sábado, 24 de outubro de 2009

O novo ópio das massas

Em anos ainda recentes, os três pilares clássicos das sociedades modernas tiveram alguma companhia. Os poderes executivo, legislativo e judicial funcionavam sob o escrutínio das notícias e dos comentários jornalísticos. Mas onde pára hoje o «quarto poder» da Imprensa?
Os actuais media - os jornais, as rádios, as televisões, os satélites - alargaram incomensuravelmente o espaço da sua comunicação ao ponto de a tornar invasiva, sufocante. A propriedade desses órgãos e meios principais foi entregue a potentados financeiros «de confiança», atentos apenas aos lucros da indústria dos «conteúdos». O anterior pluralismo das ideias e das opiniões em circulação deu lugar a uma informação normalizada, conformista e manipuladora que percorre o mundo.
O poder da Imprensa transformou-se na Imprensa do poder. Acentuaram-se ou ocorreram outras transformações decisivas. O modelo de vida americano contagiou a Europa e o Ocidente com a sua avidez consumista, o seu individualismo radical, a sua procura de triunfo na carreira da vida, enriquecendo.
Os valores materiais subiram, a pouco e pouco, aos altares. As sociedades, libertando-se das superstições (ou substituindo-as apenas?), laicizaram-se. Laicas passaram a ser as regras morais e as concepções éticas na medida em que se adaptaram à prática.
As igrejas, antes tão poderosas e de tão predominante influência religiosa e profana, recuaram. Contavam nos templos os fiéis que os frequentavam, os clérigos novos que já nem revezavam os idosos, e poucos reis havia para os cardeais e os arcebispos coroarem nas catedrais entre nuvens de incenso. Era um facto, a religião perdera força, imenso terreno nestas sociedades individualistas embriagadas pelo consumismo hedonista.
Fez-se então lembrar a frase de Marx (1818-1883). A religião deixara de ser o ópio do povo. E um senhor, creio que nada revolucionário nem de esquerda, aparece agora a escrever (cito um trecho):

«Nos dias de Marx, a religião era o ópio das massas. Hoje são os media. Basta ver a informação dos media que facilita a capacidade da oligarquia financeira para iludir o povo.»

O senhor é Paul Craig Roberts. Foi secretário assistente do Tesouro na Administração Reagan e é co-autor do livro The Tyrany of Goods Intentions. [Foto: aspecto, virado para o céu, da montanha em Michu Picchu.]

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

ADVERTÊNCIA

Advirto os amigos de que este blogue vai manter-se sem novos posts durante um mês ou, no máximo, dois. Todavia, se alguma migalha de disponibilidade surgir neste período, é bem possível que o «jejum» venha a ser quebrado. Motivo: tenho que concentrar tempos e energias para atender a um compromisso absorvente. É só isso. Portanto, vou ali e volto já! 

O sentido das coisas

Atribuir o Nobel da Paz a Barack Obama foi um óbvio gesto político. Nada desprestigiante para quem o dava ou para quem o recebia, tudo pelo contrário. Porém, ouviram-se resmungos: o prémio podia condicionar o presidente da América, deixando-o metido num colete de forças...
Os resmungos percorreram o mundo. Mesmo no canteiro nacional houve gente fina preocupada que desejou e pediu a Obama para não descurar nunca a «segurança», como se a lusa gente fosse americana, moradora numa imperial rua do Far West, e o presidente ali fosse o xerife de revólveres à cinta. Ou como se o prémio lhe tirasse da mão os revólveres.
Para além de todas as conjecturas, admite-se como certo que a atribuição do prémio dá força à causa global da paz, mas nesta base é que poderá estranhar-se que haja gente que prefere dar força ao inverso da paz. Vão ao ponto de querer dar lições de papismo ao papa!
O discurso da informação do jornalismo amordaçado, manipulador das consciências, vulgarizou-se desde o 11 de Setembro e promove sem descanso o propagandeado «choque de civilizações» que, decerto não por acaso, cheira a combustíveis fósseis que tresanda. Ainda menos por acaso, estamos em plena situação de crise económico-financeira.
A crise abre rasgões no mais simples bom senso que abrem caminho a uma nova hecatombe humana, outra aventura bélica de renovada violência. Impõe-no, dizem, a lógica do sistema em que vivemos: para se sair da crise, só uma guerra... Mas faz-se lembrar a frase de Milan Kundera, onde se afirma a ideia de que é a perda da memória das dores e das destruições antes sofridas que torna possível a repetição de tão medonha loucura. Sem esquecer, porém, que todas as guerras se justificam com amontoados de perversas mentiras.

domingo, 11 de outubro de 2009

Obama Nobel da Paz

Quando Obama entrou na Casa Branca, saltou e derramou-se o optimismo como champanhe a borbulhar de garrafa festiva. Mas é evidente, a pessoa que faz o lugar também é feito por ele, de modo que a relação dialéctica entre os dois termos pode variar sem se perder. Então, como entender agora Obama distinguido com o prémio Nobel da Paz?
Vai ele resolver finalmente o problema dos milhões de palestinianos sem pátria na sua própria terra milenar ou exilados para que Israel exista? Proibir novos colonatos, abrir a faixa de Gaza, decidir a pertença legítima de Jerusalém?
Vai acabar com o velho, indecente e inútil bloqueio a Cuba e normalizar as relações com a ilha? Encerrar Guantánamo?
Vai deter a invasão no Iraque sem o deixar afundado em guerra civil e admitir o julgamento em tribunal de quem ali praticou atrozes crimes impunes?
Vai ter pulso para desatar o nó que antecessores ataram no Afganistão, onde já muitos vêem outro Vietname? Vai considerar correctas e fiáveis as eleições que favoreceram Karzai?
Vai continuar a querer impor um regime democrático pela força das armas a povos com outras preferências por motivos de formação histórico-cultural?
Vai desapoiar os golpistas que tomaram o poder nas Honduras, depondo o presidente democrático legitimamente eleito (refugiado na embaixada brasileira de Tegucicalpa e apoiado pelo seu povo apesar da repressão)?
Vai ponderar nas críticas ocidentais ao governo do Irão de modo a torná-las absolutamente credíveis, isto é, sem vestígio de petróleo nem sionismo?
Vai deixar em paz o regime dito bolivariano de Chávez, que inferniza embora o líder tenha um óbvio apoio popular e siga o sistema democrático?
Vai deixar à porta da Casa Branca os industriais de armamentos e os seus arautos do Pentágono? Duvidar de alguma outra «invenção conveniente» da CIA? Pôr em sentido os senhores do petróleo e do gás natural?
Vai reduzir para metade, ou para um décimo, ou para dez apenas, as quase mil bases militares que os Estados Unidos têm espalhadas pelo mundo?
Vai cortar nas despesas militares que levam todos os anos, dizem, metade do orçamento nacional e que transforma os EE.UU. na primeira potência militar mundial (logo, por definição, imperialista)?
Vai consentir em colocar o seu país no concerto das nações, em autêntica paridade com alguns outros principais, e trabalhar pela reorganização e redignificação da Organização das Nações Unidas?
Quem pergunta quer saber. E fica para ver...

domingo, 4 de outubro de 2009

Autores literários sofrem

São abundantes, invasivas, as distracções nacionais. Tudo gira e se renova no simples borbulhar de cada dia e tanto que nem sobrou atenção para atender à Conferência internacional sobre comodato que decorreu em Lisboa nos fins de Setembro. Até parece que a Sociedade Portuguesa de Autores, anfitriã da conferência, rodeou de severo secretismo a iniciativa...
Entretanto, eu mesmo chego com grande atraso ao assunto e, todavia, não entrei em submarinos nem dancei entre Belém e São Bento. Mas soube que estiveram representados 26 países na conferência onde foi elaborada «uma visão geral da situação do regime de comodato ou empréstimo nas bibliotecas em cerca de 30 países.»
Nas conclusões, a conferência analisa a transposição para os ordenamentos jurídicos nacionais da directiva europeia de 1992, codificada em 2006, que regulamenta aquele sistema. Ponto essencial, considera «inexplicável o facto de o Governo português continuar a incluir no regime de excepção as bibliotecas públicas», notando que tal «é particularmente decepcionante num país de tão forte tradição literária» como o nosso.
Não é, em verdade, caso único no ambiente europeu. Por isso, a conferência apela aos países relutantes para que estabeleçam sem mais demora o direito de leitura pública (Public Lending Rights ou, em português, Direito de comodato público). A leitura de obras ainda com copyright (i. e., ainda cativa de direitos) em biblioteca pública nada rende ao seu autor embora possa servir a dezenas de leitores.
Neste quadro, faz-se lembrar que o direito de autor começou em Portugal a implantar-se, pela mão de Almeida Garrett, em meados do século XIX. Não mais cessou de se desenvolver até à actualidade, que foi quando enfrentou a pirataria das fotocópias, a banalização do livro lançado às carradas e logo posto em saldo e agora enfrenta a concentração das editoras, a sofreguidão (porventura a pilhagem) dos conteúdos.
Creio que o direito de autor apenas enriqueceu uma minoria ínfima de quantos escreventes se ergueram à categoria de escritores notáveis. Confirmando a regra, apenas uns quantos e raros atingiram tiragens e vendas, e traduções no estrangeiro, em volume suficiente ao menos para viverem do que escreviam. No melhor das hipóteses, ao falecerem, os seus familiares puderam beneficiar do seu trabalho durante uns setenta anos.
Mas hoje a situação complicou-se deveras. O direito de autor sofre ataques múltiplos e mal resiste... e o direito à variedade da criação literária e cultural, encolhendo-se, vai definhando. A esmagadora maioria dos autores literários mal ganha para os cafés que bebe.
Eis porque adiar a transposição do direito de comodato público e resistir à sua aplicação prática é atitude falta de visão e algo mesquinha. A leitura pública continuará grátis para quem a quiser e a retribuição por cada leitura terá um valor meramente simbólico. Somado à nossa escala nacional, esse encargo será menor do que o custo de outra rotunda do nosso circular descontentamento.