domingo, 22 de julho de 2012

Eucaliptos: o emblema final

Sobressaltam-se ambientalistas, ecologistas, paisagistas, técnicos de ordenamento do território, amigos da conservação da natureza em geral. O governo declara-se disposto a retirar todas as barreiras legais que impedem ou condicionam a expansão do eucalipto pelo território nacional. É caso para propor que os governantes substituam o emblema que exibem na lapela pelo ícone da árvore que tão bem lhes quadra.
Assim vão ser atiradas para o lixo todas as legislações nacionais produzidas desde o início do século XX que regulavam (pouco) o plantio daquela árvore invasora. Tem poucos amigos, mas poderosos (donos dos lucros das celuloses), e muitos inimigos sem poder. Todavia, sabem reconhecer na árvore um comportamento que até descrevem como «fascista»: come tudo em redor e não deixa nada.
Realmente, o eucalipto cresce depressa esgotando também depressa a humidade e o húmus contidos nos terrenos. Existem largas centenas de tipos diferentes, mas o que por aí abunda são os do crescimento mais rápido, logo os que mais depressa esgotam o potencial produtivo dos terrenos. Os amigos da natureza andam há imenso tempo a prevenir que tal árvore, sendo cheirosa, arruína os solos e expande no país maus cheiros e desertificação.
Ora o governo faz orelhas moucas para o que os tais muitos sem poder dizem e ouve os poucos com poder que lhes dizem o que querem ao ouvido. Tudo o que estes tem vindo a ganhar parece-lhes pouco. Os próprios incêndios na floresta (que este ano, piores que nunca, alastram sem travão), segundo pretendem certas insinuações, acabam por beneficiar de vários modos apenas as celuloses.
Porém, a consequência de maior gravidade que a medida decerto vai ter atinge a existência dos baldios. Herança histórica que remonta ao fim do feudalismo, os terrenos baldios são propriedade comum dos moradores de cada lugar como pastagens e reservatórios de lenhas. Nos anos '60, ocupavam 6% do território nacional; presentemente serão 420 mil ha.
Carlos Rebola, bloguista que lembro com saudade, fez há anos uma pesquisa e colocou em Google.docs um acervo importante de documentos sobre baldios, mas há outra informação disponível. O problema, agora, consiste na dúvida: irá o governo dar rédia solta às empresas madeireiras e deixá-las avançar (apropriarem-se?) por cima dos baldios? Dúvida justificada: a questão dos baldios está aberta desde há muito tempo e estes governantes ultra-neoliberais sentem-se dispostos a entregar tudo de mão beijada.
Portugal vai assim a caminho do futuro que certo economista americano veio apontar-lhe: apostar na produção florestal. Sem outro emprego, metade dos portugueses, de tanga e com rendimento de sobrevivência, cuidarão dos eucaliptais e a outra metade terá orgulho terceiromundista por exportar a pasta, matéria prima, e importar o papel fabricado. (Imagem: desenho de Pawel Kuczynski.)

3 comentários:

Anónimo disse...

Concordo com a manifestada preocupação com a política nacional que fomenta e autoriza a conversão de áreas extensas do território português para a cultura do eucalipto. Esta árvore, de origem australiana, gosta do
calor, consome toda a água que pode absorver e conserva-a na sua casca para consumo durante as épocas secas.
O comportamento biológico destas árvores é tal que, uma vez estabelecidas, acabam por dominar o ambiente e consequentemente
eliminar qualquer diversidade biológica na sua proximidade, o que é muitíssimo adverso a quase toda vida selvagem que usa
a floresta como habitat. É muito duvidoso que os benefícios económicos para a sociedade portuguesa superem
os danos ecológicos que os eucaliptos produzem.
A. Freitas

Anónimo disse...

Só da minha memória, locais onde na minha aldeia, há 50 anos, escorria água mesmo no verão, chegam a estar secos agora, mesmo no inverno...
"Leis em favor dos reis se estabelecem/ e as em favor do povo só fenecem."
Grande abraço,
Rui

A. M. disse...

Agradeço estes comentários, mas, amigos meus, assim em boa concordância, deixem-me insistir no ponto para mim MAIOR -- a muito provável «invasão» dos baldios nacionais pela ocupação dos eucaliptos e sua apropriação oportunista pelas empresas madeireiras e indústrias da celulose (privadas). Trata-se, por ora, de um receio -- é verdade. Mas justifica-se, não acham?
Reparem, são 420 mil hectares! Sacados às pequenas povoações do interior. Onde irão depois buscar lenha? Pastorear? Caçar?
Por favor, digam-me que este assunto não vale nada nem tira o sono a ninguém!