Que dúvida pode haver? Um governo democrático é eleito para governar. Não de qualquer forma, não para desgovernar a nação, e sim de acordo com as promessas contidas no seu programa político. Se pretende governar bem, governará a favor da maioria eleitoral que lhe confiou o poder, não a favor da proteção dos interesses de uma qualquer minoria.
Se utiliza o poder que o povo lhe atribuiu para reforçar o poder de uma oligarquia, por muito poderosa que ela seja social e financeiramente, esse governo trai o mandato popular recebido. Comete uma infração gravíssima aos olhos abertos de quantos cidadãos lhe deram o voto e dá-lhes direito ao protesto e mesmo à revolta. Se as leis nacionais não punem essa infração com eficaz severidade, será porque os cidadãos desmazelaram antes os deveres da cidadania vigilante e os políticos oportunistas se aproveitaram.
Uma tal infração deve ser punível como o crime que realmente é. Dentro de um sistema autenticamente democrático, as leis e os costumes nacionais em vigência devem sancionar talhantemente esses desvios, chamando ao pelourinho da justiça os prevaricadores (assim como no caso da Islândia, que julgará em tribunal o responsável pela bancarrota).
Sem discussão, um governo que desgoverna a nação de modo desastroso comete um duplo crime: ludibria a confiança que mereceu da maioria democrática e defrauda o sistema político vigente em benefício particular de uma qualquer elite privilegiada. Utiliza o formalismo eleitoral democrático para, em última análise, agindo dentro da democracia, atentar contra a democracia, destruindo-a. Ora este é o regime que, claramente, por essencial definição, serve para proteger o pobre da violência do rico, a fraco da força do forte, aspirando a uma igualdade legal.
Eis porque nenhum sistema democrático pode considerar-se acabado, definitivo, perfeito. Ao invés, precisa de constantes aperfeiçoamentos, como pintura inacabada a caminho da perfeição final. Todavia, é neste ponto que emerge a questão: nenhuma democracia mostra hoje interesse convincente no aperfeiçoamento do sistema, tomando-o já como feito e perfeito.
A crise do nosso tempo avassala o mundo devido a diversos fatores e conjunturas, não há dúvida, mas parece óbvio que os problemas se criaram e amontoaram no seio de cada povo depois de os governantes rodearem de secretismo os negócios do Estado, afastando dos debates políticos nacionais camadas sucessivas da população. A ação governativa (para iniciados, por escassez de diálogo) foi-se limitando à esfera do poder enquanto a política se tornava espetáculo, o sistema escolar entrava na «pedagogia» do facilitismo e os media distraíam os cidadãos, retirando-os da participação política que embaraçaria os governantes... cujo ardor democrático, por sinal, se afirmaria pela inversa. Falta agora desejar que a governação não seja mais confiada a profissionais da política nem a pessoas muito endinheiradas, ainda que tenham dinheiro para gastar pelos seus (interesses pouco) ideais. Merecem a eleição para servir o povo, sem sofisma, pessoas capazes de chamar (e não de arredar) os eleitores ao diálogo democrático permanente. [Imagem: pormenor central da pintura «A Liberdade guiando o povo», por Delacroix.]




