Um texto literário não se deixa apenas ler, sabemo-lo. Na medida em que é lido transforma-se numa espécie de espelho e quem o lê sente-se interrogado. O leitor, em resposta, define-se explicando como lê quem é.
Ler implica assim uma interação gerada entre um e o outro, apostos num diálogo que expõe o leitor depois do autor publicado. Verifica-se então que a leitura, ou releitura, exercita a liberdade interpretativa vivificadora do texto coisificado. Os sentidos não estarão apenas na obra aberta, também de algum modo se anunciam no leitor.
Enfim, o que uma obra mais pede e agradece é que o leitor a reescreva para si. Ora é isto mesmo que um livrinho meu, de contos, está a merecer no blogue de Jorge Candeias. Este escritor, com largo percurso na Net e óbvia inclinação para as designadas ficção científica e literatura fantástica, atentou n'O Vírus Entranhado (Campo das Letras, 1999) e começou em Fevereiro a editar breves apreciações a cada conto do volume.
Primeira nota de agrado que me deu a recolher: trata-se de um blogue onde se comentam ficções daqueles géneros. Logo saltou a segunda: Jorge Candeias escreve bem, num estilo correto, vivo e desembaraçado. Gostei ao ponto de incluir nos «Outros blogues», aqui ao lado, o atalho (endereço: http://lampadamagica.blogspot.com/).
Todavia, Jorge Candeias não me poupa. Prefere falar claro e faz muito bem, só tenho que agradecer. Começou pegando em «O candidato» numas linhas de que destaco: «É um bom conto mainstream, que além de estar bem escrito está também bem concebido e reflete, desta vez com subtileza, sobre a natureza da atividade jornalística. Bem melhor do que vários dos contos anteriores.» (Data: 01-02)
Considerou «Ponte franca» a seguir: «é um conto mainstream e epistolar.» Acrescenta: «É um conto irónico e bem concebido e executado. Um bom conto, portanto.» (em 15-03)
Mas Jorge Candeias tem gosto formado, sabe ser exigente. «A verdadeira história de uma descoberta» teve restrições: «o conto tem esse tipo de fantasia surrealista. E é bastante interessante até chegar ao fim. O problema é o fim. [...] Não é um fim em aberto, mas uma história abandonada naquele ponto.» (em 21-03) Quererá ele terminá-la?
Mas Jorge Candeias tem gosto formado, sabe ser exigente. «A verdadeira história de uma descoberta» teve restrições: «o conto tem esse tipo de fantasia surrealista. E é bastante interessante até chegar ao fim. O problema é o fim. [...] Não é um fim em aberto, mas uma história abandonada naquele ponto.» (em 21-03) Quererá ele terminá-la?
Chegou a vez de «O jardineiro descalço»: é um «conto vagamente fantástico»... Mas «o fantástico que há no conto é mais questão de ambiente do que de outra coisa qualquer.» «Muito todoroviano.» (em 06-04)
Vi mais dois contos apreciados. «Toda a nudez»: «Lírico e alegórico»... «literatura simbólica», da qual diz que não gosta muito, embora não desgostando (em 12-04); e «O vírus entranhado», que dá o título ao volume: «conto completamente alegórico»... «achei-o bastante fraco, um dos piores do livro» (em 19-05).
Vi mais dois contos apreciados. «Toda a nudez»: «Lírico e alegórico»... «literatura simbólica», da qual diz que não gosta muito, embora não desgostando (em 12-04); e «O vírus entranhado», que dá o título ao volume: «conto completamente alegórico»... «achei-o bastante fraco, um dos piores do livro» (em 19-05).
Somo seis referências e a colectânea tem 13 contos - número aziago? - logo, esperemos outras apreciações. Entretanto, eis-me feito autor de literatura fantástica com aquelas histórias muito metafóricas escritas ainda nos anos '80 e comentadas em 2010 por autor que se declara um pouco avesso à linguagem simbólica. Decerto foi atraído pelo vírus legível na capa (lembro: não aprovada por mim, disparate na editora em pausa de férias). [Ilustração: por Louis M. Moll.]






