«E havia mais, bem pior», escrevi no termo da crónica antecedente, pois atingira no Word a quadragésima linha. Era o momento de parar. Retomo o fio suspenso nesta página nova para explicar o que no caso era bem pior. E foi assim…Em Janeiro do ano passado, deparei-me com o que António M. Couto Viana escrevera sobre alguns dos meus livros destinados às crianças enquanto membro do Conselho de Leitura da Fundação C. Gulbenkian. A recensão mais recente que me dedicava remontava a 2006. Percebi-lhe, sorrindo, os toques e os tiques mas, ao ler o que dizia de Tenho uma Ideia, invadiu-me a fervura e saltei.
O email que enviei à directora do Serviço de Educação e Bolsa da Gulbenkian dizia: «Estamos em Janeiro de 2008 e só agora e por acaso tomo conhecimento desta apreciação de AMCV ao meu livro. Acho-a lamentável. Porque, sem analisar a sua própria concepção da chamada “literatura para crianças”, a opõe à minha, demonstrada na obra em foco. E em que se baseia para considerar o meu livro para os 0-5 anos em vez dos 8 no mínimo? E porque supõe que uma criança não entende ou não aceita bem certos enigmas do mundo e da vida? Vejamos, então, a inteligência de AMCV, que nem foi capaz de transcrever sem graves falhas umas frases do meu livro, deturpando-as gravemente decerto para ficar mais cheio de razão contra o livro. Eu não o defendo, ele que se defenda sozinho. Mas gostaria de trocar umas impressões sobre o assunto, pois na verdade já me cansa tanta “crítica” desta a circular para impor no mercado uma literatura para crianças consumível, vulgaríssima, que não apela à inteligência, ao bom gosto, à renovação estética!»
A Drª Maria Helena Melim Borges, directora daquele Serviço, respondeu-me logo, corrigiu o nível etário e repôs a integridade das citações deturpadas. Antes das correcções lia-se: «O primeiro conto passa-se numa aula, onde o professor, traçando no ar um pequeno espaço [um círculo, figura simbólica!], interroga os alunos sobre como desejariam preenchê-lo. Com a aprovação do professor, um deles expõe a sua opinião, da seguinte forma: “Dá-me vontade de reunir muitas palavras escolhidas e de as enlaçar nas outras até formarem o cordão de um sentido, para depois se estudar [as estender], bem apoiadas nas margens do abismo, como uma fonte [ponte] salvadora, logo seguida de outras fontes [pontes] sucessivas até que o buraco fique completamente tapado por uma superfície de palavras sólidas tecidas pela fantasia”. Muito claro, como se vê! Para dificultar o assunto, o escritor apresenta uma fábula sobre dois gémeos e o rio, a tal ponto enigmática que»… / O conto Tenho uma ideia também não deve nada à clareza.»
Era notória, em AMVC, a má vontade contra mim e contra o livro, ao qual até não augurava «grande futuro». Mas ele, como leitor, poeta, e como crítico, embora já octogenário, confessava em público que não entendia as palavras que transcrevia (mal), como se fossem uma língua esquisita! Ora o livro ia na 2ª edição e de facto, até hoje, não encontrei uma criança que não compreenda a história - a vantagem da inocência!
Bem melhor recepção tiveram depois os meus livros (Tenho uma Ideia incluído) em http://www.casadaleitura.org/ igualmente da Gulbenkian.


