Até a jogar matraquilhos, de pulsos velozes a girar nos manípulos, as ideias fervilham no cérebro, pulam e avançam. Estou a ouvir falar de «natureza humana». Existe realmente tal coisa?
Não o afirmo nem desminto, pois a observação directa que consigo fazer da porção de realidade ao meu alcance não me atrai para resumos conclusivos. Porém, há pessoas que gostam de invocar a «natureza humana». Insistem no conceito quando ajuda à conversa, assim como quem acredita no argumento.
Para essas pessoas, a «natureza» da humanidade é imutável. Quer dizer, é selvagem, maléfica. Faz parte da espécie, portanto, nada a fazer. Como uma espécie de ADN, não há engenharia genética que nos valha.
A humanidade - logo, toda a gente - é interesseira, predadora, destrutiva. Faz a guerra por um impulso atávico incontrolável, tende a ver em cada rival um inimigo. Compreende apenas na esfera das suas motivações individuais e, se possível, os do seu clã, pois esses são reconhecidos como seus «semelhantes».
Mas este é o discurso predilecto de uma certa direita política bem caracterizada. Serve gente para a qual tudo está bem quando a gente está bem. Capaz de se regalar em mesa opípara vendo do outro lado dos vidros expressões retorcidas pelas privações e lamentando apenas, se for o caso, que tenha de colocar grades metálicas de segurança ou cortinas opacas para sumir a ralé.
Neste discurso, quem trabalha a sério, como a gente, triunfa na vida. Deus ajuda quem trabalha com fé, logo, Deus está com a gente. Se há pobreza, se a miséria abunda, isso acontece porque muito povo não quer trabalhar, sacrificar-se pela sua própria promoção.
A gente que trabalha acredita em Deus e no sucesso garantido. Assim, os pobres, todos os deserdados do mundo, provam que não acreditam autenticamente em Deus... senão seriam como «toda» a gente. Sofrem uma espécie de condenação divina... (quando, afinal, nem custa seguir os rituais da igreja... e as recompensas do céu valem a pena).
O discurso da «natureza humana» pode reconhecer que a pobreza é de regra e a riqueza a excepção em qualquer sociedade, mas não extrai as devidas consequências. Pode ver em demonstração cabal quantos pobres e deserdados em média são necessários para criar um único rico que continuará firme nas suas convicções. A «natureza humana» é a de tal gente - está ali a personalizá-la.
Se as manchas da pobreza e do desvalimento se expandem como uma pandemia por todo o lado, a boa gente teima em não ver nisso um risco para a sua bem-aventurada segurança. Confia nos dispositivos criados: leis, polícias, muros, acantonamentos e distanciamentos estratégicos, guerras se for preciso para dizimar os excedentes demográficos. Nem atenta num perturbante «modelo» que se repete a dois níveis: a percentagem da população em condições de ser considerada «pobre» no interior de cada país corresponde aproximadamente à percentagem (ou proporção) do conjunto dos países pobres existentes no quadro mundial. Cresce o número de países porque cresce no mundo a pobreza.
Todavia, neste ponto decisivo é que se ouvirá o som da pedra de toque que distingue a qualidade de cada «natureza humana» concreta. Perante outra pessoa é que, inevitavelmente, chegamos a (auto)definir a pessoa real que somos. Apontamos sempre nos outros um pouco do nosso próprio retrato... [Autor da foto: René Maltête.]



