quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Em nome da Cultura

Desfolhei cinco páginas do jornal que me consumiu anos a escrever e agora poiso aqui um olhar raso de melancolia. Aquelas páginas, ditas de «Cultura», recheavam-se de anúncios entre grandes imagens e textos sobre filmes em exibição, espectáculos musicais, canções gravadas... Nasceram há uns trinta anos, pela minha mão, no corpo do jornal ainda não tabloide, ocupando os bocadinhos de página que sobrassem das cobiças do dia, e depois cresceram, cresceram para albergar a publicidade que foi chovendo...
Cultura, «aquilo»? Cinco páginas - contrapostas ao bocadinho de página regateado que outrora destacava obras literárias, autores, exposições de arte, conferências, vivência cultural - cinco demonstrações do que é hoje, ou deveria ser, entendido como «cultura»? Que lugar resta que chegue para dignificar a literatura, a cultura da palavra viva, o pensamento, a comunicação estética?
Quando «tudo é cultura», continuará a ser ainda Cultura... o quê?! Atenção: que ninguém caia no simplismo de crer que o assunto é de índole académica, sem consequências reais graves nas nossas vidas. Porque é a Cultura que nos faz ser quem somos como somos.
O entendimento que aposta em «tudo é cultura» é afinal inovação recente. Alinha na crescente «americanização» das mentalidades europeias, lançando para a cova funda a riqueza da herança humanista que nos formou. E perde de vista a razão intrínseca que, por exemplo, nos obriga a manter as alusões à língua e cultura portuguesa sem plural (isto é, no singular), pois língua e cultura são entidades indiscerníveis.
Esteio matricial da Cultura é mesmo a língua que falamos e nos fala, o sangue verbal que nos corre nas veias da alma coletiva. Eu digo que também somos feitos de palavras, umas palavras que se nos vão acrescentando à medida que vivemos, desde as do nosso nome, data, local de nascimento e nome dos pais, até à certidão de narrativa completa e, por fim, a certidão de óbito. Se nos retirarem as palavras, o que fica além do montículo de cinzas anónimas?!
É na palavra viva, é nos textos, nos livros, que as palavras se arrumam, articuladas pelo sentido do que exprimem. As pinturas, as músicas, as danças são modalidades artísticas capazes de transmitir emoções estéticas e articularem mesmo determinados sentidos, mas esses sentidos terão sempre que recorrer à palavra para se tornarem definitivamente sensíveis.
Assim se demonstra uma deriva nada inocente. A palavra dos textos (neste caso jornalísticos) veicularia ideias, provavelmente ideias incómodas, renegáveis ou discutíveis, de qualquer maneira trabalhosas de ler e, para cúmulo, pouco lidas. Preferível, então, rechear páginas e páginas com espetáculos e cantigas muitas, conteúdos alegres e divertidos...
Contraste: imagine-se agora o valor de uma biblioteca ainda que pequena, com três ou quatro mil volumes. É o tamanho da que deveras me emociona ao vê-la, uma e outra vez, levada aos poucos por quem arrisca a pele pelos trilhos da Colômbia com a tabuleta bem visível no lombo da besta para afugentar tiros insurretos de dois ou três lados: «Biblioburro».
Está em http://www.youtube.com/watch?v=wuTswmx9TQU
O padre António Vieira foi talhante: «O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.» [Imagem: «A leitora», pintura de Pierre August Renoir.]

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A revolução gandhiana

Ao ler Peregrinação às Fontes, de Lanza del Vasto, referido no texto anterior, tomou-me uma necessidade irresistível de fixar, pela cópia, alguns trechos significativos do que, para o Autor e o seu leitor, era a revolução gandhiana. O que pode extrair-se de um punhado de páginas não caberia nesta coluna, fique pois a migalha como aperitivo e votos de boas festas.
 
Que o homem seja sempre maior do que aquilo que faz, mais precioso do que aquilo que tem.
Suprimamos a miséria, cultivemos a pobreza.
Sim, o trabalho das mãos é a aprendizagem da honestidade.
A honestidade é uma certa igualdade que se estabelece entre o que se toma e o que se dá.
É preciso adquirir primeiro o direito de dar. Não tem o direito de dar quem não pagou o que deve.
Tenha receio de ser sublime sem profundidade, grande sem fundamento, e perfeito no vazio. Tateie, através dos atos, a verdade que a sua inteligência viu.
Pense assim: recuso julgar-me superior ao comum dos homens. De facto, nada é mais comum do que julgar-se superior. É certo que a humildade não é uma virtude que se adquira deliberadamente. É uma graça que vem do céu para os melhores. Torne-se disponível para a receber.
A intenção de Gandhi não é voltar atrás. [...] A sua revolução, pelo contrário, olha para o futuro com severas esperanças. É o primeiro sábio do Oriente a prescrever o trabalho como um dever para todos e como uma via de salvação. Lançou as bases de uma nova constituição civil, de um novo desenvolvimento económico, assim como de uma nova cultura.
A máquina encadeia, a mão liberta.
O artífice que dá forma a um objeto, que o sabe polir, que o decora, o vende, o apropria aos desejos de quem se destina, realiza um trabalho humano. O camponês que dá vida aos campos e faz prosperar o gado, através de uma vida harmonizada com as estações, realiza uma tarefa de homem livre. Enquanto que o operário, acorrentado ao trabalho em cadeia, que a cada segundo repete o mesmo gesto à velocidade ditada pela máquina, esboroa-se num trabalho sem finalidade para ele, sem fim, sem gosto nem sentido. O tempo que gasta com ele é perdido, vendido: vende não a obra, mas o tempo da sua vida. Vende o que o homem livre não vende: a sua vida. É um escravo.
Não se trata de atenuar a sorte do proletário, a fim de o obrigar a aceitá-la. Trata-se de suprimir o proletariado como se suprimiu a escravatura, visto que, de facto, o proletariado é a escravatura.
A uma civilização cuja caraterística é a luta do proletariado e da burguesia, Gandhi quer opor uma cultura cujo fundamento seja o acordo entre o campesinato e o artesanato. 
Se é verdade que poupam tempo, como é possível que nos países onde as máquinas reinam só haja pessoas apressadas e que nunca têm tempo?
E os povos inteiros que estão votados à ociosidade, o que se fará deles, o que farão de si próprios?
Quando fizerem do Estado uma máquina, como podereis impedir que um louco qualquer se apodere do volante e arraste a máquina para o precipício?
Quando fizerem do Estado uma máquina, é preciso que vocês próprios lhes sirvam de carvão.
Se as pessoas de hoje estão convencidas do caráter deplorável de um sistema que as levou de crise em bancarrota, de falência em revolta, de revolução em conflagração; que destrói a paz e a torna agitada e inquieta; que faz da guerra um cataclismo universal, quase tão desastroso para os vencedores como para os vencidos; que tira o sentido à vida e o valor ao esforço; que consome a desfiguração do mundo e o embrutecimento do povo; se as pessoas de hoje acusam seja quem for dos grandes males que as oprimem, atribuindo a causa seja ao que for menos ao desenvolvimento da máquina, é porque não há surdo mais mouco que o que não quer ouvir nada.
É preciso que a admiração pueril pelos brilhantes brinquedos com que se divertem, que a exaltação fanática pelo ídolo que forjaram e a que estão dispostos a sacrificar os próprios filhos, lhes tenha dado volta à cabeça e fechado os olhos à evidência, para que continuem a esperar do progresso indefinido da máquina a vinda de uma idade de ouro.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Ao encontro de Gandhi

A Índia milenar apresenta particularidades que poderosamente a distinguem. O aspeto espiritual é sem dúvida dos mais marcantes, entre outras singularidades de especial relevo. Daí a atração que exerce, desde logo sobre os europeus, que a procuram e ficam cativos da força dos seus sortilégios.
Se bem me lembro (oxalá que a memória não me atraiçoe), um deles foi Alberto Moravia, autor da narrativa da sua viagem àquele país publicada em Portugal salvo erro com o título de Uma Visão da Índia. A narrativa é admirável ao captar com mestria os encantos que o culto e atento forasteiro, chamado de longe, ali descobre. Atualmente, no meu círculo de conhecimentos pessoais, figura uma pessoa também apaixonada pelas especiais características do país do Indo, ao qual vem dedicando poemas e prosas diversas.
Porém, Lanza del Vasto (1901, sul da Itália - 1981, Múrcia, Espanha) não procurou o país apenas para o conhecer de visita. Foi à Índia em Peregrinação às Fontes, ou seja, em busca de uma verdadeira iluminação interior, de uma sabedoria que lhe faltava na Europa convulsionada dos anos 1936-38. Neste período escreveu o livro com o mesmo título (editado em França em 1943, logo, em plena Segunda Grande Guerra), onde o leitor acompanha o seu peregrinar e com ele vai até Gandhi e com o mestre da não-violência convive três meses. 
A luminosa e sublime grandeza do pensamento de Gandhi parece amesquinhar-se quando o mestre é referido com o rótulo sumário em voga. O sound bite e as desmemórias coletivas impõem-no. Mas isso corresponde a reduzir aquele homem aliás franzino envolto num simples pano branco enrolado nas pernas, que lutou sem armas contra um império e o venceu, às dimensões de retrato tipo passe.
Lanza  del Vasto afirmou-se como discípulo eminente de Gandhi e continuador da filosofia gandhiana, sobretudo da não-violência. Estudou em Paris e Pisa, fundou a comunidade L'Arche em 1948, lutou contra a opção nuclear militar ou pacífica, apoiou os objetores de consciência ao serviço militar obrigatório e os movimentos ecológicos. Proferiu conferências em muitas cidades portuguesas em 1978 e 1979, tendo então saído no nosso país  uma antologia de textos de sua autoria: Não-Violência e Civilização, edição Brotéria, Lisboa, 1978.
Somente um outro livro de Lanza del Vasto foi publicado entre nós até 2005: Elogio da Vida Simples - Princípios e preceitos de retorno à Evidência, edição Planeta Vivo, Leça da Palmeira. E agora, por fim, temos a sua Peregrinação às Fontes, obra fundamental que chega ao leitor português com 67 anos de atraso. Tem chancela das Edições Sempre-em-Pé, Porto, 2010, mais de 300 pp traduzidas por Helena Santos C. Langrouva.
Uma nota salta aqui aos olhos e merece destaque. A causa da não-violência e tudo o mais que a ela se liga como pensamento que se pensa deixa as grandes casas editoras nacionais em manifesto desinteresse. Tomam então a palavra as editoras marginais, talvez porque a cultura, a espiritualidade, a religião ou a filosofia sejam, cada vez mais, ocupações que pouco, quase nada, ocupam entre nós...

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Quem quer destruir o Estado

Frequentemente, chefes de governo e presidentes saem para o estrangeiro levando consigo um cortejo de empresários, banqueiros, financiadores. O porquê não aparece explicado mas entende-se sem explicação. As principais figuras do Estado oferecem as viagens não porque os convidados estejam sem dinheiro para as pagar, e sim porque o país de origem pretende estabelecer áreas de negócio com o do destino.
Trata-se, sem dúvida, de um comportamento que vemos repetir-se por todo o lado aos nossos olhos de complacentes contribuintes. Tornou-se normal, tão normal como o dito do fulaninho que, já nos anos '60, entendia: o que era bom para a General Motors, era também bom para a América. Muita razão lhe assistia e ainda estava longe do horizonte a grande crise actual e a necessidade de as economias nacionais promoverem as exportações e atraírem os investimentos.
Todavia, o caso não é de todo «invisível» e até deixa uma pessoa a matutar. Denota a «natureza de classe» do Estado, assim posto a colaborar diretamente com os capitalistas e trabalhando para lhes promover os negócios e conseguir apetitosos lucros. A «natureza de classe» de cada Estado, sem dúvida, tem sido sempre a mesma desde a entrada na idade moderna: é o topo da pirâmide social (qualquer que ela seja) que comanda, de mãos postas nos órgãos do poder.
A matutar, porém, descobrem-se umas distinções. Nestes últimos tempos (ou seja, depois de os banqueiros, com desvairada ganância, provocarem esta crise) os governos, competentes administradores dos Estados, deixam-se de pudores e aparecem decididamente de braço dado com a alta finança nacional. Afanam-se a ajudar quem já possui muito a possuir mais, e mais, e mais... porque o dinheiro, como qualquer droga, cria dependência e escravidão.
Algo mudou - e mudou tudo: contra quem trabalha, cai no desemprego ou se reforma, contra quem estuda ou investiga, contra quem está doente ou vai ter doença, contra quem opina e quer autêntica e geral liberdade de opinião. As leis que saem encurtam o tamanho da democracia, empalidecem as cores do sistema republicano, deixam a vacilar os eleitores ainda crentes nas vias eleitorais e nos próprios partidos, e já se sente a alastrar pelo chão devastado, como um calafrio súbito na espinha, a sombra de um regresso à repressão castigadora, ditatorial. Mudou tudo porque, em suma, o Estado (servido pelo Governo forte com os fracos e fraco com os fortes) não interessa mais à corporação dos ricos.
O Estado recai sobre quem o suporta, as classes médias que pagam para consumir e viver. De fora desse esforço vai ficando a corporação, que entretanto se apodera da saúde pública, do ensino público, das obras públicas, das águas públicas... E, sempre a bem da nação, liquida o «Estado social», e vai ajustando com os governantes a compra de propriedades públicas para fazer baixar o défice, e vai tomando conta das praças públicas com aparcamentos pagos, e vai negociando subsídios e isenções de impostos para despedir e criar novos empregos, e...
Até que as classes médias acordem e mostrem que também não querem um Estado assim e assim governado. Poderá então talvez ouvir-se, com música, a voz de Fernando Pessoa (o drama em persona) desejar como utopia a anarquia: «Prefiro rosas, meu amor, à pátria, / E antes magnólias amo / Que a glória e a virtude.»

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

WikiLeaks expõe segredos

Ao que parece, os jornais gratuitos nem já conseguem atrair quem antes acudia às bancas onde agora se empilham e arrefecem. Agora andam a aparecer pelas ruas, oferecidos na ponta de um braço ambulante que passa a distribuir o papel crivado de anúncios. Sabemos hoje que estes jornais não desmerecem assim tanto em comparação com os jornais que os leitores compram e pagam, mas foi deveras chocante ter de reconhecer tal evidência: todos se nivelaram por baixo.
Todavia, a Imprensa ainda conserva algum do seu prestígio antigo. É o único media de comunicação escrita em suporte de papel, que permite ler e reler ou, querendo, seleccionar temas, guardar e consultar. Portanto, foi para os jornais ditos de referência de Nova Iorque, Londres, Paris, Madrid ou Berlim que a WikiLeaks encaminhou, mais uma vez para tirar dos cofres e mostrar ao mundo, outra montanha colossal de documentos secretos da política estado-unidense.
A ampla divulgação das «matérias quentes» pretendida pela organização de Julian Assange acabou, porém, de novo, por não acontecer. A autenticidade dos documentos foi confirmada, mas os jornais, em vez de divulgação, entraram num debate marginal que apenas serve para desviar as atenções. Os 251 mil documentos, com mais de 700 enviados da Embaixada EE.UU. em Lisboa, copiados pela WikiLeaks através de intromissão nas redes governamentais, foram sumariamente despachados.
Alegaram os jornais que nada ou muito pouco do que os documentos revelavam era novidade, assim demonstrando que os jornalistas sabem muito mais do que publicam. A NATO-OTAN, naturalmente, condenou a ação e a Casa Branca reclamou: o «polícia do mundo» via em perigo a segurança do mundo. E, nos jornais acomodados na sintonia do que pensa o «amigo americano», instalou-se um debate bizantino para decidir até que ponto pode ir a liberdade de informação quando se trata de segredos de Estado.
Ora é esse mesmo o mérito maior da ação de Julian Assange. Demonstra quão frágeis são de facto as estruturas de segurança em vigor ao mais alto nível, por parte da potência que tanto se deleita a especular sobre os perigos do terrorismo. Mas, acima de tudo, demonstra que as políticas dos diversos governos envolvidos por aquele manancial de documentos andam, no fim de contas, a ser escondidas dos cidadãos.
A informação que chega à maioria que elege os governantes democráticos é amiúde um chorrilho de meias verdades e venenosas deturpações, logo mentiras, fornecidas em ondas contínuas. A imprensa, queixosa da baixa das tiragens e vislumbrando o seu fim, e os media em geral, renunciam à função que lhes cabe de verdadeira utilidade social mesmo que isso lhes custe a extinção. Sem dúvida, os cidadãos deveriam exigir uma informação mais completa, esclarecedora e credível aos seus governos e seus media, mas os cidadãos foram postos a dormitar nos baloiços do consumismo que os consome e, por seu lado, nem os governos nem os media irão despertá-los.
Vê-se: a diplomacia e a política, a governação de cada país e dos continentes entraram numa fase quase críptica. Aparecem ao alcance apenas de alguns iniciados próximos das esferas do poder executivo real. Eis o que pode extrair-se da corajosa iniciativa da WikiLeaks.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Contos «infantis» de Oscar Wilde

Escrever, diz José Rodrigues Miguéis nos seus Aforismos, "é um solilóquio para ausentes". Pois será, entendendo que os ausentes podem encontrar-se em sucessivas gerações para nelas se manter vivo o solilóquio. Por este motivo simples que Miguéis bem aponta: «Só vale, quanto a mim, a literatura que passou a prova do filtro purificador do Tempo.»
E aqui temos um livro que Oscar Wilde publicou há mais de cem anos, em 1888. Nove «contos de fadas» que Wilde (Dublin, 1854 - Paris, 1900) dedica aos seus filhos com o título de O Príncipe Feliz e outras históriasMas essa colectânea de contos tem corrido com diversos títulos (normalmente o primeiro do volume) e nem sempre reúne a quantidade certa de histórias.
Pergunto: o que permanece hoje, para nós, de toda a produção literária do autor -  poemas, peças de teatro, romances? O Retrato de Dorian Gray, estes contos «infantis», e que mais?! Arrisco: mais nada, apesar do sucesso enorme, nos palcos e nas livrarias, por ele alcançado no seu tempo. O famoso dandi Wilde e até o escândalo que provocou (acusado de homossexual, condenado a prisão), aliados ao seu talento, ajudaram à retumbância do seu sucesso.
Mas quantos leitores folheiam ainda aquele romance, O Retrato? Quero crer que poucos, serão mesmo residuais.  Surge então um curioso contraste: os nove «contos de fadas», pelo menos em Portugal e no Brasil, continuam presentes nos círculos da edição e da leitura, merecendo no país irmão, inclusive, adaptações teatrais.
Sem dúvida, a fulgurância da sua escrita espelha-se em toda a sua obra principal e, no entanto, são estas histórias, escritas ao que parece sem grande ambição literária, que se mantêm «vivas» na atualidade. Ora isto levanta questões deveras interessantes, a primeira das quais é a de nos fazer sentir o cânone do que poderia ser «literatura para crianças» na segunda metade do século XIX. Questão básica: determina a acessibilidade lexical do texto e, desde logo, quem é «criança» para ler ou ouvir ler o texto.
Sabemos que o conceito de infância tendia a prolongar-se então até ao amadurecimento da adolescência. E podemos agora, perante estes contos de Oscar Wilde, perceber e avaliar a tremenda erosão que têm vindo a sofrer os vocabulários de uso quotidiano, na oralidade e nas leituras correntes. De facto, a opulência do verbo wildeano nada cede ao «facilitismo» mediático que impera nos nossos dias, não recuando sequer em abordar temas melindrosos como a morte, o amor, o sofrimento.
Mas são histórias maravilhosas, de intensa poesia e aliciante leitura. Julgo, porém, que podem lê-las não as crianças de hoje, sim os jovens e os adultos, porque estes aguentam histórias por vezes longas e contadas com termos tão raros.  Isto é francamente lamentável, afirma-o quem admira e aplaude com entusiasmo as belas histórias, realmente para crianças, que se encontram presentes no interior das nove narrativas.
Para quem lhes chegue pela primeira vez, a revelação acontece e é esplendorosa.

sábado, 20 de novembro de 2010

Os donos da Nação

Uma das questões que vem inquietando os portugueses ilustrados ao longo dos dois últimos séculos gira em torno desta questão decisiva: encontrar uma explicação para o atraso e mesmo a decadência do país. Parecem crescentes e sem remédio, como se não pudesse ser outro o seu fatal destino. Mas aí temos agora um livro que expõe a questão de forma perfeitamente inteligível.
O atraso de Portugal tem vindo a ser provocado por quem negoceia com o Estado e com o seu negócio enriquece mais e mais empobrece o povo. Desde a segunda metade do século XIX, quando os liberais lutavam por modernizar o país e enfrentavam as resistências do «Portugal velho», ou seja, quando o negócio era o monopólio dos tabacos e os empréstimos à Coroa, até à atualidade, sempre houve beneficiários das prodigalidades régias ou do Estado. Mas então não tinham o topete de reclamar «menos Estado», como agora, porque os senhores,  prósperos e fortalecidos com tanta riqueza acumulada, acabaram por ficar donos da Nação.
O livro Os Donos de Portugal (Edição Afrontamento), saído há poucas semanas, explica com linguagem acessível a formação e acumulação do capital, apontando os seus principais protagonistas. São designados como a «burguesia» nacional pelos vários autores da obra (Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas), focalizando principalmente as relações políticas privilegiadas de que beneficiaram durante três períodos distintos do século XX: a primeira República, a ditadura e a democracia.
Os autores, quase todos universitários, expõem os rostos da oligarquia financeira nacional - Espírito Santo, Sommer, Champalimaud, Mello, Ulrich, Amorim, Azevedo, etc. - para analisar o processo da sua formação ao longo do tempo. Vão ao ponto de incluir um mapa com as respectivas árvores genealógicas e de nele registarem os cruzamentos entre os seus rebentos, e tão demonstrativo é que lhes permite referi-los em conjunto como a «família das famílias». Depois resumem cem anos sem nenhuma surpresa: «Em 2010, a burguesia é essencialmente a mesma que existia na ditadura, reforçada com alguns potentados emergentes e com poucos recém-chegados recrutados nas elites ministeriais e que demonstraram zelo inexcedível.»
Sublinhando a promiscuidade entre política e negócios privados que proporciona a esta «burguesia» gordas benesses do Estado, os autores atribuem à defesa dos seus particulares interesses a responsabilidade da crise. De facto, o país teve agricultura e pescas e mesmo alguma indústria (siderurgia, metalurgia pesada, reparação naval) enquanto tal conveio à «burguesia», pois a produção industrial nacional, segundo os autores, foi sempre muito subsidiada. Quando o filão se extinguiu, sem coragem para assumir riscos no mercado internacional, o capital financeiro estratégico preferiu refugiar-se nos investimentos da saúde e do turismo, ou na pura especulação. Assim ficou o país entregue ao défice estrutural atual, irremediável por muitos anos.
Quer dizer, assim sem saber para onde se vire. A gastar mais do que pode produzir. Suspenso sobre o abismo que vê a seus pés. [Imagem: pintura «Saturno devorando um filho», por Francisco de Goya.]

sábado, 13 de novembro de 2010

O capitalismo globalizado

Os murros no estômago que estão a sofrer as classes médias, e que as deixam, dobradas sobre si mesmas, em violenta convulsão, provocam naturais consequências. Atacadas por todos os lados (salários e níveis de vida a baixar, desemprego a aumentar, direitos sociais a desaparecer, impostos a subir,  idades da reforma a trepar), as classes médias estão a perceber, finalmente, qual o verdadeiro sentido das mudanças ocorridas nos nossos tempos. Não apenas em Portugal, não apenas na Europa, sim em todo o Ocidente.
Um facto parece, por tão notório, incontroverso: o capital financeiro especulativo, agora em crise, é que engendrou a globalização. Não tem nem quer ter pátria, fronteiras, limites. Quer-se livre de movimentos para chegar onde o lucro seja mais fácil, rápido e chorudo... ainda que lá ponha crianças a trabalhar, escravize ou corrompa (pretensamente sem rosto, o capital com donos vê isso com absoluta indiferença embora, por outro lado, mande os seus porta-vozes reclamar direitos humanos apontando para onde lhe convenha).
A globalização é a do grande capital, não a dos povos; da ganância predadora, não a da economia. Corresponde à fase em que a concentração do dinheiro no mundo atingiu um nível tão elevado que se tornou apátrida para afirmar a sua vocação imperialista. Estas mudanças, seja qual for a situação concreta que se registe em cada país, precisam de ser percebidas rapidamente para que alguém, pelo menos uma minoria, entenda o que na verdade se passa.
Os governos, eleitos pelos cidadãos, cederam pouco a pouco e de forma sonegada, a poderes não eleitos, competências legais importantes da governação que antes exerciam. A concepção característica das funções do Estado amoldou-se aqui e ali, pela prática, a um novo paradigma. Vestiu-se o Estado neoliberal por este outro figurino: é o capital financeiro que manda nos governos, é o mercado que comanda a economia.
Uma das consequências desta evolução é a de que deixa claramente à vista que são as classes médias as primeiras a suportar o peso de cada Estado. A camada mais débil da população não paga impostos, os dirigentes políticos e os amigos financeiros guardam-se para sorte ainda melhor, ficam portanto as classes médias, da média-baixa à média-alta, sozinhas a aguentar com o orçamento. Outra consequência aparece aqui: se os segmentos contributivos se contraem violentamente, diminuindo de tamanho, isso indicará que o tamanho do Estado igualmente enfraquece.
Mas a crise financeira é mundial, os Estados ficaram tremendamente endividados e, a todo o vapor, tratam de imprimir toneladas de notas (só papel impresso, não riqueza produzida, que essa, escondeu-se misteriosamente, deixando espalhadas por todo o lado montanhas de dívidas). Interrogação basilar: será que as classes médias nacionais irão assumir e pagar as dívidas do seu país? Por exemplo, sabe-se, porque não é segredo, que a maior potência mundial tem uma dívida pública e um défice tão altos que o FMI já teria tocado a rebate se no caso não estivessem os Estados Unidos.
E por cá? O total da dívida pública portuguesa representa, ao que dizem, já 110% do PIB nacional e o país, num descalabro crescente, continua a endividar-se para pagar juros de dívidas. Se o povo pagante, o tal que lida com notas de 5, 10 ou 20 euros, quiser sacrificar-se, vai sofrer durante muitos anos. E vão chegar cá as restrições do FMI, depois Portugal será enxotado para fora da união monetária ficando a pagar, com a sua moeda nacional desvalorizada, umas dívidas antigas inesgotáveis que vão parecer eternas. Mas eu, como tantos mais, nada fiz para merecer o castigo e posso prová-lo! Resta-nos o direito de abdicar do nosso Bilhete de Identidade: também queremos ser apátridas, cidadãos do mundo registados em offshores.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Esta informação do poder...

O jornalismo de investigação, praticado como serviço informativo de interesse público isento e livre, em defesa da democracia e da liberdade, foi sempre o brasão máximo da profissão jornalística. Mas, simplesmente, acabou. O que disso resta serão incursões avulsas mescladas de algum oportunismo ao situarem-se no terreno pantanoso de meras propagandas visando desgastes eleitorais da «esquerda» orgânica integrada.
Degradou-se o poder da informação, transformada na informação do poder, não por qualquer capitulação dos jornalistas em bloco mas, simplesmente, porque a frágil flor da independência dos seus órgãos de informação caiu em mãos de quem renegava essa independência. Dispondo da propriedade dos órgãos de referência, foi fácil aos senhores do grande capital financeiro orientar e dominar a informação «conveniente». E, neste pé, será preciso repetir que os jornalistas são assalariados?
Interrogação pertinente: causou bastante estranheza a frase há tempos aqui escrita que atribuía a qualidade de jornalistas em Portugal não o Sindicato dos Jornalistas, sim a administração do órgão empregador. Mas é a realidade. Quem emprega é que inicia o caso: propõe o candidato à profissão ao Sindicato, que lhe confere ou não a carteira profissional.
Logo, uma primeira escolha é feita pelo patronato. Depois, ao exercer a profissão, cada jornalista estará integrado num setor com poucos órgãos de referência, onde abunda o trabalho precário e sem direitos e é fácil ficar com o nome «queimado». Além de que trabalha sob a alçada da lei aplicável, a começar pela Lei de Imprensa.
Maior estranheza causará decerto o facto de que a Lei de Imprensa atualmente em vigor, alterada em data memorável, obriga os jornalistas a revelar em tribunal as fontes em que beberam a informação. Ora ter a obrigação de, em juízo, proceder a tal identificação (ou ficar preso) decapitou cerce, pela última raiz, a liberdade de informação restaurada em Abril. Até alguma liberdade de expressão, assim de golpe, levou sumiço.
Admira, então, que o jornalismo presente esteja a morrer, amortalhado em tristonho demissionismo, e que os jornais percam leitores?Admira, num contexto mais lato, o escândalo contido na «Face oculta»? Quantos portugueses estarão preparados para enfrentar o perigo de uma total «italianização» da vida nacional?
As manipulações da informação até já ousam atingir esferas do poder judicial. Um escândalo recente  demonstra às claras o avanço (corruptor) da ofensiva: a grosseira deturpação do relatório da Comissão Europeia para a Eficácia da Justiça relativo a este ano. Segundo informação da agência nacional de notícias, alegadamente baseada no relatório, haveria em Portugal juízes à farta, a trabalhar pouco e a ganhar em barda.
Um comunicado da ASJP repôs logo os factos, mas a comunicação social ignorou-a quase por completo e a falsidade espalhou-se. Era a «verdade» conveniente num quadro em que as condições materiais do exercício profissional dos juízes não passam de pretexto. O que está em causa, embora omisso, é o alarme que causa entre os juízes  de carreira uns «outros»  juízes que provêm de nomeação política, deixando os primeiros a sentir cada vez mais assediada a independência do poder judicial.
O conflito vai em crescendo e não é nenhum torneio floral. Basta notar que o presidente do sindicato do Ministério Público defende, na sua interpretação da lei, a responsabilização penal dos políticos. Só quem viva nas nuvens não percebe o vento que por aqui sopra - uma nortada que parece querer envolver tudo.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Outra reflexão sobre a crise

Que dúvida pode haver? Um governo democrático é eleito para governar. Não de qualquer forma, não para desgovernar a nação, e sim de acordo com as promessas contidas no seu programa político. Se pretende governar bem, governará a favor da maioria eleitoral que lhe confiou o poder, não a favor da proteção dos interesses de uma qualquer minoria.
Se utiliza o poder que o povo lhe atribuiu para reforçar o poder de uma oligarquia, por muito poderosa que ela seja social e financeiramente, esse governo trai o mandato popular recebido. Comete uma infração gravíssima aos olhos abertos de quantos cidadãos lhe deram o voto e dá-lhes direito ao protesto e mesmo à revolta. Se as leis nacionais não punem essa infração com eficaz severidade, será porque os cidadãos desmazelaram antes os deveres da cidadania vigilante e os políticos oportunistas se aproveitaram.
Uma tal infração deve ser punível como o crime que realmente é. Dentro de um sistema autenticamente democrático, as leis e os costumes nacionais em vigência devem sancionar talhantemente esses desvios, chamando ao pelourinho da justiça os prevaricadores (assim como no caso da Islândia, que julgará em tribunal o responsável pela bancarrota).
Sem discussão, um governo que desgoverna a nação de modo desastroso comete um duplo crime: ludibria a confiança que mereceu da maioria democrática e defrauda o sistema político vigente em benefício particular de uma qualquer elite privilegiada. Utiliza o formalismo eleitoral democrático para, em última análise, agindo dentro da democracia, atentar contra a democracia, destruindo-a. Ora este é o regime que, claramente, por essencial definição, serve para proteger o pobre da violência do rico, a fraco da força do forte, aspirando a uma igualdade legal.
Eis porque nenhum sistema democrático pode considerar-se acabado, definitivo, perfeito. Ao invés, precisa de constantes aperfeiçoamentos, como pintura inacabada a caminho da perfeição final. Todavia, é neste ponto que emerge a questão: nenhuma democracia mostra hoje interesse convincente no aperfeiçoamento do sistema, tomando-o já como feito e perfeito.
A crise do nosso tempo avassala o mundo devido a diversos fatores e conjunturas, não há dúvida, mas parece óbvio que os problemas se criaram e amontoaram no seio de cada povo depois de os governantes rodearem de secretismo os negócios do Estado, afastando dos debates políticos nacionais camadas sucessivas da população. A ação governativa (para iniciados, por escassez de diálogo) foi-se limitando à esfera do poder enquanto a política se tornava espetáculo, o sistema escolar entrava na «pedagogia» do facilitismo e os media distraíam os cidadãos, retirando-os da participação política que embaraçaria os governantes... cujo ardor democrático, por sinal, se afirmaria pela inversa.  Falta agora desejar que a governação não seja mais confiada a profissionais da política nem a pessoas muito endinheiradas, ainda que tenham dinheiro para gastar pelos seus (interesses pouco) ideais. Merecem a eleição para servir o povo, sem sofisma, pessoas capazes de chamar (e não de arredar) os eleitores ao diálogo democrático permanente. [Imagem: pormenor central da pintura «A Liberdade guiando o povo», por Delacroix.]

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Reflexão em tempo de crise

É voz corrente entre os portugueses que o seu país sempre foi mal governado. Não é, certamente, a opinião da maioria mas talvez hoje seja a opinião predominante. O país debate-se com uma crise que nos últimos tempos não cessa de se aprofundar como se todos os sacrifícios já feitos, que façam ou que ainda possam fazer obriguem a novos sacrifícios.
Pensa que o país anda mal governado há muito tempo quem conhece o suficiente da sua evolução histórica e, além disso, possui opinião, isto é, alguma formação política e se pretende cidadão informado. Pertence a um estrato da população que parece não se confundir deveras com a grande maioria. Essa maioria, no comportamento eleitoral, elege os três partidos que há uns trinta anos se revesam no Governo. Em termos de definição política séria, posto que sumária, correspondem às três abordagens possíveis da mentalidade e tendência ideológica das classes médias nacionais num leque que vai da direita tradicionalista, despolitizada e conservadora ao extremo oposto, ligando com uma certa esquerda furta-cores ou, se reina o bom tempo, cor-de-rosa.
Pode então dizer-se que a presente crise (dita orçamental, mas também económica e financeira) foi provocada pelos governos que há uns trinta anos se sucedem no poder com apoio legitimário da maioria eleitoral do país. Mas neste quadro se evidenciam, à luz meridiana dos factos, as coordenadas do percurso e as contradições do caminho percorrido. Em três décadas, a governação (neoliberal) do país foi sendo entregue a políticos de carreira emanados dos três partidos com cada vez menor perfil de estadistas, compensando qualquer escassez de ideais com doses de pessoal ambição.
As transformações foram rápidas, intensas e extensas: acumularam-se no país num movimento que acompanhou de perto as transformações por que também iam passando, mais ou menos, outros países europeus e da América. As oligarquias financeiras concentravam a propriedade dos órgãos de comunicação social mais influentes e pressionavam os governantes para as pouparem a impostos, com o que subiam os défices. As classes médias foram chamadas a suportar novos impostos para compor a situação... que se agravou e jamais se compôs. Surgia, com a cumplicidade dos governos, a ditadura do capital financeiro sobre os governos.
Em traços muito grossos, foi este o processo pelo qual as classes médias, adormecidas no consumismo fácil e anestesiadas pelos media, foram sendo conduzidas para a crise. Acordaram quando o desemprego se implantou, o trabalho mal pago e sem direitos se tornou regra, o nível geral de vida desceu, os deveres do Estado social minguaram, os impostos  de quantos ganhavam menos cresceram até à exorbitância... e os bancos e toda a atividade financeira obtinham gordos lucros pagando sempre uns simbólicos impostos. Acordaram, enfim, para julgar os políticos, todos uns malandros e corruptos, que apenas querem enriquecer...
As «bolhas» a rebentar depois de incharem loucamente, a invenção dos paraísos fiscais, as fraudes e os bancos em falência vulgarizaram-se tanto como ter dívidas. Os bancos estavam atolados até ao pescoço tal como as empresas, os municípios, os clubes de futebol, as famílias - o dinheiro antes existente sumira-se vampirizado pela ganância e os governos, de cofres também vazios, apelavam para que toneladas de notas novas (dinheiro-dívida) entrassem de emergência em circulação. O rombo global foi avassalador: segundo Bruxelas, 13% do PIB dos países europeus foi absorvido em 2009 para «salvar os bancos», o que indica o tamanho monstruoso da «expropriação» operada pelos acumuladores da riqueza.
Arderam as classes médias e salvou-se o quê? Portugal está a pedir empréstimos de milhares de milhões pagando juros de cinco, seis ou mais por cento aos bancos, porque não pode - imagine-se porquê! - pedi-los ao Banco Central Europeu... que os concede a um por cento, assim proporcionando à banca intermediária gloriosos lucros. Pense cada cabeça o que quiser, mas algum motivo haverá para sustentar a ideia de que os políticos são, em cada período histórico, o espelho fiel da mentalidade e da ideologia do povo que os elege sem memória ou discernimento. [Clicar na imagem para a ampliar.]

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Convite para folgar

Nos anos da minha infância, sabíamos o que era folgar: juntavam-se as crianças e as brincadeiras surgiam. Anos decorridos, empregado e trabalhando, usufruí das folgas do meu turno. Mas o tempo passou e agora até parece que a própria palavra entrou em desuso.
O convite para folgar é aqui para valer, a sério, pois... basta de tanto sofrer! E como o cronista nada mais pode pôr aqui senão palavras (que nem inventou), peguemos nesta para nos divertirmos um pouco.
Segundo a etimologia, folgar tem raiz no latim follicare, «respirar com ruído (como o fole)». José Pedro Machado abona o termo com D. Dinis (séc. XIII), registando, no séc. XV, folga e follegar, «respirar dificilmente».
Neste ponto já estaremos a lembrar-nos das variantes do termo: folgança, folgadio, folgaz, folgura, folguedo, folgazão. Em suma, precisamos de bons foles para folgar, mas nós temo-los embora nos faltem os sete fôlegos do gato.
E aqui está como a nossa capacidade respiratória aparece associada à vontade de brincar, entendendo, muito naturalmente, que a uma ação corresponde a outra. Mais curioso ainda é ter de concluir, perante demonstrações irrefutáveis, que começamos a viver respirando corretamente para depois nos habituarmos a respirar mal. E sobra-nos o desplante para repetir que uma pessoa pode sobreviver sem comida vinte ou trinta dias, sem água cinco ou dez dias, mas sem respirar não mais de três minutos...
Respirar é função vital. Concede-nos a alma (lat., anima), que mais não é do que «sopro, ar; alento». Precisamos, pois, de respirar para ter a «alma» que as teologias garantem, sem provas evidentes, que é eterna.
As variantes lexicais do termo tinham que ser abundantes: animado, animar, ânimo, animosidade, animoso, anímico, até animável (lat. animabile, «vivificante». Respirar, então, é viver, ter animação, enfim, possuir a tal «alminha» volátil como chama de vela que um sopro extingue. Quem, embarcado no submarino da fé, se lembra do que aprendeu na catequese, passa ao largo desta ligeira abordagem etimológica, mas não o cronista: lida com as palavras (repete: que não inventou) e aprendeu a conhecê-las para além da casca, até ao grão.

domingo, 10 de outubro de 2010

Manipulação em nome da Paz

Atribuir o prémio Nobel da Paz a um dissidente preso na China mostra como estamos ainda envolvidos em ambiente de «guerra fria». Acabou, porém, o tempo do bilateralismo, no mundo reina uma única potência (hegemónica até ver). O escolhido este ano pelos académicos suecos para «acompanhar» Barack Obama poderá servir à baixa política mas não contribuirá para convencer o Governo chinês a valorizar a cotação da sua moeda por mais que Washington suplique.
E cá estamos na baixa política, ouvindo clamores em defesa dos direitos humanos e da democracia, clamores justiceiros que atravessam a Europa e percorrem talvez metade do mundo. Mas quem assim fala tão justiceiramente, fala diante de microfones e câmaras tv, ou escreve na imprensa. É a opinião publicada e publicável, a do Pensamento Único, a informação massificadora, que aceita mal a contradita ou a contestação.
Os órgãos de comunicação social, redes de televisão, imprensa e rádios ditos de referência estão concentrados e dominados por grupos poderosos. Deixaram de exercer uma função de utilidade social para servirem interesses particulares. Os caudais noticiosos diários são tratado por agências que funcionam aplicando eficazmente os dez preceitos da manipulação dos media descritos pelo prestigioso linguísta estado-unidense Noam Chomsky: procuram distrair as atenções públicas dos problemas maiores criados pelas elites políticas e económicas; criar um aperto para propor uma «soluçã(uma crise económica impõe a perda de direitos sociais ou de serviços públicos); avançar a conta-gotas com medida política tão inaceitável que provocaria uma rebelião; tornar aceitável um sacrifício futuro... porque não é imediato; falar ao público tratando-o como criança de pouca idade; convencendo-o a gostar da ignorância e a viver na mediocridade, tal como a reagir com emoção e a detestar a reflexão, ou que é  moda ser mesmo estúpido, vulgar, inculto; etc.
Assim tratado, sob a torrencial informação que o submerge, o público talvez não se lembre mais dos direitos humanos e da democracia que faltam aos palestinianos bloqueados, espoliados, massacrados e humilhados na sua própria terra; nem dos iraquianos invadidos, torturados e mortos sem culpa, apenas com petróleo; nem dos presos raptados e mantidos sem julgamento em Guantánamo; nem dos direitos humanos no Haiti, na Colômbia, no Congo, no Corno de África, de tantos negros vítimas do Katrina em Nova Orleães... Cala-te boca! Cala-te, pois a principal potência mundial e seus aliados até vem mostrando quanto respeitam as leis do direito internacional.
A grande questão é que a potência se afunda dilacerada pelas suas próprias contradições. Mas encher os noticiários com barragens de críticas ao regime que assim trata um ativista dissidente leva a perguntar: e como são tratados os ativistas (não de direita, é óbvio, tão bem vistos pela «inteligência» U. S.) que levantem voz ou mostrem punhos fechados? E, enfim, não existirá o que se cala também onde a barragem sonora é mais potente?!

domingo, 3 de outubro de 2010

Quando os livros são de cheirar...

Pegou num livro, abriu-o ao meio e, com notória avidez, cheirou-lhe as páginas. Diante das câmaras, para a televisão, disse que cheiravam a tintas, colas, e até notou a acidez do papel. Ele, um autor literário mediático, intervinha na apresentação do novo romance de outro autor literário em voga, também presente junto da rotativa da editora que lançava no tapete velozes rimas de volumes.
As sessões de lançamento das novidades editoriais até para algumas «vedetas» em promoção ficaram gastas e cansadas. Já não conseguem garantir bons resultados, atrair leitores, gerar visibilidade para o autor e o seu livro. Era preciso, portanto, introduzir no caso uma inovação: o performer.
O apresentador dispensou-se de ler a obra, de expor uma apreciação, uma leitura. Bastou-lhe o cheiro e a visão exterior. Assim declarou em público o que ao público cumpre saber e recordar: aquela novidade literária, como tantas outras em correnteza, é para ver e cheirar, não para o que serviam os livros antigos. Acredita-se, portanto, o que já se diz no meio editorial, que uns 80% dos livros não chegam a ser lidos.
Os avoengos possuíam valor e dignidade cultural. Podiam caber no bolso, ser impressos em papel rugoso e amarelado, exibir capas pobrezinhas, mas ainda hoje muitos deles são procurados nos alfarrabistas que os marcam por bons preços. Eram lidos e relidos, criticados e comentados, e ninguém se lembrou alguma vez de os cheirar.
Entrámos agora nisto, na literatura consumível. As capas aparecem cheias de cores, fortes e com altos relevos, os formatos cresceram e já não cabem num bolso, por vezes nem na estante, as lombadas abraçam já centenas e centenas de páginas de bom papel. Tudo histórias da carochinha, que é preciso consumir depressa no seu curto prazo de validade porque a máquina da produção industrial acelera às cegas.
Para ela trabalham, produzindo romances e outros textos, não «escritores», sim fabricantes de literatura cheirosa quanto baste. Escrevem guiões para telenovelas, vão ao estrangeiro aprender guionismo, arranjam agente literário, reclamam-se profissionais da escrita.  O mercado dos gostos massificados é o seu ambiente.
Edita-se muito - mais de mil novas edições por mês, mais de doze mil por ano - mas publica-se pouco. De facto, editar deixou de corresponder a publicar (pôr o livro em público, isto é, nas livrarias). Mas, decerto por isso mesmo, as tiragens desceram tanto que, ao que se diz, andam agora em geral por níveis irrisórios.
São os próprios autores que encomendam e pagam a edição da sua obra e que a distribuem por oferta ou venda direta a amigos e conhecidos. Variadas editoras entraram neste negócio do print-on-demand. Consagrou-se plenamente a consigna dos editores-patrões: são os autores que vendem as obras, não os seus editores (que as trocam por dinheiro). E é vê-los por aí a palmilharem o terreno.
Melhor sorte têm os best-sellers, evidentemente, na justa medida em que o sejam. Qualquer editor sonha com eles. E eis as consequências: a literatura de consumo, cultura de massas, é hoje a cultura popular que nos resta... e façam o favor de não perguntar, entre a aurea mediocritas, onde pára a «outra» cultura, a tal que, respeitosos, outrora até víamos escrita com maiúscula.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Vem aí a III Guerra Mundial

Apelos pacifistas percorrem o mundo. Multiplicam-se em todos os sentidos, num crescendo de alarmes angustiados. Os motivos saltam à vista: antes o mundo estava perigoso, agora está ameaçador, eis a III Guerra Mundial a bater-nos à porta.
O sistema global do capitalismo «ocidental» afundou-se  numa crise que lhe põe à prova as estruturas e os próprios alicerces. Conseguirá o sistema enfrentar e resolver a crise mantendo-se como é? Ou terá chegado a hora suprema de se regenerar?
Mas poderá o capitalismo - sistema velho, ancilosado e exausto - ter forças para verdadeiramente se regenerar? Pode o «selvagem» civilizar-se? Opiniões das mais esclarecidas são terminantes: a única saída dentro do sistema será sempre a da solução bélica.
Assim foi ao longo da história (e convém lembrá-la em atenção às semelhanças da conjuntura internacional desta crise com, por exemplo, a da época do grande crash): desemprego, inflação, governos empenhados em políticas de direita e mesmo racistas, quebra dos ritmos de atividade económica normal, desamparo social, incremento das indústrias de guerra, massas populares asfixiadas por propagandas asfixiantes, insegurança quotidiana... 
Assim foi com o nazismo e o fascismo nos anos '30, e assim decerto se irá repetir a desgraçada experiência da conflagração mundial de 1939-1945. Justificam-se, pois, os veementes apelos à paz lançados por entre os augúrios da próxima calamidade ainda que, mais uma vez, poucos queiram acreditar em tais avisos de Cassandra. De facto, Milan Kundera é certeiro na ideia de que a perda da memória das dores e das destruições sofridas numa guerra é que torna possível a repetição de tão medonha loucura.
Mas o capitalismo do século XX, alimentado a petróleo tanto quanto se sabe, vê a sua economia a descambar. Depois do desastre do golfo do México, a exploração das energias fósseis torna-se mais problemática, cara e difícil. Todavia, o Irão possui umas jazidas apetitosas (10% das reservas mundiais e de qualidade excelente), e o Médio Oriente (Síria, Líbano, Jordânia...) ainda tem muito para dar aos amigos de Israel que sorriem para os chefes da NATO.
De modo que chegamos a isto. Lamentando a sorte da Cassandra mitológica que augurava sem ninguém convencer, enquanto decorrem os preparativos finais para a guerra - que será nuclear. Recordemos então o aviso deixado por Albert Einstein: «Não sei com que armamento se combaterá na Terceira Guerra Mundial, mas na Quarta Guerra Mundial combater-se-á com paus e pedras.»
E os guerreiros serão uns desgraçados trogloditas, sobreviventes do holocausto nuclear, regressados à Idade da Pedra depois do «século do petróleo». Eis-nos a caminhar em frente, a cantar a vitória do último jogo de futebol e a discutir o melhor treinador mais precioso e capaz de afirmar a honra nacional.
Abrimos as portas e os braços para acolher de olhos fechados os horrores que não queremos ver até que nos caiam em cima e seja tarde demais. Pouco falta para que as autênticas liberdades sucumbam e alguém grite «Viva a morte». Outro alguém apontará então a pistola ao último defensor que se atreva a falar de inteligência, cultura ou humanidade.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O petróleo envenenado

Agora que as reservas mundiais do petróleo estão prestes a esgotar-se e que as do gás natural irão ter a mesma sorte, vemos chegar as mudanças. As energias renováveis aparecem como grandes «novidades» embora sejam velhinhas de um século. Chega assim a hora de começarmos a perceber toda a destruição que o famigerado «ouro negro» deixa no planeta.
É preciso juntar o que vamos sabendo. Lembrando o acidente no golfo do México, os milhões de barris vomitados no mar, soubemos há dias pelos jornais que os pescadores que limparam o petróleo derramado pelo «Prestige» nas costas da Galiza, em 2002, apresentam alterações de ADN e, além disso, têm queixas pulmonares. Ora o desastre na Galiza, ocorrido há oito anos, adverte para o que está a acontecer desde há meses no golfo do México e zonas costeiras abrangidas.
Nestes termos, ganham consistência os estudos que anunciam efeitos absolutamente catastróficos a declarar-se na área do golfo em resultado do acidente na plataforma da BP. A poluição lançada pelo colossal derrame vai dizimar a fauna e flora marítima, envenenar o ar e as terras envolventes. Prevê-se que milhões de habitantes tenham que partir dos litorais contaminados (desertificados) e serem acolhidos como refugiados, algures.
Trata-se, afinal, de uma verdadeira hecatombe, como se houve explodido ali uma potente bomba nuclear. O espanto, mesmo a incredulidade, acolhem de início tão graves sentenças? Olhemos, então, para o caso dos pescadores galegos que trabalharam na recolha dos derrames (pois não mais poderiam pescar) e têm agora alterações de ADN (que pode continuar idêntico mas com funcionamento diverso)...
Vamos podendo saber umas coisinhas e, juntando-as, chegar a conclusões - o que não é proibido e talvez até seja sinal de inteligência e consciente cidadania. Sabemos, ouvimos e lemos, por exemplo, que já andam dispersos em águas marítimas bocadinhos de plásticos microscópicos que os peixes ingerem... e nós podemos comer. A pureza das águas dos abastecimentos públicos e o ambiente respirável das cidades levanta dúvidas ou sérias reservas.
Os biólogos marinhos detetam crescentes anomalias nos sistemas reprodutores dos animais. Notam hermafroditismos ou ausências de definição sexual (condição para um animal se reproduzir), e outras malformações. É impossível não lembrar, neste quadro, o alastrar das baixas taxas de natalidade humana... e, porventura, a voga atual de certos comportamentos sexuais.
Logo, porém, é impossível parar. Outras lembranças se precipitam sobre quem não ignore as concentrações de chumbo, de mercúrio e outros químicos perigosos: os generalizados insucessos escolares, enfraquecimentos da capacidade de concentração, hiperatividade infantil, baixas alarmantes de natalidade... O petróleo, que envenenou o século XX com guerras e poluição, apenas principia agora a mostrar todo o potencial destruidor do qual brotou - dentro do efeito de estufa - uma gigantesca concentração da terrena riqueza não menos perigosa e poluente.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Somos americanos ou não somos?!

Os Estados Unidos passaram imenso tempo a guerrear para lá das suas fronteiras até afirmarem a posição imperial dominante que ocupam no mundo. A sorte mudou, porém, há nove anos com o «11 de setembro», murro violento em cara a descoberto. Então, de repente, tudo mudou, pois (graças ao «terrorismo» tão jeitoso para as políticas da direita e para as indústrias de segurança) se ouviram uns heróis europeus a clamar de imediato: «Somos todos americanos!»
Ora, vendo bem, o que nos falta para sermos todos americanos? É a pátria ideal para europeus, especialmente para portugueses. O velho continente, esta Europa que soube gerar em esplendor uma civilização, entrou em eclipse na conflagração da Segunda Grande Guerra mostrando como estava no cerne da propalada decadência do Ocidente.
Modelo de civilização passou a ser, para os europeus, não a própria Europa, sim os States. Como exemplo tomaram não o muito de bom e mesmo admirável que por lá se via para do resto fazerem imitação ou cópia servil. E assim passámos a ser todos americanos.
Sem dúvida, consumimos filmes hollywoodescos nos cinemas e nos canais de televisão, temos em casa a CNN, a Fox e etc., lemos os best-sellers dos autores ianques que o marketing nos impinge e andamos mesmo com os ouvidos cheios das cantigas das suas rádios. É já muito, é demais, mas não é tudo. Consumimos a informação que sai diariamente das tubas de propaganda imperial servida pela diligente imprensa nacional em quase quase perfeita sintonia, e tão americanos nos sentimos que já engordamos à bruta, desde crianças, com as famigeradas comidinhas rápidas.
As modas americanas são as nossas modas, é a moda global da Grande Metrópole. Até o falar americano, introduzido pelos meios audiovisuais, invade e se implanta na nossa língua materna (falada e escrita). É chique, por exemplo, articular o moderníssimo latinório media como «mídia» e rechear o discurso com bastantes locuções bárbaras.
Os europeus, sobretudo os portugueses, parece que tomam também como seus inimigos os países que Washington declara inimigos. Alinham confortavelmente ao lado da potência maior com a imensa coragem de quem isola a parte mais fraca. A destrinça fica feita: amigos e democráticos, respeitadores dos direitos humanos e das leis internacionais, são os Estados bem recebidos pela Casa Branca, os outros são «párias» ou vão a caminho de ostracização.
Que nos falta, portanto, para sermos americanos?
Eis um brinde extraordinário do «11 de setembro»! Mas quem sabe, preto no branco, o que aconteceu naquele dia em que o «terrorismo» nasceu? Ao fim de nove anos, os enigmas não se dissiparam, adensaram-se. Persistem muitas perplexidades no termo de investigações e estudos: o que aconteceu realmente com o choque dos aviões nas torres gémeas, a explosão no Pentágono, o outro avião desviado e caído algures...
Não estamos em tempo de milagres, mas acontecem autênticas maravilhas! Daqui a uns trinta, quarenta ou cinquenta anos, quando o caso estiver frio, talvez as histórias desta história mal contada venham a lume. Admiraremos então o nulo papel que Osama ben Laden terá tido nessa história?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Deus não tem mais Céu


O mistério rodeia as manifestações da vida onde e como surjam talvez porque a vida é o mistério absoluto. Sempre assim foi, de modo que esse mistério deu o berço ao nascimento das religiões. Todavia, o desenvolvimento do conjunto dos conhecimentos científicos foi crescendo ao ponto de, no nosso tempo, se extinguir até ao limite o lugar para quaisquer «explicações» religiosas do fenómeno Vida.
Não resta mais lugar para um Deus criador do mundo, os avanços da ciência extinguiram-no. O derradeiro golpe foi dado por Stephen Hawking no seu novo livro The Grand Design. Assumidamente agnóstico, o físico cósmico explica o Universo através do Big Bang primordial abolindo definitivamente a ideia teísta do criacionismo.
Na verdade, segundo afirma quem já o leu, Hawking procede neste livro a uma completa abolição da hipótese divina. Antes parecia admiti-la como hipótese última, nos limites do conhecimento, mas reafirmando o seu agnosticismo. Agora, por fim, aplicando somente as leis da Física cósmica, transpõe a última fronteira.
Degrau a degrau, sucessivamente, pode também chegar à contemplação do cosmos, ou seja, do Universo, quem se põe a cogitar (oxalá que após leituras de Carl Sagan e outros autores não menos estimulantes) nas origens do mundo e da vida. Precisa, porém, de elevar o pensamento para além do que o rodeia, não se detendo em meras aparências, e gostando de astronomia, assim como quem sobe de noite ao telhado mais alto e se demora, ali no escuro, disparando para o céu polvilhado de estrelas as suas interrogações e espantos. Decerto perceberá então que a vida, toda a vida, está contida naquela abóbada fantástica.
A ela pertence o sistema solar que integra o planeta Terra, com a natureza envolvente em cujo seio nasceu a humanidade. Afinal, tudo existe na abóbada celeste, onde tudo é tempo e espaço, isto é, matéria diversamente organizada e porventura transformável mas sempre indestrutível. Sagan o disse em síntese feliz: «somos feitos da matéria das estrelas».
Viver neste planeta sem percecionar a infinitude sideral, portanto de olhos cegos para a verdadeira luz, como toupeiras no interior dos túneis que escavam, reduz a dimensão humana à sua mais ínfima condição. Rebaixa-a hoje para além do razoável, permitindo a sobrevivência de fenómenos sociais como superstições e crendices vetustas enraizadas no íntimo de gente parada no tempo. Mas a ciência é e torna a ser perentória: a hipótese de Deus criador não tem mais Céu para reinar...

sábado, 4 de setembro de 2010

Água em garrafas de plástico

É curioso ver como certas mensagens em circulação se anulam umas às outras num despique que não aproveita a ninguém. Amigos solícitos distribuem uns avisos que nos previnem dos perigos que corremos ao consumir a água da rede pública, outros avisos alarmam-se com a «pegada humana»: as montanhas de vasilhas de água feitas de plástico a crescerem no planeta. E ninguém sabe como viver sem abastecimento de água canalizada nem exige aos respectivos governos que imponham aos vendedores de água, por lei, o uso de garrafas de vidro, material reciclável.
Os avisos são terminantes. Quem bebe da rede pública ingere, segundo lemos, um quilo de fezes num ano. Resposta risonha, a sair da manga: bebamos vinho!
Não brinquemos, então, com assuntos sérios. Porque a água dos rios que alimenta as redes públicas contém, além de restos excrementícios, vários poluentes químicos de elevada perigosidade e a esses as análises laboratoriais correntes teimam em não ligar. A poluição dos plásticos, derivados do petróleo, acrescenta-se na água aos outros elementos poluidores... e não são apenas cancerígenos.
Estamos, sem dúvida, sujeitos à poluição acumulada na atmosfera e na terra que nos dá de comer, mas lembremos que cerca de três partes do nosso corpo são compostas por água. Na base deste problema planetário gigantesco aparece em grande plano a matéria prima que transformou o século XX  no «século do petróleo». Ora as reservas mundiais estão gastas mas ainda não esgotadas, sendo de esperar, portanto, que o «século XX», com todas as suas tresloucadas tinetas, se prolongue com mais guerras, destruições e poluições ostensivas em prol de uma exploração capitalista cega e predadora.
Os malefícios gerais derivados da exploração petrolífera global são sem dúvida muito superiores e muito mais graves do que é voz corrente. Não o sabe a opinião pública generalizada porque as poderosas centrais que manipulam a informação global continuam ao serviço, filtrando (isto é, censurando) os factos «inconvenientes», a exemplo do que ocorreu com os malefícios do tabaco, tarde e a más horas reconhecidos e assentes. Mas um dia, outra vez tarde e a más horas, iremos deparar-nos com a realidade real do que foi, preto no branco, o calamitoso século XX, o do petróleo.
A Europa perdeu então o seu protagonismo.  E não só. Assistiu a guerras e conquistas abjectas, destruições criminosas, pilhagem de recursos não renováveis, imposições descaradas da força como lei quando tal convinha, redução e amesquinhamento da vivência democrática e da cidadania popular, promoção de políticos cada vez mais «cinzentos» ou mesmo medíocres para lugares cimeiros, desaparecimento de Mestres prestigiosos capazes de brilhar pela cultura humanística, o pensamento e a ética social...
Este século XX ainda não acabou porque o mundo se alimenta ainda de petróleo (até quando?!). O que foi e o que valeu no manicómio dos mais loucos comportamentos está à espera do historiador realista que lhe pinte o retrato. Essa será a herança hedionda pela qual as novas gerações julgarão e condenarão as anteriores - declarando-as estúpidas, feias e más.

NOTA ESPECIAL
Quem escreve esta coluna, sendo aprendiz confesso da vida, não é especialista em coisa nenhuma. Aqui, ao versar uma diversidade de assuntos, como é seu hábito, tem o cuidado de previamente se informar em fontes credíveis antes de botar sentença. Nesta base, divulga conhecimentos de interesse geral que os media tendem a silenciar mas que um jornalismo independente deveria informar. Sim, os media alarmariam as populações, mas cumpririam o seu dever! Porque o desafio, hoje, é: venha a esta coluna, daqui a dez, quinze ou vinte anos, alguém que leia e aponte onde o cronista errou no que anunciou ou, digamos, previu no que estava à vista no seu tempo!  

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Leituras «infantis»

O editor do meu recente livrinho de histórias para crianças contactou-me. Anunciava-me que três das suas outras edições recentes tinham sido aprovadas pelo PNL (Plano Nacional de Leitura) e pedia-me para comentar o caso. Porque o meu livrinho fora excluído da escolha dos selecionadores.
Em suma, queria conversa, mais uma conversa das nossas para se esclarecer e vencer a perplexidade. Conversa tão boa quanto outras que fomos travando nos últimos tempos, pois o homem, como editor, é «novo», embora trabalhe em livros há muitos anos. Mas, desta vez, não pude aceder ao diálogo.
O editor conhece e creio que aprecia as ideias e opiniões que defendo como autor de literatura dita «para crianças». Como poderia explicar-lhe razoavelmente o critério nebuloso que escolhia três histórias triviais, com ilustrações idem, que ele, editor, publicara movido apenas pelo desejo de vender a mercadoria depressa e bem? Na verdade, eu não entendia mais nem melhor do que ele por que decidia o PNL distinguir três obrinhas «infantis» refugando uma outra orientada com clareza, em texto e imagens, para a valorização do seu género literário.
Mas, afinal, ele percebia, e eu percebia, o que o episódio significava. Reafirmando a macrocefalia do país pequenino e o poder do lobby lisboeta, concentrava na cidade capital o Governo e toda a autoridade única de alcance nacional. Dali emanam as decisões afins de uma linha ideológica e política que não pode sofrer desvios ou distorções.
É preciso dar força ao pensamento único e instaurar o estado novo. Há uns trinta anos que o sistema de ensino e a política educativa têm vindo a avançar nesse sentido e avançando sempre passo a passo. Substituir as famosas aprendizagens pelas competências foi o primeiro passo, o facilitismo veio a seguir e agora tenta-se a abolição dos exames...
Quer dizer, não sobrecarreguemos as cabecinhas das pobres criancinhas, coitadinhas, com matérias e programas pesados, quer-se tudo ligeiro e divertido para que a escola funcione. Saem as criancinhas sem saber aritmética, português, uma noção simples de matemática? Será assim tão dramática a persistência de ileteracia e mesmo de analfabetos reais escolarizados?!
Ora há quem conteste e discuta. A literatura para crianças, em geral, afina cada vez mais pelo diapasão da «facilidade». Tudo fácil: histórias singelas, pretensamente divertidas como a cócega... e as ilustrações que as acompanham, vulgares «bonecadas», exibem a vontade de ir na onda e colher os proveitos.
Nesta situação, pergunte-se a quem de direito, adultos responsáveis, se não estarão a ser mais crianças do que as crianças que deste modo infantilizam enquanto transformam a literatura em mero negócio. São capazes de perder tempo a treinar um cão e desperdiçam-no não educando as novas gerações. As crianças dotadas possuem capacidades que podem embotar-se e perder-se, um crime sem dúvida dos mais puníveis contra os direitos da criança e da humanidade.