Troa a crise financeira sistémica pelos amplos céus e expandem-se pelo terreno as suas desastrosas consequências. Todavia, nenhum dinheiro ardeu, o ouro conserva-se intacto e os imóveis continuam imóveis. O que aconteceu então? Apenas mudou de dono a riqueza. Já se amontoava em pouquíssimas mãos (nas quais se concentrava por força de injustas retribuições), e agora algumas dessas pouquíssimas mãos, ávidas, apossaram-se de uns quantos montes e fugiram para paraísos fiscais, contas bancárias secretas. Deixaram atrás a crise, isto é, a situação que obriga cada Estado, o negregado Estado, a intervir. As gemebundas classes médias irão ter de pagar as façanhas dos façanhudos, ano após ano, até ao fim dos tempos, pois são monstruosas as dívidas assim criadas pelos gloriosos pilares da comunidade internacional.Ninguém espera que os pilares da comunidade internacional deixem de o ser, vendo-os chamados a capítulo para responderem pelos seus actos e devolverem o que surripiaram para que se faça justiça. São senhores poucos que amontoaram tanta força e fortuna que até podem comprar uma nação ou um cabaz delas, ou acender uma guerra entre umas tantas, sem mostrar uma nesga dos seus respeitabilíssimos narizes ou arriscar o pé num qualquer ramo verde.
Andaram sempre bem informados os senhores, antes da crise acontecer já eles sabiam que ia acontecer e puseram-se ao fresco. Os bancos e as sociedades financeiras falidas depois de gerarem gordos lucros têm agora dívidas colossais, os tais buracos negros, tão negros que escondem os nomes dos credores, titulares das dívidas...Voem as folhinhas do calendário e, pudera não!, esses titulares irão comparecer, discretamente, como convém a altos dignitários e operosos benfeitores da humanidade.
De qualquer maneira, até as nações principais caíram em poder destes senhores. São garantidamente solventes quando os Estados se afundam em óbvias insolvências. Isto é novidade importante e mesmo decisiva, pois os Estados (numerosos, enfraquecidos) perdem autoridade e autonomia perante os (poucos, fortalecidos) senhores. Graças a esta evolução do capitalismo pós-moderno, atinge-se um momento histórico: pode-se declarar o fim dos Estados e o advento de um governo mundial. Desaparecem as nações existentes junto com anacrónicas noções de pátria ou sentimento patriótico. Enfim, os Estados, vendidos como empresas falidas por uma sua moeda simbólica, passam a ser governados por quem já os manipulava; e poderá formar-se, não uma Sociedade de Nações, sim um areópago dos potentados mundiais Top Ten que, por exemplo, mas não por acaso, se reuniria em Davos, Suíça.
Os Estados, incluídos os principais que existem actualmente, estão envelhecidos, e as respectivas classes médias gemem, carregadas de impostos e pesadas dívidas públicas (que obrigam os governos a fabricar notas e mais notas quando a produção económica estagna ou recua). Se o tema for posto à consideração dos eleitores de cada nação do Ocidente, é bem possível que a grande maioria prefira potentados financeiros como proprietários das pátrias do que a continuação da figura do Estado tutelar a exigir-lhes impostos. Teremos então a maior revolução consumada em paz.



