segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Língua portuguesa e Literatura

A cultura, nomeadamente a cultura literária, não vem somente nos livros. Aliás, cada vez menos os milhares das novas edições que se registam em Portugal trazem no miolo substância que realmente valha a pena ler. Em alternativa, olhemos portanto, ao menos como quem espreita, algo do que vai saindo em revistas periódicas.
Atidos apenas a publicações impressas (i. e., em papel), notemos o panorama das revistas académicas. Surpreende. Continua animado e extenso, vigoroso e rico, como que alheio à expansão dos formatos digitais.
Nestes termos, saúde-se a “Revista de Estudos Literários” que o Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras de Coimbra vem publicando anualmente. Saiu o nº 5, relativo a 2015, coordenado pelo Prof. J. L. Pires Laranjeira. Conta 700 pp e traz no sumário um naipe de ensaios de especialistas da área temática deste volume dedicado ao tema Literaturas africanas de Língua Portuguesa.
Os textos aparecem arrumados nas secções Temática, Não-Temática (resultante do projecto que elaborou o Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa), Profissão, Arquivo (última entrevista de Manuel Ferreira concedida a Lopito Feijóo, inédita), Recensões e notas sobre os autores dos textos. Em nota prévia, o Prof. Carlos Reis sublinha a “área muito ampla de produção literária, com manifestações desiguais” nos países africanos de língua portuguesa. Neste sentido, é naturalmente maior o relevo aqui dado a escritores de Angola, Cabo Verde ou Moçambique do que a Guiné-Bissau ou S. Tomé e Príncipe. Também, entre os autores mais focados, se distingue Manuel Ferreira, que o Pires Laranjeira, na introdução, evoca justamente como “cabouqueiro, divulgador, editor, professor, cavaleiro andante das sete partidas, apaixonado das cinco literaturas [africanas], referência mundial incontornável”. Mas outros autores são estudados: Domingas Samy, Mia Couto, Paulina Chiziane, Eduardo White, João Melo, Alfredo Troni...
São perto de duas dúzias os autores destes estudos: Pires Laranjeira, Luís Kandjinho, Inocência Mata, Ana Mafalda Leite, Carmen Lúcia Tindó Secco, Francisco Topa, Mário César Lugarinho, Solange Luís, Rui Guilherme Silva, Majda Bojic’, Fátima Mendonça, Miguel Filipe Mochila, Rosinda Aires Bezerra, Ana Belém García Benito, Jorge Valentim, Elena Brugioni, Inês Nascimento Rodrigues, Laura Padilha, Ana Teresa Peixinho, Daniela Côrtes-Maduro, Maria Eduarda Santos e Marisa das Neves Henriques.
Estes nomes indiciam a diversidade das proveniências nacionais dos autores dos ensaios inseridos neste volume, sugerindo de algum modo a amplitude e a vitalidade da língua portuguesa em África, no Brasil e, enfim, no mundo.

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