sexta-feira, 26 de março de 2010

Entramos na nova ortografia

A língua, enquanto órgão da fala, funciona graças ao músculo mais forte que temos no corpo. Mas a língua, enquanto idioma, também tem força quanto basta. Um toque, mínimo que seja, chega para acirrar e até exaltar os ânimos.
Já o disse e repito: questões linguísticas são aborrecidas, são detestáveis, não interessam a ninguém... enquanto o assunto dorme em paz. Porém, logo que um cisco lhe mexa, entra-se no reviralho. De repente, cada falante torna-se dono da «sua» língua e não admite que lha disputem.
As coisas são assim, naturalmente. Nada a fazer. Quando uma mudança se anuncia, nem o mais acreditado linguísta consegue fazer-se ouvir e respeitar pelo menos douto dos falantes no meio da vozearia.
E foi o que tornou a acontecer perante o novo acordo ortográfico e a aplicação prática das suas normas. Muita gritaria, muita agitação. Infelizmente, não será esse o problema maior da situação actual da nossa língua materna em Portugal e no mundo.
Deficiências do ensino, agravadas por erros da administração escolar, casam-se com variadas outras deficiências que  constituem outros tantos aspectos de fragilização da norma linguística consagrada. A par do empobrecimento vocabular geral (a língua falada e escrita usa um léxico cada vez mais reduzido e uniforme, o que já torna bastante «difícil» a leitura de obras de romancistas contemporâneos, por exemplo), implantam-se atropelos como ervas invasoras em terreno não cultivado. Escrever ou falar com erros, inclusive em jornais de referência e outros meios de comunicação social como a rádio e a tv, deixou de causar mossa e merecer reparo.
O Português tem vindo a perder brilho e terreno aquém e além fronteiras em resultado da inexistência de uma verdadeira política da língua também virada para o exterior. Em face das locuções inglesas que por aí abundam e são correntes em tantas bocas nacionais bem falantes - que até articulam o vocábulo latino media à inglesa, dizendo «mídia» (mas os ingleses não são latinos!) - já nem espanta que, perante a decadência, alguém como eu teime em vaticinar um grave apagamento da nossa língua materna num breve espaço de tempo.
Neste contexto, ganha significado e sentido a CPLP, Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, e o acordo ortográfico com o Brasil e restantes países lusófonos. Estamos, finalmente, a chegar agora à respectiva aplicação. Multiplicam-se adesões pontuais aqui e ali mas entidades oficiais terão que o acatar sem demora e, entretanto, ao sector escolar a nova ortografia só chegará no próximo ano.
Continue cada pessoa a escrever conforme quiser, não irá preso por isso. Lembrando sempre que falar e escrever obedecem a regras com registos diferentes e que a norma é a norma. Ora, porque nesta página se escreve e deixei dito (em 15-09-2008) que aceitava o novo acordo, tentarei doravante respeitar o mais possível as regras ortográficas em vigor.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O que sabemos

Recapitulando a matéria como em prova de cultura geral.

Sabemos que o simples rótulo de «terrorismo» mudou de mãos. Antes serviu para denunciar acções ilegais (isto é, criminosas) dos Estados lançadas contra cidadãos. Depois passou a servir os Estados para acusar cidadãos patriotas em luta acesa contra dominação ou prepotência ilegítima.  
Sabemos que a ideologia «neoliberal» se foi instalando por força de interesses dos mais poderosos com directa influência nos governos eleitos pelo povo mas obedientes aos senhores. Leis, regulamentos e comportamentos foram abrindo caminho às «reformas» a fim de permitir uma mais rápida e voraz acumulação da riqueza. A ganância surgiu então como objectivo único a alcançar a todo o preço, incluso ao preço de fraudes colossais impunes e descaradas que desestabilizaram não apenas os sectores financeiros mundiais e desencadearam a presente crise socioeconómica.
Sabemos que a designada «globalização» encobriu, pela deslocalização das empresas, a procura e exploração de mão de obra barata onde quer que existisse, fosse quase escrava ou fosse infantil. Forçou países altamente industrializados, como os Estados Unidos, a suportar importações maciças, crescente desemprego, menos impostos cobrados, dívida pública externa galopante. A corrupção (de políticos, banqueiros, traficantes) fez multiplicar os paraísos fiscais.
Défices das contas públicas então cresceram e tornaram-se crónicos porque os senhores do dinheiro quiseram e foram conseguindo expandir isenções fiscais e receber mais apoios. Para «tapar» os buracos orçamentais, os governos venderam bocado a bocado património público do mais lucrativo e mesmo vital, por isso cobiçado pelos senhores do dinheiro que já dispunham de meios financeiros acumulados suficientes para todas as privatizações. O poder dos Estados enfraqueceu-se, depauperou-se o património público, inchou até à desmesura o poder do sector financeiro privado ao ponto de em breve se pôr a questão decisiva: o que vale um Estado que (património de um lado, dívida pública do outro) quase nada possui e continua a subir os impostos? 
Sabemos que a versão oficial dos atentados com aviões civis que inauguraram o século XXI, pulverizando três edifícios emblemáticos no centro de Nova Iorque e atingindo o Pentágono, já parece incapaz de convencer alguém com juízo próprio independente. São cada vez mais numerosos os grupos de pessoas e meios de comunicação social que levantam dúvidas avassaladoras sobre múltiplos aspectos estruturais do caso. Sugere-se assim que se tratou de mais uma conspiração horrenda levada a efeito lá onde presidentes federais e mesmo líderes religiosos como Martin Luther King são abatidos e tudo acaba envolto em mistério.
Sabemos que o unilateralismo resultou de uma superpotência que a conjuntura mundial favorável fez emergir e logo se convenceu do papel redentorista que iria cumprir no plano da história. Mas o imperium bellum cresceu desmesuradamente para dominar o mundo e já mostra não ter forças suficientes para ambição tão gigantesca. Nações rivais já lhe disputam a primazia... e torna a repetir-se a fábula: sic transit gloria mundi.
Sabemos tudo isso e o mais que fica omisso. E sabemos também que poucos somos a sabê-lo, entre as maiorias que votam escolhendo quem lhes vai dirigir os destinos e depois decide enviar para a guerra exércitos de pobres do seu país para, longe, destruirem bens e outros pobres. Se, calculando ad hoc, considerarmos que um por cento da nossa população está esclarecida e sabe, realmente sabe, teremos de reconhecer que nem toda essa população, talvez nem a metade, desejará algo que não seja a conservação da situação presente...
A política transformou-se num espectáculo, e espectáculo sobretudo televisivo, dos que têm «voz para falar». Os negócios do Estado são reservas para iniciados, não para o nível popular educado na alienação cidadã. Tudo isto adensa e atrai o perigo de uma espantosa hecatombe planetária (a final?). [Clique sobre a imagem de cada post para a ampliar.]

sexta-feira, 12 de março de 2010

Tantos livros! Asfixiantes?

Sabemos que as mudanças são cada vez mais velozes e que, em onda, envolvem «tudo». Mas não continuaremos a ver o objecto Livro de olhos fechados? Quantos advertem as mudanças radicais surgidas nestes últimos vinte, trinta anos?
As mutações foram radicais porque alteraram os sectores da edição literária, distribuição e comercialização do livro, redes de leitura. O factor mais expressivo do quadro das alterações encontra-se no aumento da quantidade de editoras em actividade, da respectiva concentração operada pelo grande capital, da diversificação das chancelas editoriais. A situação permite atingir e exceder a cifra de 1200 novas edições por mês, cerca de 15 mil por ano...
Cifra espantosa num país pequeno, sem grandes hábitos de leitura e fraco nível médio de rendimentos, que nem sequer exporta livros em quantidade significativa. Todavia, nesta base é que poderemos entender o motivo por que têm baixado constantemente as tiragens das novas edições. Mas, por isso mesmo, tem subido o seu preço (o que, por outro lado, multiplicou as feiras dos saldos e já leva editora a guilhotinar restos de edições armazenadas para poupar espaço).
Portanto, editam-se cambulhadas loucas de livros que têm tiragens cada vez mais reduzidas ou mesquinhas. Muitos não aparecem nas livrarias nem entram no mercado, onde «os que se vendem» precisam de se impor na primeira semana porque, quatro semanas depois, serão «velhos», mercadoria descartável. A rotação dos títulos e das edições vai em aceleração, o mercado fica invadido por uns poucos autores mediáticos com grandes vendas (um ou outro português, os restantes estrangeiros).
O livro transformou-se assim numa vulgar mercadoria e quase tão perecível como as couves da horta ou os iogurtes do supermercado. Faltam leitores para toda a imensa literatura que se publica. Cada autor fica na realidade contido pelo mero círculo das suas relações pessoais, a lembrar o argumento neoliberal de que «são os autores que vendem as suas obras»...
Em suma, abundam as editoras literárias activas, abundam as livrarias, abundam os postos de venda de livros e os autores a promover a venda dos seus livros no terreno... Negócio lucrativo! (E, todavia, só ingénuos estranham que tenham de ir aos alfarrabistas para encontrar as obras que querem ler porque nelas sentem a palpitação vibrante que parece ter-se perdido à medida que os novos autores aprenderam «escrita criativa».)
Há editoras que vêm publicando originais na condição de os autores adquirirem, pagando, uma parte substancial da edição. (O dinheiro de prémio literário antes recebido suportava a factura.) E agora avança-se um pouco e aparecem «editoras» que editam por encomenda directa do autor os exemplares da sua obra que ele pagará. É o print-on-demand, a suprema maravilha!
Os efeitos perversos destas mudanças são variados e são visíveis. Haja olhos.

domingo, 7 de março de 2010

Hipnotização pela tv

Detenho-me diante de um ecrã de televisão. Como traça voadora,  fico de olhar atraído por uma sucessão vertiginosa de imagens ali a derramar-se em cachoeira. O ritmo frenético mantém-se, perdura, transforma-se mesmo na característica principal do programa.
As imagens em torrente não me deixam pensar. Nem posso respirar. Encadeado, vejo-as alternarem-se sem tempo para poder percebê-las, pois outras imagens se sucedem, e mais outras, e outras, num corrupio sem fim... 
Afasto o olhar, saio do local e liberto-me da sufocação. Aguentei-o apenas um minuto e todavia ainda o recordo. Aquele programa, àquela hora da tarde, destinava-se a público muito jovem, ávido de velocidade e vertigem tanto como de cérebro esvaziado, comida rápida e batata frita.
As suas imagens soltas eram outros tantos planos que se mantinham no ecrã por uns segundos brevíssimos. Ofereciam-se ao olhar sem lhe permitirem um visionamento mínimo, pois logo outra imagem-plano surgia em catadupa. Não davam a ver: cegavam, hipnotizando.
Considerei então que naquele programa se continha uma impressionante manifestação da doideira geral que avassala o mundo. Lembra, por contraste, a aceleração que todos os aspectos da nossa vida quotidiana vem sofrendo desde os anos '50. Aceleração brutal, podemos senti-lo hoje, revendo velhos programas televisivos que se conservam no celuloide ou filmes, por exemplo de Carl Theodor Dreyer (1889-1968) ou de Manoel de Oliveira.
Alguns filmes destes realizadores contém cenas com planos fixos que chegam a manter-se durante largos minutos e atingir mesmo quase meia hora. Evocam assim algo inerente ao palco de teatro que chama o espectador a uma participação o mais possível aprofundada e inteligente. Mas o advento da televisão popularizou o pequeno ecrã, impondo como se sabe a estética do grande plano e, em seguida, encurtando a respectiva duração.
Escasseiam os convites para «ver», ver realmente, e para pensar. Talvez isso possa incomodar o sono dos senhores do mundo e fazer doer alguma cabeça que pensa! Logo, aí temos o programa de ritmo alucinante na vanguarda, a abrir ou a sondar caminho.
Notem-se os últimos avanços das neurociências. Investigam até ao supremo requinte da minúcia, apurando como funcionam as emoções e os impulsos mais íntimos a que obedecem os seres humanos. A publicidade e o marketing interessam-se por tais avanços (aliás, desde o princípio do século XX), avanços que fazem crescer a manipulação dos comportamentos ao serviço dos dominadores do mercado e das consciências.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Cantinho livre só escondido

O entrevistador experiente sabe como o político é hábil a responder a tudo menos ao que lhe perguntou e valeria a pena saber limpamente. Mas a habilidade de quem fala «à política» alargou-se e anda agora na boca de qualquer língua de pau. Perguntamos se amanhã vai chover a quem logo nos pergunta se precisamos de guarda-chuva... porque tem loja de guarda-chuvas.
O espaço da comunicação interpessoal, sobretudo, encheu-se de ruídos fáticos, viciosos e parasitários, sem qualquer função apelativa, que enredam e atrapalham ou chegam mesmo a obliterar o sentido das mensagens. A comunicação social também se deixou invadir pelo gosto da desconversa malandra e assim se encheu a actualidade de questões distorcidas. Preso numa espécie de jogo de espelhos deformantes, o país informativo pôde equacionar durante uma semana se haveria em Portugal défice de liberdade de expressão...
Porém, não era esse o tema em foco, o que importava analisar. Era desconversa malandra. Existe liberdade de expressão, liberdade de imprensa, mas o nó do problema (logo submergido pelas enxurradas no Funchal) era outro e mal foi aflorado.
Realmente, o que mais importa nem sequer consiste em averiguar se temos em circulação uma informação pluralista. Acima de tudo, importa saber se essa informação é tão abundante e variada quanto convém ao pluralismo e à participação cidadã. Primacialmente, que qualidade e grau de transparência autêntica atinge esse pluralismo concretizado.
Neste ponto, sim, estava o busílis. Visível como o icebergue que mostra apenas uma pequena parte do volume que esconde na água.
A informação tornou-se cada vez mais homogénea devido ao seguidismo dos órgãos (é possível, por exemplo, ver em noticiários da tv um mesmo tema tratado da mesma forma e simultaneamente por diversos canais). Nos jornais e na rádio reina idêntica homogeneização, produtora de monotonia. Deve-se isso ao conformismo instalado e à concentração dos órgãos numas poucas mãos "idóneas" (que alterou o panorama nacional dos media).
A ideologia que os factos noticiados transportam em textos e imagens, para além de uma evidente parcialidade, assume claras orientações de direita. Todavia, o alinhamento eleitoral da maioria dos cidadãos é de esquerda, donde se conclui que o público consome imprensa de direita, sendo maioritariamente de esquerda, talvez por não ter outra.
Impôs-se, portanto, uma uniformização da informação predominante. Uns órgãos que aparecem a parangonar escândalos avivam a concorrência meramente em busca de audiências ampliadas ou tiragens extra da última edição. Alvejam o que se lhes afigura «de esquerda», no interesse de certos partidos conservadores, enquanto cuidam do próprio negócio.
Assim, a informação que circula por aí revela escasso pluralismo. A uniformização trouxe uma normalização com marcas conservadoras de direita. Algum motivo têm, então, quantos opinam que a informação e o jornalismo estão a entrar em descrédito e falência, considerando que os espaços de verdadeira liberdade que restam são cantinhos escondidos como este onde podemos encontrar-nos e dialogar entre nós.