O jornal que me suja os dedos e não sei que mais anunciou há dias que esta crise liquidou 700 milionários no nosso país. Ninguém chorou, que se saiba, com pena deles pois aquelas centenas de milionários não deixaram de o ser por terem distribuído pelos pobres o que possuíam. As suas fortunas, simplesmente, tinham-se sumido sem proveito para alguém com verdadeira necessidade.
Eram vítimas do jogo que jogavam, o mesmo jogo que os terá enriquecido, mas o jornal omitia este lado da questão nem referia que os milionários continuavam decerto longe da condição de pobres e, quem sabe, prontinhos para emendar o destino. Com efeito, os jornais , e em geral os media generosos, habituaram-se a dar dos factos meia verdade. Ora, como se sabe, meia verdade é uma grande mentira.
A informação transformou-se numa indústria de «conteúdos» não menos alienantes do que a circulação de produtos da cultura pimba. A relação entre a realidade dos factos principais que a todos nos importam e as notícias diárias enfraqueceu-se até quase desaparecer como coisa de somenos, incómoda ou negligenciável. Passámos a vogar na ondeação de um mar de mentiras.
A deriva começou sob a desculpa de que a informação, devidamente contextualizada, ocupava muito espaço. Tornava-se maçadora para quem a pretendia breve, rápida, sintética, ágil, isto é, para quem queria aceder aos factos e só aos factos do dia. Acabámos imersos numa literatura sobre a realidade feita por discursos diversos proliferantes mas homogeneizados e afins sobre os factos da realidade.
A informação vital sobre as questões determinantes foi-se distanciando e ficando sonegada em níveis cada vez mais elevados. Mesmo nas administrações (da governação, das instituições públicas, das empresas), vai-se reduzindo o número de indivíduos com conhecimento cabal do conjunto de segredos que de algum modo os implicam. Têm portanto um conhecimento parcial e não global, ou actualizado, do que lhes toca.
O dramatismo incrível a que chegámos nesta situação sente-se e pode medir-se quando simples conversas, nos contactos interpessoais quotidianos, nos deixam estarrecidos ao revelarem a desinformação instalada em gente informada. Ouçamos, por exemplo, a lojista mãe de aluno no ensino básico a falar da luta dos professores por um outro estatuto da carreira. Ou, noutro caso, trate-se do rendimento mínimo, da percentagem dos desempregados, das fraudes e das ganâncias dos banqueiros, dos efeitos reais do programa agrícola comum, da dívida da Estado... Misturemo-nos com intelectuais e ouçamo-los opinar sobre os direitos dos palestinianos ocupados e combatidos por Israel, o 11 de Setembro, a invasão do Iraque, a posição do Irão ou da Coreia do Norte perante os Estados Unidos e o Conselho de Segurança...
Abra então a boca quem dispõe de informação bebida em fontes alternativas. Será olhado com estranheza, como um extraterrestre. A língua que fala será estrangeira, suspeitosa, incompreensível. Um mundo de mentiras alagou os espaços públicos e vai formatando sem cessar as consciências, embalando-as num sonho irreal. Quando as massas acordarem, um dia, voará tudo no fragor de um imparável explosão. [Ilustração: de Edgar Mueller, artista alemão que pinta ilusões de óptica no piso das ruas.]

