sexta-feira, 30 de julho de 2010

À sombra, na canícula

Nada a fazer, no verão é assim. A procura da morenice para doirar as epidermes espicaça e toda a gente se põe a dançar a tarantela. Ninguém mais quer ficar no seu poiso habitual, todos abalam em corrida em todas as direções buscando adiante o que talvez tenham deixado para trás. Metade bem aviada do país encerra para férias, algures. Mudar de ambiente, trocar o aglomerado humano por outro aglomerado humano, sonhar com um descanso cansando-se. Bem pregam os dermatologistas contra os malefícios das radiações solares perigosas, os escaldões, os melanomas em expansão. Ora! Mande alguém calar os desmancha prazeres que pregam aos peixinhos! Quem os ouve?
Mas o escriba desta coluna tem orelhas e o vento dos anos sacode-lhas a valer. Vai à rua enfrentando a torreira, encontra  fechados os seus cafés habituais e as lojas de taipais corridos, os passeios desertos, o trânsito sonolento na cidade espectral, estranhíssima. Teima na procura da bica até encontrar porta aberta, hospitaleira quanto baste. Depois, como um fantasma vadio, chega encalorado.  Decidido a paralisar a escrita para se quedar, durante um mês, sentado à sombra, a gozá-la em sossego. Acreditem, se não adormecer para sempre, daqui a um mês vão tê-lo de volta.

domingo, 25 de julho de 2010

Sem diplomas

O tempo concreto, do calendário existencial, que cada ser humano tem para viver, é facto dos mais notórios e mesmo irrecusáveis. Aparece entre as principais pertenças no sistema em que cada indivíduo se integra. Pertença tão comezinha parece soar, porém, como novidade estreme a certos ouvidos e por isso torno à ideia. 
Pertencemos, para todos os efeitos, ao tempo biológico que nos cabe em sorte. O «meu tempo» é este, iniciado em 1930, não outro qualquer à escolha (como o lugar de nascimento, o nome, os pais e restante família, a língua materna, a religião).  É sem dúvida - querem ver? - um fator dos mais marcantes do meu e de qualquer outro percurso existencial.
Comecei a escrevinhar em jornais no alvor da primeira juventude mas ingressei na profissão do jornalismo somente quando ia nos 33 anos. Escolha feita sem segredo: a literatura, meu primeiro amor, sorria-me de cara linda sem me prometer juntar os trapinhos passando a viver comigo de casa e pucarinho. Logo, eu precisava de estabilidade, uma profissão, e aquela ia manter-me ligado à escrita, a escrita jornalística.
Mas não alongo mais o preâmbulo. O que pretendo é explicar que, no início dos anos '60, nem a literatura nem a imprensa, no Portugal amordaçado pela ditadura, eram ofícios cujos praticantes devessem possuir habilitações específicas. Os escritores e os jornalistas mostravam o que valiam «tarimbando» - uns e outros escrevendo por norma em jornais e revistas até se fazerem reconhecidos - durante os períodos de inicial afirmação.
A «tarimba» da experiência viva era, pois, a «escola», para a qual entravam como soldados rasos. Havia, é claro, licenciaturas em Letras, mas todos sabemos que formavam professores, não escritores. Estes eram amiúde médicos, advogados, engenheiros, jornalistas...
Os primeiros cursos de Jornalismo apenas surgiram em Lisboa e no Porto, após demoradas reivindicações e lutas, já com o regime democrático. Entretanto, foi-se tornando claro que nas redações dos jornais de informação geral tinham cabimento licenciados com variadas formações, o que abriu a entrada a professores, advogados, engenheiros, operadores sociais, economistas... Então, os poucos licenciados que começaram a chegar às redações nos anos '60, multiplicaram-se.
Serve isto para apontar duas coisinhas:
1 - Nunca precisei de estudos superiores, nem jamais alguém mos pediu, para trabalhar como sempre trabalhei (estudando) e sempre estudei (trabalhando). Realmente, estar na literatura, tal como estar no jornalismo, requeriam tão só, no «meu tempo», saber de experiência feito.
2 - Avalie-se agora o embaraço em que me vejo quando grupos de jovens me perguntam que cursos fiz, que formação escolar recebi. Empurro-os a todos para a Escola declarando-a indispensável, sem conseguir justificar, a seus olhos, o meu autodidatismo. Assumo-o com toda a honra, é verdade, mas, sem diplomas e nesta idade, devo parecer-lhes completamente despido...

NOTA [em 23-12-2011] - Esta crónica continua a ter procura, novos leitores. Tenho um pedido especial a fazer-lhes. Não percam uma outra crónica, posterior, que a complementa. Tem o título de «Pois, sem diplomas!» e está aqui.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Krause, pensador com ideias

Estou pronto para as surpresas - que sejam boas, evidentemente -, como eterna criança a sonhar com berlindes coloridos. Ou com as contas de vidro do jogo de Herman Hesse. E eis que uma nova surpresa me chega em página recém-publicada com artigo onde leio diversas alusões interessantes a um autor: o alemão Carl Christian Friedrich Krause (1781-1832).
O artigo, de Angel Serafín Porto Ucha, da Universidade de Santiago de Compostela, foca Bernardino Machado e a Institución Libre de Enseñanza no quadro das influências das ideias de Krause nas políticas do ensino na Galiza e em Portugal. Todavia, depressa pude concluir que o interesse pelo conhecimento das ideias de Krause para o nosso tempo, isto é, a sua potencial atualidade, ia além daquela abordagem. Foi preciso sair à descoberta do homem para perceber os primeiros elementos e sentidos da obra.
Na verdade, o horizonte das formulações daquele pensador é vasto, universal. Não se restringem às questões da pedagogia e do ensino em discussão desde o século XIX, ainda que, de facto, pelo que vejo, tenha sido essa a abordagem principal de galegos e portugueses (Giner de los Ríos, Rogério Fernandes e outros) avançada ao longo dos anos. Na Península Ibérica, as suas ideias e propostas espelharam uma forma moderada de liberalismo, tendo irradiado também para a Argentina, Brasil, etc..
Pensador idealista, Krause estudou Filosofia com Schelling, Hegel e Fichte, e pretendeu continuar Kant. Rejeitou a teoria do Estado absolutista para considerar a valia das associações livres que, na sua ideia, serviam uma finalidade universal - a família, a nação - pois a humanidade se compõe de seres que se influenciam reciprocamente. Com esta perspectiva, os períodos históricos surgiam como fases sucessivas de uma ascensão para Deus, que culminaria numa humanidade racional.
Como filósofo da identidade, Krause tentou uma combinação do teísmo com o panteísmo (fórmula: pan-en-teísmo). Defendeu que o próprio mundo natural e a humanidade, sua mais elevada componente, constituem um todo orgânico capaz de se desenvolver e progredir pela formação de unidades sociais maiores. Para ele, a sociedade ideal resultaria pela  ampliação do funcionamento do princípio do homem individual para abranger pequenos grupos de homens e depois, finalmente, a humanidade como um todo.
À afirmação emblemática de Krause e do próprio «krausismo» - a união da humanidade - não seria estranha a maçonaria, à qual o pensador aderiu em 1805, após três anos a ensinar Filosofia. Todavia, os seus livros (1803, Fundamentos do Direito Natural; 1804, Esboço dos Sistemas da Filosofia; 1810, Sistemas de Doutrina Moral) não mereceram aplausos francos dos maçónicos. A sua rejeição do Estado (e da dialéctica hegeliana) ia contra a corrente predominante, embora hoje possa aproximar-se de uma concepção anarquista.
Por algum motivo, o professor nascido em Eisenberg, Turíngia, e vitimado por apoplexia em Munique, dedicou-se à produção aforística. Uma sua obra do género foi vertida para Português. Autor: Karl Krause; título, O Apocalipse Estável - Aforismos; seleção, tradução e posfácio de António Sousa Ribeiro; edição, Apaginas tantas [Errata: ver, p. f., Comentários].
Noto que o Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho promoveu em Braga, em 1998, um colóquio «O krausismo na Península Ibérica», cujas atas foram publicadas integrando texto de Acílio da Silva Estanqueiro, «Pensar Krause hoje, ou pensar radicalmente a humanidade». Outras fontes de informação usual são utilizáveis. Estamos, lembre-se, no tempo em que muitos Estados ocidentais decretam a extinção do «Estado social» depois de se endividarem até mais não poderem (sugando ao máximo os contribuintes), e as oligarquias pequenas, grandes e gigantescas reclamarem «menos Estado», isto é, o seu fim.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Foi-se o cantar da Tila

Fui assaltado por uma notícia esta manhã. O lugar comum justifica-se: uma notícia pode apanhar-nos de súbito e despojar-nos de qualquer coisa muito nossa. Acabo de saber que morreu Matilde Rosa Araújo.
Foi-se o cantar da Tila, foi-se também a prezada amiga. Um outro lugar comum repete que, quando morre um escritor, fica a sua obra. Consolação mínima, pois sempre o que escreveu e fomos lendo nos colocou em admiração.
Eu vinha acompanhando Matilde desde 1962, ano da publicação do seu livro de contos Praia Nova que recenseei em apreciação crítica. Mas ela (nascida em 20-07-1921) iniciara o percurso literário antes, em 1943, com A Garrana. Só então começou a nossa amizade e companheirismo.
Porém, conhecia já O Palhaço Verde e O Livro da Tila, livros anteriores para a infância que me haviam deslumbrado. E habituava-me à caligrafia larga, rasgada e angulosa, muito feminina, da Matilde, a responder-me às perguntas de uma entrevista que apareceu a seguir já não lembro bem onde. Entretanto, apercebia-me de que, nela, a sua dimensão literária coincidia com uma dimensão humana igualmente apurada.
Nesta moldura era já Matilde considerada em Lisboa (onde nasceu, viveu e morreu) e então só tive que notar a justeza do conceito. Efectivamente, na lavra da escrita que ela prolongou por quase setenta anos se espelha a personalidade ímpar da mulher que ela foi. Agora se pode ver «a sua vida como obra e a sua obra como vida», coincidência rara que eu próprio gostaria de atingir. Continuo a supor que é graças a este encontro da pessoa concreta com a pessoa poética que a arte acontece.
Ora a Matilde Rosa Araújo era um ser poético. Quer dizer, foi tão admirável a Mulher quanto a Escritora. Frequentou a Faculdade com Sebastião da Gama e com ele parecia ter ficado a compartilhar um irradiante amor à humanidade, sobretudo às crianças «de pés frios», e à natureza, que exprimia com uma candura tocante e emocionada beleza.
Amanhã sairá o seu funeral da Sociedade Portuguesa de Autores, onde recentemente lhe foi prestada homenagem. Outras se recordam em maré de saudade e recolhimento, em especial a realizada na Biblioteca de Cantanhede. Trago para aqui uma foto evocativa dessa sessão, para a qual muito contribuiu comigo João Cruz, amigo que de algum modo me fará presente na despedida.

sábado, 3 de julho de 2010

Pintura ao natural

O solo da remota Tsungwei (Yunnan, China), situado num planalto a 900 metros de altitude, tem uma característica invulgar: é avermelhado. O feitio irregular dos terrenos agrícolas cultivados e o tipo variado das plantações que neles se fazem transformam a paisagem em maravilhosas telas dignas de admiração. Faz-se notar o sentido estético que revelam ali os camponeses. O aspecto da paisagem muda constantemente conforme a luz do dia, pelo que a região ganhou a designação de Lexiaguo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Se o povo não se respeita...

Em maré de grande crise, fica mais evidenciada a idiossincrasia moral da nação. Porque uma grande crise nunca será apenas económica, financeira, cultural ou política, antes aparece gerada pelo encontro de uma com as outras. Mostra ser tão grave e profunda que já por gente insuspeita é declarada a mais grave desde o advento da democracia.
Não o diz gente insuspeita, mas nós sabemos que apenas os dois partidos principais governaram de facto a nação, sendo por isso os primeiros responsáveis por esta crise escancarada. Evidentemente, aquela gente limpa-se de quaisquer culpas ou erros: trabalhou (à direita) sempre na perfeição, grossa mentira é o contrário. O «aperto» atual veio de fora, cá dentro ia tudo bem... vivendo (a crédito) e gastando mais do que a nação produzia. Logo, espera-se que a população continue alegremente a eleger, nas próximas eleições, os mesmíssimos partidos principais (da direita) que nos trouxeram até aqui.
Todavia, é agora que se faz lembrar o dito que tão repetido vem sendo desde o século XIX, que Portugal é país  mal amado pelos seus naturais. Para sentirem alguma afeição ao pátrio solo precisam de lhe transpor as fronteiras. Cá dentro, algo se passa - será  um menosprezo, um deixa-correr, o que leva  à questão:  se o povo não se respeita, como quer ser respeitado?
Quem tem ouvidos, escuta as sentenças até se convencer. O povo comporta-se como os políticos no poder querem, teima até em pôr-se a jeito. Deixa-se governar a favor dos mais poderosos, reservando-se apenas o direito de os meter a todos num único saco.
E de os vaiar. São incompetentes, mentirosos, corruptos. Querem é vida fácil, mordomias e conversa da treta, aproveitando para meter no bolso muito e depressa à custa dos mesmos de sempre.
Mas se o povo aguenta com as cargas que lhes põem em cima, porque não hão-de os políticos aproveitar da facilidade? Os senhores das instituições financeiras junto com os administradores das grandes empresas são poderosos e exigentes, querem facilidades e vantagens para ampliar os privilégios... e são educados, sabem agradecer. O povo, não - não, pelo menos, de igual modo.
Entende cada vez menos o que se passa na realidade e, feito tolo, nem reclama. Espera que outro Guerra Junqueiro lhe grite novamente que é burro que já nem forças tem para enxotar as moscas com o rabo? Talvez não goste de se ver ao espelho: 40% dos trabalhadores portugueses ganham uns 500 euros mensais; 60% dos pensionistas recebem no máximo 450 euros mensais. Se o rendimento médio nacional anda pelos 900 euros, isso faz-nos entender que uns poucos ganham em barda e que uns muitos ganham migalha.
Sem dúvida, o povo empobreceu e as desigualdades incharam à americana. Ora, se no povo está o corpo vivo da nação (na medida em que a entidade «povo» representa a parte substancial dos seus habitantes), poderemos comparar o dinheiro em circulação ao sangue que corre naquele corpo. Então, se o povo  trazia antes no bolso dinheiro agora desaparecido, o dinheiro-sangue não desapareceu, foi simplesmente sugado de um para outro corpo.
Não admira, assim, termos no país uns tantos novos milionários, agora num total  (anunciado) de onze mil. Possuem um milhão de dólares no banco cada um, além de outros bens. E, glória infinita, já sobram capitais nas empresas portuguesas para investirem no estrangeiro, inclusive nos EUA, onde a EDP aplica milhões que criam quatro mil empregos!