sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

As novidades são estas

e, bem contadas, são dez. Dez dos meus livros foram escolhidos para entrarem agora, em nova edição digital, na plataforma «Autopublicação-Livraria online» recém-criada pela Sociedade Portuguesa de Autores (https://ebooks.spautores.pt/). Demoras sucessivas excederam todas as previsões, obrigando estas novidades a tardarem a surgir tanto quanto se viu. Mas aqui estão, por fim, expostas na Página inicial - Os meus livros (ebooks) que aparece na janela ali em cima sob o cabeçalho que tem o meu nome.
Distribuem-se pelos vários géneros de obras que venho cultivando: crónica, crónica-ficção, estudos e ensaios, narrativa e mais ficção. Alguns destes livros tiveram edições impressas, que se esgotaram ou, de qualquer forma, saíram do mercado, enquanto outros livros estão publicados apenas em edições digitais. As suas capas, aqui em exibição como se estivessem em montra de livraria, apenas podem ser vistas. Para mais do que isso será preciso entrar na Página inicial - Os meus livros (ebooks), onde cada cada um é apresentado conforme as regras, ordenado conforme as primeiras letras do seu título.  Mas os dez também podem ser encontrados procurando-os pelo meu nome. Então basta clicar no endereço que o acompanha para activar a ligação. Poderão notar-se ali os três títulos (dois destinam-se a  crianças) que na «Página» continuam presentes.





 




terça-feira, 5 de setembro de 2017

Aos Leitores

Este segundo volume, reeditado e muito aumentado, tem cerca de duas centenas e meia de crónicas revistas e seleccionadas pelo autor. Saíram neste blogue entre Setembro de 2009 e Fevereiro de 2017, ou seja, durante o período de crise imposta pelo neoliberalismo a portugueses e europeus e decerto ainda não terminada.
O volume recolhe, portanto, de forma definitiva, o conteúdo mais importante e significativo do que nesta coluna saiu. Aos visitantes, o autor propõe que prefiram ler a página - corrigida - que lhes interesse neste livro e não no blogue. Até há poucos dias, bastaria, para isso, clicar, ali em cima, no cabeçalho, em «Página inicial» e entrar em «Estante dos meus livros - Links». Porém, «Estante» encontra-se agora em remodelação durante mais uns dias poucos. Sem risco, vale a pena esperar pelas novidades em preparação.
Arsénio Mota, cronista compulsivo conforme a sua bibliografia bem demonstra, assume-me, repetidamente, enquanto escritor e jornalista, como autor-cidadão e, assim, espectador-actor dos acontecimentos do seu tempo e lugar.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O cronista suspende-se

Não é por canseira, esgotamento de forças. É por esgotamento das suas pessoais reservas de pachorra. Esvaíram-se, gastas até ao sabugo, nos últimos anos, por joguinhos cibernéticos de gato a brincar com o rato.
O rato estava nesta coluna a coçar os dentes nas letras que dispunha em linhas horizontais, que são a posição de equilíbrio, e o trapezista cibernético, sentado ao computador talvez do outro lado do oceano, num outro continente, divertia-se. Uma vez este blogue ficou bloqueado. Outra vez, e outra vez, o rato via-se sem internet ou o seu computador se engasgava… enquanto o nariz, cheirando, o advertia “aqui há gato”!
Mas onde já vai isso do “teu” computador? Compraste-o, pagaste-o, é teu, até o identificas com o teu nome, e depois descobres com indignação e espanto que o tens em casa ao serviço de gente desconhecida. A trabalhar ao serviço de interesses desconhecidos.
Estás a dormir tranquilamente, com tudo apagado e em silêncio? Alguém tem artes secretas de ligar o teu computador, usa a bateria e a placa de rede sem fios e acede aos teus dados. Rouba para abrir ou actualizar a tua ficha (à ordem do Grande Irmão).
Querem saber o que consomes, o que fazes e o que pensas, do que gostas, com quem convives, as viagens que fazes… Quererão mesmo saber quanto tens no banco? Querem saber tudo!
Ora se o rato, cronicando há já mais de nove anos, não esconde que é de esquerda num mundo que vira radicalmente para a direita (lembrando que a Democracia não é bem garantido para sempre). Exerceu somente o direito à livre expressão cidadã? Pois sim, mas despertou a atenção.
Conquistou visitantes-leitores em quantidades significativas nas três maiores potências mundiais. Entrou em cena o famoso algoritmo informático e, cronicando, o rato viu-se com a sua sombra ampliada, assustadora, estendida à frente dos pés. Era, assumidamente, espectador-actor participante, ou seja, um espectator, mas, caramba, os Estados Unidos, a Rússia e a China façam o favorzinho, entendam-se!
O rato pensa que fez a parte que lhe cabia. Recebeu aqui muitas dezenas de milhares de visitantes-leitores e chegará em breve ao seu 87º aniversário. Chega?
Talvez não, porque, ponhamos por exemplo o esmagamento e a eliminação, passo a passo, da Palestina e do seu povo é um caso dos mais espantosos e terríveis dos últimos setenta anos do mundo dito civilizado. Quer dizer, há questões que interpelam assolando a consciência da humanidade inteira. E assim o rato deixa escrita no ar com luz laser, em suspensão, a despedida:
- Até mais ver!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Uma sombra assustadora


Assustou-se. Viu a sua sombra estender-se na rua, alongar-se prodigiosamente diante dos seus passos, muitos metros à frente. Tornara-se grande, uma pessoa altíssima: ocupava espaço excessivo, portanto… cuidado!
Sentiu-se em perigo. Parou, pensativo, a estudar a sombra imóvel, invadido por uma espécie de remorso, uma sensação de culpa. Daí o susto, o alarme.
O sol estava a pôr-se e o dia ameno naquele fim de tarde, mas, ainda assim, de súbito, o instinto acordara-o. Prevenia: estava a exceder-se, a expor-se a complicações, a experiência acumulada advertia-o: atenção, cuidado!
Não devia avantajar-se, ser maior do que era, e ele via-se prolongado em altura, ali mesmo à frente, cinco ou seis metros. De pouco ou nada valia pensar que era uma sombra que iria desaparecer com a noite ou que era figura irreconhecível, anónima. Mas ele estava a ver-se, reconhecia-se naquela sombra verdadeiramente assustadora, era dele, a sua figura estampada no passeio da rua, caminho dos seus passos.
Projectar-se em público envolvia riscos. Era um espaço habitado por gente privilegiada, possuidora de um dom qualquer, não por si. Ele morava do lado da multidão espessa, que inveja os privilégios alheios e briga contra quantos os têm, considerando que as figuras mediáticas constantemente em exibição vivem ricamente refasteladas na imoralidade e na devassidão.
Sentiam que o seu barco ia naufragar mas continuavam a acotovelar-se na praça-palco que ocupavam e o espectáculo prosseguia porque à multidão espessa pouco mais era dado ver. Mas era no ambiente das figuras mediáticas, ali, no espaço público, que estavam os sinais todos da decadência. Agora, como nos tempos de antigamente, a decadência aparecia quando a imoralidade, a devassidão, a homossexualidade se tornam de regra, a exemplo do que acontecia na capital helénica (apesar de “vencida, vencer”), eclipsada por Roma, antes sua colónia, outra metrópole apagada com a decadência do império…
Sim, ele lera uns livros, conhecia umas histórias, por isso se defendia rijamente do espaço público, com o qual nada queria assim dominado por quem fabrica diariamente a opinião dita popular comendo à tripa forra à sua mesa. Sim, ele temia deveras a projecção pública da sua figura, uma projecção é sempre uma ampliação e, portanto,
uma duplicação (uma duplicidade: o ventríloquo e o seu boneco). Pretendia simplesmente ser quem era, no seu tamanho natural sem retoques fotogénicos, efeitos de luz ou recursos de make-up.
Pretendia, afinal, evitar a selva onde havia licença para caçar todo o ano disparando contra o que apetecia abater. Ele apostava tudo em quem mais estimava e melhor conhecia: aquela figura vulgar que encontrava de manhã no espelho e que, na penumbra do anonimato, dentro da multidão espessa, queria continuar.
[Foto - parcial - de Rod.Costa.]

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O Português vai mal


À entrada, sobre o balcão da cooperativa, notou o aviso: prevenia os sócios do prazo em que deviam pagar as suas “cotas”. Depois de atendido, ele não resistiu. Questionou: porque escrevem ali “quotas” com ortografia errónea?
Sorrindo, a empregada pegou no dicionário da Porto Editora (8ª edição, 1998), abriu-o em “cotas” e leu. Para os autores (não os de outrora J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo), o termo também significa “quotas”. Ou seja, é equivalente.
Surpreendido com a novidade, consultou o seu próprio dicionário (7ª edição, 1994, comemorativa dos cinquenta anos daquela casa) e confirmou. Averbava igualmente “cota” com a mesma equivalência sinonímica. Logo, o desvio que aceitava reconhecendo o frequente, logo popular, desvio da norma consagrada já vinha de trás, não do anónimo departamento dos dicionários da Editora citado na edição posterior.
Por um caminho assim tão decididamente a favor da gíria popular, iremos em breve ter dicionarizadas ou aceites de pleno direito expressões correntes tão mimosas quão “à última da hora” ou “há anos atrás” e o advérbio de lugar “onde” definitivamente instalado no léxico comum ainda que se refira a lugar virtual, incorpóreo, apenas verbal? A interrogação justifica-se: é por aí que as tendências correm sobretudo em rádio e televisão.
Falar correctamente deixou definitivamente de ser apanágio de boa educação, civismo, brilho cultural. O Português anda a aparecer por aí, no meio da confusão instalada, mal vestido, enxovalhado, quase andrajoso, de modo que já não se sabe quem o fale e o escreva de forma modelar. Parece mesmo que os avanços obtidos pela população graças aos progressos da escolaridade e do ensino se reflectem cada vez menos no domínio correcto da nossa língua materna.
Nesta infeliz situação, saudemos o rasgo de Artur Anselmo, presidente da Academia de Ciências de Lisboa (ACL), que se animou a tentar uma saída. Propôs à discussão o plano de melhoria do Acordo Ortográfico de 1990 que uma comissão especializada apreciou há dias na Assembleia da República. Objectivos a atingir serão, além de melhorar, também o de estabilizar a ortografia (ainda que isso implique a separação final do Brasil nesta matéria), garantindo na prática a maior coerência e eficácia institucionais da Comunidade Lusófona.
Outra iniciativa de grande mérito tomada pela ACL será a publicação, no fim de 2018, de um novo Dicionário, normalizado, no qual estão a trabalhar dezenas de especialistas. Falece entretanto a ideia de quantos confiavam que o Português, com o Acordo de 1990, teria a ortografia unificada que de facto nunca chegou a ter. Ao invés, esta língua terá que contemplar as variedades vocabulares e gramaticais que surjam no seu espaço geopolítico.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Como Portugal vê Galiza

A publicação do livro antes recenseado veio na companhia deste outro A Imagem da Galiza em Portugal. Assina-o Carlos Pazos-Justo e no subtítulo traz “De João de Redondella a Os galegos são nossos irmãos”. Complementam-se, diria que na perfeição, reciprocamente.
Ensaiando uma resposta, o autor desta abordagem debruça-se no estudo de representações da Galiza detectadas no imaginário português. Elabora, assim, uma abordagem à ciência da imagiologia, cujos conceitos explicita, para exprimir como entende o “funcionamento das imagens enquanto discursos de representação do outro.” Acrescenta à sua obra, em resenha diacrónica, a imagem que a Galiza tem no exterior.
Carlos Pazos-Justo (n. 1975), formado em filologia em Santiago de Compostela e doutorado em Ciência da Cultura na Universidade do Minho, situa nos períodos da vigência das ditaduras de Franco e Salazar a análise da imagem dos galegos e da sua terra captada no nosso país. Ilustra muitas páginas com fotografias, desenhos, gráficos e citações, mas liga este livro, de algum modo, ao caso, que recorda, da senhoria que lhe alugou um apartamento em Braga e, lisonjeira, teimou que Carlos não era “galego”, era, sim, “espanhol”.
Na verdade, as imagens são construções sociais complexas que se transformam em representações tanto ou tão pouco “reais” quanto pretender que “o fado é português” – nota Pazos-Justo – ou imaginar o momento do desembarque de Colombo na América recordando a cena composta (em 1862?) pelo pintor Dióscoro Teófilo inserida nos manuais escolares. Porque as imagens são também discursos. A imagem propalada de uma Galiza pobre, atrasada e suja resulta assim num estereótipo construído por sucessivas simplificações que “pode condicionar as ideias mas também as formas de agir, as práticas das pessoas”. (p.16)
Tal como outros intelectuais galegos, também este autor faz questão de apontar, no plano historiográfico, a antiguidade do Reino da Galiza do qual saiu o reino de Portugal e, no séc. XII, a nação portuguesa. O progressivo  confinamento, no espaço peninsular, do reino da origem comum acentuou-se no séc. XV e Galiza foi ficando arredada num lugar periférico por força de conjunturas diversas e adversas. Com esta questão, Pazos-Justo documenta quanto o povo galego é atingido por esta imagem “construída” pela história.
Em Portugal, naturalmente, os galegos outrora imigrados em Lisboa e no Porto e a Galiza actual ainda se confundem, ao nível popular, com estereótipos caducos. Existem dificuldades político-diplomáticas que atrasam a sua integração na comunidade lusófona (Madrid está contra), mas abrem-se novos quadros relacionais, por exemplo, no plano económico-social da Galiza e Norte português. Deveras desejável é que o imagotipo negativo que forçou Pazos-Justo a “ser espanhol” em Braga em breve se dissipe!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

E Galiza aqui tão perto


Questão recorrente, incontornável. A Galiza. Sempre perto, a morar do outro lado do rio Minho e, no entanto, sempre algo remota, como se aquele rio não fosse navegável, não tivesse ponte ou os portugueses não soubessem nadar…
Saudemos, portanto, com especial ênfase, o livro A Imagem de Portugal na Galiza, por Carlos Quiroga, edição Através de Nós, Santiago de Compostela, 2016. A editora tem ligação com a Associaçom Galega da Língua (AGAL), e o autor, licenciado em filologias Galego-Portuguesa e Hispânica, doutorou-se e é professor titular da Universidade de Santiago.
O livro resultou da “pretensão de pensar Portugal e contribuir para a reflexão crítica sobre a sua identidade, construída em boa parte na sua relação com os países de língua oficial portuguesa em cuja comunidade política, linguística e cultural se integra”, conforme indica Advertência. Com cerca de 120 pp, a obra consegue abarcar numa síntese e analisar o que o projecto inicial requeria, elaborando o conjunto dos dados disponíveis e sumariando-os desde a remota antiguidade, os séculos ditos “obscuros”, o Ressurgimento (séc. XIX), o séc. XX, a contemporaneidade e uma síntese final.
De facto, Carlos Quiroga perspectiva o nosso país historiando e documentando que a Galiza existe com anterioridade. Escreve (p.15): “Quando e como nasceu Portugal, como cresceu e com quem brincou e se bateu, explicam quem hoje é. E só a vizinha da mansarda de cima sabe. Porque esteve sempre lá. Portanto temos que recuar mais um bocado no tempo.” Os historiógrafos pátrios poderão, se quiserem sair à liça, discutir o ponto.
Quiroga evoca a remota Gallaecia, província romana, acompanhando com mapas a sua evolução no terreno durante os períodos suevo e visigodo, as relações dos dois países ibéricos; foca o plano político, literário e popular, os movimentos migratórios de ambos os povos, etc. Identicamente, destaca os intelectuais galegos que promoveram o Ressurgimento cultural, as adesões de portugueses como Teixeira de Pascoais ou M. Rodrigues Lapa, as dificuldades e controvérsias geradas em torno da adopção de uma norma linguística, o projecto de uma aproximação ou até integração no espaço lusófono (enquanto Guiné Equatorial mete o pé à porta, Galiza espera) ou de uma sonhada via política independentista.
Assim mesmo regista a escassez das trocas comerciais, os pecos frutos colhidos do Eixo Atlântico, de modo que, a concluir, Carlos Quiroga cita Moisés de Lemos Martins (p.106): “Amorosamente indecisa e duvidando, a identidade galaico-portuguesa sonha, todavia, com um parentesco histórico, cultural, étnico e linguístico, entre Galiza e Portugal.” O que será, para os galegos, como dizer: “Menos mal que nos queda Portugal!”

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Martha Nussbaum: autora off-side?


Martha Nussbaum (na foto) nasceu em Nova Iorque em 1947. É autora prestigiada e notória de numerosos livros sobre filosofia, justiça, educação, desenvolvimento e ética, entre outros relacionados com as ciências sociais, área em que o prémio Príncipe de Astúrias a distinguiu em 2012. Realmente, muitos desses livros estão vertidos para espanhol - tal como o abaixo citado (ebook) - mas, veja-se, apenas um saiu em Portugal!
Foi o caso de Educação e Justiça Social, traduzido por Graça Lami e editado na colecção Pedago, em Mangualde, em 2014. A BN regista também um texto policopiado, de 2006, intitulado “O conceito de justiça poética em Martha Nussbaum”, por duas autoras. Tão escasso resultado desperta atenção e levanta a interrogação: porquê?
Martha formou-se em Harvard, onde ensinou filosofia e literaturas clássicas, depois mudou para a Universidade de Brown e, por fim, para a de Chicago. Tornou-se desde logo referência em foco ao publicar Aristóteles, De motu animalium, em 1978. As suas obras posteriores, focadas na filosofia e no direito, incluem Sexo e Justiça Social, obra de 1998, Mulher e Desenvolvimento Humano, 2000, e Emoções Políticas: porque o amor importa à justiça, 2013
Desde os anos ’80, Martha colaborou com o economista Amartyn Sen, prémio Nobel, sobre temas ligados a desenvolvimento e ética. Vale a pena citar uma outra obra significativa da autora: O Ocultamento do Humano: repugnância, vergonha e lei, de 2004. Estes títulos aparecem aqui com os originais traduzidos para melhor explicitação.
Assim se levanta, em torno desta autora, uma dúvida: estará ela off-side? Com um livro apenas editado em português (e decerto para fins pedagógicos, livro que nem terá atingido o mercado), a estranheza do caso justifica-se. Onde estará escondido o motivo que impede Martha Nussbaum de ser lida em Portugal?
Motivo tão singular talvez possa encontrar-se no texto saído na revista da Unesco “Courrier Internacional”, edição portuguesa nº 175, Setº, 2010. Condensa o primeiro capítulo do livro Not for Profit: Why Democracy Needs Humanities, ed. 2010 (Não por Lucro: Como a Democracia precisa de Humanidades), cap. “Uma crise planetária da educação” traduzido por Ana Cardoso Pires. As primeiras linhas bastarão para nos esclarecer. Escreve Martha: “Atravessamos actualmente uma crise de grande amplitude e de grande envergadura internacional. Não falo da crise económica mundial iniciada em 2008; falo da que, apesar de passar despercebida, se arrisca a ser muito mais prejudicial para o futuro da democracia: a crise planetária da educação.
Estão a produzir-se profundas alterações naquilo que as sociedades democráticas ensinam aos jovens e ainda não lhes aferimos o alcance. Ávidos de sucesso económico, os países e os seus sistemas educativos renunciam imprudentemente a competências que são indispensáveis à sobrevivência das democracias. Se esta tendência persistir, em breve vão produzir-se pelo mundo inteiro gerações de máquinas úteis, dóceis e tecnicamente qualificadas, em vez de cidadãos realizados, capazes de pensar por si próprios, de pôr em causa a tradição e de compreender o sentido do sofrimento e das realizações dos outros.
De que alterações estamos a falar? As Humanidades e as Artes perdem terreno sem cessar, tanto no ensino primário e secundário como na universidade em quase todos os países do mundo.”
Porque será que as Humanidades e as Artes ficaram off-side? Martha, atingida, aponta o motivo: são “Consideradas pelos políticos [como] acessórios inúteis”!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Governo de multimilionários


O termo perdeu força, devia ser actualizado. Um milhão de euros ou de dólares já não chega para colocar quem o possui na, outrora invulgar, categoria de ricos. Verdadeiramente ricos são agora, como bem sabemos, os donos de incontáveis milhares de milhões, tantos, tantos, e a crescer, a crescer…
Girando com rapidez, as rotações centrípetas do capitalismo esvaem as periferias em direcção ao eixo central, onde se acumulam. Os Estados Unidos são o eixo económico-financeiro do Ocidente sendo também a nação mais poderosa e rica pátria (embora a mais endividada) de quase todos os maiores multimilionários que este mundo criou; pátria, também, e decerto não por acaso, onde o seu novo presidente eleito, o multimilionário Donald Trump, junto com os membros do seu gabinete, somam tanta riqueza multimilionária que tal Governo será recordado, sem dúvida, como um caso histórico fenomenal metido na Casa Branca. Novidade estreme é, porém, a vontade súbita que os senhores gerentes de tão colossais fortunas se disponham a governar.
Prometem governar a nação federal conforme governam as suas empresas - bancos, fundos financeiros, investimentos, marcas transnacionais. Mas será isso possível, incluso com a celestial ajuda de todos os santos? De facto, os multimilionários administram as suas empresas orientando-as de maneira a aumentarem os lucros; ora, feitos ministros (ou “secretários”, como por lá se usa), se vão governar tal qual, não irão servir os cidadãos, apenas aumentarão os lucros…
Todavia, a entrada de tantos multimilionários na governação estado-unidense é novidade apontada num outro sentido. Então já não lhes interessam mais as reuniões do Clube Bilderberg, querem mesmo liderar o órgão cimeiro político-administrativo? Isto é, vão dispensar a cambada do sistema bipolar republicano-democrata e mandá-la para a reforma?!
Ouviram? Um estouro aterrador percutiu nas paredes e nos tímpanos dos presentes anunciando o Diabo, que surgiu no palco envolto numa nuvem de fumo. Mostrou o seu jogo.
Os multimilionários são já os donos disto tudo. E sabem tudo. Conhecem as regras do sistema, chega a hora grande de os empresários, homens de colossais negócios, substituírem políticos, diplomatas, jornalistas e arautos de regulamentações incómodas.
Empresários sabidos, sem dúvida. Até sabem o que pensamos, consumimos e fazemos, quer dizer, todos nós, os milhões de entregues à americanização e ao consumismo que em cada país frequentamos os centros comerciais. Naquelas suas mãos concentram terras férteis e recursos hídricos que produzem os alimentos e os artigos que as populações urbanas se habituaram a consumir: bananas e calças, livros e cereais, crédito e vinhos, fotocópias, televisores e smartphones tal como água potável e o oxigénio que respiramos (bens esgotáveis, que se valorizam).
[Pintura de Iman Maleki, artista híper-realista iraniano.]

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Em nome da Democracia

Está visto, a Democracia não é como a pintam quantos a erguem como bandeira para remar até à ilha dos seus amores. O sistema democrático pode aparecer em certos momentos, aqui e ali, com geometria variável, sem ofender a consigna básica forjada em Paris pelos revolucionários da Comuna. Não pode é perder ou deixar subverter a consigna suprema que a identifica como sistema assente no poder do povo, pelo povo e para o povo.
Os movimentos políticos de direita sempre quiseram colorir-se de algum matiz democrático, isto é, sempre quiseram afirmar-se “democráticos” por mero oportunismo demagógico. No fim de contas, todas as políticas e todos os partidos reivindicavam o rótulo nas suas propagandas e estratégias eleitorais ainda que beijassem a mão à minoria social e penalizasse duramente a maioria popular. Ser “democrático” acabou por soar tão vulgar como um lugar-comum, nada a levar a sério.
Porém, a irrupção dos alegados populismos na Europa e na América acordou as inteligências bem-pensantes dos cosmopolitas e outras figuras das elites ocidentais para o perigo nascente. Continuam a defender a globalização (ou seja, a liberdade de comércio para fruição das empresas transnacionais, bancos e fundos financeiros omnívoros; logo, não promove a interdependência positiva das nações) e a Comunidade Europeia mas confundem líderes ditos populistas de direita radical com líderes de esquerda autenticada. Confusão nada ingénua, muito lamentável.
Um sistema pratica a democracia na medida em que, realmente, outorga o poder efectivo à maioria dos cidadãos cuja vontade teve expressão política em liberdade. Acusar de “populismo” um líder que se dispôs a escutar os anseios e apelos populares e sai vitorioso, com maioria eleitoral, é propaganda antidemocrática, argumento ilegítimo e balofo. Assim se explicam as estranhezas que tornaram a surgir com a recente eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, não com base na contagem dos votos populares mas sim na soma de uns 280 votos dos Grandes Eleitores estaduais, apenas!
É, portanto, na expressão da vontade popular (quando erra aprende com o erro) e na consequente concretização prática das reformas, revolucionárias quando necessário, que poderemos encontrar o índice democrático presente e envolvido. É, enfim, o sistema (denegrido, suspeitoso) do povo, para o povo e pelo povo. Autêntico, desnudado, sem rótulos enganadores ou roupagens “democráticas”.
Vejamos. Uma democracia (é o que mais está a faltar; abunda, sim, a desigualdade – e para onde foi a fraternidade humanista?), bem desenvolvida, pode avançar até atingir o socialismo integral completo - essa magnífica utopia. Será a realização da temida democracia directa que, qual vento gélido, eriça o pêlo a tantos fervorosos “democratas” de aviário?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A cultura do decrescimento

Serge Latouche, economista e pensador francês, distinguiu-se na defesa de uma causa impopular: a cultura do decrescimento. É autor de vários livros em que justifica as suas ideias por sinal marcadas pela influência recebida de François Partant, outro economista francês. De facto, Latouche co-fundou e dirige La ligne d’horizon, plataforma dos Amigos de Partant dedicada à difusão das suas teses.
Eu apoio, desde a década de ’70 do século passado, a bandeira do decrescimento que, como todos sabemos, se mantém desde então sob rigoroso apagamento. Porém, alguns livros de Latouche foram publicados em Portugal e também no Brasil. Não há dúvida, paga-se um preço nada razoável por se ser crítico do consumismo, do crescer por crescer, porque, para este autor, o crescimento ilimitado é incompatível com um planeta limitado; logo, quem tal diz, “é louco ou é economista”.
O autor pede uma descolonização do nosso imaginário de consumidores compulsivos. Afirma que “a verdadeira riqueza consiste no pleno desenvolvimento das relações sociais de convívio num mundo são”. Ora este objectivo “pode ser alcançado com serenidade, na frugalidade, na sobriedade, até mesmo com uma certa austeridade no consumo material, ou seja, aquilo que alguns preconizaram com o slogan gandhiano ou tolstoísta da simplicidade voluntária.”
Como haveríamos de estranhar o prolongado apagamento das ideias de Serge Latouche (n. em Vennes, 12-01-1940), que o mesmo será dizer da cultura do decrescimento? Ele vai ao ponto de contrariar a ocidentalização do planeta… Em suma, puxa para um lado e o mundo vai avançando para o outro.
Registo agora um caso pessoal intrigante. A Universidade Estadual do Sudoeste Brasileiro indica o meu nome como tradutor da obra Introdução à Cultura do Decrescimento, de Latouche e que a edição se deveu, em 1973, a Publicações Europa-América. Nessa obra se terá baseado um curso de extensão transdisciplinar cujo programa a Universidade transcreve. Ora eu tenho memória (remota!) de algo semelhante; isto é, sem o poder afirmar, acho que traduzi realmente para a PEA, naqueles anos, diversas obras, uma das quais com o tema versado por Latouche, mas o catálogo geral da BN não a regista e eu não a tenho em casa. Aliás, o tema foi aqui abordado, em "Enfim, o decrescimento»", 01-03-2009.
As primeiras edições portuguesas deste autor são recentes (da Piaget e de Edições 70), portanto muito posteriores a 1973. Como explicar, esclarecer, entender isto? Poderá a ajuda de um leitor benévolo e amável esclarecer o enigma?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Canção da solidão radical


O nosso tempo puxa pelo radical. Parece ter perdido a noção do equilíbrio, está aberto a todos os extremismos. Não o demonstra apenas o que cada um de nós observa no seu dia-a-dia, agora até uma canção popular o exprime.
Agora? Não. Desde 1991, ou seja, há quinze anos que o país anda a ouvir a canção “Nasce selvagem”.
Essa canção está no CD “Palavras ao vento” do grupo Resistência e continua a integrar as playlists em voga, de maneira que percorre os pátrios ares. Mas a letra, musicada com inegável brilho, veicula uma mensagem atroz, pesada, intragável. Declara, ostensiva e rotundamente, o individualismo mais irredutível, feroz, irremediável.
A mensagem não se limita a observar uma certa marginalidade social, avança para mais longe; recomenda e aconselha: “Vive selvagem / E para ti serás alguém / Nesta viagem”.
Explica o porquê da opção: “Mais do que a um país / Que a uma família ou geração / Mais do que a um passado / Que a uma história ou tradição / Tu pertences a ti / Não és de ninguém // Mais do que a um patrão / Que a uma rotina ou profissão / Mais do que a um partido / Que a uma equipa ou religião / Tu pertences a ti / Não és de ninguém”.
Se esta mensagem pretende dirigir-se a um (ou uma) jovem, quer persuadi-lo de que se encontra de facto no mais completo desgarramento, numa absoluta solidão. Não pertence a nada, sejam pais, irmãos, amigos, parentes. Não tem pátria, tradições, história ou religião e, menos ainda, profissão, clube desportivo, sindicato, partido.
Que espécie de ser humano, assim concebido, isto é, assim tão despojado de atributos humanistas, poderá ser este, radicalmente separado de todas as redes de pertenças que o definem socialmente? Despojado de uma dimensão social e, por decisão própria, feito “selvagem”, estará tal ser humano preparado para viver enfrentando um mundo eventualmente ainda mais selvagem? Pior: esse “selvagem” terá de viver dentro na sua “selva” e, muito mais, consigo mesmo!
Nada resta aqui do lembrado “selvagem” de J. J. Rousseau, “bom” porque ainda se mantinha integrado na natureza em que nascera. A canção “Vive selvagem” insiste na sua mensagem dissolvente, repetindo: “Quando alguém nasce, / Nasce selvagem / Não é de ninguém”. Talvez a quadra natalícia seja apropriada para questionar pais irmãos, amigos, partidos, associações culturais, filantrópicas, desportivas e etc.: uma nova geração nasceu e cresce ouvindo isto – não há nadinha, influência nenhuma, a reportar?

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Leitura mata Literatura


Uma investigação de peritos em matemática, anunciada recentemente, analisou o enredo de uma quantidade enorme de romances publicados e, suponho, em leitura na actualidade. Não leram tal quantidade de ficção. Elaboraram um algoritmo, aplicaram-no aos textos e concluíram que existem apenas seis formas básicas de ficções, não mais.
Inspiraram-se em Kurt Vonnegut, escritor dos EUA, autor de uma divertida palestra sobre o tema, porque, sem histórias novas para narrar, como bem sabemos, as ficções andam a repetir-se de mistura com minguados recursos a ingredientes e temperos. O mundo dos consumos literários estagnou de tal modo que a Academia Sueca, ribalta do prémio Nobel, já teve de ouvir que não resta mais diegese fresca para servir. Ficções românticas, científicas, policiais, de espionagem e outras debatem-se com receituários esgotados e escrita criativa quanto baste.
No entanto, o mercado livreiro não aparenta crise. Os escritores escrevem, as editoras publicam, os livros amontoam-se por todo o lado e começa a falar-se de uma “pós-literatura”. O que pode ser ou será mesmo… isso?
Assim se faz lembrar o caso de Albino Forjaz de Sampaio, autor tão popular no início do séc. XX português que foi acusado de ser autor de tanta leitura em circulação que estava a matar a Literatura (ler crónica de 31-10-2016). O tema é interessante, logo irrecusável. Até que ponto um gosto padronizado resultante das leituras populares pode rebaixar o nível da educação estético-literária das populações?
Vejamos de relance a situação. O número de editoras cresceu exponencialmente no país mas são as editoras principais, presentes no mercado, que o abastecem com abundância nunca vista. As fictícias, simples chancelas, ou “marcas”, praticam tiragens ínfimas de cada obra (são, frequentemente, edições dos próprios autores e, portanto, nem chegam, ou mal chegam, ao mercado).
É, pois, do lado da edição comercial – altamente concentrada em grupos – que chovem infindos lançamentos de ficções e mais ficções pleonásticas, meras repetições assinadas por nomes internacionais nobelizados, celebrizados, aclamados por milhares ou milhões de leitores-consumidores. São autores de obras extensas como léguas da póvoa, os tradutores arregaçam as mangas e têm que dar o litro. Os leitores nem tanto: desistem e deixam a coisa arrefecer no arrumo doméstico.
Aumentam os desperdícios de papel e da celulose? Estará a degradar-se o gosto literário dos leitores-consumidores desta produção editorial cacofónica? E sairá daí, concretizada, aquela predita “pós-literatura”?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O poema de Maiakovski

“Na primeira noite, eles aproximaram-se e colheram uma flor do nosso jardim. E não dissemos nada. / Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão. E não dizemos nada. / Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”
Maiakovski é, de longe, mais conhecido mundialmente como autor deste poema do que como autor de Os Banhos ou outros livros seus. A força poético-dramática da mensagem contida nestas poucas palavras torna o poema absolutamente notável, inesquecível. Celebrizou-se ao ponto de ter sido glosado por variados autores: Martin Niemöller, Bertolt Brecht e outros, apelando sempre para uma resistência cidadã contra a invasão de qualquer tirania
; o mais recente será talvez Cláudio Humberto, brasileiro, com poema de 09-02-2007, que começa: “Primeiro roubaram-nos os sinais, mas não fui eu a vítima”.Vladimir Maiakovski nasceu em 1893 e morreu em 1930. Martin Niemöller (1892-1984) parece ter aparecido com a sua glosa em 1950, quando também a de Brecht (1898-1956) surgia, embora Niemöller possa ter aflorado o mesmo tema em 1933, após Maiakovski falecer. Prevenia: “Primeiro vieram buscar os comunistas e eu não disse nada pois não era comunista. Depois vieram buscar os socialistas e eu não disse nada pois não era socialista. Depois vieram buscar os sindicalistas e eu não disse nada pois não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus e eu não disse nada pois não era judeu. Finalmente, vieram buscar-me a mim – e já não havia ninguém para falar.”
Realmente, o poema de Maiakovski começou a circular pelo mundo em meados do século XX, quando os países europeus se reconstruíam a custo, erguendo-se dos horrores sofridos com a Segunda Grande Guerra, já sem Hitler e o fascismo de Mussolini na Itália mas com Franco ainda a reinar em Espanha. A divulgação do poema veiculava portanto uma rejeição apelativa de mais ditadores, guerras, destruições, e vem de novo à memória de quem lobriga no seu horizonte idêntico perigo. Como foi o caso de um texto de opinião de Tiago Moreira de Sá («Público», 29-11-2016, p. 23, tit. «Donald Trump e a lição de Martin Niemoller»).
Moreira de Sá cita Niemöller e
repete o argumentário corrente do discurso anti-Trump mas omite o autor do poema original, o que é grave. Deixa em suspenso duas hipóteses: involuntariamente, por escassez de cultura literária, ignora que o poema até celebrizou Maiakovski; ou, voluntariamente, por um poeta soviético, logo comunista, provocar urticária até em quem está, como ele se diz, com tanta preocupação: “pode estar em causa a qualidade da democracia na América”. Ali, na pátria da Democracia Modelar, onde por sinal uma candidata à Presidência com mais de dois milhões de votos cidadãos do que o antagonista perderá a eleição por decisão, talvez, dos Grandes Eleitores, 280 votos! [Imagem: desenho de Emerenciano.]

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Língua portuguesa e Literatura

A cultura, nomeadamente a cultura literária, não vem somente nos livros. Aliás, cada vez menos os milhares das novas edições que se registam em Portugal trazem no miolo substância que realmente valha a pena ler. Em alternativa, olhemos portanto, ao menos como quem espreita, algo do que vai saindo em revistas periódicas.
Atidos apenas a publicações impressas (i. e., em papel), notemos o panorama das revistas académicas. Surpreende. Continua animado e extenso, vigoroso e rico, como que alheio à expansão dos formatos digitais.
Nestes termos, saúde-se a “Revista de Estudos Literários” que o Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras de Coimbra vem publicando anualmente. Saiu o nº 5, relativo a 2015, coordenado pelo Prof. J. L. Pires Laranjeira. Conta 700 pp e traz no sumário um naipe de ensaios de especialistas da área temática deste volume dedicado ao tema Literaturas africanas de Língua Portuguesa.
Os textos aparecem arrumados nas secções Temática, Não-Temática (resultante do projecto que elaborou o Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa), Profissão, Arquivo (última entrevista de Manuel Ferreira concedida a Lopito Feijóo, inédita), Recensões e notas sobre os autores dos textos. Em nota prévia, o Prof. Carlos Reis sublinha a “área muito ampla de produção literária, com manifestações desiguais” nos países africanos de língua portuguesa. Neste sentido, é naturalmente maior o relevo aqui dado a escritores de Angola, Cabo Verde ou Moçambique do que a Guiné-Bissau ou S. Tomé e Príncipe. Também, entre os autores mais focados, se distingue Manuel Ferreira, que Pires Laranjeira, na introdução, evoca justamente como “cabouqueiro, divulgador, editor, professor, cavaleiro andante das sete partidas, apaixonado das cinco literaturas [africanas], referência mundial incontornável”. Mas outros autores são estudados: Domingas Samy, Mia Couto, Paulina Chiziane, Eduardo White, João Melo, Alfredo Troni...
São perto de duas dúzias os autores destes estudos: Pires Laranjeira, Luís Kandjinho, Inocência Mata, Ana Mafalda Leite, Carmen Lúcia Tindó Secco, Francisco Topa, Mário César Lugarinho, Solange Luís, Rui Guilherme Silva, Majda Bojic’, Fátima Mendonça, Miguel Filipe Mochila, Rosinda Aires Bezerra, Ana Belém García Benito, Jorge Valentim, Elena Brugioni, Inês Nascimento Rodrigues, Laura Padilha, Ana Teresa Peixinho, Daniela Côrtes-Maduro, Maria Eduarda Santos e Marisa das Neves Henriques.
Estes nomes indiciam a diversidade das proveniências nacionais dos autores dos ensaios inseridos neste volume, sugerindo de algum modo a amplitude e a vitalidade da língua portuguesa em África, no Brasil e, enfim, no mundo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Os afluentes da confluência


A deriva que subverte o nosso mundo, virando-o do avesso em aspectos decisivos, tem avançado com redobrado ímpeto apoiado na confluência de variados contributos parcelares. A conjugação aparentemente espontânea desses contributos na corrente principal da deriva deu-lhe força esmagadora, indiscutível como imposição de uma nova ordem das coisas. Notemos agora a confluência gerada por alguns desses contributos.
A voga da globalização (isenta de patriotismo e ecumenismo) aparece em destaque. Apoiada na livre circulação de capitais, em “paraísos fiscais” e offshores, aproveitou a empresas transnacionais, banqueiros e governos. Não debilitou apenas o vigor industrial, o crescimento e o emprego de economias desenvolvidas; também abriu o caminho a corrupções e situações de trabalho quase ou mesmo escravo (só crianças asiáticas?).
Porém, a globalização tem arautos entusiastas, infatigáveis desde há anos a festejar o que, à evidência, empobrece os povos nuns países e explora outros povos ainda mais pobres. Mas tanto entusiasmo derramado nos media – televisão, imprensa e rádio – não parece convencer a população que se debate com desemprego e baixos salários, embora inspire governos, origine défices orçamentais e endividamentos nacionais acatando o neoliberalismo de porta aberta para a austeridade programada. Mas põe a lavrar no povo a desconfiança e a revolta.
Os sistemas escolares público e privado, reformados, contribuíram igualmente para alavancar a deriva. Avançaram para além do “facilitismo”: concentraram-se sobretudo em estabelecer um ensino de tipo tecnológico-pragmatista em substituição do “velho” ensino humanista. E pior: as novas gerações formadas em tal modelo educativo são em grande parte provenientes de meios familiares desestruturados.
Estas e outras correntes da deriva espelharam-se dia após dia no conjunto dos media acríticos, acomodatícios em face das versões oficiais da Verdade Única, de modo que os órgãos de informação nela se envolveram activamente. De facto, o jornalismo trabalha junto das instâncias de poder seja ele político, governamental, económico, social, financeiro. Apenas não tem que se lhe submeter para sobreviver, mas a situação de crise atingida pela função noticiosa entrou em descalabro, contribuindo na inversa para a resposta “populista”.
O alinhamento dos media com a deriva geral caucionou sensivelmente o avanço das figuras e das políticas de direita. Também a liberdade de expressão e de Imprensa, tal como os profissionais do jornalismo, vêm sofrendo gravíssimos ataques (em especial na Turquia, Egipto e noutros países referidos pela organização Repórteres Sem Fronteiras num quadro internacional).

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Elites em falência

Finalmente, a acumulação de elementos que anunciam a eclosão de uma tempestade perfeita a desabar sobre o Ocidente começou a ser notada. Vozes de bom aviso apontam semelhanças da situação que está a desenhar-se após a eleição do novo presidente estado-unidense com o período histórico vivido nos anos ’30 do século XX. Um calafrio percorre as bolsas de meio mundo.
Ora eu, nascido em 1930 (adolescente no fim da Segunda Grande Guerra, que acompanhei ouvindo a BBC e lendo jornais), julgo ter sentido ainda alguma coisa da Grande Depressão no pós-guerra. Lembro também a Europa de então: fascismo e nazismo, ditadores em Portugal, Espanha, Itália, Alemanha; direitos fundamentais banidos, atraso, repressão, desemprego, miséria, fome. Os intelectuais queriam-se deveras ao lado do povo mas naquele tempo as massas populares estavam irremediavelmente entregues a si mesmas: não havia redes sociais, qualquer fonte de informação alternativa.
Eis como os anos vividos sob os terríveis efeitos do Crash se distinguem do nosso tempo. As elites ocidentais distanciaram-se largamente das massas populares, no Reino Unido votando o “Brexit”, sentando na Presidência dos EUA Donald Trump e, na Europa, apoiando partidos, políticas e líderes de extrema direita. Assim se compôs um quadro inquietante, alarmista, que desperta por fim para a necessidade urgente de mais economia, mais economia – e como?
As elites (intelectuais, políticos, académicos, cosmopolitas) traçam neste quadro a linha de uma clivagem fundamental: aderem à globalização, à União Europeia e à moeda única; são-lhes indispensáveis os EUA e a NATO à “defesa do mundo livre”. Repudiam, portanto, a saída do Reino Unido da EU e a política antiglobalização de Trump, contrária às “parcerias” comerciais (que convidam as transnacionais a deslocarem-se em busca de baixos salários e transforma a nação antes exportadora em importadora). Neste “proteccionismo” dito populista encontrou Trump o seu maior trunfo eleitoral.
As elites não aderem à direita nem à extrema esquerda, preferindo claramente não arriscar navegando ao centro no mainstream. Misturam populistas e líderes de esquerda num mesmo saco (em lamentável confusão com ditadores) Al Sissi, Recep Erdogan, Putin, Xi Jinping, Kin Jong-un ou Nicolás Maduro. Estarão hoje estas elites verdadeiramente ao lado do povo?
As massas populares (a maioria que elege políticos, partidos e governos, onde tem raiz a democracia que tantos reduzem a relíquia-miniatura a exibir na lapela) estão desligadas dos intelectuais virados para a globalização; sentem a pátria debaixo dos pés, acreditam ora em populistas de direita, ora de esquerda. As elites preferem olhar para o alto, levitam na alta cultura, já nem se lembram do hino nacional. Estão em falência.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A classe média existe!


Escuso de me repetir, é a realidade dos factos que agora, bem melhor do que eu, o demonstra. A classe média existe mesmo (aí temos em prova o resultado das eleições nos EUA), votou em massa e, de acordo com o sistema eleitoral vigente, levou de vencida Donald Trump até à Casa Branca. Mas os factos demonstram mais: o povo americano votou percebendo que a globalização o empobrece e que muito melhor será a nação começar a fechar-se em si própria.
Bastantes sectores da classe média europeia já sentiam na pele que a globalização trazia a austeridade e todos os sacrifícios impostos pelas políticas do neoliberalismo, a subordinação da União Europeia às estratégias da especulação financeira mundial. Talvez agora decidam virar também as costas às suas elites: os seus cosmopolitas e outros intelectuais. Provavelmente virão a tê-los na consideração liminar em que já têm os políticos e os partidos que se revezam nos governos: tudo escumalha mentirosa, não merecedora de confiança e por vezes corrupta.
Inquietem-se, portanto, os adversários do populismo. Venceu nos Estados Unidos, onde a vitória do candidato independente à Presidência ficou a dever-se ao imenso apoio que recebeu dos media… populistas. Ora o populismo está em franca expansão pela Europa e pelo mundo.
Na verdade, as populações estão fartas de partidos alternantes, políticas demagógicas, dificuldades de vida inaceitáveis. Podem ler poucos jornais, ouvir pouca rádio, mas vêem televisão. A informação que passa pelos canais noticiosos envolve-se quase sempre muito mais de propaganda que informação, abundando em espectáculo, mero espectáculo para entreter crianças de todas as idades.
Donald Trump soube interpretar o sentir profundo das massas populares, suas tradições conservadoras, hoje receosas das mudanças sempre para pior, ou seja, que o eleitorado, dividido, queria ouvir quem o atendesse. Arriscou-se a negar o sistema em bloco, foi ao ponto de atribuir aos próprios americanos o atentado dos aviões contra as torres gémeas nova-iorquinas, a propor boas relações com a Rússia, o Irão… Com ele, a política como espectáculo atingiu novo limite, o que deliciou com opíparos fartotes os media.
Os dados estavam lançados e os resultados do jogo deram no que deram: Trump é o presidente eleito. Prometia políticas ora com visos ora de esquerda, ora de direita, mas um cavalo de Tróia está postado à porta da cidade.
Ninguém vai acreditar que Trump caia em beliscar interesses de milionários espertos como ele. Seguirá, portanto, políticas de direita, as tais que alvoroçam multidões de manifestantes em cidades estado-unidenses acentuando a deriva ideológico-política que se dissemina pela Europa e em outros espaços. Temos a dúvida: até que ponto o designado underdog irá unir a sua palavra à acção?

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Os cosmopolitas avançam

Multiplicam-se velozmente. Aparecem, abundantes, nos aeroportos, cruzam os céus a caminho de Londres, Nova Iorque, Paris, Tóquio, Vancouver… e quando regressam já estão de partida. São viajantes incansáveis, autênticos cosmopolitas.
Encontram interlocutores em qualquer cidade, têm estatuto académico, brilham em colóquios e areópagos internacionais onde se engendram grandes estratégias, conhecem os principais hotéis e museus do mundo. Já participaram de um governo ou estão em fila de espera, e falam fluentemente pelo menos três línguas. A primeira é a novíssima língua franca (o inglês, naturalmente), dado que os cosmopolitas se querem sintonizados com o quotidiano nova-iorquino e, o mais possível, o pulsar da potência americana.
São defensores aguerridos da globalização em curso, de modo que apoiam o famigerado TTIP que pretendia pôr as multinacionais americanas a mandar discricionariamente nos países europeus, tal como aquele mesmo tratado de comércio, na versão CETA, entre Canadá e União Europeia, que acabou desgraçadamente por ser assinada. Coerência deles: recusam nacionalismos, fronteiras, alfândegas.
Parece que pretendem o mundo inteiro aberto e livre de peias para os grandes monopólios transnacionais se expandirem e poderem agir à vontade. Vêem tão alto e tão longe que não enxergam a inovação que vai arruinar em cada país a agricultura, as comunidades rurais, as pequenas e médias empresas, o pequeno comércio, fazendo disparar o desemprego, a pobreza e a miséria. A sua visão é a de quem vê o mapa da janela dos seus voos a jacto.
Os cosmopolitas evocam talvez uns antigos “cidadãos do mundo”. Mas a comparação falha porque os cosmopolitas aparecem desprovidos dos “idealismos utópicos” que impregnavam os “cidadãos” em meados do século XX. Contraste marcante: o humanismo de uns foi substituído pela tecnocracia nos outros.
Sabem a cartilha toda escrevendo e publicando crónicas, artigos, ensaios e conferências sobre questões cruciais. Ninguém dirá que têm ideias políticas de direita e, ainda menos, de esquerda. São por uma democracia de largo espectro, que se basta com dois partidos alternantes no poder e algumas reformas cosméticas.
Curioso e sintomático: questionam a existência da pequena burguesia, ou classe média, que não reconhecem corporizada na maioria da população nacional e base eleitoral legitimária das políticas governamentais, mas atestam a existência histórica da classe burguesa. Não se sabe o lugar certo onde sentam o clero e a nobreza (de sangue ou a nova, dos himalaias de riqueza). Talvez o mundo cosmopolita se componha e complete somente com burguesia e povo – o plebeu, a ralé dos patrícios do império romano…

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Forjaz de Sampaio e Lisboa

Não será saudosismo ou algo que se pareça. Será tentativa de confrontar a impressão de leitura que fiz muito jovem com a leitura que pude repetir agora, quase setenta anos depois. A primeira impressão foi forte, marcante, inesquecível; e a de agora?
Mas vou iniciar o comento recordando que, ao consultar o livrinho de pequeno formato
A Tipografia portuguesa no século XVI, me recordei de duas leituras marcantes. O autor do livrinho (ed. Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1932) era Albino Forjaz de Sampaio, autor de Palavras Cínicas e de Lisboa Trágica, dois títulos que me ficaram na memória.
Estes livros circulavam e ainda eram citados no meu ambiente natal, onde o estereótipo da “cidade” como antro de vícios e a “aldeia” como jardim de ventura se mantinha após a Segunda Grande Guerra. Albino Forjaz de Sampaio (Lisboa, 19-01-1884 / 13-03-1949), jornalista aos 16 anos na “Lucta”, cedo ficou a conhecer o submundo das vielas da capital. Grande amigo de Fialho de Almeida e Brito Camacho, foi autor de uma bibliografia torrencial, mas aqueles dois títulos deram-lhe imensa projecção e popularidade.
Palavras Cínicas, de 1905, pessimista à Schopenhauer e depressivo à Fialho, foi dos livros mais vendidos no Portugal da época (teve 46 edições); Lisboa Trágica, de 1910, subintitulado “Aspectos da cidade”, atingiu apenas sete edições ou pouco mais.
Forjaz de Sampaio dedicou-se a seguir, entre 1920-22, à recolha e estudo de teatro de cordel conseguindo que o mundo literário reconhecesse essas obras de expressão popular. Começou a deixar de ser, como pretendia, um “jornalista levado dos diabos”, para se afirmar um distinto bibliófilo e publicar
Como devo formar a minha biblioteca, obra que perdurou como manual recomendado. De facto, coleccionou apaixonadamente os nossos autores clássicos de Quinhentos, aos quais rende tributo no livrinho acima citado sobre a história do livro e da impressão em Portugal, de tal modo que, em apresentação, o antigo jornalista pôde acrescentar ao seu nome “Da Academia de Ciências de Lisboa”.
A honra que lhe foi concedida pela Academia não calou os detractores (diziam-no autor cuja “leitura estava a matar a literatura”). Ora
Lisboa Trágica, relido na velha reedição de 1940, traz a epígrafe de Fialho: “…esta imensa cidade de quatrocentos mil habitantes e seis milhões de egoísmos”. Saboreáveis, hoje, são os dois prefácios do autor, que nota: desaparecem os “homens integrais”, baixa o “sentimento da Honra”, “as vacas já não andam pela rua a distribuir leite”; naquele tempo [1910] “desconhecia-se o foot-ball e o cinema” (sic), agora “há o pontapé na bola e as fitas policiais”, mas jogar “antigamente era um crime”…