domingo, 24 de janeiro de 2010

Abutres sobre o Haiti

Não é pouca a coragem que se requer para abordar a tragédia que o povo haitiano vive há dez dias. Quer dizer, uma abordagem sem sensacionalismo mediático, sem jornalistas em primeiro plano e escombros ao fundo. Na ilha mártir, agora mais que nunca, poisam abutres vários atraídos pelos estendais da destruição, do sofrimento e da morte.
Há bons lucros a tirar da miséria, é só aproveitar. O caos atiça os sobreviventes de dentro e atrai a cobiça de fora. Como espectáculo geral, a tragédia é mercadoria de venda oportuna e proveitosa a explorar nos seus variados aspectos pela máquina mediática até à máxima exaustão.
Entre ajudas humanitárias de autêntica benemerência, milhares de pessoas sentem-se abandonadas, sem água, alimentos, remédios. Milhares de crianças orfãs são raptadas e levadas sem qualquer controlo para o estrangeiro por gente com intenções inconfessáveis. E ficamos a saber que há haitianos sem registo civil, sem papéis, sem escola, sem nada, incapazes de falarem francês ou espanhol e atirados no fim para a vala comum tão ignorados na morte como em vida.
Multidões de estropiados, sem pernas ou braços, documentam a violência de uma guerra que em silêncio destrói mais sem fragor de bombas. As últimas pessoas recuperadas dos escombros declaram que o seu salvamento foi um «milagre» sem todavia cuidarem de explicar que raio de força divina provocou ali o terramoto. A miséria de muitos em expansão explosiva sempre rendeu bem na terra e no céu. Os milhões das ajudas monetárias internacionais e as toneladas de géneros alimentícios largadas no terreno vão gerar alguns novos milionários - e isto, sim, será um verdadeiro «milagre».
Obama não olhou para o lado. Secundarizando a ONU, quis logo «liderar a ajuda» ao Haiti. Tomou o aeroporto e ocupou o lugar do caótico governo. Mas a intervenção, sem dúvida com aspectos humanitários positivos, conduziu ao envio de vinte mil tropas (o Afeganistão e o Iraque que esperem).
Esta intervenção despertou as memórias. Fez lembrar quantas pancadas os EUA têm dado naquela ilha mártir desde que, em 1804, os haitianos conquistaram à França a independência. Primeiras pancadas: recusaram reconhecer o novo país durante uns 60 anos e sujeitaram-no a embargo económico até 1863 (com a França, que obrigou o Haiti a pagar balúrdio pelos escravos libertos). Depois ocuparam militarmente o país entre 1915 e 1934 com imenso derramamento de sangue, apoiaram as ferozes ditaduras de «Papa Doc» e «Baby Doc», que deixaram uma enorme dívida externa, e destruíram a agricultura haitiana.
Não é tudo. Há críticas por os EUA terem apoiado em 2004 o golpe contra o presidente Aristides e gostarem de usar o Haiti para turismo sexual. Atenção, o povo da meia ilha ganha menos de dois dólares por dia. 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Este Congo que foi belga

Temos a obrigação de saber que a informação que podemos recolher em cada época é uma informação unilateral. Prefere dar voz a um só lado como se quisesse não complicar ou aliviar o discurso informativo. Mas, pior do que ser unilateral, é a informação deficiente. Omite factos que muitos anos depois, quando esses factos já não incomodam, acabam por ser divulgados entre alguma selecta minoria.
Sempre em crescendo, esta evolução tem um resultado cada vez mais óbvio e sensível: as massas afundam-se na ignorância espessa dos que se contentam com pão e circo, enquanto o acesso ao conhecimento dos factos e das realidades do mundo se torna fragmentário e rarefeito no interior de segmentos socioculturais restritos pouco menos que residuais.
A memória dos acontecimentos históricos contemporâneos anda assim a dissipar-se, levada por ventos erosivos cujas consequências poucos cuidam de medir em todos os seus alcances. Mas uma pessoa suficientemente idosa e que tenha permanecido atenta aos acontecimentos sente-se um pouco memória viva. O seu tempo é já tempo da história, podendo por isso lembrar, por exemplo, as mordaças da censura salazarista, o broto revolucionário do 25 de Abril e o baile mandado que se seguiu.
Lembrará também o que foi a descolonização em África. Precisará, porém, de ver num canal popular de tv, de sinal não aberto, um surpreendente trabalho sobre a situação na República Democrática do Congo para despertar. Português, europeu, percebe de súbito que esteve alheado daquela situação devido a um boicote informativo, porque é ingrato, melindroso, falar na Europa de assuntos africanos...
Complexos de culpa que sobram do egoísmo. Mas a situação no Congo-Kinshasa que o vídeo mostrava era terrífico, a extensão do horror acabrunhante. O banditismo generalizado, a violência sem freio, o caos total. Tomada de reféns, violações, escravatura. Miséria infernal e sem lei. Soou como um grito poderoso, lancinante, a reclamar: como é possível?, como é possível?, e nós por aqui sem saber de nada?
Foi então o momento de lembrar o título de um livro de Sidónio Muralha (1920-1982), escritor português neo-realista injustamente esquecido, e colá-lo em título desta crónica. E depois prosseguir nas lembranças para avaliar todo o sofrimento que os povos daquela antiga colónia têm vindo a suportar perante a gelada indiferença dos democratas, defensores de direitos humanos e de tanta civilização exemplar.
Atrocidades horríveis contra os africanos começaram, ao que se sabe, quando em 1884 a Conferência de Berlim outorgou ao rei belga Leopoldo II o Estado Livre do Congo como património pessoal. Época linda! Em 1908 a colónia passou a ser controlada pelo Parlamento belga mas no essencial a situação persistiu até à independência, em 1960. A conspiração imperialista interveio, o Catanga declarou-se independente, o primeiro-ministro Patrice Lumumba (2-7-1925-17-1-1961) é abatido (ele que proclamara à entrada: «A independência política não é suficiente para libertar a África do seu passado colonial, era também preciso que a África deixasse de ser controlada economicamente pela Europa»).
Na verdade, na República Democrática do Congo estavam e continuam a estar instalados poderosos interesses europeus e americanos. Exploram petróleo, ouro, diamantes e outras produções minerais, recursos florestais, etc. Pode-se dizer que a incrível miséria dos congoleses e dos bárbaros e escandalosos sofrimentos que lhes são impostos se explicam somente porque o seu país é soberbamente rico.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Obama: o homem no lugar

Quem acreditou que «o homem faria o lugar» vê Obama no poder há uns meses e já tem ao seu alcance razões sobejas para se corrigir. O lugar também  faz o homem. Porém, se estivermos diante da Casa Branca, onde mora com vasto clã o bastonário do império global, teremos de perceber que o homem é ali bem menos determinante que o lugar.
O abençoado Nobel da Paz, premiado em glória entre nuvens de incenso e cânticos de louvor à América, concorda em dotar o Pentágono com o maior orçamento militar de sempre. A América, portanto, arma-se não para impor a paz, mas para expandir a guerra. Não se pode ser império global sem assumir como obrigação sagrada o combate ao «terrorismo» onde quer que levante a crista.
Acertou na previsão quem se limitou a dizer que Obama tentaria melhorar algo da situação social interna (apesar de calamitosa, a reforma da saúde para os necessitados ficou reduzida à expressão mais simples - contempla uns poucos milhões - mas demonstra quem manda realmente no país), para deixar sem alteração todo o plano da política externa. Certo, houve uma alteração: decidiu o envio de 35 mil tropas mais para «segurar» o Afeganistão em queda.
Dissipa-se o encantamento, abrem-se os olhos. Talvez os profetas que anunciam por aí que é no Afeganistão e no Iraque que o império já está a partir e a deixar os dentes não encontrem ninguém capaz de os seguir. O ambiente mediático anda repleto de histórias mal contadas, não seremos só nós os confusos e mal informados, também os próprios profetas.
Estendem-se os conflitos pela região do Médio Oriente. O império resolve intervir no Iémen, buraco do qual em breve não saberá igualmente como sair, e controla por inteiro o corno de África. Mantém alta a pressão sobre o Irão e o apoio sem restrições à política israelita.
Apenas más línguas, com maléfico gosto pela difamação, poderão alegar que tantos conflitos imperiais se estendem na região do petróleo fácil e baratinho. Querem saber que rendimentos do seu petróleo recebeu nestes anos de guerra, até hoje, o povo iraquiano.
Entretanto, o modelo democrático que a prática política do império vai tendo em clara preferência aponta para regimes como o afegão, o paquistanês, o colombiano. A Venezuela, rica em ouro negro, sente-se rodeada por um círculo de bases militares estado-unidenses. O presidente Zelaya, das Honduras, continua refugiado na embaixada do Brasil no seu país depois de ter sido derrubado por um golpe militar que Obama não condenou e parece admitir após uma farsa eleitoral.
O homem no lugar ainda mal o aqueceu, o ano novo apenas começou, mas num instante tudo fica frio e velho sem esperar pelo tempo.