Atualmente, escasseia a literatura que não atenda às preferências do mercado, isto é, ao gosto popular. Logo, muita «escrita criativa» atenta ao buraco da agulha, muito sobrenatural povoado de vampiros, fantasmas, feitiçarias e prodígios mil, de mistura com novelas policiais ou de reminiscência histórica, ficção dita científica... Ao leitor, cansado de lantejoulas e pechisbeques, resta virar-se para a estante dos «clássicos«» pega num volume ao acaso e sai-lhe o Eça, o sempre novo... de Queirós.
É o volume das Notas Contemporâneas. Pesado. Mas não terá lido o leitor a obra de Eça umas quatro vezes, e quase toda ela de cada vez, ao longo da sua vida? Pois, agora não vai reler o relido, apenas debicar o texto para o recordar.
Abrem-se as folhas e o olhar poisa no início da parte II de «Positivismo e Idealismo», datado de 1893, onde Eça aponta que a «reacção contra o positivismo científico mais decidida e franca é em matéria religiosa.» Terá isto sido realmente escrito há mais de um século?Eis prosa queirosiana:
«Ah! o nosso velho e valente amigo, o livre-pensamento, vai atravessando realmente uma má crise! Talvez a mais aflitiva que ele tem afrontado, desde que nasceu sob os claros céus helénicos e que balbuciou as suas primeiras lucubrações cósmicas e éticas, sobre os joelhos de Tales e de Sócrates. // Este pobre livre-pensamento está com efeito passando por aquela tortura, que ele já infligiu ao cristianismo no tempo de Voltaire, que é a mais humilhante que pode sofrer uma filosofia, - e que consiste em ser troçado, crivado de pilhérias, apupado pelas ruas como um chéché de entrudo. Quem jamais o diria? O livre-pensamento chasqueado alegremente, neste século...»
Eça apoia-se no discurso de um certo sr. Aulard que, «dos cimos da Sorbonne», lamenta «que o livre-pensamento está sendo, neste Paris da terceira República, ainda mais achincalhado do que o catolicismo no Paris de Luís XV, quando Voltaire era rei». Pior ainda, «o livre-pensamento está fora de moda, entre a mocidade. Hoje, neste ano de 1893, é de mau tom em Paris ser livre-pensador!»
Acrescenta Eça: «Tudo isto é desolador. Tanto mais que ao lado deste movimento negativo contra o positivismo - surge e cresce paralelamente um movimento afirmativo de espiritualidade religiosa. (...) É uma outra e renovada ansiedade de descobrir neste complicado universo alguma coisa mais do que força e matéria; de dar ao dever uma sanção mais alta do que a que lhe fornece o código civil; de achar um princípio superior que promova e realize no mundo aquela fraternidade de corações e igualdade de bens, que nem o jacobinismo nem a economia política podem já realizar; e de achar, enfim, alguma garantia da prolongação da existência, sob qualquer forma, para além do túmulo.»
Deixam os olhos estas páginas com desgosto, a prosa queirosiana é sempre apetitosa e suculenta. Mas não estando em causa, no nosso tempo, a defesa do positivismo do século XIX, e notando, por outro lado, a recrudescência do fenómeno religioso no século XXI, apelemos então para o livre-pensamento. Parece-nos que o avanço daquele resulta do definhamento deste, por muito que isso custe ao autor de O Crime do Padre Amaro.
Em moda, hoje, estão crenças teístas as mais retrógradas, não a liberdade do pensamento, por mais que os dados da ciência tenham contribuído decisivamente para a correta compreensão dos fenómenos do mundo e da vida. Subalternizado, ou subjugado por catecismos doutrinais, o pensamento afundou-se nos pântanos do conformismo e da passividade onde nem chega já a artimanha silogística do livre arbítrio. Livre, resta o direito do indivíduo massificado à submissão e ao apagamento da própria identidade no interior do rebanho.
Pensar pela própria cabeça - que permite erguer a condição humana à sua mais rutilante dignidade - já parece desafio temerário de mente radical. Todavia, é pelo livre-pensamento que se faz livre o cidadão. O que explica, afinal, o que por aí vemos: o «patriotismo» a manifestar-se, em apoio ao campeonato de futebol, com bandeiras nacionais à janela. Poucas...
Pensar pela própria cabeça - que permite erguer a condição humana à sua mais rutilante dignidade - já parece desafio temerário de mente radical. Todavia, é pelo livre-pensamento que se faz livre o cidadão. O que explica, afinal, o que por aí vemos: o «patriotismo» a manifestar-se, em apoio ao campeonato de futebol, com bandeiras nacionais à janela. Poucas...





