segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Leituras «infantis»

O editor do meu recente livrinho de histórias para crianças contactou-me. Anunciava-me que três das suas outras edições recentes tinham sido aprovadas pelo PNL (Plano Nacional de Leitura) e pedia-me para comentar o caso. Porque o meu livrinho fora excluído da escolha dos selecionadores.
Em suma, queria conversa, mais uma conversa das nossas para se esclarecer e vencer a perplexidade. Conversa tão boa quanto outras que fomos travando nos últimos tempos, pois o homem, como editor, é «novo», embora trabalhe em livros há muitos anos. Mas, desta vez, não pude aceder ao diálogo.
O editor conhece e creio que aprecia as ideias e opiniões que defendo como autor de literatura dita «para crianças». Como poderia explicar-lhe razoavelmente o critério nebuloso que escolhia três histórias triviais, com ilustrações idem, que ele, editor, publicara movido apenas pelo desejo de vender a mercadoria depressa e bem? Na verdade, eu não entendia mais nem melhor do que ele por que decidia o PNL distinguir três obrinhas «infantis» refugando uma outra orientada com clareza, em texto e imagens, para a valorização do seu género literário.
Mas, afinal, ele percebia, e eu percebia, o que o episódio significava. Reafirmando a macrocefalia do país pequenino e o poder do lobby lisboeta, concentrava na cidade capital o Governo e toda a autoridade única de alcance nacional. Dali emanam as decisões afins de uma linha ideológica e política que não pode sofrer desvios ou distorções.
É preciso dar força ao pensamento único e instaurar o estado novo. Há uns trinta anos que o sistema de ensino e a política educativa têm vindo a avançar nesse sentido e avançando sempre passo a passo. Substituir as famosas aprendizagens pelas competências foi o primeiro passo, o facilitismo veio a seguir e agora tenta-se a abolição dos exames...
Quer dizer, não sobrecarreguemos as cabecinhas das pobres criancinhas, coitadinhas, com matérias e programas pesados, quer-se tudo ligeiro e divertido para que a escola funcione. Saem as criancinhas sem saber aritmética, português, uma noção simples de matemática? Será assim tão dramática a persistência de ileteracia e mesmo de analfabetos reais escolarizados?!
Ora há quem conteste e discuta. A literatura para crianças, em geral, afina cada vez mais pelo diapasão da «facilidade». Tudo fácil: histórias singelas, pretensamente divertidas como a cócega... e as ilustrações que as acompanham, vulgares «bonecadas», exibem a vontade de ir na onda e colher os proveitos.
Nesta situação, pergunte-se a quem de direito, adultos responsáveis, se não estarão a ser mais crianças do que as crianças que deste modo infantilizam enquanto transformam a literatura em mero negócio. São capazes de perder tempo a treinar um cão e desperdiçam-no não educando as novas gerações. As crianças dotadas possuem capacidades que podem embotar-se e perder-se, um crime sem dúvida dos mais puníveis contra os direitos da criança e da humanidade.