terça-feira, 10 de novembro de 2015

Ana Hatherly e Cértima


Ao receber em 1993 o espólio do escritor António de Cértima, isto é, ao manusear em sua casa os papéis e outros documentos integráveis na doação feita pela sua viúva, descobri um pequeno conjunto de folhas assinadas por Ana Hatherly e, nas estantes da sua biblioteca, os primeiros livros publicados pela então jovem escritora. Ali soube que Cértima era tio de Ana. Nasceu uns 35 anos antes da sobrinha, mas a diferença de idades não obstou a terem sido “muito afeiçoados”.
As relações de Ana (Porto, 8-05-1929 / Lisboa, 5-08-2015) com Cértima (Oliveira do Bairro, 27-07-1894 / Caramulo, 20-10-1983) são certamente posteriores a 1949, quando Cértima deixa o consulado de Sevilha e se fixa em Lisboa para se casar e retomar plenamente a criação literária. O parentesco trouxe-me logo à lembrança que o bairradino autor de Epopeia Maldita frequentou o círculo intelectual do Porto, onde tinha familiares. Nesta cidade terá composto o poema “Oração a Dionyso” publicado na primeira página do quinzenário de afirmação galega “Rexurdimento” (Betanzos, nº 2, de 16-08-1922). 
Todavia, em 1949 Ana estudava na Alemanha canto lírico, carreira que abandonou por motivos de saúde. Em Lisboa, nos anos ’50, decidiu optar pela literatura e então aproximou-se do tio, escritor bem conhecido no ambiente da época. Cértima conservou no conjunto dos papéis uma carta de Ana, talvez de Dezembro de 1953, cujo teor parece esboçar um primeiro gesto dessa aproximação em admirativa exaltação. 
Os papéis que o tio dela quis conservar são, em breve súmula, três cartas manuscritas; duas páginas em papel bíblia com texto dactilografado intitulado Le Danse de l’Oubli e autógrafo ao tio em 19-12-1956; um poema manuscrito, em jeito de improviso, datado de 11 de Julho de 1957 e a nota “Em casa de António de Cértima”; três poemas dactilografados; mais três poemas manuscritos (dois com datas: Janeiro de 1959 e 1964). 
Ana Hatherly frequentava a universidade e aparecia com os primeiros livros: uma antologia da “Moderna Poesia Portuguesa”, em 1960, que a autora baniu da lista dos seus livros decerto por causa da epígrafe de Salazar, e a narrativa O Mestre em 1963. Depois adviria um certo afastamento, também ideológico, do tio, a sua adesão à poesia concreta e experimental, o doutoramento em literaturas hispânicas, o cinema (que foi aprender a Londres), a consagração como “pintora da palavra”. Neste percurso, o traço que mais vincadamente marcou Ana foi a reserva com que manteve a sua vida pessoal. 
A relação que manteve com o tio terá sido tão discreta que, em geral, passou inadvertida, mas Cértima quis documentá-la nos papéis que guardou, assim como a existência de filha de Ana, Catherine, vítima mortal de acidente automóvel perto de Londres, em 1970. Conhecendo-os, convidei Ana Hatherly em 1994 a participar num ciclo de conferências que assinalou o centenário do nascimento do tio, mas ela recusou. Gorou-se a minha intenção de restituir os papéis à autora. 
A eles tornei aquando da morte de Ana Hatherly. Achei-os significativos. Que destino dar-lhes? 
Resolvi oferecê-los à Biblioteca Nacional de Lisboa, entidade que já havia recebido uma doação da própria Ana. Entretanto, julgo ser meu dever dar pública notícia deste conjunto de papéis, aqui e em artigo a sair na revista digital TriploV de Dezembro próximo. Podem interessar ao eventual investigador. [Foto de Ana Htherly na contracapa de «O Mestre», 1963.]

1 comentário:

Anónimo disse...

Um abraço, só para não pensares que deixei de ler-te!
Rui