segunda-feira, 30 de março de 2009

A barbárie globalizada

A revista americana que anuncia o quadro mundial das maiores fortunas mostrou este ano uma quantidade de mudanças no topo dos primeiros dez e dos primeiros cem lugares. O valor da riqueza de uns quantos potentados milionários diminuíra drasticamente desde 2008 e então falou-se em perdas gerais de riqueza na ordem dos 45%. Alguém terá sentido pena daqueles potentados assim atingidos pela crise?
Realmente, nenhuma montanha de notas do banco ardeu em fogueira purificadora, nenhuma riqueza se esvaiu por um cone de vulcão ávido, os bens imóveis continuam imóveis. Mudou somente de mão o que pôde ser arrebatado por outra mão através de arteirices e traficâncias. E assim chegámos ao momento em que, avaliando a evolução vivida nos últimos trinta anos, podemos perceber o sentido geral dos acontecimentos que nos trouxeram até aqui.
Toda a gente que passou estes trinta anos a defender, de garras afiadas, o avanço das nações pelo caminho que desembocou no triunfo pleno do neoliberalismo, na liberdade do mercado e do comércio, nas privatizações e tudo isso - servido como a mudança, a modernidade, o desenvolvimento e até a forma acabada da democracia -, defendeu afinal o que hoje se declara sem máscara: uma barbárie globalizada.
Nenhum deus enlouquecido obrigou os mais altos pilares da comunidade a criarem os seus paraísos fiscais, a quererem menos regulação e legislação penal amiguinha, a entrarem em transes de infinita avidez, tal como teimam agora em arrecadar para si próprios capitais públicos que os governos dão para curar feridas que deixaram abertas. Quiseram a corrupção e a desordem que lhes conveio, a eles, interlocutores privilegiados dos órgãos do poder, para consumarem as rapinas e as pilhagens, as fraudes e as bancarrotas, e continuarem impunes nos seus malabarismos para acelerar a concentração da riqueza. Avalie-se agora a bondade das ideias neoliberais pela qualidade das suas consequências.
Não caiu do céu o desemprego em massa, a precarização, a instabilidade social, o esmagamento das classes médias, a desarticulação das famílias, enfim, tudo o que agride e fere milhões e milhões de pessoas espalhadas pelo mundo. Não contrariou nenhuma vontade política poderosa a degradação a que foi submetido o Estado social e mesmo a democracia quando atingida por severas restrições. O que trazia dentro o cavalo de Tróia está à vista no terreno sobre camadas de escândalos.
A crise que sobre o mundo se abate não é apenas económica e financeira, é total. Escorraça a vergonha, a ética, o primado da justiça inclusive no plano das relações internacionais. Não é apenas gravíssima, é também assustadora. É a barbárie que se instala perante todos os olhares.
Vivemos num tempo cada vez mais perigoso. Os povos quedam-se num autismo estranho, singular. Talvez nem uma ditadura implantada os tire da apatia. E vem à baila a evocação do crash e o início dos anos ’30 para vislumbrar afinidades com esta entrada no século vinte e um.
Uma nova guerra mundial espreita no horizonte. Vai a história repetir-se, não como comédia, sim, e sempre, como tragédia?! O cronista, calando, promete ficar a ver.

domingo, 15 de março de 2009

Cidade de cultura

Na minha terra natal existe uma cidade desde que, em data recente, desapareceu a vila, e essa cidade é de cultura. Afirma-o o jornal lá da terra em aparatosa manchete e o caso não é para menos. Veja-se só: duvidoso, tenho publicado umas linhas nas suas páginas apelando para mais cultura, mas agora se declara quanto me enganei.
Segundo as conclusões apresentadas por uma sondagem de opinião feita a pedido da Câmara Municipal, a área que os habitantes mais aplaudem na actuação do executivo concelhio é exactamente a área cultural. Logo, reina a satisfação. Talvez em breve, senão já, a cidade possa rivalizar com os grandes centros, onde não faltam conferências, debates, exposições de arte, concertos de música sinfónica, bailados, espectáculos de teatro, tudo em esplendoroso corrupio.
Confesso, não sabia. O ambiente cultural parecia-me até algo rastejante, a contrastar ali um bocadinho com outros tempos ainda na recordação. Cheguei, imagine-se, ao extremo de considerar que se apostava na cultura pimba!
E agora, aqui estou de corda ao pescoço. Perante os quatrocentos habitantes sondados por telefone em suas casas, fico esclarecido. Pena é que só 25% (uma centena dos inquiridos) se tenham pronunciado. E aplaudem a acção cultural do executivo.
Uma centena de pessoas que certamente sabem distinguir o que é cultura. Não a corrida de bicicletas todo-terreno, não a exibição de rancho folclórico ou de banda de música, não a romaria a jorrar decibéis, não a evocação histórica popular ou o jogo de futebol. Sim a cultura dignificada por quem a serve e, servindo-a, a deixa a brilhar.
Gostaria de cumprimentar aquele autêntico escol, cem pessoas perfeitamente sintonizadas com o ambicioso programa camarário de elevação cultural. Estão atentas, conhecem os autores literários locais, lêem-lhes e apreciam-lhes os livros, aproveitam a intensa dinamização que fertiliza o terreno. Pena é que o programa se desenvolva sem ecos, na discrição das promoções como que envergonhadas de sair à rua.
Calem-se os linguareiros que já ouvi a rosnar. Suspeitam de tudo em ano de eleições, vêem propaganda lançada ao ar em qualquer iniciativa e chegam a insinuar que as cem pessoas que estão ali a erguer a cultura ao nível de uma autêntica cidade pertencerão ao quadro de pessoal camarário e vizinhança; que aplaudem a acção em foco porque com pimbalhices (sic) se contentam; e que a cultura seria a única área em condições de receber elogio sem que tal surpreenda, por excessivo, os habitantes.
Se acaso essas críticas pudessem ter razão, a minha terra natal deixaria de ser a Cidade de Cultura que quer ser, para se degradar como mera (nece)cidade de cultura… Mas ei-la a irradiar luz como farol guieiro e a dissipar as escuridões da mediocridade. Do meu chão raso meço-lhe a altura do salto qualificador e sinto vontade de dizer que é também minha aquela terra formidável, apenas me trava esta dúvida de consciência: poderei acaso merecê-la?

quarta-feira, 11 de março de 2009

Mulher dia sim, dia sim

Sempre me arrisquei a pensar pela minha cabeça, pelo menos nos pontos em que outras melhores não me acodem. É teima ingrata, pois nunca me faltou quem desconfiasse de uma cabeça tão pequena como esta e, além do mais, sem coroação na praça pública. Pense então eu o certo, vale tanto como o errado para quantos, fortalecidos pelas certezas da cartilha das verdades feitas, desistiram de remexer nas próprias meninges.
Uma ideia que mantenho há muitos anos parece agora ter por fim quem a atenda. Interpreta de uma forma particular o movimento de autonomização feminina em eclosão desde o início dos anos ’70. O recente «Dia da Mulher» deixou o tema colocado em evidência.
Apesar de o nosso tempo ser de resignação e de conformismo, abriu-se espaço e perspectiva para se avaliar de olhos abertos não a árvore mas sim a floresta. Para consolação da minoria a que pertenço, ainda restam uns quantos que porfiam em remexer nas próprias meninges, até porque a evolução dos acontecimentos vividos pela gente da minha geração pertencem a uma história que não está (bem) feita.
Evidentemente, ninguém contraria a ideia corrente de que foi deveras positiva a dita emancipação da mulher em relação ao homem, pai ou marido. A mulher passou a ter profissão, um trabalho remunerado, ganhou autonomia. Libertou-se da sujeição conjugal que a prendia no lar ao entrar no mercado do emprego e isso até acabou por ser de algum modo emancipador para o próprio cônjuge.
Mas isto é a face consensual da questão, a versão simplificada. É preciso beliscar a face, medir as consequências que os acontecimentos deixam no terreno. Porque, sem dúvida nenhuma, estão à nossa vista consequências que pedem análise ponderada e respostas sociopolíticas globais.
Abundam as mulheres nos mais variados sectores de actividade, a demonstrar quantas barreiras venceram. Chegamos agora ao momento de reconhecer que a saída em massa das mulheres dos seus lares para os empregos provocou um abaixamento geral dos níveis salariais (pela multiplicação da oferta de mão-de-obra) que atingiu, creio eu, os dois sexos em benefício directo dos patrões.
Significa isto, claramente, que a chamada emancipação feminina serviu os interesses de todo o sistema de acumulação capitalista, por outro lado em coincidente fase de avidez e máxima concentração no mesmo período. Lembra que os ideólogos do sistema, decerto vendo longe, acolheram o movimento feminista com simpatia. Mas na verdade sempre o sistema soube virar as coisas a seu favor, sempre gostou de ver no mercado mais mão de obra do que poderia necessitar.
Entretanto, outra consequência se declarou no plano social. As famílias, desestruturadas pelo enfraquecimento dos papéis de esposa e mãe, entraram numa crise que pede remedeio urgente. O ensino pré-escolar é migalha, os anos escolares obrigatórios deixam a nu a situação. As novas gerações estão a ser marcadas por uma situação que as atinge e destrói como se estivessem no meio dos tiros de uma guerra.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Venha alguém explicar ao povo

Pelas ruas do outrora «invicto» burgo multiplicam-se os cartazes nos prédios a oferecer andares, lojas ou escritórios para venda. Multiplicação impressionante! Mais e mais pessoas aflitas querem vender o que possuem e não chega quem, com dinheiro vivo na mão, queira comprar ainda que seja a preços de saldo.
As classes médias estão exaustas, tomadas de pelintrice, a debater-se em angústias e aflições próprias de quem se vê deitado em funda cama de dívidas e sem dinheiro para as pagar. Saber que também abundam câmaras municipais, empresas e associações desportivas principais altamente endividadas provavelmente não lhes dão consolação nem alívio. Até bancos e o próprio Estado precisam de dinheiro e…?
O país todo endividou-se pesadamente. Diz quem sabe que temos vivido bastante acima das nossas reais possibilidades – municípios, empresas, clubes desportivos, bancos, governo, famílias – e há anos e anos que o vêm repetindo, mas em vão. Sempre. Parece que nem para os peixinhos sabem falar.
Neste aperto, o governo poderá imprimir umas rimas valentes de dinheiro novo e pô-lo em circulação para tirar da letargia o movimento fiduciário? É o que os países da zona euro fazem ou projectam fazer. Mas tal prerrogativa pertence em exclusivo a quem manda nas casas da moeda, porque notas de outra proveniência são notas falsas.
Admira é que essas rimas de dinheiro novo se destinem a pagar luxos como linhas de TGV, um novo aeroporto e mais auto-estradas para abraçar este país até à asfixia. Admira é que vá parar, pelos canais já abertos, aos cofres das empresas de obras públicas, às equipas de futebol endividadas, aos municípios deficitários mas com crescentes atribuições e encargos.
O povo, curtido mas ignaro como é, não entende como, no traquejo da sua vida vulgar, de trabalho e aperto constantes, pode ter-se chegado a isto e os nossos políticos não se dispõem a explicar-lhe o mistério. Quer dizer, como é que este país acabou assim endividado ao estrangeiro ao ponto de já ter dificuldade em conseguir créditos. Para onde fugiu o dinheiro, a riqueza?
Para quem e para quê trabalhou o povo, assim governado por quem governa? Não foi a produção de riqueza suficiente? Terão sido poucas as privações do povo? Então vejamos: quem não soube trabalhar, trabalhando; e governar, governando?
Na sua santa ingenuidade, o povo confia que alguém da governação, de costas para o luna park da comunicação política, venha dizer-lhe que os quinze mil euros da dívida que alegadamente cabem agora a cada português não serão da sua responsabilidade, porque o povo sempre trabalhou e poupou, e sim da responsabilidade dos governantes que desgovernaram. Confia que esse alguém venha esclarecer, de olhos nos olhos, como as três maiores empresas exportadoras nacionais que restam, a Galp, a Autoeuropa e a Quimonda, elaborem matérias primas importadas às quais incorporam pouco mais do que mão de obra (por cá ainda baratinha… até um dia). Se uma ou duas das empresas fecharem, o PIB ficará de rastos, mas não se queira falar nisso... [Foto de Carlos Rebola, extraída do blogue Ferroadas]

domingo, 1 de março de 2009

Enfim, o decrescimento?

A espiral do desenvolvimento económico que vem marcando as economias desde o termo da Segunda Grande Guerra envolveu as sociedades ocidentais numa espécie de embriaguez. A onda do consumismo expandiu-se e acabou por se agigantar como tsunami devastador que empurra o mar pela terra dentro e tudo engole em mortífera subversão.
Agora há lições a tomar e atitudes claras a assumir se quisermos reduzir ao mínimo as consequências. Decisões dramáticas impõem-se e tais decisões não podem quedar-se entregues somente às mãos dos políticos que governam ou dos senhores do mundo que sobre eles exercem influências. O povo de cada país, atingido na cara pela hecatombe, precisa de despertar dos sonos induzidos e de perceber por fim o verdadeiro lugar que lhe compete ocupar na história.
O consumismo, atiçado por um marketing de nefastas técnicas (e apoiado por apelos constantes ao endividamento fácil), é um dos aspectos da mentalidade corrente que pede emenda. Tem que se considerar no mínimo aberrante (logo, contrariável), por exemplo, uma viagem de avião para sol e areia de praia longínqua quando não faltam sol e areia aqui por perto e sem avião. Os sonhos lindos tiveram forçoso despertar, o consumismo não trouxe felicidade. É impossível continuar a acreditar num crescimento económico infindável quando já esbarrámos de encontro à parede dos limites.
Atingimos, pois, o momento das viragens cruciais. A designada crise financeira colocou a questão maior no centro de todos os debates sérios e urgentes a fazer. Tenhamos do problema muita, pouca ou nenhuma consciência, o problema perdurará na medida exacta em que deixarmos sem alteração nem remédio essa realidade.
Este modelo de desenvolvimento socioeconómico em que temos vivido está esgotado. Completamente. Não vai poder subsistir com as formas que lhe conhecemos, tal como, e cada vez mais, se vem repetindo.
É preciso aprender a viver com pouco - de qualquer modo, com menos - para continuarmos a viver. A onda do consumismo habituou-nos ao supérfluo, não ao essencial, como se os artigos dos comércios mais lucrativos fossem realmente os mais benéficos para os consumidores. Descurámos mesmo algum bem essencial. Agravaram-se as desigualdades dentro da população de cada país e de uns países perante outros.
Por este caminho iremos cair no abismo do irremediável. Chocaremos todos, a humanidade inteira, na parede fatal dos limites, e então, caídos na desgraça, nos saberemos vencidos. Basta continuar cegamente a gastar… e a gastar os recursos não renováveis da natureza: ar respirável, água potável, terra não poluída.
Decrescer no plano económico impõe-se não menos do que muitas outras opções a tomar em variados planos e com variados alcances. Os recursos do planeta são os existentes no planeta e podemos agora medir-lhes a duração que irão ter gastando-os por este caminho. Uma nova racionalidade, esclarecida e exigente, deve aplicar-se a controlar a dinâmica económica e as perversões do mercado, a partir dos órgãos estatais, mas os povos terão que acatar as opções. Esta nossa civilização está mergulhada em crise.