Escrever, diz José Rodrigues Miguéis nos seus Aforismos, "é um solilóquio para ausentes". Pois será, entendendo que os ausentes podem encontrar-se em sucessivas gerações para nelas se manter vivo o solilóquio. Por este motivo simples que Miguéis bem aponta: «Só vale, quanto a mim, a literatura que passou a prova do filtro purificador do Tempo.»
E aqui temos um livro que Oscar Wilde publicou há mais de cem anos, em 1888. Nove «contos de fadas» que Wilde (Dublin, 1854 - Paris, 1900) dedica aos seus filhos com o título de O Príncipe Feliz e outras histórias. Mas essa colectânea de contos tem corrido com diversos títulos (normalmente o primeiro do volume) e nem sempre reúne a quantidade certa de histórias.
Pergunto: o que permanece hoje, para nós, de toda a produção literária do autor - poemas, peças de teatro, romances? O Retrato de Dorian Gray, estes contos «infantis», e que mais?! Arrisco: mais nada, apesar do sucesso enorme, nos palcos e nas livrarias, por ele alcançado no seu tempo. O famoso dandi Wilde e até o escândalo que provocou (acusado de homossexual, condenado a prisão), aliados ao seu talento, ajudaram à retumbância do seu sucesso.
Mas quantos leitores folheiam ainda aquele romance, O Retrato? Quero crer que poucos, serão mesmo residuais. Surge então um curioso contraste: os nove «contos de fadas», pelo menos em Portugal e no Brasil, continuam presentes nos círculos da edição e da leitura, merecendo no país irmão, inclusive, adaptações teatrais.
Sem dúvida, a fulgurância da sua escrita espelha-se em toda a sua obra principal e, no entanto, são estas histórias, escritas ao que parece sem grande ambição literária, que se mantêm «vivas» na atualidade. Ora isto levanta questões deveras interessantes, a primeira das quais é a de nos fazer sentir o cânone do que poderia ser «literatura para crianças» na segunda metade do século XIX. Questão básica: determina a acessibilidade lexical do texto e, desde logo, quem é «criança» para ler ou ouvir ler o texto.
Sabemos que o conceito de infância tendia a prolongar-se então até ao amadurecimento da adolescência. E podemos agora, perante estes contos de Oscar Wilde, perceber e avaliar a tremenda erosão que têm vindo a sofrer os vocabulários de uso quotidiano, na oralidade e nas leituras correntes. De facto, a opulência do verbo wildeano nada cede ao «facilitismo» mediático que impera nos nossos dias, não recuando sequer em abordar temas melindrosos como a morte, o amor, o sofrimento.
Mas são histórias maravilhosas, de intensa poesia e aliciante leitura. Julgo, porém, que podem lê-las não as crianças de hoje, sim os jovens e os adultos, porque estes aguentam histórias por vezes longas e contadas com termos tão raros. Isto é francamente lamentável, afirma-o quem admira e aplaude com entusiasmo as belas histórias, realmente para crianças, que se encontram presentes no interior das nove narrativas.
Para quem lhes chegue pela primeira vez, a revelação acontece e é esplendorosa.
Sabemos que o conceito de infância tendia a prolongar-se então até ao amadurecimento da adolescência. E podemos agora, perante estes contos de Oscar Wilde, perceber e avaliar a tremenda erosão que têm vindo a sofrer os vocabulários de uso quotidiano, na oralidade e nas leituras correntes. De facto, a opulência do verbo wildeano nada cede ao «facilitismo» mediático que impera nos nossos dias, não recuando sequer em abordar temas melindrosos como a morte, o amor, o sofrimento.
Mas são histórias maravilhosas, de intensa poesia e aliciante leitura. Julgo, porém, que podem lê-las não as crianças de hoje, sim os jovens e os adultos, porque estes aguentam histórias por vezes longas e contadas com termos tão raros. Isto é francamente lamentável, afirma-o quem admira e aplaude com entusiasmo as belas histórias, realmente para crianças, que se encontram presentes no interior das nove narrativas.
Para quem lhes chegue pela primeira vez, a revelação acontece e é esplendorosa.




