A língua, enquanto órgão da fala, funciona graças ao músculo mais forte que temos no corpo. Mas a língua, enquanto idioma, também tem força quanto basta. Um toque, mínimo que seja, chega para acirrar e até exaltar os ânimos.
Já o disse e repito: questões linguísticas são aborrecidas, são detestáveis, não interessam a ninguém... enquanto o assunto dorme em paz. Porém, logo que um cisco lhe mexa, entra-se no reviralho. De repente, cada falante torna-se dono da «sua» língua e não admite que lha disputem.
As coisas são assim, naturalmente. Nada a fazer. Quando uma mudança se anuncia, nem o mais acreditado linguista consegue fazer-se ouvir e respeitar pelo menos douto dos falantes no meio da vozearia.
E foi o que tornou a acontecer perante o novo acordo ortográfico e a aplicação prática das suas normas. Muita gritaria, muita agitação. Infelizmente, não será esse o problema maior da situação actual da nossa língua materna em Portugal e no mundo.
Deficiências do ensino, agravadas por erros da administração escolar, casam-se com variadas outras deficiências que constituem outros tantos aspectos de fragilização da norma linguística consagrada. A par do empobrecimento vocabular geral (a língua falada e escrita usa um léxico cada vez mais reduzido e uniforme, o que já torna bastante «difícil» a leitura de obras de romancistas contemporâneos, por exemplo), implantam-se atropelos como ervas invasoras em terreno não cultivado. Escrever ou falar com erros, inclusive em jornais de referência e outros meios de comunicação social como a rádio e a TV, deixou de causar mossa e merecer reparo.
O Português tem vindo a perder brilho e terreno aquém e além fronteiras em resultado da inexistência de uma verdadeira política da língua também virada para o exterior. Em face das locuções inglesas que por aí abundam e são correntes em tantas bocas nacionais bem-falantes - que até articulam o vocábulo latino media à inglesa, dizendo «mídia» (mas os ingleses não são latinos!) - já nem espanta que, perante a decadência, alguém como eu teime em vaticinar um grave apagamento da nossa língua materna num breve espaço de tempo.
Neste contexto, ganha significado e sentido a CPLP, Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, e o acordo ortográfico com o Brasil e restantes países lusófonos. Estamos, finalmente, a chegar agora à respectiva aplicação. Multiplicam-se adesões pontuais aqui e ali mas entidades oficiais terão que o acatar sem demora e, entretanto, ao sector escolar a nova ortografia só chegará no próximo ano.
Continue cada pessoa a escrever conforme quiser, não irá preso por isso. Lembrando sempre que falar e escrever obedecem a regras com registos diferentes e que a norma é a norma. Ora, porque nesta página se escreve e deixei dito (em 15-09-2008) que aceitava o novo acordo, tentarei doravante respeitar o mais possível as regras ortográficas em vigor.




