quinta-feira, 24 de junho de 2010

Com Eça, livre-pensador

Atualmente, escasseia a literatura que não atenda às preferências do mercado, isto é, ao gosto popular. Logo, muita «escrita criativa» atenta ao buraco da agulha, muito sobrenatural povoado de vampiros, fantasmas, feitiçarias e prodígios mil, de mistura com novelas policiais ou de reminiscência histórica, ficção dita científica... Ao leitor, cansado de lantejoulas e pechisbeques, resta virar-se para a estante dos «clássicos«» pega num volume ao acaso e sai-lhe o Eça, o sempre novo... de Queirós.
É o volume das Notas Contemporâneas. Pesado. Mas não terá lido o leitor a obra de Eça umas quatro vezes, e quase toda ela de cada vez, ao longo da sua vida? Pois, agora não vai reler o relido, apenas debicar o texto para o recordar.
Abrem-se as folhas e o olhar poisa no início da parte II de «Positivismo e Idealismo», datado de 1893, onde Eça aponta que a «reacção contra o positivismo científico mais decidida e franca é em matéria religiosa.» Terá isto sido realmente escrito há mais de um século?Eis prosa queirosiana:
«Ah! o nosso velho e valente amigo, o livre-pensamento, vai atravessando realmente uma má crise! Talvez a mais aflitiva que ele tem afrontado, desde que nasceu sob os claros céus  helénicos e que balbuciou as suas primeiras lucubrações cósmicas e éticas, sobre os joelhos de Tales e de Sócrates. // Este pobre livre-pensamento está com efeito passando por aquela tortura, que ele já infligiu ao cristianismo no tempo de Voltaire, que é a mais humilhante que pode sofrer uma filosofia, - e que consiste em ser troçado, crivado de pilhérias, apupado pelas ruas como um chéché de entrudo. Quem jamais o diria? O livre-pensamento chasqueado alegremente, neste século...»
Eça apoia-se no discurso de um certo sr. Aulard que, «dos cimos da Sorbonne», lamenta «que o livre-pensamento está sendo, neste Paris da terceira República, ainda mais achincalhado do que o catolicismo no Paris de Luís XV, quando Voltaire era rei». Pior ainda, «o livre-pensamento está fora de moda, entre a mocidade. Hoje, neste ano de 1893, é de mau tom em Paris ser livre-pensador!»
Acrescenta Eça: «Tudo isto é desolador. Tanto mais que ao lado deste movimento negativo contra o positivismo - surge e  cresce paralelamente  um movimento afirmativo de espiritualidade religiosa. (...) É uma outra e renovada ansiedade de descobrir neste complicado universo alguma coisa mais do que força e matéria; de dar ao dever uma sanção mais alta do que a que lhe fornece o código civil; de achar um princípio superior que promova e realize no mundo aquela fraternidade de corações e igualdade de bens, que nem o jacobinismo nem a economia política podem já realizar; e de achar, enfim, alguma garantia da prolongação da existência, sob qualquer forma, para além do túmulo.»
Deixam os olhos estas páginas com desgosto, a prosa queirosiana é sempre apetitosa e suculenta. Mas não estando em causa, no nosso tempo, a defesa do positivismo do século XIX, e notando, por outro lado, a recrudescência do fenómeno religioso no século XXI, apelemos então para o livre-pensamento. Parece-nos que o avanço daquele resulta do definhamento deste, por muito que isso custe ao autor de O Crime do Padre Amaro.
Em moda, hoje, estão crenças teístas as mais retrógradas, não a liberdade do pensamento, por mais que os dados da ciência tenham contribuído decisivamente para a correta compreensão dos fenómenos do mundo e da vida. Subalternizado,  ou subjugado por catecismos doutrinais, o pensamento afundou-se nos pântanos do conformismo e da passividade onde nem chega já a artimanha silogística do livre arbítrio. Livre, resta o direito do indivíduo massificado à submissão e ao apagamento da própria identidade no interior do rebanho.
Pensar pela própria cabeça - que permite erguer a condição humana à sua mais rutilante  dignidade - já parece desafio temerário de mente radical. Todavia, é pelo livre-pensamento que se faz livre o cidadão. O que explica, afinal, o que por aí vemos: o «patriotismo» a manifestar-se, em apoio ao campeonato de futebol, com bandeiras nacionais à janela. Poucas...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Depois do vírus entranhado

Mantenho uma grande relutância em falar de mim, dos meus livros. Sempre achei mais interessante ouvir cantar os outros do que abrir a própria boca para arejar o ego. Mas há excepções que me puxam para fora do hábito da modéstia e então...
O título destas linhas recorda o meu livro de contos saído em 1999 e apreciado num blogue em termos que comentei há dias na crónica «A obra também lê o leitor» (28 de Maio). A seguir encontrei-me com amigos na Feira do Livro e a conversa recaiu sobre a mesma obra porque eles a tinham pescado num stand. Verdade consensual entre nós: fora de dúvida, a obra também lê o leitor (na medida em que na leitura se espelha a personalidade do leitor), ponto este que explica como a apreciação do autor do blogue, Jorge Candeias, se reviu mais na obra do que terá sido capaz de a perceber.
O que o blogger quis achar no livro era, sem segredo, o que lhe interessava: literatura fantástica e ficção científica, caminho que pode comunicar com algum «mundo» cultivando a história pela história. Não percebeu, portanto, o realismo contido nas metáforas e alegorias das narrativas. Melhor leitura foi, afinal, a de uma jovem jornalista que na sua recensão, se bem me lembro, notou no livro um «pessimismo» de quem temia os nebulosos perigos do milenarismo...
Realmente, em 1999, estávamos prestes a largar o escudo e a entrar no euro, a discutir se o novo milénio começava no ano dois mil se no ano seguinte, e com insónias porque os sistemas informáticos iriam estoirar com a mudança da numeração automática dos anos... Mas havia percepções menos superficiais que anunciavam mudanças mais peremptórias. Os treze contos, escritos no fim dos anos '80, avisavam precisamente de que o dito «vírus» estava «entranhado».
Debatemo-nos desde então em plena crise desatada. O vírus agiu como um exército de térmitas, invadiu e corroeu por dentro as estruturas financeiras, económicas e sociais em que vivemos e que vemos por aí em queda livre, a desabar como castelos de cartas ao vento desabrido de janela aberta. Ora este blogue é disso mesmo que vem falando como quem põe cartas de chumbo em cima da mesa.
Entre o meu livro de 1999 e este meu blogue existe portanto uma relação. A viragem que ali se exprimia com toques surreais e de alguma loucura já instalada evidenciou-se plenamente através do mundo. Hoje ninguém duvida da «crise»  que dizima as classes médias porque a sente e lhe dói na pele. Mas continuará a duvidar de quem lhe anuncie a próxima viragem que se prepara: a de um possível «governo planetário» da alta finança, nomeado e a funcionar oficialmente para governar a crise provocada pela alta finança...
O bichinho trabalha no escuro e as populações têm mais com que se preocupar. Faltam os empregos e o dinheiro para consumir, e consumir, e consumir, até faltam pão e circo para distrair e aliviar o stress. Por isso as populações em confusão já imploram: oxalá apareça quem queira tomar conta disto tudo! Como crianças grandes, ainda acreditam no Pai Natal. [Foto aérea: imagem da poluição industrial. Clique para ampliar.]

domingo, 13 de junho de 2010

Em defesa da biodiversidade

Nos campos natais da minha infância via espécies de flora e fauna que desapareceram há tantos anos que hoje já quase ninguém lembra. E, façam o favor, serão três quartos de século assim tantos anos? É a duração média de uma vida na atualidade, quando, por contraste, aumenta a extinção de espécies, imensas variedades de plantas e bichinhos que nem chegam a ser conhecidas e estudadas.
Sabemos, porém, que o equilíbrio natural assenta em sistemas de extrema delicadeza e complexidade e que a intervenção humana não cessa de os agredir como se o equilíbrio natural estivesse garantido no céu contra todos os riscos. É um comportamento irracional, ameaçador e suicida, que se estende ao planeta todo. Governantes e poderosas multinacionais dispõem do mundo como senhores absolutos e até ousam autorizar a introdução de mais e mais organismos geneticamente modificados (OGM) estando longe de conhecer todas as consequências desses actos.
A biodiversidade está em crise  e, curiosamente, não apenas no interior da natureza ameaçada. Também na esfera do social avança um processo idêntico. A diversidade humana das opiniões está a ser esmagada no terreno das mentalidades pelo rolo compressor do Pensamento Único.
Efetivamente, torna-se não menos necessária, pois é mesmo imprescindível, uma biodiversidade de ideias correntes para garantir a renovação da vida. Ora não é isso o que podemos ver. De telecomando na mão, percorremos cinquenta ou mais canais de tv por cabo e a monotonia é total: os canais de notícias dão  informações idênticas e os outros, de «género» (desporto, cinema, música, infantil, etc.), especializaram-se tão a preceito que ficaram previsíveis de tão repetitivos.
Os jornais e revistas entraram na onda. Imitam-se uns aos outros de tal jeito que o discurso da informação nem atina como pode renovar-se para adiar a morte que a descida constante das tiragens anuncia. Mesmo a edição literária trabalha bastante nesse sentido, depois de banalizar o livro transformando-o em vulgar mercadoria consumível pelo mercado.
Na ordem social reinante, assim conformada, evitam-se temas e questões incómodas, polémicas, trabalhosas. Discutir, sim, apenas o campeonato de futebol e coisinhas familiares, pacatas e pacíficas que felizmente animem a malta e desatem as línguas açaimadas.
Insulta a mediocracia do ambiente quem aparece a saber algo mais do que o vulgo sabe. Quem mostre duvidar, por exemplo, que Hugo Chávez não é um ditador, que o Irão mente porque quer ter bombas nucleares (para defender o seu petróleo teimando em o trocar por euros?), que a Coreia do Norte ameaça muito mais do que o presidente deposto do Haiti... com certeza não acredita na Casa Branca e no Pentágono. Pratica um sacrilégio. Porque na ordem social reinante toda a gente sabe distinguir os regimes e países que são declarados amigos e democráticos, dignos de simpatia, graças às ideias  superiormente postas a correr. A gente, assim de cabeça feita, nem precisa mais de pensar!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O povo eleito por Deus

O argumentário de uma posição que se pretenda englobante sacrifica aspectos tidos como dispensáveis para, acima das controvérsias, afirmar a questão essencial que lhe importa. Porém, uma opinião pessoal é livre. Solta a voz sem atender a conveniências e aponta a eloquente verdade de factos.
Na antiga Palestina, tudo se carrega de idade e de história, tudo se enreda, mistura e complica. Daquele cesto, pegar numa cereja mexe facilmente com um passado de três mil anos. Interesses contrapostos acendem os conflitos.
Existem, todavia, factos indesmentíveis que resistem e perduram e que nenhuma máquina de propaganda das mais poderosas consegue esconder. A criação do Estado de Israel advém do projeto sionista concebido por Theodor Herzl, autor do livro «O Estado Judaico» (1895, em inglês no ano seguinte), e mentor do primeiro congresso sionista em 1897. Raiou então a ideia de criar uma pátria na Palestina para o Judeu Errante (em diáspora desde a Idade Média).
Ben-Gurion e outros, aproveitando conjuntura favorável (o famoso Holocausto), fundaram Israel em 14-05-1948. Mas os novos cidadãos daquele Estado saíam das suas pátrias, que abandonavam, e obtinham dupla nacionalidade. Desde então, os palestinos viram chegar, ao país multissecular que era deles, levas de estrangeiros em número crescente e foram sendo escorraçados das suas casas, das suas terras.
Eram israelitas, hebreus, judeus? O povo do Talmude? Distingue-os a religião hebraica?
Com o Livro na mão, os invasores ocuparam pouco a pouco a Palestina e acabaram por riscá-la de todo do mapa. Com o direito, divino, conferido pelo Livro. É sagrado, declara-os povo eleito por Deus... e Deus, mesmo para monoteístas, não é só um.
Quatro milhões de palestinos tiveram de fugir para o exílio, levando consigo, por vezes, apenas a chave das suas habitações. Com a Guerra dos Seis Dias, em 1967, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia ficaram sob ocupação militar. Na Cisjordânia alastram os colonatos ilegais.
O terreno vai sendo dividido por um outro «muro da (des)vergonha». Em Gaza, mais de um milhão de habitantes, depois de bombardeados, resistem a um bloqueio terrestre, naval e aéreo que é imoral, criminoso, intolerável. Como entender tanta luta pela terra (santa) com armas desiguais e violência descomedida?
O assalto, com mortos e feridos, a dois barcos a caminho de Gaza com ajuda humanitária, em águas internacionais, é crime gritante que não pode ficar impune. Mostra toda a prepotência de uma política apostada em dizimar um povo oprimido, sitiado e espezinhado por força bruta. A indignação e a revolta tornam-se aqui um dever de consciência. 
Consta que Israel possui centenas de bombas nucleares. A explicação, porém, estará no «amigo americano», que dá dinheiro e apoio político tão incondicionais que até já perguntam quem manda em quem. Todavia, a forma como foram tratados os índios americanos pode ser inspiradora...
Eis-nos, assim, transportados do século XXI para um tempo miserável (sem lei), bárbaro e selvagem, que permite e legitima conquistas feitas a ferro e fogo na cara da humanidade estupefacta.

domingo, 6 de junho de 2010

Bloqueio de Gaza: violência e vergonha

O ataque mortal de Israel à frota de barcos humanitários que iam em direção a Gaza chocou o mundo.
Israel, como qualquer outro Estado, tem o direito a defender-se, mas isso foi um uso abusivo de força letal para defender o bloqueio vergonhoso de Israel a Gaza, onde dois terços das famílias não sabem onde encontrar a próxima refeição.
As Nações Unidas, a União Europeia e quase todos os outros governos e organizações multilaterais têm pedido a Israel para acabar com o bloqueio, e para lançar uma profunda investigação sobre o ataque à frota. Mas sem pressão maciça dos seus cidadãos, os líderes mundiais vão limitar sua resposta a meras palavras – como já fizeram tantas vezes.
Vamos gerar um clamor global tão alto que não possa ser ignorado. [Está em curso uma] petição para exigir uma investigação independente ao ataque, a responsabilização dos culpados e o fim imediato do bloqueio à Gaza. A petição será entregue às Nações Unidas e aos líderes mundiais assim que alcançar 500.000 nomes – e novamente a cada oportunidade, à medida que a lista for crescendo e que os líderes forem reagindo à situação. Uma petição massiva num momento de crise como este pode demonstrar aos que estão no poder que declarações e notas à imprensa não são suficientes – que os cidadãos estão prestando atenção e demandam ações concretas.
Enquanto a União Européia decide se irá expandir as relações comerciais com Israel, e Obama e o Congresso Americano definem o orçamento de ajuda militar a Israel para o ano que vem, e vizinhos como a Turquia e o Egito decidem os seus próximos passos diplomáticos – vamos fazer com que a voz do mundo não seja ignorada. É tempo de verdade e de responsabilizar os culpados pelos ataques aos navios, e é tempo de Israel respeitar o direito internacional e acabar com o bloqueio a Gaza.
A maior parte das pessoas em qualquer lugar ainda compartilha o mesmo sonho: que haja dois Estados livres e viáveis, Israel e Palestina, que possam viver em paz lado a lado. Mas o bloqueio e a violência usada para o defender envenenam este sonho. Como um colunista israelita escreveu para os seus compatriotas no jornal «Ha’aretz», “Nós não estamos mais a defender Israel. Nós estamos agora a defender o bloqueio (a Gaza). O bloqueio por si só está a tornar-se o Vietnam de Israel.”
Milhares de ativistas pela paz em Israel protestaram contra o ataque e o bloqueio, em desfiles de Haifa até Telaviv e Jerusalém – unindo-se aos protestos em redor do mundo. Independente de que lado atacou primeiro ou deu o primeiro tiro (o exército israelita insiste em dizer que não foram eles que iniciaram a violência), os líderes de Israel mandaram helicópteros armados e tropas pesadas para atacar um comboio de navios em águas internacionais, que levavam remédios e ajuda humanitária para Gaza, gerando mortes desnecessárias como conseqüência.
Não podemos trazê-los de volta. Mas talvez, juntos, possamos fazer deste momento trágico um ponto de viragem – unindo-nos num apelo por justiça inabalável e um sonho de paz inviolável. [Texto, aqui com pequenas emendas formais, distribuído pela equipa Avaaz, endereço: http://www.avaaz.org].

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Um pouco de história da economia

Está na ordem do dia, vamos falar economês. A crise manda! E assim, com tantos entendidos a botar figuras de estilo no barquinho a naufragar, talvez haja cabide onde pendurar umas ideias porventura instrutivas tiradas da arca para as arejar ao vento que passa.
A proclamada ciência económica neoliberal entrou em descrédito enquanto ciência na medida em que o mercado demonstrou não ser capaz de se autorregular. É um monstro à solta, os seus teólogos não podem mais rezar em adoração sem cair em cega idolatria. E, muito menos, considerar a existência do mercado como condição básica de uma autêntica democracia.
Nunca o mercado foi requisito ou sequer expressão da democracia. Resultou da expansão e desenvolvimento do capitalismo, matéria estudada a fundo por um senhor barbado que publicou um manifesto em meados do século XIX ainda hoje causador de insónias a uns quantos patrões que dormem sob dossel de oiro. Matéria essa depois continuada, no século XX, por um outro senhor que, em jeito de previsão, anunciou que a fase suprema do capitalismo seria o imperialismo.
Terá acertado plenamente na mosca, é o que iremos ver no desfecho desta crise. Para já, sem dúvida, estamos no tempo dos cruciais dilemas. Profundas e dramáticas mudanças se acumulam no bojo violento da tempestade que ameaça varrer esta desgraçada (des)ordem do mundo e está a explodir.
Em crise, principalmente, está a teoria neoliberal que colocou o mundo nesta situação de ruptura. Subverteu conceitos essenciais da economia real, escondendo sob aluviões de propaganda asfixiante o que contrariasse a teoria. Atrelou-se ao deus-mercado e passou a explicá-lo como doutrina religiosa servida por catequistas.
Precisamos agora de recordar um pouco de história da economia. A noção atual de «mercado» é relativamente recente. Remonta a A Riqueza das Nações (1776), de Adam Smith, obra que por sinal provocou a «resposta» de Leo Huberman, com A Riqueza do Homem - para repor o Homem por cima do das Nações - e, entre muitos outros, de Gunnar Myrdal, economista sueco, Nobel em 1974, autor de O Estado do Futuro.
Uns conceitos de teoria económica reelaborados nos anos '30 por John M. Kaynes foram banidos pelo neoliberalismo, mas aqui e agora importa sobretudo lembrar que, até Adam Smith, a economia foi tema de abordagem ética. Rendas e juros eram condenados como indignidades ofensivas do comportamento honroso, algo como exploração excessiva, imoral e desumana. Receber rendimento das suas terras ou juro do seu dinheiro emprestado era vileza de quem por egoísmo assim se colocava à margem da ordem social.
Importa-nos hoje apreciar a evolução geral das mentalidades que desde a eclosão do mercado se verificou, ou seja, a adaptação da ética (e mesmo da religião: lembre-se o «pai nosso» emendado) a um padrão absolutamente diverso, porque aí se manifesta e evidencia o facto clamoroso: a expansão e crescimento do capitalismo implantou no mundo a desumanizar-se a regra da força maior campeando sem lei e a violência da barbárie. A fase imperialista ampliou o fenómeno até à desmesura imposta e convicta.
Ora a economia tem de reassumir capazmente a ética para se legitimar. Mas não só a economia, também a política e as atividades sociais em geral precisam da ética para negar a ganância que carateriza o neoliberalismo de modo a restaurar o valor do humano contra a violência e a barbárie à solta. Não há outro caminho. [Ilustração: de autoria desconhecida.]