domingo, 15 de abril de 2012

Filosofia da miséria

Os centros «inteligentes» da propaganda do sistema que desgoverna o mundo trabalham sem descanso. Pensando por nós, têm a suprema bondade de dizerem ao rebanho em que nos vemos metidos qual o melhor caminho a seguir. Até ontem empurraram-nos para consumir ao máximo tal como hoje nos aconselham a dar mais (ao sistema) e a reclamar menos.
Querem convencer-nos, com óbvio cinismo, de que somos, nesta alegada «vida passageira», bastante afortunados - e, caramba!, ainda reclamamos? Um pps a circular na Internet, que se reclama de «o melhor mail do ano», traduzido do inglês para português, chapa-nos com a novidade na cara. Somos uns felizardos: não mendigamos na rua nem aguentamos com os maiores sofrimentos do mundo e tão pouco pensamos em desistir da luta pela vida até porque chuvas diluvianas não nos têm trazido inundações.
Uns grandes sortudos, portanto. Temos escolas bem apetrechadas, família organizada, não morremos de fome, temos jogos e distrações em barda e até temos camas para dormir e sapatos para calçar. Sem esquecer os amigos que temos, os nossos sistemas de transportes e estas sociedades «mais justas do que outras»...
A mensagem é clara: «Aproveita a vida como ela vem. As coisas são piores para os outros e muito melhores para nós.» A filosofia da miséria conduzida pela miséria da filosofia!
Pretende, em suma, que aceitemos sem enérgica resistência o empobrecimento causado pelas nefastas políticas neoliberais que tão pesadamente atingem as classes médias. Mas a estratégia do poder financeiro internacional, servilmente servida pelos governos, salta hoje aos olhos. Durante dezenas de anos andou a gritar que consumir era bom, fossem casas, automóveis, viagens, a crédito baratinho, para caçar o povo na armadilha.
Aquela aparente «expansão» do consumo e da economia, afinal, serviu ao poder financeiro, corporizado pelos bancos, para criar a «bolha» que, ao rebentar, mostrou quanto era ilusória. Depressa o disco virou: agora a cantiga quer fazer-nos aceitar a perda das funções sociais do Estado, o abaixamento real do nosso nível de vida pautado por uma radical pobreza e todos os desaforos que sabemos. Em troca, as classes médias (que compõem a principal fatia da população) trabalham mais recebendo menos e pagando mais impostos, suportando a subida de preços e votando quando é preciso, nos partidos governamentais, para neles legitimar o poder «democrático»...
É preciso clamar, com potente sonoridade, contra tão desgraçada estratégia das centrais de «inteligência» do sistema. É preciso denunciar à maioria da população a política que, votando, está a apoiar e a pagar. O Estado, com as suas dívidas «soberanas», pesa nos ombros do povo, mas os seus recursos são cada vez mais desviados para ricos lóbis que reivindicam mais do que o pobre povo: grandes empresas (EDP, PT, etc.), parcerias público-privadas, pontes e auto-estradas de rendimento garantido, subsídios à exportação e, claro, bancos que o Estado protege e não deixa falir...

2 comentários:

Anónimo disse...

Mais uma lúcida análise.
Abraço,
Rui

A. M. disse...

E tu, amigo, sempre leitor atentíssimo. Obrigado!