio? Cuidado, portanto!
E os meus vizinhos continuam beatificamente a ver as telenovelas e o futebol, a espiar o que faz ou não faz a vizinhança e a mexericar pelos cantos. Tão entretidos no dia a dia que nem vêem o que pagam e ainda sem medir o que poderiam poupar... para viver melhor.

sábado, 24 de outubro de 2009

O novo ópio das massas

Em anos ainda recentes, os três pilares clássicos das sociedades modernas tiveram alguma companhia. Os poderes executivo, legislativo e judicial funcionavam sob o escrutínio das notícias e dos comentários jornalísticos. Mas onde pára hoje o «quarto poder» da Imprensa?
Os actuais media - os jornais, as rádios, as televisões, os satélites - alargaram incomensuravelmente o espaço da sua comunicação ao ponto de a tornar invasiva, sufocante. A propriedade desses órgãos e meios principais foi entregue a potentados financeiros «de confiança», atentos apenas aos lucros da indústria dos «conteúdos». O anterior pluralismo das ideias e das opiniões em circulação deu lugar a uma informação normalizada, conformista e manipuladora que percorre o mundo.
O poder da Imprensa transformou-se na Imprensa do poder. Acentuaram-se ou ocorreram outras transformações decisivas. O modelo de vida americano contagiou a Europa e o Ocidente com a sua avidez consumista, o seu individualismo radical, a sua procura de triunfo na carreira da vida, enriquecendo.
Os valores materiais subiram, a pouco e pouco, aos altares. As sociedades, libertando-se das superstições (ou substituindo-as apenas?), laicizaram-se. Laicas passaram a ser as regras morais e as concepções éticas na medida em que se adaptaram à prática.
As igrejas, antes tão poderosas e de tão predominante influência religiosa e profana, recuaram. Contavam nos templos os fiéis que os frequentavam, os clérigos novos que já nem revezavam os idosos, e poucos reis havia para os cardeais e os arcebispos coroarem nas catedrais entre nuvens de incenso. Era um facto, a religião perdera força, imenso terreno nestas sociedades individualistas embriagadas pelo consumismo hedonista.
Fez-se então lembrar a frase de Marx (1818-1883). A religião deixara de ser o ópio do povo. E um senhor, creio que nada revolucionário nem de esquerda, aparece agora a escrever (cito um trecho):

«Nos dias de Marx, a religião era o ópio das massas. Hoje são os media. Basta ver a informação dos media que facilita a capacidade da oligarquia financeira para iludir o povo.»

O senhor é Paul Craig Roberts. Foi secretário assistente do Tesouro na Administração Reagan e é co-autor do livro The Tyrany of Goods Intentions. [Foto: aspecto, virado para o céu, da montanha em Michu Picchu.]

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

ADVERTÊNCIA

Advirto os amigos de que este blogue vai manter-se sem novos posts durante um mês ou, no máximo, dois. Todavia, se alguma migalha de disponibilidade surgir neste período, é bem possível que o «jejum» venha a ser quebrado. Motivo: tenho que concentrar tempos e energias para atender a um compromisso absorvente. É só isso. Portanto, vou ali e volto já! 

O sentido das coisas

Atribuir o Nobel da Paz a Barack Obama foi um óbvio gesto político. Nada desprestigiante para quem o dava ou para quem o recebia, tudo pelo contrário. Porém, ouviram-se resmungos: o prémio podia condicionar o presidente da América, deixando-o metido num colete de forças...
Os resmungos percorreram o mundo. Mesmo no canteiro nacional houve gente fina preocupada que desejou e pediu a Obama para não descurar nunca a «segurança», como se a lusa gente fosse americana, moradora numa imperial rua do Far West, e o presidente ali fosse o xerife de revólveres à cinta. Ou como se o prémio lhe tirasse da mão os revólveres.
Para além de todas as conjecturas, admite-se como certo que a atribuição do prémio dá força à causa global da paz, mas nesta base é que poderá estranhar-se que haja gente que prefere dar força ao inverso da paz. Vão ao ponto de querer dar lições de papismo ao papa!
O discurso da informação do jornalismo amordaçado, manipulador das consciências, vulgarizou-se desde o 11 de Setembro e promove sem descanso o propagandeado «choque de civilizações» que, decerto não por acaso, cheira a combustíveis fósseis que tresanda. Ainda menos por acaso, estamos em plena situação de crise económico-financeira.
A crise abre rasgões no mais simples bom senso que abrem caminho a uma nova hecatombe humana, outra aventura bélica de renovada violência. Impõe-no, dizem, a lógica do sistema em que vivemos: para se sair da crise, só uma guerra... Mas faz-se lembrar a frase de Milan Kundera, onde se afirma a ideia de que é a perda da memória das dores e das destruições antes sofridas que torna possível a repetição de tão medonha loucura. Sem esquecer, porém, que todas as guerras se justificam com amontoados de perversas mentiras.

domingo, 11 de outubro de 2009

Obama Nobel da Paz

Quando Obama entrou na Casa Branca, saltou e derramou-se o optimismo como champanhe a borbulhar de garrafa festiva. Mas é evidente, a pessoa que faz o lugar também é feito por ele, de modo que a relação dialéctica entre os dois termos pode variar sem se perder. Então, como entender agora Obama distinguido com o prémio Nobel da Paz?
Vai ele resolver finalmente o problema dos milhões de palestinianos sem pátria na sua própria terra milenar ou exilados para que Israel exista? Proibir novos colonatos, abrir a faixa de Gaza, decidir a pertença legítima de Jerusalém?
Vai acabar com o velho, indecente e inútil bloqueio a Cuba e normalizar as relações com a ilha? Encerrar Guantánamo?
Vai deter a invasão no Iraque sem o deixar afundado em guerra civil e admitir o julgamento em tribunal de quem ali praticou atrozes crimes impunes?
Vai ter pulso para desatar o nó que antecessores ataram no Afganistão, onde já muitos vêem outro Vietname? Vai considerar correctas e fiáveis as eleições que favoreceram Karzai?
Vai continuar a querer impor um regime democrático pela força das armas a povos com outras preferências por motivos de formação histórico-cultural?
Vai desapoiar os golpistas que tomaram o poder nas Honduras, depondo o presidente democrático legitimamente eleito (refugiado na embaixada brasileira de Tegucicalpa e apoiado pelo seu povo apesar da repressão)?
Vai ponderar nas críticas ocidentais ao governo do Irão de modo a torná-las absolutamente credíveis, isto é, sem vestígio de petróleo nem sionismo?
Vai deixar em paz o regime dito bolivariano de Chávez, que inferniza embora o líder tenha um óbvio apoio popular e siga o sistema democrático?
Vai deixar à porta da Casa Branca os industriais de armamentos e os seus arautos do Pentágono? Duvidar de alguma outra «invenção conveniente» da CIA? Pôr em sentido os senhores do petróleo e do gás natural?
Vai reduzir para metade, ou para um décimo, ou para dez apenas, as quase mil bases militares que os Estados Unidos têm espalhadas pelo mundo?
Vai cortar nas despesas militares que levam todos os anos, dizem, metade do orçamento nacional e que transforma os EE.UU. na primeira potência militar mundial (logo, por definição, imperialista)?
Vai consentir em colocar o seu país no concerto das nações, em autêntica paridade com alguns outros principais, e trabalhar pela reorganização e redignificação da Organização das Nações Unidas?
Quem pergunta quer saber. E fica para ver...

domingo, 4 de outubro de 2009

Autores literários sofrem

São abundantes, invasivas, as distracções nacionais. Tudo gira e se renova no simples borbulhar de cada dia e tanto que nem sobrou atenção para atender à Conferência internacional sobre comodato que decorreu em Lisboa nos fins de Setembro. Até parece que a Sociedade Portuguesa de Autores, anfitriã da conferência, rodeou de severo secretismo a iniciativa...
Entretanto, eu mesmo chego com grande atraso ao assunto e, todavia, não entrei em submarinos nem dancei entre Belém e São Bento. Mas soube que estiveram representados 26 países na conferência onde foi elaborada «uma visão geral da situação do regime de comodato ou empréstimo nas bibliotecas em cerca de 30 países.»
Nas conclusões, a conferência analisa a transposição para os ordenamentos jurídicos nacionais da directiva europeia de 1992, codificada em 2006, que regulamenta aquele sistema. Ponto essencial, considera «inexplicável o facto de o Governo português continuar a incluir no regime de excepção as bibliotecas públicas», notando que tal «é particularmente decepcionante num país de tão forte tradição literária» como o nosso.
Não é, em verdade, caso único no ambiente europeu. Por isso, a conferência apela aos países relutantes para que estabeleçam sem mais demora o direito de leitura pública (Public Lending Rights ou, em português, Direito de comodato público). A leitura de obras ainda com copyright (i. e., ainda cativa de direitos) em biblioteca pública nada rende ao seu autor embora possa servir a dezenas de leitores.
Neste quadro, faz-se lembrar que o direito de autor começou em Portugal a implantar-se, pela mão de Almeida Garrett, em meados do século XIX. Não mais cessou de se desenvolver até à actualidade, que foi quando enfrentou a pirataria das fotocópias, a banalização do livro lançado às carradas e logo posto em saldo e agora enfrenta a concentração das editoras, a sofreguidão (porventura a pilhagem) dos conteúdos.
Creio que o direito de autor apenas enriqueceu uma minoria ínfima de quantos escreventes se ergueram à categoria de escritores notáveis. Confirmando a regra, apenas uns quantos e raros atingiram tiragens e vendas, e traduções no estrangeiro, em volume suficiente ao menos para viverem do que escreviam. No melhor das hipóteses, ao falecerem, os seus familiares puderam beneficiar do seu trabalho durante uns setenta anos.
Mas hoje a situação complicou-se deveras. O direito de autor sofre ataques múltiplos e mal resiste... e o direito à variedade da criação literária e cultural, encolhendo-se, vai definhando. A esmagadora maioria dos autores literários mal ganha para os cafés que bebe.
Eis porque adiar a transposição do direito de comodato público e resistir à sua aplicação prática é atitude falta de visão e algo mesquinha. A leitura pública continuará grátis para quem a quiser e a retribuição por cada leitura terá um valor meramente simbólico. Somado à nossa escala nacional, esse encargo será menor do que o custo de outra rotunda do nosso circular descontentamento.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Grande Mentira

Um jornal «de referência» informou hoje que um qualquer senador brasileiro achou que o seu país se desprestigiava acolhendo na sua embaixada, nas Honduras, o presidente Zelaya deposto por um golpe militar. O jornal é «de referência» porque, assim dito, foge à eterna questão de se saber que diário temos no país com qualidade suficiente para ser entre todos «o melhor». Mas, modéstia à parte, pretende tornar equivalentes as duas designações.
Porém, no jornal que por cá é «dos melhores» ainda nada vi sobre o que na realidade se passa em Tegucicalpa, onde foi e continua imposto o recolher obrigatório e abolidas as liberdades democráticas constitucionais sob o comando do governo de facto, isto é, da ditadura instalada. O povo que se manifesta na rua a favor do presidente democraticamente eleito sofre violenta repressão. Sangue, ferimentos, detenções, mortes sobretudo em torno da embaixada brasileira onde Zelaya encontrou refúgio depois de ser posto no exílio.
Tão-pouco disse uma letra sobre ataques com gases tóxicos disparados contra multidões de manifestantes. E nem a sombra de uma letra forneceu aos leitores quanto a um dispositivo sofisticado, dito «de ponta», fornecido por Israel, que emite para a multidão algo como radiações intoleráveis, pois provocam perturbações físicas bastante graves. O sangue torna-se invisível antes de cair na rua e os mortos não contam.
Órgãos de informação democráticos, apoiantes do presidente Zelaya, ficam amordaçados. Rádios, jornais, cadeias de televisão são tomados de assalto por tropas entre encapuzados que levam consigo tudo o que entendem. A liberdade de imprensa, nas Honduras, jaz morta e arrefece - mas estes acontecimentos não chegam à nossa informação «de referência» decerto porque a capital daquele país latino-americano ficou isolada do mundo exterior, algures do outro lado da Lua.
Atenção, pois, ao que diz o senador brasileiro. Atenção à Casa Branca. Atenção ao Pentágono. Perdura o unilateralismo, proclamando a Verdade Única, poleiro da Ditadura. E viva a Mentira Geral!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Três ou quatro erres (sem erro)

Há afirmações óptimas: explicam claramente muita coisa mas, decerto por isso mesmo, deixaram de se ouvir e repetir. Uma afirmação óptima é a que aponta a procura de lucro para explicar a origem das crises que afectam periodicamente, com maior ou menor gravidade, o sistema capitalista. Mas, na verdade, não é outro o objectivo principal das forças que intervém no mercado.
A produção de bens orientada para o lucro - e não, desejavelmente, para as reais necessidades da população - determina a acumulação dos bens mais lucrativos no mercado que uma publicidade intensificada até ao frenesim tentará escoar quando os consumidores já desistem por escassez de dinheiro ou de crédito.
É possível distinguir nos traços da crise económico-financeira actual as marcas de tal situação (em resultado do comportamento da especulação financeira gananciosa e fraudulenta), de modo que, se bem pensarmos, estaremos prontos para encarar sem erro três ou quatro erres absolutamente imperiosos e oportunos caso queiramos poupar-nos a mais crises calamitosas como esta. Na verdade, a conjuntura mundial empurra-nos de encontro às seguintes disposições fundamentais:



Reduzir os consumos descartáveis;
Reciclar o mais possível, com regras;
Reutilizar para poupar.
Encolher os ombros, adiar mudanças urgentes, persistir na atitude da indiferença vai apressar o fim. O petróleo tem os seus dias contados e essa alteração socioeconómica determinará uma tremenda alteração global das actuais formas de vida nos planos económicos e sociais. Mas à míngua do petróleo se acrescentará a escassez de água potável, a poluição do ar, da terra e do subsolo, o desemprego, o degelo, as ondas de emigrantes e refugiados... Haverá menos viagens e deslocações, mais carestia, logo a imposição de hábitos frugais, espartanos.
O planeta acumulou problemas ingentes e não tem soluções, apenas paliativos e adiamentos. A crise económico-financeira actual acelerou a exigência de respostas políticas realmente corajosas e eficazes que sem dúvida serão tanto mais difíceis quanto mais se atrasem até rastilharem uma nova guerra. Descarte-se desde já o sonho impossível de um crescimento contínuo dos dados da economia e uma elevação dos níveis gerais de conforto e bem-estar.
A conjuntura convida-nos a rever os nossos queridos modelos de vida e a regressar de alguma maneira a comportamentos mais amigos do ambiente, atentos à renovação dos recursos naturais e aos destinos do lixo produzido. Mudanças dolorosas, sem dúvida, que não serão aceites sem resistência e sem desgosto, pois se impõem e são decisivas. Tardarão certamente a implantar-se no terreno, atrasadas pelos egoísmos loucos e as cegueiras colectivas, mas hão-de contribuir para deixar o mundo mais harmonizado, mais humano e mais pacífico - ou seja, menos brutal e incivilizado. [Imagem: pintura "Extase de lirios", de Octávio Ocampo (México, 1943): fisionomia composta com figuras embebidas. Clique para ampliar.]

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Conversei com ATM

Nunca tal coisa me passaria pela cabeça - e aconteceu! Apresentei-lhe o meu cartão, vi o sorriso de boas-vindas, indiquei o que pretendia. Tudo bem, normalíssimo, até que fui servido.
Peguei nas notas e foi então que estranhei: eram mais seis das tais, todas novinhas em folha! Encheu-me uma vontade louca de barafustar e, no entanto, consegui travar uma conversa aparentemente normal.
Onde param as notas de dez e de vinte que usávamos há dez meses? Eram notas populares, quase tanto como as de cinco. Andavam há anos de mão em mão, eram os nossos euros, tinham as marcas das nossas mãos...
E agora só nos vêm às mãos notas acabadinhas de sair da máquina que as imprimiu para o banco que no-las dá. De dez ou de vinte, das acastanhadas e das esverdeadas, pois das outras, de cinquenta, cem e et caetera, até quinhentos, nem falamos. Não querem nada connosco e nós nada queremos com elas.
Perguntamos: onde param as notas que usávamos, para onde foram elas tão fugidas que andam da nossa vista? Quem as arrebatou à socapa para o seu monte escondido e criou esta necessidade de fabricar à pressa notas e mais notas? Quem manda pôr em movimento as gráficas que noite e dia enchem paletes com rimas espessas destes bilhetes, papéis coloridos já dispensados da referência ao padrão ouro e que prometem valer tanto como o seu próprio peso?
Nós queríamos de volta o nosso velho dinheiro, não este fabricado à pressa para tapar o buraco que assim pretendem entulhar.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Vão os livros acabar?

Os livros no suporte de papel, entenda-se. Deixámos há tempo de ouvir a interrogação algo alarmada ou alarmante, mas estamos agora a tê-la de regresso. Puxamo-la para título vendo as mudanças a precipitar-se: mal estremunhamos e já estamos de partida para outra.
É verdade, acreditei sempre que os livros de papel iriam sobreviver à era da informática, adaptando-se à nova tecnologia, com tanta convicção como hoje me recuso a profetizar o fim dessa «máquina de ensinar» (Marshall McLuhan). Mas anunciam-se transformações notáveis.
Desde logo, a situação actual pede correctivo. O acesso à compra dos livros que nos interessam nas livrarias, quaisquer que sejam, ficou difícil e, por norma, inviável. Nas livrarias e outros postos de venda encontram-se as novidades do dia, da semana ou, com alguma sorte, do mês passado pois não sobra espaço nos escaparates e nas prateleiras para muito mais. E a livralhada, adquirida fora dos saldos, sai-nos cada vez mais cara.
Eis o motivo por que se expandem em ritmo crescente os catálogos online e as vendas de livros em formato digital. É via cómoda, rápida e, além disso, bastante mais barata sobretudo se o adquirente poupar a respectiva impressão em papel. Bem avisado, talvez até já possua um leitor de e-books, aparelho electrónico que requer designação genérica em português.
Trata-se, como sabemos, de uma caixa portátil, com ecrã de plasma, dotado de memória que permite a descarga, através do computador, e posterior eliminação, de uma quantidade enorme de volumes digitalizados. São virtuais, não pesam e não ocupam espaço. Além dos textos, podem ter imagens e mesmo sons (se tal for preciso). Frases, palavras ou páginas podem ser sublinhadas, realçadas a marcador, e o usuário pode folhear a obra, tomar notas à margem, além de aumentar ou diminuir o tamanho das letras, o brilho do ecrã, etc. Encontram-se no mercado vários modelos de marcas diferentes.
Um rápido relance permite avaliar o impacto que estes agora ditos e-books estão destinados a provocar. Previsões seguras e sem risco: vão multiplicar-se as edições de livros em formato digital, já não em papel, para venda online. Vão rarear as livrarias resistentes e subsistir as edições tradicionais apenas de obras «especiais», destinadas a um público apreciador residual. Algumas editoras irão especializar-se no formato electrónico com lançamentos apenas através da Internet.
Quem visiona este próximo futuro compreenderá claramente a corrida que houve para a compra e concentração em poucas mãos das principais casas editoras nacionais. Os compradores corriam para os seus catálogos, os seus fundos editoriais. Esses «conteúdos» prometem fazer andar o negócio seja na Europa seja na América. Os «saberes da humanidade» vão alojar-se numas poucas bibliotecas digitais mundias -- a BDM, a Europeana, a Google Book - e, como diria La Palisse, quem nelas não entrar fica de fora. [Clique na imagem para ampliar.]

sábado, 12 de setembro de 2009

A caça aos «conteúdos»

Aconteceu novamente. Pessoa conhecida abordou-me para perguntar onde poderia adquirir uns livros meus de que tivera notícia. Pergunta cândida tanto quanto simpática. Respondi-lhe francamente: Não sei.
Ando há anos, muitos anos, a advertir e a comentar a deriva que tem vindo a mudar a exposição do Livro e, por aí, a relação dos autores com os editores, os distribuidores e os livreiros. Apontei a alteração que tudo isso provocaria e até já provocava na qualidade geral do panorama literário. Notei a banalização do Livro, que deixava de valer como objecto cultural por excelência para circular como vulgar mercadoria consumível e logo descartável.
Persistia-se, entretanto, neste velho e pequeno país, em publicar a monstruosidade de mais de mil edições novas de livros por mês. Cansei-me a repetir: alguém pode crer que seja possível termos ainda nas livrarias, à disposição do freguês que entra e quer ser atendido, já não a totalidade dessa avalancha mensal de livros, o que seria toleima, mas pelo menos uma parte seleccionada com algum critério? Solução de recurso: encomendar ao livreiro os que interessassem ou pedi-los directamente à editora.
E foi assim, com os editores a fugir para a frente para escapar à tempestade, que se consumou no país a cambalhota: de repente, as principais chancelas mudaram de dono e ficaram em pouquíssimas mãos. O que atrairia tão eficazmente o capital estrangeiro para o campo da edição nacional de aparência tão enfezadinha?
Aberto ficava o caminho para introduzir cá mais e mais traduções em português dos best-sellers de autores antes editados pelos novos proprietários das nossas editoras nas respectivas sedes. E os nossos poucos autores com projecção internacional, ligados àquelas mesmas editoras, ficavam também com via aberta de acesso recíproco. A literatura declarou-se então negócio à escala do marketing continental ou transcontinental... e ficámos perante esta literatura de consumo adaptada ao mercado a invadir todos os lusos recantos ao ponto de colocar na zona do invisível a literatura «literária». (A literatura de consumo ocupa hoje o lugar da literatura popular deixando perceber que não existe mais nenhuma.)
No entanto, estas mudanças careciam de uma compreensão mais aprofundada que só perante alguns desenvolvimentos recentes ficou acessível. A compra e concentração de tantas editoras pelo capital que se verificou na Europa traz à colação o esforço gigantesco desenvolvido pelo projecto da Google da biblioteca digital referido no post anterior. Mas o caso não se queda por aí, vai mais longe.
Enquanto a poderosa Google amontoa milhões de obras digitalizadas no catálogo da sua biblioteca para venda online, os editores europeus preparam-se para a organização de uma plataforma similar deste outro lado do Atlântico. A caça aos «conteúdos» literários está desencadeada (um pouco à semelhança, por exemplo, do que ocorreu com o sistema de localização geográfica, ou GPS).

domingo, 6 de setembro de 2009

Copyright: castanhas no lume

Decerto ninguém se lembra já do burburinho que em tempos percorreu o país. O burburinho depressa se transformou num tremendo alvoroço e pouco faltou para os sinos nacionais tocarem a rebate. Em discussão estava uma iniciativa que faria pagar pela utilização de cada livro em bibliotecas públicas cuja autoria ainda não tivesse caído no chamado domínio público.
Tanto alarme tinha, afinal, uma débil justificação. Primeiro, não seria o leitor da biblioteca que pagaria, mantendo-se, portanto, a gratuitidade de tal leitura; segundo, o valor em foco seria verdadeiramente simbólico, além de que não incidiria em todas as obras, somente nas de autores vivos ou falecidos até uma data-limite; terceiro, o encargo global de todas essas leituras remuneradas, de montante anual previsto assaz modesto, seria suportado pelo Estado.
Verifica-se uma situação similar nas rádios e televisões portuguesas que transmitem canções gravadas e que pagam por isso. E ninguém protesta ou reclama. Nem o exemplo de países da União Europeia e nórdicos, onde já se via o sistema implantado, serenou os fôlegos...
E agora teremos que retomar a discussão, pois vai surgir em cima da mesa. Pelo menos, é o que pode esperar-se da realização em Lisboa, dias 23, 24 e 25 próximos, da 8ª Conferência internacional sobre comodato, que avaliará a situação geral do direito de comodato público e apreciará as experiências recolhidas.
Explica a Sociedade Portuguesa de Autores, anfitriã da Conferência, que «comodato» é a designação técnica do direito patrimonial dos autores que lhes permite receber uma remuneração pela utilização pelo público das suas obras, nos originais ou em cópias, no âmbito do empréstimo gratuito prestado pelas bibliotecas acessíveis ao público.
Vale a pena registar, sobre este assunto, que a directiva europeia que foi transposta para o Decreto-Lei 332/97, de 27 de Novembro, data de 19 de Novembro de 1992. Todavia, como a transposição da directiva nº 83/83/CEE, de Setembro de 1993, foi incorrecta, acontece que há já 17 anos que os autores portugueses estão impossibilitados de qualquer recebimento.
Enfim, estes e outros problemas ligados ao direito de autor, ou copyright, vão ser castanhas a tirar do braseiro. Uma castanha, bem grande, é o designado Google Library Project, projecto da Google para criar uma base de dados com milhões de livros digitalizados. Essa biblioteca electrónica é facto consumado: avançou até 5 de Maio passado, dia em que parou, e agora espera validação, até 7 de Outubro, pelo Tribunal Federal, de uma sentença já formulada em Nova Iorque. O acordo estabelecido entre autores e editores em Outubro de 2008 levará a Google a pagar 60 dólares por cada obra digitalizada.
Note-se, a terminar, que não defendo neste post qualquer interesse egoísta. Não sou, nunca quis ser, autor capaz de atrair multidões (é esse o preço da minha liberdade) e até ofereço cinco livros para leitura ou impressão privada aos amigos que visitam regularmente este cantinho. Bom proveito!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Jornal do dia

As notícias de hoje lembram o início da Segunda Grande Guerra há 70 anos, o acordo de paz assinado pela União Soviética de Estaline com a Alemanha de Hitler e a perda de leitores que os jornais portugueses continuam a registar nestes últimos tempos. Talvez tudo isto seja fio do mesmo novelo.
Uma certa especulação de direita compraz-se em pôr Hitler e Estaline lado a lado. Não prima pela lucidez nem pelo rigor mas, pela força da insistência, parece convencer alguma opinião vulgar ainda marcada pela repressão salazarista. Desse ponto de vista, qualquer governante socialista democraticamente eleito é um ditador com a mesma lógica que transforma em «comunista» qualquer revolucionário e o «comunismo» uma ameaça à nossa paz onde quer que surja.
Eu, quando a guerra terminou, tinha 15 anos e disso (em alívio e festa) me lembro perfeitamente, mas não me perguntem pelo acordo de paz, o menino que era brincava jogando o pião. Ainda assim, graças à biblioteca enorme que tem vindo a ser formada desde então, pode concluir-se com segurança que a guerra iniciada com a invasão da Polónia teve como objectivo último liquidar o regime soviético contando desde sempre com a concordância tácita dos países europeus.
Nesta situação, o acordo tão criticado serviu para dar à União Soviética tempo suficiente para se armar e preparar para a guerra. De facto, foi o povo deste país que, morrendo no mais elevado número, com heróicos sacrifícios, derrotou os exércitos invasores e livrou o mundo do nazismo. Quem cobre de críticas e impropérios o acordo revela, ao mesmo tempo, que gostaria de ver o nazismo vitorioso instaurado no país dos sovietes... e no mundo.
Seria óptimo que factos desta relevância fossem equacionados pelos jornais. Em sintonia cerrada com o que se diz em Washington, celebram como amigas as «caras lindas» e diaboliza as caras restantes por mais democráticas ou dignas que na realidade sejam. A manipulação da informação cresceu até ao ponto de manter em circulação apenas mentiras e meias verdades entre pura e descarada propaganda.
A melhor informação que podemos obter, agora, é a que consegue fugir da informação deformadora. Por algum motivo os jornais estão a desacreditar-se perante os seus leitores habituais. Nem os gratuitos se salvam de baixar as tiragens. Não querer saber nada dos acontecimentos para além do nosso bairro, para manter o intelecto limpo, talvez seja uma resposta!

domingo, 30 de agosto de 2009

«Arre, porra, que é demais!»

Um amigo dos velhos, que são dos melhores, mandou-me para a caixa de correio um e-mail com os versos assim intitulados. A autora, identificada, foi sua antiga condiscípula e continua a ser dele uma amiga. Li o texto e também achei graça. Apreciem-nos como eu, saudando MLM, autora de poemas já publicados em dois volumes.


Portugal tem grandes vidas
Carros de luxo e mansões
Ensina a viver de dívidas
E a jogar no euromilhões

Ai este povo enganado
Vai andar sempre de banda
É agora e no passado
Quando a banca era a Holanda

Para a corte e outros mais
Terem palácios e nome
Este povo de mortais
Como dantes, passa fome

Ensinar às nossas gentes
Que o bom é viver à larga
E à custa de expedientes
É a herança mais amarga

Trabalho qualificado?
Sim senhor, seja o que for
Mas aqui no endividado
Corre tudo a ser dótor

Educação? E o exemplo?
Valores? Quem pode exigir?
Quando melhor neste tempo
É ter dívidas, mentir?!...

Portugal tem grandes vidas
E até dá boas esmolas
E cada um que se vire
Nos hospitais, nas escolas

Nos campos, no mar, a gente
Os portugueses mortais
Gritam como antigamente:
Arre, porra, que é demais!...

MLM/2009

Mundo de contrastes


Um estudo recente de Emmanuel Saez, da Universidade de Califórnia, indica que, em 2007, apenas 0,01% dos mais ricos do mundo têm 1.080 vezes mais de rendimento médio do que 90% da base social (os mais pobres).
No ano seguinte, 2008, esta desproporção, já tão dramática, agravou-se sem dúvida ainda mais.
Por aí se contempla, em visão panorâmica, o crescimento dos contrastes violentos que estão a invadir e a marcar a fogo o nosso tempo, onde há gente sem abrigo a dormir nas ruas, a morar em casebres e casas assim assim, ao lado de mansões e prédios em condomínios fechados com piscinas postas nem que seja em varandas de engenho arquitectónico.
Mas sabe-se perfeitamente que tamanha acumulação da riqueza exprime uma proporcional violência, banalizada pela expansão da desvalorização da condição humana e pelo alastrar contínuo da miséria e do desemprego. A manipulação das consciências, outra forma de opressão, fomenta as marginalidades cívicas, culturais, sociais - a alienação.
Este mundo em crise estrutural parece maduro para o desencadear de outra guerra, que mais uma vez será «a última» se Deus quiser. Mas cuidem-se os senhores do mundo. Talvez venha a ser inesperadamente perigoso o disparo do conflito político-social na presente conjuntura. Talvez as massas então se mobilizem espontaneamente, numa revolta cega, incontível, para, em crescentes avalanchas, avançarem contra tudo o que vejam como «alheio» e tudo destruam e arrasem sem uma ideia, um programa de acção, um líder e, ainda menos, um partido, apenas pelo gosto de destruir algo que, como quem enfim pode «desabafar», sintam quantos nada têm. Será então das massas anárquicas em revolta o mundo dos senhores.
Eis a reflexão atinente ao fim deste Agosto que decorreu sem os sóis que deixam as areias a escaldar e as águas tépidas. Se são infaustas as novas trazidas pelo mensageiro, ordenem ao carrasco que o decapite, ele habituou-se a morrer por cada má notícia que anuncia.

domingo, 26 de julho de 2009

Em Agosto, férias

Não é sorte do cronista, é imposição da canícula: estamos a poucas folhas do mês de Agosto, vamos então respirar as frescas brisas de umas férias. O cronista reivindica uma deserção anual deste espaço (que de resto não troca por maresia da praia, ar seco da montanha ou verduras de turismo rural). Mas podem acreditar no seu regresso.
Estamos, pois, no período em que o movimento nas cidades se acalma ao ponto de as tornar sonolentas, o que quer dizer habitáveis. Os locais comerciais aparecem fechados «para férias» e os cães ficam abandonados pelos seus donos. Uns tantos pais perguntam-se onde poderiam deixar entregues os filhos para poderem ir descansados...
Será bom lembrar, nestes dias quentes, uns vídeos que têm andado a circular na Net, alguns dos quais produzidos pela National Geographic? Mostram comportamentos de animais ditos irracionais mas tão «humanos» que se tornam admiráveis como lições vivas de verdadeira humanidade.
É, por exemplo, o caso visto de uma chita esfomeada que caça uma macaca para se alimentar e, no momento em que vai devorá-la, a fêmea, grávida, dá à luz; outras feras acodem a disputar a presa, a chita aboca a cria e foge para um ramo alto, salvando-a (mas continuando esfomeada), limpa-lhe o pêlo, cuida dela e protege-a.
Vários vídeos exibiram uma porca a adoptar uma cria como se fosse sua embora viesse de espécie diferente e que estaria condenada a sucumbir ao abandono; e outros casos do mesmo género repetiam-se proporcionando surpresas sucessivas.
Cenas tais dão vontade de pedir a certos progenitores, que até desejam que as escolinhas funcionem todo o ano sem interrupções, para que aprendam a comportar-se em casa como as feras irracionais na selva, dizendo-lhes:
- Paizinhos, sejam como animais para os vossos filhos!

domingo, 19 de julho de 2009

Avança a desestabilização

O que podemos considerar hoje em posição protegida pelo direito público mais respeitável? Aparentemente, quase nada; de qualquer maneira, cada vez menos. A desestabilização geral avança. A convulsão envolve imensos espaços e põe tudo a tremer.
Tome-se o caso espantoso das Honduras, onde o presidente democraticamente eleito foi posto no exílio por um golpe de Estado militar. Quer regressar pela legalidade, o povo aclama-o, enfrenta a repressão, e...?! Obama apela ao «diálogo», a negociação com os golpistas já traduz uma cedência crucial e uns quantos indagam quantos governos haverá em Washington.
Porém, o mais espantoso está na versão dos acontecimentos nas Honduras que tem corrido nos media portugueses. A falta de isenção que deveria ser apanágio da informação fica demonstrada ao acatar a propaganda dos golpistas que deturpa os factos. Alega que o presidente se preparava para, através de referendo, se perpetuar no poder, escondendo todavia que o referendo era perfeitamente democrático e que o mandato presidencial até estava no fim.
Uma sondagem de opinião documentaria a manipulação operada entre nós pelas notícias relativas ao caso. O público sintoniza o discurso da treta dos golpistas porque é esse o preponderante na informação. E não está apenas mal informado, está enganado.
A inspiração e a própria índole política do movimento golpista saltam aos olhos. São, descaradamente, de direita radical, isto é, antidemocrática. E os órgãos informativos portugueses, sem qualquer interesse objectivo no caso, dão-lhe franco apoio.
Como acreditar na soberania do povo, no sistema democrático, no regime da legalidade? Como esquecer que esta imprensa está concentrada em «boas mãos»? Como não repetir que meia verdade é mentira sobretudo quando se gera a mercantilização das notícias? [Por favor, unamo-nos, para que os senhores do mundo não nos tirem a Net, derradeiro canto de liberdade!]
A democracia é, não há dúvida, um sistema que pode admitir diversos aprofundamentos sem se negar. Mas não pode ter geometria variável: fechado aqui, alargado acolá, como funil em posições alternantes, de modo a servir causas espúreas. Até Salazar pretendia que o seu regime era uma democracia «orgânica».
Por este caminho tortuoso avança e avassala o mundo uma geral desestabilização, uma geral insegurança. Houve outros casos (Obama, a propósito da sua «abertura» com o Irão, lembrou o democrático Mossadegh derrubado em 1953 por ter nacionalizado o petróleo iraniano), e casos como o Governo republicano espanhol derrubado com guerra civil por Franco, golpe sangrento em El Salvador após vitória eleitoral comunista, Salvador Allende derrubado por Pinochet no Chile, etc., etc. E nem lembro os desmandos praticados em África aquando da descolonização...
Quem vai poder confiar nas afirmações que correm em público? Enfim, aumenta a distância entre cidadãos e políticos... até o dia em que aqueles baterão à porta destes a pedir-lhes contas.

domingo, 12 de julho de 2009

A idolatria das massas

A dimensão do espaço mediático expande-se incomensuravelmente. Parece que não tarda a abranger o mundo inteiro e a cantar vitória definitiva. Será então o momento de vermos em cena o Espectáculo Único transmitido em directo para o palco mundial.
Dois casos recentes o demonstram e anunciam: a apresentação de Ronaldo em Madrid e a morte e funeral de Michael Jackson. Canais de televisão, rádios e jornais competiram freneticamente para manter as massas, dias e dias, de olhos em alvo. Cheios até à cegueira total.
No primeiro caso, exibia-se o jogador de futebol como um troféu conquistado porque o clube paga por ele a brutalidade de uns 95 milhões. E o rapaz lá foi recebido no estádio com aplausos de 85 mil espectadores - que bem já o conheciam e que, felicíssimos, se deslumbraram vendo-o dar uns breves toques na bola - ao mesmo tempo que milhões de outros telespectadores de uma longa série de canais de tv e rádio transmitiam a cena na hora.
O segundo tomou a morte e a vida do cantor pop como os animais necrófagos devoram na selva as carnes putrefactas. Não vão largar o pitéu enquanto multidões inteiras não vomitarem de nojo e repulsa. As tristezas e misérias da vida do cantor, tal como algum misteriozinho notado na sua morte, até serviram para que o seu funeral fosse outro espectáculo gigantesco transmitido em directo.
Estes dois casos ocuparam imenso espaço mediático durante dias, num ensaio geral do que promete implantar-se e ser o Espectáculo Único. As massas estão a ficar prontas e maduras. Os senhores do mundo têm vindo a trabalhar para isso, a massificação (que, lembre-se, resulta numa tirania), avança.
As massas, porém, precisam de ídolos. Os ídolos, por sua vez, precisam de adoradores, adoração. O que foi possível ver no estádio que vitoriou Ronaldo foi, por um lado, os milhões que ele recebia pelo seu jogo de pernas, e por outro, a promessa sonhada de que outra pessoa, por exemplo tu ou eu, podem tornar-se milionárias, com um pouco de sorte, neste mundo que é um estádio onde se jogam os golos do futebol da vida.
Um ídolo é elevado à altura de um deus, categoria que um certo jornal dito de referência atribuiu a uns tantos numa página onde coube uma farturinha de «deuses». A um ídolo pop, que vendeu milhões de discos e faleceu deixando o mísero corpo crivado por incontáveis agulhas, também não falta magia trespassada pelo drama. No fim de contas, em última análise, as massas adoram estes ídolos como bezerros de ouro.
Diz-se por vezes que é ínfima a distância que vai de um ídolo a um deus e que as massas criam os deuses e os monstros de que necessitam para justificarem as suas esperanças, medos e terrores. Ora os problemas deste nosso tempo não pernitem grandes esperanças. Uma nuvem densa de medos e terrores avança sobre as massas cativas e subjugadas, que se resignam a consumir o que lhes levam à boca e metem pelos olhos - mais e mais do mesmo, cada vez mais do mesmo, a indigesta palha com sabores e cheiros de antigamente.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Não sou feliz com barbeiros

Queixam-se de que são uma classe profissional em vias de extinção e, de facto, são cada vez mais raras as barbearias. Não será isso apenas para nos obrigarem a estender a procura e a caminhar? Há motivos de sobra para dizer que não sou feliz com os barbeiros.
Podem fugir-nos de ao pé da porta para algures, longe, e rarearem como cervejas frias no deserto que nem por isso baixam o preçário. Fazem-nos esperar nos assentos da resignação uma hora, despacham-nos em sete minutos e pagam-se por este tempo à razão de um euro por minuto. No fim, de escova na mão, com toques simbólicos na indumentária, avezam mais um de gorjeta.
Um euro por minuto equivale a sessenta por hora. Nada mau para um fígaro, pois o aproxima em ganhos de especialistas, catedráticos e sumidades diversas. Tesourar uns pêlos reveste-se assim de uma auréola especial própria do oficiante que nos recebe, iniciado em arte cheia de mistérios.
Desde que, pela mão do meu pai, comecei a ir ao barbeiro e pela primeira vez me sentei na cadeira propiciatória, encolhi-me sob o manto que me envolveu como veste talar. Tinha a cara no espelho grande e, vendo-me, não me reconheci. Ouvia o tric-tric da tesoura, as suas batidas no pente junto das orelhas entre as conversas dos homens que prosseguiam apenas para disfarçar a solenidade do acto da criança inicianda.
Levo longos anos encolhido sob o manto, a celebrar o ritual sacrifício. Encaneceram-me os cabelos, luziu-me a calvície, alastrou a dita em coroa como incêndio na floresta. Restam-me umas dúzias de pêlos bem contados e nem assim me vejo livre das barbearias.
Diz o povo que os barbeiros têm pacto com o demo: sabem fazer-se indispensáveis nem que seja pela simples mancheia de penugem que nos reste. E têm artes de, em unânime consenso, quererem cortar-nos os cabelos dos cantos, nas têmporas, ainda que digamos que os queremos tal como estão. Trata-se, sem dúvida, de uma expropriação abusiva de um bem pessoal levado pela lâmina, o que levanta uma suspeita: o que ganharão os fígaros com isso?
Admirável é o consenso estabelecido pela classe quanto a desbastar a eito uns milímetros nos cantos. Falam pouco ou nada uns com os outros, devem dispor de técnicas de entendimento tácito que encontram paralelo apenas nuns tiques novos de expressão vocabular que de repente toda a gente partilha: falam de «mídia» em vez de media, «sendo que» em vez de porquanto, e sempre à última «da» hora...
Se há quem pense ainda que é difícil, hoje em dia, pôr um povo a falar pelos canais mediáticos a uma só voz, ponha o sentido neste milagre. Mas não sou feliz com barbeiros porque conversam com o freguês e, quando o diálogo fica interessante, perde-se em evasivas. Um deles abriu-se um dia e falou-me das cabeças tortas que com arte endireitava. Nunca mais consegui retomar tão fascinante conversa e nunca mais encontrei outro disposto a falar das cabeças tortas que lhe iam às mãos... [Ilustração: extraída de PowerPoint; sem indicação de autor.]

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Um mar de mentiras

O jornal que me suja os dedos e não sei que mais anunciou há dias que esta crise liquidou 700 milionários no nosso país. Ninguém chorou, que se saiba, com pena deles pois aquelas centenas de milionários não deixaram de o ser por terem distribuído pelos pobres o que possuíam. As suas fortunas, simplesmente, tinham-se sumido sem proveito para alguém com verdadeira necessidade.
Eram vítimas do jogo que jogavam, o mesmo jogo que os terá enriquecido, mas o jornal omitia este lado da questão nem referia que os milionários continuavam decerto longe da condição de pobres e, quem sabe, prontinhos para emendar o destino. Com efeito, os jornais , e em geral os media generosos, habituaram-se a dar dos factos meia verdade. Ora, como se sabe, meia verdade é uma grande mentira.
A informação transformou-se numa indústria de «conteúdos» não menos alienantes do que a circulação de produtos da cultura pimba. A relação entre a realidade dos factos principais que a todos nos importam e as notícias diárias enfraqueceu-se até quase desaparecer como coisa de somenos, incómoda ou negligenciável. Passámos a vogar na ondeação de um mar de mentiras.
A deriva começou sob a desculpa de que a informação, devidamente contextualizada, ocupava muito espaço. Tornava-se maçadora para quem a pretendia breve, rápida, sintética, ágil, isto é, para quem queria aceder aos factos e só aos factos do dia. Acabámos imersos numa literatura sobre a realidade feita por discursos diversos proliferantes mas homogeneizados e afins sobre os factos da realidade.
A informação vital sobre as questões determinantes foi-se distanciando e ficando sonegada em níveis cada vez mais elevados. Mesmo nas administrações (da governação, das instituições públicas, das empresas), vai-se reduzindo o número de indivíduos com conhecimento cabal do conjunto de segredos que de algum modo os implicam. Têm portanto um conhecimento parcial e não global, ou actualizado, do que lhes toca.
O dramatismo incrível a que chegámos nesta situação sente-se e pode medir-se quando simples conversas, nos contactos interpessoais quotidianos, nos deixam estarrecidos ao revelarem a desinformação instalada em gente informada. Ouçamos, por exemplo, a lojista mãe de aluno no ensino básico a falar da luta dos professores por um outro estatuto da carreira. Ou, noutro caso, trate-se do rendimento mínimo, da percentagem dos desempregados, das fraudes e das ganâncias dos banqueiros, dos efeitos reais do programa agrícola comum, da dívida da Estado... Misturemo-nos com intelectuais e ouçamo-los opinar sobre os direitos dos palestinianos ocupados e combatidos por Israel, o 11 de Setembro, a invasão do Iraque, a posição do Irão ou da Coreia do Norte perante os Estados Unidos e o Conselho de Segurança...
Abra então a boca quem dispõe de informação bebida em fontes alternativas. Será olhado com estranheza, como um extraterrestre. A língua que fala será estrangeira, suspeitosa, incompreensível. Um mundo de mentiras alagou os espaços públicos e vai formatando sem cessar as consciências, embalando-as num sonho irreal. Quando as massas acordarem, um dia, voará tudo no fragor de um imparável explosão. [Ilustração: de Edgar Mueller, artista alemão que pinta ilusões de óptica no piso das ruas.]

quinta-feira, 18 de junho de 2009

De olhos nos olhos

Estou a vê-la lá fora, na esplanada do café, numa cadeira que a coloca à`frente do vidro. Parece que os nossos olhares se cruzam, ficamos por momentos de olhos nos olhos, mas eu estou na sombra do interior, sei que sou invisível e que ela, rapariga de radiosa juventude, apenas se contempla espelhada no vidro. Conversa com outra jovem, sentada diante dela, decerto um pouco mais idosa pois já é mãe. Tem ao seu lado um carrinho de bebé para o qual se inclina enquanto conversa.
Tenho tempo de sobra não apenas para degustar a bebida, também para me perder em divagações, contemplações, minúcias várias. A rapariga acende agora um cigarro, talvez mais um (não sei, estou a chegar), é fumadora, motivo por que se sentou lá fora com a amiga. Imagino que está a pedir confidências à recém-casada, quer saber como é uma vida conjugal, ter sexo regular, ser mãe, lida doméstica.
A luz filtrada pelo toldo põe a resplandecer a pele doirada da rapariga que um decote generoso mas não exagerado descobre até às espáduas, onde poisa o feixe de cabelos compridos, enrolados na nuca, que lhe cai até o sovaco. Tem óculos de sol encarrapitados no coruto da cabeça. Perguntem-me e eu direi que conversam em voz baixa, ainda que o ruído do trânsito possa envolver numa amálgama o som das frases.
A rapariga pega no telemóvel e fotografa o bebé deitado no carrinho. Continuam a falar, são sem dúvida amigas íntimas, uma casou-se e hoje, por fim, encontrou-se com a amiga solteira para renovar a amizade. Naturalmente, esta sente uma ponta de inveja da outra, já casada e mãe, enquanto ela própria...
Terá, ao menos, namorado? Saberá de quantas outras moças da sua idade não conseguem encontrar quem? Idealiza o seu casamento com todos os pormenores e requintes para preencher o vazio emocional que vai crescendo?
Uma jovem de vinte anos, assim bonita, olha para o mundo entendendo-o como se tivesse sido criado para ela e que, sendo assim, apenas precisa de o abraçar para o fazer seu. Custa-lhe a acreditar que este mundo não está à sua espera nem está preparado para a receber e que tão-pouco sente a pressa de viver que a galvaniza, a pressão aguda de todas as suas expectativas a adiar-se no tempo.
Deve pensar que é «única», um caso especial autêntico, tão especial que acharia espantoso que um desconhecido idoso como eu, a observá-la desta minha concha de sombra, estivesse a percebê-la nestes termos. Se as minhas percepções forem ajustadas e certeiras, conforme creio, ela duvidará da minha compreensão e perguntará quem me informou do que sei. Mas eu poderia explicar-lhe coisas simples embora inacreditáveis.
Os pais da rapariga, e os pais dos pais, e os amigos da família, todos terão querido um mundo diferente deste para dar a esta filha. Mesmo eu, um desconhecido que com ela de vez em quando fica de olhos nos olhos, queria para ela melhor sorte. Não a tem e todavia ninguém se sente culpado. O tempo que lhe cabe viver é por infelicidade o da imensa abolição dos sentimentos, da fragilidade das relações interpessoais, da geral desumanização. A beleza plena da juventude, a força maravilhosa dos seus sonhos, tudo cabe no triturador que tudo esmaga e deixa numa boçal banalidade. [Ilustração: pintura de alunos da escola EB 2-3 Dr. Carlos Pinto Ferreira, Junqueira, Vila do Conde.]

terça-feira, 9 de junho de 2009

Vendo na gota o oceano

Caminho por esta avenida desde há uns cinquenta anos. Encontrava-a então com a louçania da novidade. Era poiso da burguesia abastada, invisível para além dos muros das suas amplas e ostentosas mansões. Todas exibiam estes espaços ajardinados com entradas de garagem.
Era agradável caminhar por aqui, pelos passeios orlados de arvoredo. Jovens criadas devidamente fardadas passeavam bebés nos carrinhos das senhoras. Não eram largos apenas os passeios, também a avenida se estendia de lado a lado no sossego de coisa adormecida a crescer ao sol.
Evoco estas imagens confrontando o antes com o agora. Antigamente, o trânsito era escasso e corria nos dois sentidos. Agora segue em sentido único e a fila abunda de ligeiros e pesados. E já não aparecem carrinhos de bebés.
Os moradores antigos saíam de manhã para as suas empresas, localizadas nos arrabaldes; hoje moram nos arrabaldes e vêm trabalhar na cidade.
Em cinquenta anos, os bebés cresceram, já não moram aqui. A avenida que foi poiso da burguesia abastada (a brilhar com nome do país tido como pátria da cultura europeia desde a sua Grande Revolução) tem as moradias ocupadas não com famílias e sim com negócios. As fábricas e fabriquetas de antigamente fecharam onde estavam, os donos descartaram-se de empregados e converteram-se ao novo paradigma.
Estas moradias, aparatosas mansões, albergam agora empresas diversas, de pouquíssimo pessoal. Aparentemente, nenhuma esbarrou com dificuldades burocráticas quando quis deixar de ser habitação para ter outra serventia. Ou, se teve dificuldades, soube resolvê-las.
Umas poucas estão a ficar decrépitas, desabitadas e ao abandono. Contrastam no ambiente da avenida, mas os negócios em geral não estão agora propriamente risonhos e em expansão. Pelo menos para os que ficaram, como «vencidos da vida», sem esperteza para trabalhar com importações, transportes marítimos, seguros, sociedades financeiras e etc...
Numa esquina próxima, uma destas moradias serviu para acolher um novo banco quando foi criado, há anos. Provavelmente, o seu dono passou a ser um dos novos banqueiros. As três letras do acrónimo desse banco andam por sinal, há meses, nas bocas do mundo.
Uma avenida não é uma cidade e uma cidade não é um país. Estamos entendidos. Mas acaso não poderemos ver, numa simples gota de água, o oceano?
Vejamos. A luz do sol concentra-se na gota até a fazer brilhar como um diamante. Se a encontramos a repousar em cima de uma folha verde, mostra-nos as nervuras dessa folha. Ajuda-nos, portanto, a ver com mais luz essa imagem ampliada.

domingo, 31 de maio de 2009

Como ler um dicionário


São de vário género os dicionários existentes. Quase todos, porém, partilham a característica distintiva: contêm informação útil. Servem para consultas, tirar-dúvidas ou tirar-teimas. Mas um dicionário, pelo menos, pede propriamente uma leitura. Não aspira a ser consultado apenas pelas entradas que contém, quer também suscitar uma apreciação de outro nível.
É o caso do dicionário que publiquei em 2001 para recensear os escritores, artistas, músicos, poetas e animadores de teatro popular nascidos ou ligados de algum modo à Bairrada. Embora servindo para o que todo o dicionário serve, pede uma abordagem diferente. Será esta uma opinião suspeita? Passo a explicar.
Pela primeira vez, ao que parece, aquela obra tentou coligir todos os autores (então já falecidos) que constituíram e de algum modo compuseram o mosaico da «paisagem cultural» de uma região caracterizada. E eis o que fica então à vista: as circulações e práticas culturais, nas suas variadas corporizações vivas ali ocorridas ao longo do tempo. O meu dicionário oferece uma visão panorâmica da imagem do que tem sido «cultura» na Bairrada até aos nossos dias.
Surpreende decerto que a obra recenseie uns 170 autores tendo em conta a relativa pequenez e o ambiente rústico tradicional do espaço em foco. Mas a Bairrada, planície baixa bastante fértil situada entre Aveiro e Coimbra, quase bate à porta da lusa-Atenas, o que poderá explicar alguma coisa. Além disso, como é natural, sempre houve bairradinos cultos que se enraizaram na região enquanto outros se dispersaram. A obra referencia mesmo autores de origem externa que, por relações pessoais de amizade ou outras, marcaram presença na terra do vinho e do leitão, colaborando nos seus jornais ou deixando intervenção memorável.
É notório, de facto, o relevo que a região atinge graças a obras devidas a vultos como António Feliciano de Castilho (autor do romance Mil e um Mistérios) cuja juventude ficou tão ligada à terra natal de seu pai, ou como António Augusto de Aguiar, Fialho de Almeida, Machado de Castro, António Lima Fragoso, Manuel Rodrigues Lapa, Alexandre da Conceição, António de Cértima, Tomás da Fonseca (revelou o Poeta-Cavador, escreveu o romance Filha de Labão), Samuel Maia, Emídio Navarro, Visconde de Seabra, Fausto Sampaio, Luís de Albuquerque, Arlindo Vicente, e tantos, tantos mais. Compuseram música e poesia, pintaram, escreveram ficções, estudos… Alguns destes autores principais dispõem de informação acessível, mas o Dicionário de Autores da Bairrada referencia imensos outros que andam omissos ainda que tenham avultado no seu tempo. E será o único a registar as ligações de todos à Bairrada.
Com este «modelo», decerto algo inovador, o dicionário dá a ver a realidade de um movimento cultural no terreno, percebendo quanto sai do espaço regional para o espaço nacional, e vice-versa. Admirará que uma segunda edição digital, corrigida e aumentada, esteja em oferta para descarga neste blogue porque a reedição impressa ficou inédita? Era resultado previsível atendendo à rareza do conceito «região» entre nós, em divergência, por exemplo, com Franceses ou Espanhóis.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Abriu biblioteca na freguesia

Fui à inauguração. A freguesia onde resido, que é a mais populosa da cidade do Porto e certamente de todo o país, tem desde ontem biblioteca pública. Abriu na antiga Casa de Cultura da autarquia, que passou agora a ser a Casa dos Livros.
Foi lembrado na ocasião que o projecto surgiu em face de uns quatro mil livros armazenados há anos. Parece que se perdeu a memória de quem, e como, e quando, e porquê ali os tinha feito chegar. E mais: entre esses livros encontravam-se primeiras edições valiosas e obras estimáveis deterioradas...
Tudo isto enreda em reflexões várias quem vive desde sempre não dos livros mas com os livros. Na véspera, dia da abertura da tradicional Feira do Livro, a maior de sempre (de regresso, após 34 anos, à Avenida dos Aliados varrida dos seus canteiros ajardinados), encontrei à venda, em bancas bem sortidas, a três ou cinco euros, edições recentes e de boas editoras.
Na cerimónia da inauguração foi evocada a frase de Monteiro Lobato, que um país se constrói com homens e com livros. Nos convites veio citado o padre António Vieira: «O livro é um mundo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.» E estoutra, de Emerson: «Que imenso tesouro pode estar oculto em uma biblioteca pequena e seleccionada! A companhia dos mais sábios e dignos indivíduos de todos os países, através de milhares de anos, pode tornar o resultado de seus estudos e de sua sabedoria acessíveis a todos nós.»
Na verdade, o livro banalizou-se, a leitura não. Quer dizer, nem tanto. Repetir nestes dias a queixa de que os bons livros são caros já colhe pouco. Sim, de facto, as novidades editoriais costumam aparecer a preços altos, de quinze, trinta ou mais euros. Abundam, porém, os saldos, as feiras das sobras que os editores querem deitar fora a qualquer preço.
Encontro há semanas uma vasta tenda erguida junto da Reitoria, no Carmo, atulhada de livros em saldo. Lá adquiri os Contos de J. L. Borges, o Bom ami de Guy de Maupassant, o Rudolfo de Olga Gonçalves, entre outros. Nem digo quanto paguei, acho que me aproveitei de tanta barateza... recordando o dito de Borges: «Sempre imaginei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca».
Aos quatro mil títulos da Casa dos Livros de Paranhos se juntarão mais seis mil que por lá já se amontoam à espera de catalogação, perfazendo o total dos dez mil que a nova biblioteca passará em breve a ter nas estantes. A autarquia solicitou ofertas à população da freguesia e as ofertas choveram. Eu levei lá um saco cheio.
Dez mil livros. Só esperam por leitores que os façam sair do sono e ganhar voz. Leitores que não tenham moedas para compras nas feiras dos saldos mas que tenham inclinação de sobra para a leitura na biblioteca pública da vizinhança. Leitores em condições de poderem apreciar cada obra, folheando-a do princípio ao fim não como quem mata o tempo e sim como quem o aproveita inteligentemente.
Onde estão eles?

sábado, 23 de maio de 2009

Carta para Linda Ln

Caro amigo: Da tua ida ao Uruguai, há uns meses, em sentimental busca de parentela, trouxeste-me uma especial lembrança: um livrinho de poemas, edição de bolso. O autor não tinha nome neste lado do oceano, era um desconhecido: Mario Benedetti.
Li a obra e senti-me um tanto perplexo. O poeta, apresentado pela editora como autor de uns oitenta títulos de todos os géneros e um dos escritores latino-americanos mais lidos, cultivava uma expressão de simplicidade desarmante. Fiquei em amadurecer a primeira leitura, pois algo me prevenia contra a pressa.
Porém, a releitura tardou no corropio de constantes solicitações e, por isso, nem cheguei a agradecer-te a lembrança (queria enviar-ta com as minhas impressões). Penitencio-me agora da omissão, percebendo, porque te conheço, que indagaste em Montevideu que notabilidade literária máxima havia ali, no espaço nacional, para ma trazeres em oferta e revelação.
Revelação foi, sem dúvida. Tardia. Sei agora que Mario Benedetti é um verdadeiro desconhecido em Portugal, apesar de uma editora lisboeta lhe ter publicado dois romances renomados que todavia quase ninguém leu. E sei-o agora porque Mario Benedetti acaba de morrer e aparece referido na imprensa.
Em sua homenagem e agradecimento a ti devido, traduzo a seguir dois poemas do livrinho tentando penetrar o mais possível no alento que ali respira escondido.


DEPOIS

O céu sem dúvida não será este de agora
quando me aposentar o céu
vai durar todo o dia
todo o dia cairá
como chuva de sol sobre a minha calva.

Eu estarei um pouco surdo para escutar as árvores
mas de todos os modos saberei que existem
talvez um pouco velho para andar na areia
mas o mar ainda me deixará melancólico
estarei sem memória e sem dinheiro
com o tempo nos meus braços como um recém-nascido
e chorará comigo e chorarei com ele
estarei sozinho como uma ostra
mas poderei falar dos meus fiéis amigos
que como sempre relatarão da Europa
seus cada vez mais tímidos contrabandos e galardões.

Claro estarei na orla do mundo contemplando
desfiles de crianças e pensionistas
aviões
eclipses
e regatas
e porei o chapéu para mirar a lua
ninguém me pedirá relatórios nem balanços nem cifras
e só terei horário para morrer
mas sem dúvida o céu não será este de agora
esse céu de quando me aposentar
terá vindo demasiado tarde.


EDITORIAL

A nação é uma maçã
uma vermelha e convidativa maçã
e não sabemos quem a morderá

a nação é uma corneta
uma rouca gasta corneta
e não sabemos quem a tocará

a nação é uma lagosta
uma atlética horrível lagosta
e não sabemos quem a matará

ah nós estamos pela Reforma
ou seja afogamos as cornetas na sua tinta
e comemos as maçãs com a sua casca
e convidamos as lagostas para o chá dos domingos

claro que estamos pela Reforma
ou - por outras palavras - contra a Reforma
e já que o prestigioso colega nos recorda
que onze por cento dos nossos lactantes
são comunistas e úteis cretinos
o nosso próximo slogan terá que ser
dar-lhes-emos biberões com arsénico

assim estaremos moralmente preparados
para regar com método e talvez com piedade
a terra dos homens de boa vontade.

Mario Benedetti, Poemas de la oficina / Poemas del hoyporhoy (1956-1961), Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 2000, pp 24 e 44, respectivamente.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A ideologia do mercado


Aponto o dedo desde há anos para a nefasta expansão da ideologia do mercado. Assim designo uma feição ideológica procriada pelo neoliberalismo agora mergulhado em profunda crise. Mas poucas têm sido, em geral, as chamadas de atenção para o fenómeno. Porém, há dias veio da América o Nobel de Economia de 2001 palestrar a Lisboa, falou sem papas na língua e, felizmente, tem opinião sonora.
O senhor não poderia ser mais claro. Segundo li, explicou as fraudes, as ganâncias e toda a hecatombe económico-financeira do capitalismo globalizado responsabilizando os donativos, cada vez mais vultosos e chorudos, que magnatas foram dando aos políticos (ali, aqui, acolá) para que aprovassem regulamentações «favoráveis» e afrouxassem as supervisões legais. Ousou mesmo observar (suprema heresia) que esta crise global resultou de uma luta de classes desencadeada pelo topo da pirâmide social para extrair da base os tostões.
Assim fica atestado na vinha (o mundo) o escalracho (a corrupção). E também contada fica a história do neoliberalismo e entendida a origem da ideologia do mercado, visível, aliás, desde que começaram a valer como prova distintiva e qualificadora os mais altos consumos do mercado. Por exemplo, o livro que estivesse a ser comprado por milhares de pessoas tinha que ser bom, isto é, digno de sucesso.
O livro, ou qualquer outro produto de consumo, serviria portanto para as necessidades práticas e espirituais de qualquer povo em qualquer país! Promovia-se a formatação das populações
- silenciosa mas violenta e opressiva - no molde único que convinha ao mercado. As produções em massa eram prestigiosas porque, alegadamente, pertenciam a marcas «eleitas» pelo mercado (comandado pelo marketing).
Os teólogos da ideologia do mercado chegaram a pô-lo no altar como a expressão acabada da democracia, teimando sempre, às cegas, que o mercado podia e sabia auto-regular-se. Hoje sabemos que gera concentrações, massificações e desumanização. A variedade do mundo, a capacidade natural para a renovação da vida, a liberdade criadora iam ficando esmagadas pelo cilindro compressor posto a rolar.
Recordo um caso. Folheei certo dia uma pretensa história da literatura infanto-juvenil em Portugal. O seu autor, em prova académica, focava autores e obras ao longo do tempo, desde o aparecimento dos assomos iniciais do género até à contemporaneidade. Nada a estranhar. A partir, porém, dos anos ’80, a bitola do autor alterou-se. Passou a avaliar os autores e as obras não por cânone pessoal, fosse qual fosse, mas atendendo nitidamente à dimensão visível que tivessem no mercado.
Quer dizer, aquele «historiador» demitia-se ali do seu papel de «historiar» reconhecendo tão-só os autores mais mediáticos e as obras com maiores sucessos de vendas. Prescindia de assumir opinião própria ao submeter-se aos ditames do mercado, ou seja, em última análise, aos poderes do marketing comercial e das autopromoções pessoais. Onde iriam entrar a categorização estético-literária, a qualificação do género em arrumação crítica? Aquilo era uma sociologia dos consumos, nada mais. Perguntei-lhe: será melhor o que mais se vende? Não me respondeu… e eu a querer diálogo!