quarta-feira, 4 de maio de 2011

Cidades modelo XXI

Duas evoluções marcam o nosso tempo: os espaços rurais estão a sumir-se dos mapas e crescem em número e tamanho as cidades. São evoluções paralelas, pois a população que se aglomera nas grandes urbes é em grande proporção a que sai dos campos em busca de outra vida. Por isso as cidades se expandem continuamente enquanto os espaços agrícolas e florestais desaparecem transformados em zonas suburbanas e urbanas e, tantas vezes, uma cidade antiga fica no centro de uma constelação de cidades-satélite.
Tanta acumulação demográfica em espaços restritos origina consequências cuja extensão e gravidade escapa à percepção corrente. Longe vai o tempo em que a abordagem sociológica detetava na cidade o fenómeno da massificação na forma da dita «solidão em comum» e a grande novidade eram as megalópoles. Hoje precisa de colocar no devido relevo o movimento que transforma massas de camponeses e aldeões em suburbanos ou citadinos.
Os antigos habitantes das pequenas comunidades rurais que se deslocam e promovem o crescimento geral da população urbana perdem, na mudança, o contacto com o seu tecido social relacional e alguma liberdade. Eram conhecidos, tinham «um lugar» e participavam da rede das diversas solidariedades. Dentro da massificação citadina, tendem a mover-se no estreito círculo familiar e do local de trabalho, tornando-se gente anónima até para os moradores do seu mesmo prédio.
Naturalmente, a população que vive imersa em grandes cidades já conhece bem a situação pois a partilha. Os recém-chegados, porém, estabelecem o contraste. Sentem a atomização, cada pessoa reduzida à expressão de si própria, o individualismo e o egoísmo aplicados como regras de sobrevivência.
De facto, as grandes cidades modelo XXI tornaram-se espaços concentracionários, com influências poderosas e vastíssimas sobre as populações embora pouco visíveis ou evidenciadas. Além de extinguir as tarefas manuais quase todas, restringindo as atividades a premir teclas e botões sob pressão do relógio (que marca segundos ou minutos, não horas rurais), os habitantes apinhados numa grande cidade suportam um conjunto de variadas dependências. Deixaram de poder baixar a mão sobre os frutos do seu trabalho e agora precisam do automóvel, dos transportes públicos, do supermercado, de espetáculos e de tudo o mais que a urbe lhes proporciona e os habitantes não dispensam.
As dependências citadinas agravam-se porque, sem vizinhanças com teor relacional, os habitantes das grandes cidades ficam, em passividade, expostos à comunicação dos media. Fácil é então manipular uma população massificada, especialmente quando o discurso dos media segue o modelo vigente da domesticação. Da conjugação destas dependências resulta o que uma abordagem sociológica competente poderia enunciar.
Por ora, apontando meramente o tema, vem-me à memória um powerpoint que circulou na Net com uma expressiva metáfora: explicava como domesticar porcos selvagens, atraindo-os com comida para a cerca onde acabavam por ficar presos e com dono. Não somos porcos nem selvagens, mas somos domesticáveis. E, como a rã da fábula de Olivier Clerc, até nos deixamos adormecer, quietinhos, na panela que nos coze em fogo lento. [Na foto: escultura de Lorenz Quinn.]

2 comentários:

Vítor Soares disse...

Tema complexo, sempre actual e que aqui é revisitado.

Mudando um pouco a agulha e concentrando-me no nosso cantinho, doí-me ver um interior deserto. Percebo motivos económicos e históricos que levaram ao êxodo rural, porém deveriam ter existido políticas públicas de consolidação territorial. Agora já não há muito a travar...há sim que tentar impulsionar a reversão do fluxo a uma escala possível. Como fazê-lo? Bom, para além de não haver uma só resposta certa e completa, este também não será o espaço.

Foi bom regressar, mesmo que ainda sem saber se nova visita será dentro em breve.

Cumprimentos e continue amigo!

A. M. disse...

Olá, Vítor Soares! Saúdo-lhe o regresso, sem dúvida fortuito ou ocasional. É a vida, amigo.
E tem toda a razão, o tema dá pano para mangas, mas... não poderemos assentar nuns pontos de partida?
1 - As dependências aumentam conforme a população das cidades cresce.
2 - A ruína da nossa agricultura, com o dito êxodo das pequenas comunidades rurais (para as cidades, para emigração) foi condição aceite em troca da integração de Portugal na União Europeia.
3 - As contrapartidas, mal negociadas, serviram além disso para enriquecer uns poucos e empobrecer muitos... e passámos a importar para comer o que antes produzíamos (era esse o objectivo malandro, consabido!).
4 - Na actual conjuntura de crise, impõe-se a necessidade vital de promover com urgência uma agricultura «nacional», desalinhada de quaisquer orientações comunitárias. Problema: mas será isso possível?

Possível, ainda assim, é deixar-lhe aqui um abraço com votos de bons sucessos.