domingo, 25 de janeiro de 2009

A revolução maior está aí

Troa a crise financeira sistémica pelos amplos céus e expandem-se pelo terreno as suas desastrosas consequências. Todavia, nenhum dinheiro ardeu, o ouro conserva-se intacto e os imóveis continuam imóveis. O que aconteceu então? Apenas mudou de dono a riqueza. Já se amontoava em pouquíssimas mãos (nas quais se concentrava por força de injustas retribuições), e agora algumas dessas pouquíssimas mãos, ávidas, apossaram-se de uns quantos montes e fugiram para paraísos fiscais, contas bancárias secretas. Deixaram atrás a crise, isto é, a situação que obriga cada Estado, o negregado Estado, a intervir. As gemebundas classes médias irão ter de pagar as façanhas dos façanhudos, ano após ano, até ao fim dos tempos, pois são monstruosas as dívidas assim criadas pelos gloriosos pilares da comunidade internacional.
Ninguém espera que os pilares da comunidade internacional deixem de o ser, vendo-os chamados a capítulo para responderem pelos seus actos e devolverem o que surripiaram para que se faça justiça. São senhores poucos que amontoaram tanta força e fortuna que até podem comprar uma nação ou um cabaz delas, ou acender uma guerra entre umas tantas, sem mostrar uma nesga dos seus respeitabilíssimos narizes ou arriscar o pé num qualquer ramo verde.
Andaram sempre bem informados os senhores, antes da crise acontecer já eles sabiam que ia acontecer e puseram-se ao fresco. Os bancos e as sociedades financeiras falidas depois de gerarem gordos lucros têm agora dívidas colossais, os tais buracos negros, tão negros que escondem os nomes dos credores, titulares das dívidas...Voem as folhinhas do calendário e, pudera não!, esses titulares irão comparecer, discretamente, como convém a altos dignitários e operosos benfeitores da humanidade.
De qualquer maneira, até as nações principais caíram em poder destes senhores. São garantidamente solventes quando os Estados se afundam em óbvias insolvências. Isto é novidade importante e mesmo decisiva, pois os Estados (numerosos, enfraquecidos) perdem autoridade e autonomia perante os (poucos, fortalecidos) senhores. Graças a esta evolução do capitalismo pós-moderno, atinge-se um momento histórico: pode-se declarar o fim dos Estados e o advento de um governo mundial. Desaparecem as nações existentes junto com anacrónicas noções de pátria ou sentimento patriótico. Enfim, os Estados, vendidos como empresas falidas por uma sua moeda simbólica, passam a ser governados por quem já os manipulava; e poderá formar-se, não uma Sociedade de Nações, sim um areópago dos potentados mundiais Top Ten que, por exemplo, mas não por acaso, se reuniria em Davos, Suíça.
Os Estados, incluídos os principais que existem actualmente, estão envelhecidos, e as respectivas classes médias gemem, carregadas de impostos e pesadas dívidas públicas (que obrigam os governos a fabricar notas e mais notas quando a produção económica estagna ou recua). Se o tema for posto à consideração dos eleitores de cada nação do Ocidente, é bem possível que a grande maioria prefira potentados financeiros como proprietários das pátrias do que a continuação da figura do Estado tutelar a exigir-lhes impostos. Teremos então a maior revolução consumada em paz.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Estamos a ser entregues!

Os múltiplos braços do Grande Irmão envolvem-nos por todos os lados e já formam a rede tentacular onde tantos vão caindo trespassados por uma estranha sonolência. A rede parece macia, talvez mesmo tentadora, no ambiente artificioso da feira de banha de cobra com tubas de propaganda delirante servida como informação digna.
Vigiados como filhotes que precisam de ser protegidos de milhentos perigos dentro e fora de casa, temos câmaras vídeo semeadas por todos os cantos a seguir os nossos passos, a filmar com quem falamos e o que consumimos, talvez, não tarda, o que pensamos. Temos o cartão único de cidadão, onde cabe o documento de identificação, de eleitor, de contribuinte, de utente do SNS, mais assinatura digital e uns quantos registos eventuais que outros lerão por nós. Teremos ainda, em breve, o DEM, aquele dispositivo electrónico que uma certa lei nos obriga a pagar e a instalar nos veículos, para que se saiba a cada momento por onde andamos.
Estamos entregues ao Grande Irmão quando confiamos nas máquinas e mais máquinas que o servem, por exemplo quando carregamos uma conta de telemóvel cujo consumo não nos é dado controlar. Ou quando desistimos de perceber que juros cobra de facto o nosso banco pela dívida. Ou de confirmar se os preços afixados nos produtos se mantém quando os paga e se a quantia somada das compras no supermercado está certa. Ou se a quantidade de gasolina que da bomba entrou no depósito do carro é realmente a que pagamos.
Quem conta já as notas recebidas do Multibanco? Quem duvida do saldo que tem na conta de depósitos à ordem, das contagens dos contadores de luz e água? Quantos contribuintes se dão ao tormento de averiguar a exactidão do cálculo feito à sua declaração de IRS?
Confiar nas máquinas convida ao comodismo e à passividade. Passamos os dias a carregar em teclas e botões e ficamos exaustos. É bom, então, confiar nas máquinas, tão úteis, quando já desistimos de uma boa porção de nós próprios. Alegar imenso stress permite aos adultos, como crianças grandes, quererem a vinda diária do Pai Natal para os brindar com lindos brinquedos. Mas isso é também confiar no Grande Irmão.
Nem todos se entregam, nem todos confiam na rede que se estende, aberta em acenos e convites. São, quero crer, minoria. Cidadãos de corpo inteiro num país devastado, cidadãos livres e sem compromissos que não os advindos da própria consciência. Ficam arredados, à margem, de vozes sumidas no barulho, sentindo o amargor da própria lucidez no ponto onde exorbita a solidão.
Maioria óbvia são o ques se entregam. Arrebanhados como obediente carneirada e conduzidos por pastores que nem o rebanho querem ver olhando quem os segue. É isto o que os políticos e até administradores de grandes empresas almejam para reinar plenamente nas suas sete quintas. Têm vindo a trabalhar sagazmente para isso e as criancinhas grandes, por fim, chegam ao que lhes faltava: depois de Salazar, eis um novo Pai!
[Ilustração: pintura de Imán Maleki – n. 1976, Teerão, Irão]

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Ensino sem educação

Uma certa democratização do ensino tornou a escolaridade num vulgar bem de consumo. O brilho social que antes a revestia perdeu-se com a massificação. Já poucas distinções restam entre o licenciado, o mestre ou o doutorado que não advenham da individualidade concreta de cada académico e, quanto a graus escolares anteriores, estamos conversados.
A derrocada começou, digamos, há uns trinta anos. Resultado: um diploma do ensino superior deixou de garantir bom emprego e o candidato a qualquer colocação no supermercado até pode ter de o sonegar para se ver admitido. Gente idosa, comparando, sentencia que, no seu tempo, em poucos anos de escola se aprendia bem mais do que, na actualidade, com um curso superior completo, pelo menos a julgar pelas aparências.
Assim se declarou uma crise que não se resolve e mais, e mais, se agrava. Diversas análises situam o nó da questão nas políticas que promoveram a escola lúdica ou mesmo alegre, em vez de local de aplicação e trabalho disciplinado:  pouca memória, tudo fácil. Entretanto, avançou um desinvestimento gradual dos governos nas escolas públicas enquanto os ambientes familiares acentuavam a desestruturação.
Diversas juventudes europeias, deprimidas e sem horizontes, duvidam do que pode valer hoje um diploma. Na verdade, não se sentem preparadas, pelas escolas e pelas famílias, para a vida. E já se torna difícil destrinçar o que é instrução, ensino e educação - termos com sinonímia relacionada embora distinta – porque o ensino ficou sem educação.
É incrível, e mesmo alucinante, a instabilidade introduzida nos sistemas pela quantidade de mudanças e reformas sucessivas. Pedagogias credíveis deram lugar a ligeiros experimentalismos alegadamente para aligeirar os conteúdos dos programas. A autoridade em aulas e o prestígio dos docentes sofreram rudes golpes, e também os seus salários. Tudo nivelado por baixo, factor de geral desmotivação.
A educação, avoengo processo apontado para o desenvolvimento harmónico da pessoa nos seus aspectos intelectual, moral e físico e a sua inserção na sociedade, confunde-se com instrução e ensino nos mesmos sistemas para iludir o que mais importa dentro desses sistemas. Decerto não há, nunca houve por aqui ou por ali geração rasca, mas o labéu ficou. Marca com ferrete uma geração perdida.
Porém, há notícia de estudo que detectou em certa amostra uma diminuição do coeficente intelectual médio. Se o diagnóstico é cientificamente credível, temo que venha em breve a ser corroborado por outros estudos. O nosso tempo afunda-se, aparentemente por uma espécie de osmose, na obnubilação das inteligências. Há poucos dias, anunciou-se em Portugal esta novidade: o nosso povo comporta-se como que atordoado…
Estaremos a estupidificar? A interrogação não é tola. Já se conhecem, por exemplo, alguns dos efeitos nefastos provocados nos cérebros pelas substâncias contidas nos populares plásticos, substâncias essas que acabam dissolvidas nas águas dos rios que as cidades bebem…

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Como temos de pensar

Estamos a viver num admirável mundo novo! Uma legião de funcionários operosos e serviçais arregaçam as mangas e trabalham para nós vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. São como Shiva, antiga divindade indiana com inúmeros braços que, por tão maléfica e temível, inicialmente, o povo desesperado e sem esperança acabou por conceber de expressão apaziguadora.
Não precisamos mais de espremer a cachimónia, de coligir informação, de arriscar raciocínios e opiniões por conta própria. Abunda quem nos queira servir. Sentam-nos na passividade, ó gentes!
O que temos de pensar circula abundantemente, já pronto e abençoado como verdade verdadeira. O conforto que assim alcançamos é estupendo: basta-nos repetir a verdade verdadeira. Precisamos apenas de deixar-nos ir na onda, acreditando na fórmula digest que nos oferece em simplex cada questão num prático kit teórico com todos os pertences e pronto a usar.
Indicam-nos como temos de pensar canais de televisão, rádios, jornais e a multidão dos seus comentadores, opinadores, analistas, políticos mais votados, todos de palavra fácil e jorrante, que se pronunciam momento a momento sobre cada questão em termos claros, rotundos, definitivos. Orientam as nossas ideias, mal encaminhadas ou em risco de desvio. Clarificam-nos as frases que dizemos ou podemos dizer, protegendo-nos do erro.
Os próprios jornalistas, que seriam os primeiros interessados em defender o poder da informação - isto é, o debate plural - estão a reconhecer este admirável mundo novo e as suas maravilhosas comodidades. (Algumas excepções ranhosas que restem são para esquecer ou corrigir.)
Se os jornalistas falam da dureza crua do ataque israelita a Gaza, têm que referir também os rockets que de lá disparam contra «território israelita» e ponto final; o Hamas é fundamentalista, nunca por nunca Israel, que de resto o Hamas «não quer reconhecer». Se, por exemplo, têm de aludir a Hugo Chávez, devem considerá-lo esquerdista, populista e ditador, sabendo embora que foi eleito democraticamente por maioria significativa. Se têm de lembrar, com pinças, a existência da base militar norte-americana de Guantánamo esquecem o mais possível a existência, nela, da prisão com centenas de prisioneiros raptados, expatriados e ali torturados sem assistência jurídica nem culpa formada. Nações encaradas de revés pela Casa Branca, como a China Popular, a Coreia do Norte, o Irão ou Cuba, devem ser apresentadas nessa linha algo torcida… tal como a Federação Russa, organizada a seguir à queda do regime soviético, merece pouca confiança e nenhuma simpatia (senão expresso repúdio por qualquer resquício de comunismo, aberração neste glorioso tempo pós-moderno).
É notável a arrumação do mundo que desta forma se consegue. Tudo fica esclarecido, explicado, compreensível. Graças à verdade verdadeira prodigamente espalhada, podemos enfim adormecer. O Grande Irmão, vigiando-nos por todos os lados, vela por nós!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Doem-me os pés em Gaza

Doem-me os pés que tenho em Gaza. O poder que junta em fila ameaçadora os tanques de canhões apontados diz que teve o cuidado inexcedível de fazer noventa mil telefonemas a avisar de mais este ataque. Porém, os pés continuam no sítio, pois para onde ir se temos de um lado o mar e do outro quem nos bombardeia?!
Afinal, estamos há muito tempo sitiados, permanecer e resistir até à morte é o que fazemos há sessenta anos - aqui em Gaza, sitiados, já não sabemos nem podemos fazer outra coisa. Mas doem-me cada vez mais os pés, há crianças e mulheres de corpos despedaçados pelos mísseis disparados pelos caças que nos sobrevoam e destroem, além de vidas inocentes, hospitais, escolas, templos, armazéns, habitações. Espalham por aqui não apenas devastação e sofrimento, sim também ódio.
Devo estar a pensar com os pés porque imagino que quem comanda o caça e dispara visando os alvos em terra, sendo agora militar a obedecer a ordens superiores, é o civil que sempre foi e há-de continuar a ser, talvez pacífico e simpático, agora porém a atentar contra gente que decerto nunca viu, gente pobre e desarmada, que formiga no chão sobrepovoado quase sem comida, sem remédios, só guerra (para «responder» a uns mísseis artesanais que fazem, suponho, mais estrondo que estragos).
Os rapazes que recebem à pedrada as forças de ordem imposta na rua recebem em troca granadas de gás lacrimogéneo e balas que ferem ou matam. Tapam cuidadosamente os rostos mas, se forem identificados, terão a sorte dos presos (que serão já uns dez mil). Como estranhar se eles, com os pais e avós, vivem naquela terra desde há séculos e dela são varridos pouco a pouco por um poder que dispõe de exércitos, aviões, bombas, tanques, abastecimentos infinitos?
Aquele novo país que nasceu e se vai expandindo mais e mais no corpo de outro país antigo, é ferida a gangrenar-se imparavelmente que espalha pelo mundo a infecção. Quem ali se ergue em luta contra o ocupante, é patriota corajoso e leal: sente na própria carne a tragédia de quantos guardam a chave da sua casa porque não lhes ficou mais nada antes de irem para o exílio na própria pátria ou num país vizinho. Terrorista será quem invade e ocupa, destrói e expulsa ao abrigo de um direito mirífico sem consistência.
Doem-me os pés que tenho em Gaza, a passividade das organizações internacionais perante este outro holocausto, os paninhos quentes das diplomacias cautelosas (pois evitam desagradar ao amigo americano), os fraccionamentos intestinos do povo que o inimigo aproveita. Doem-me até os telefonemas que anunciaram a guerra, golpe de propaganda que só serve a quem está servido. Que mundo é este?
Dilui-se o primado do direito. Pontifica o poder da força.

A propaganda varre dia a dia os noticiários mundiais. Os direitos humanos mais elementares são desfeiteados por quem fica impune. Agudizam-se as contradições e crescem os ódios através da porosidade das fronteiras. O sofrimento mais longo de um povo espezinhado não encontra eco nos corações ditos globalizados. Que mundo este!